1984
George Orwell
Título original:
"Nineteen Eighty - Four"
Era um dia frio e ensolarado de abril, e os relógios batiam treze horas.
Winston Smith, o queixo fincado no peito numa tentativa de fugir ao vento
impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro da Mansão Vitória; não
porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó
áspero.
O saguão cheirava a repolho cozido e a capacho de trapos. Na parede do
fundo fora pregado um cartaz colorido, grande demais para exibição interna.
Representava apenas uma cara enorme, de mais de um metro de largura: o rosto de
um homem de uns quarenta e cinco anos, com espesso bigode preto e traços
rústicos, mas atraentes. Winston encaminhou-se para a escada. Inútil
experimentar o elevador. Raramente funcionava, mesmo no tempo das vacas gordas,
e agora a eletricidade era desligada durante o dia. Fazia parte da campanha de
economia, preparatória da Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar
e Winston, que tinha trinta e nove anos e uma variz ulcerada acima do tornozelo
direito, subiu devagar, descansando várias vezes no caminho. Em cada patamar, diante
da porta do elevador, o cartaz da cara enorme o fitava da parede. Era uma
dessas figuras cujos olhos seguem a gente por toda parte. O GRANDE IRMÃO ZELA
POR TI, dizia a legenda.
Dentro do apartamento uma voz sonora lia uma lista de cifras relacionadas
com a produção de ferro gusa. A voz saía de uma placa metálica retangular
semelhante a um espelho fosco, embutido na parede direita. Winston torceu um
comutador e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras ainda fossem audíveis.
O aparelho (chamava-se teletela) podia ter o volume reduzido, mas era
impossível desligá-lo de vez. Winston foi até a janela: uma figura miúda,
frágil, a magreza do corpo apenas realçada pelo macacão azul que era o uniforme
do Partido. O cabelo era muito louro, a face naturalmente sanguínea, e a pele
arranhada pelo sabão ordinário, as giletes sem corte e o inverno que mal
terminara.
Lá fora, mesmo através da vidraça fechada, o mundo parecia frio. Na rua,
pequenos redemoinhos de vento levantavam em pequenas espirais poeira e papéis
rasgados, e embora o sol brilhasse e o céu fosse dum azul berrante, parecia não
haver cor em coisa alguma, salvo nos cartazes pregados em toda parte. O
bigodudo olhava de cada canto. Havia um cartaz na casa defronte, O GRANDE IRMÃO
ZELA POR TI, dizia o letreiro, e os olhos escuros procuravam os de Winston. Ao
nível da rua outro cartaz, rasgado num canto, estalava ao vento, ora cobrindo
ora descobrindo a palavra INGSOC. Na distância um helicóptero desceu beirando
os telhados, pairou uns momentos como uma varejeira e depois se afastou num vôo
em curva. Era a Patrulha da Polícia, espiando pelas janelas do povo. Mas as
patrulhas não tinham importância. Só importava a Polícia do Pensamento.
Por trás de Winston a voz da teletela ainda tagarelava a respeito do ferro
gusa e da superação do Nono Plano Trienal. A teletela recebia e transmitia
simultaneamente. Qualquer barulho que Winston fizesse, mais alto que um
cochicho, seria captado pelo aparelho; além do mais, enquanto permanecesse no
campo de visão da placa metálica, poderia ser visto também. Naturalmente, não
havia jeito de determinar se, num dado momento, o cidadão estava sendo vigiado
ou não. Impossível saber com que freqüência, ou que periodicidade, a Polícia do
Pensamento ligava para a casa deste ou daquele indivíduo. Era concebível,
mesmo, que observasse todo mundo ao mesmo tempo. A realidade é que podia ligar
determinada linha, no momento que desejasse. Tinha-se que viver - e vivia-se
por hábito transformado em instinto na suposição de que cada som era ouvido e
cada movimento examinado, salvo quando feito no escuro.
Winston continuou de costas para a teletela. Era mais seguro, conquanto
até as costas pudessem falar. A um quilômetro dali o Ministério da Verdade,
onde trabalhava, alteava-se, alvo e enorme, sobre a paisagem fuliginosa. Era
isto, pensou ele com uma vaga repugnância - isso era Londres, cidade principal
da Pista Nº 1, por sua vez a terceira entre as mais populosas províncias da
Oceania. Tentou encontrar na memória uma recordação infantil que lhe dissesse
se Londres sempre tivera aquele aspecto. Haviam existido sempre aquelas
apodrecidas casas do século dezenove, os flancos reforçados com espeques de
madeira, janelas com remendos de cartolina e os telhados com chapa de ferro
corrugado, e os muros doidos dos jardins, descaindo em todas as direções? E as
crateras de bombas onde o pó de reboco revoluteava no ar e o mato crescia ao
acaso sobre os montes de escombros; e os lugares onde as bombas haviam aberto
clareiras maiores e tinham nascido sórdidas colônias de choças de madeira que
mais pareciam galinheiros? Mas era inútil, não conseguia se lembrar: nada
sobrava de sua infância, exceto uma série de quadros fortemente iluminados, que
se sucediam sem pano de fundo e eram quase ininteligíveis.
O Ministério da Verdade - ou Miniver, em Novilíngua - era completamente
diferente de qualquer outro objeto visível. Era uma enorme pirâmide de
alvíssimo cimento branco, erguendo-se, terraço sobre terraço, trezentos metros
sobre o solo. De onde estava, Winston conseguia ler, em letras elegantes
colocadas na fachada, os três lemas do Partido:
GUERRA É PAZ. LIBERDADE É ESCRAVIDÃO. IGNORANCIA É FORÇA.
Constava que o Ministério da Verdade continha três mil aposentos sobre o
nível do solo, e correspondentes ramificações no sub-solo. Espalhados por
Londres havia outros três edifícios de aspecto e tamanho semelhantes. Dominavam
de tal maneira a arquitetura circunjacente que do telhado da Mansão Vitória era
possível avistar os quatro ao mesmo tempo. Eram as sedes dos quatro Ministérios
que entre si dividiam todas as funções do governo: o Ministério da Verdade, que
se ocupava das notícias, diversões, instrução e belas artes; o Ministério da
Paz, que se ocupava da guerra; o Ministério do Amor, que mantinha a lei e a
ordem; e o Ministério da Fartura, que acudia às atividades econômicas. Seus
nomes, em Novilíngua: Miniver, Minipaz, Miniamo e Minifarto.
O Ministério do Amor era realmente atemorizante. Não tinha janela alguma.
Winston nunca estivera lá, nem a menos de um quilômetro daquele edifício. Era
um prédio impossível de entrar, exceto em função oficial, e assim mesmo
atravessando um labirinto de rolos de arame farpado, portas de aço e ninhos de
metralhadoras. Até as ruas que conduziam às suas barreiras externas eram
percorridas por guardas de cara de gorila e fardas negras, armados de porretes
articulados.
Winston voltou-se abruptamente. Afivelara no rosto a expressão de
tranqüilo otimismo que era aconselhável usar quando de frente para a teletela.
Atravessou o cômodo e entrou na cozinha minúscula. Saindo do Ministério àquela
hora, sacrificara o almoço na cantina, e sabia que não havia na casa mais
alimento que uma fatia de pão escuro, que seria a sua refeição matinal, no dia
seguinte. Tirou da prateleira uma garrafa de líquido incolor com um rótulo
branco em que se lia GIN VITÓRIA. Tinha um cheiro enjoado, oleoso, como de
vinho de arroz chinês. Winston serviu-se de quase uma xícara de gim,
contraiu-se para o choque e engoliu-a de vez, como uma dose de remédio.
Instantaneamente, ficou com o rosto rubro, e os olhos começaram a
lacrimejar. A bebida parecia ácido nítrico, e ao bebê-la tinha-se a impressão
exata de ter levado na nuca uma pancada com um tubo de borracha. No momento
seguinte, porém, a queimação na barriga amainou e o mundo lhe pareceu mais
ameno. Tirou um cigarro da carteira de CIGARROS VITÓRIA e imprudentemente
segurou-o na vertical, com que todo o fumo caiu ao chão. Puxou outro cigarro,
com mais cuidado. Voltou à sala de estar e sentou-se a uma pequena mesa à
esquerda da teletela. Da gaveta da mesa tirou uma caneta, um tinteiro, e um
livro em branco, de lombo vermelho e capa de cartolina mármore.
Por um motivo qualquer, a teletela da sala fora colocada em posição fora
do comum. Em vez de ser colocada, como era normal, na parede do fundo, donde
poderia dominar todo o aposento, fora posta na parede mais longa, diante da
janela. A um dos seus lados ficava a pequena reentrância onde Winston estava
agora sentado, e que, na construção do edifício, fora provavelmente destinada a
uma estante de livros. Sentando-se nessa alcova, e mantendo-se junto à parede,
Winston conseguia ficar fora do alcance da teletela, pelo menos no que
respeitava à vista. Naturalmente, podia ser ouvido mas, contanto que
permanecesse naquela posição, não podia ser visto. Em parte, fora a
extraordinária topografia do cômodo que lhe sugerira o que agora se dispunha a
fazer, Mas fora também sugerido pelo caderno que acabara de tirar da gaveta.
Era um livro lindo. O papel macio, cor de creme, ligeiramente amarelado pelo
tempo, era de um tipo que não se fabricava havia pelo menos quarenta anos. Era
de ver, entretanto, que devia ser muito mais antigo. Vira-o na vitrina de um
triste bricabraque num bairro pobre da cidade (não se lembrava direito do
bairro) e fora acometido imediatamente do invencível desejo de possuí-lo. Os
membros do Partido não deviam entrar em lojas comuns ("transacionar no
mercado livre," dizia-se), mas o regulamento não era estritamente
obedecido, porque havia várias coisas, como cordões de sapatos e giletes,
impossíveis de conseguir de outra forma. Relanceara o olhar pela rua e depois
entrara, comprando o caderno por dois dólares e cinqüenta. Na ocasião, não
tinha consciência de querê-lo para nenhum propósito definido. Levara-o para
casa, às escondidas, na sua pasta. Mesmo sendo em branco, o papel era
propriedade comprometedora.
O que agora se dispunha a fazer era abrir um diário. Não era um ato ilegal
(nada mais era ilegal, pois não havia mais leis), porém, se descoberto, havia
razoável certeza de que seria punido por pena de morte, ou no mínimo vinte e
cinco anos num campo de trabalhos forçados. Winston meteu a pena na caneta e
chupou-a para tirar a graxa. A pena era um instrumento arcaico, raramente
usada, mesmo em assinaturas, e ele conseguira uma, furtivamente, com alguma
dificuldade, apenas por sentir que o belo papel creme merecia uma pena de
verdade em vez de ser riscado por um lápis-tinta. Na verdade, não estava
habituado a escrever a mão. Exceto recados curtíssimos, o normal era ditar tudo
ao falaescreve, o que naturalmente era impossível no caso. Molhou a pena na
tinta e hesitou por um segundo. Um tremor lhe agitara as tripas. Marcar o papel
era um ato decisivo. Com letra miúda e desajeitada escreveu:
4 de abril de 1984
Encostou-se ao espaldar. Descera sobre ele uma sensação de completo
desespero. Para começar, não sabia com a menor certeza se o ano era mesmo 1984.
Devia ser mais ou menos isso, pois estava convencido de que tinha trinta e nove
anos, e acreditava ter nascido em 1944 ou 45; hoje em dia, porém, não era nunca
possível fixar uma data num ou dois anos.
De repente ocorreu-lhe uma pergunta. Para quem estava escrevendo aquele
diário? Para o futuro, os que não haviam nascido. Sua mente pairou um momento
sobre a data duvidosa que escrevera e de repente se chocou contra a palavra
duplipensar em Novilíngua. Pela primeira vez percebeu de todo a magnitude do
que empreendera. Como poderia se comunicar com o futuro? Era impossível, pela
própria natureza. Ou o futuro seria parecido com o presente, caso em que não
lhe daria ouvidos, ou seria diferente, e nesse caso a sua situação não teria
sentido.
Por algum tempo ficou olhando o papel estupidamente. A teletela agora
tocava estridente música militar. O curioso era que ele parecia não só ter
perdido o poder de se exprimir como esquecido o que tinha em mente. Havia
semanas que se preparava para aquele momento, e nunca lhe passara pela cabeça a
idéia de precisar de mais que coragem. Escrever seria fácil. Tudo que tinha a
fazer era transferir para o papel o intérminável e inquieto monólogo que se
desenrolava na sua mente, fazia anos. Naquele momento, todavia, até o monólogo
secara. Além disso, a variz comichava danadamente. E não ousava coçá-la, pois
quando o fazia sempre inflamava. Os segundos passavam. De nada tinha
consciência exceto da brancura do papel à sua frente, a coceira acima do
tornozelo, o berreiro da música e uma leve bebedeira causada pelo gim.
De repente, pôs-se a escrever por puro pânico, mal percebendo o que estava
registrando. A letra miúda e infantil traçou linhas tortas pelo papel,
abandonando primeiro as maiúsculas e depois até os pontos:
4 de abril de 1984. Ontem à noite ao cinema. Tudo fitas de guerra. Uma
muito boa dum navio cheio de refugiados bombardeado no Mediterrâneo. Público muito
divertido com cenas de um homenzarrão gordo tentando fugir nadando dum
helicóptero. primeiro se via ele subindo descendo na água que nem golfinho,
depois pelas miras do helicóptero, e daí ficava cheio de buracos o mar perto
ficava rosa e de repente afundava como se os furos tivessem deixado entrar
água. público dando gargalhadas quando afundou. então viu-se um escaler cheio
de crianças com um helicóptero por cima. havia uma mulher de meia idade talvez
judia sentada na proa com um menininho duns três anos nos braços. garotinho
gritando de medo e escondendo a cabeça nos seios dela como querendo se refugiar
e mulher pondo os braços em torno dele e consolando apesar de também estar roxa
de medo. todo tempo cobrindo ele o mais possível como se os braços pudessem
protegê-lo das balas. então o helicóptero soltou uma bomba de 20 quilos em cima
deles clarão espantoso e o bote virou cisco. Daí uma ótima fotografia dum braço
de criança subindo, subindo, subindo um helicóptero com a câmara no nariz deve
ter acompanhado e houve muito aplauso no lugar do partido mas uma mulher da
parte dos proles de repente armou barulho e começou gritar que não deviam
exibir fita assim pras crianças não é direito na frente de crianças não e daí e
tal até que a,polícia a botou na rua não acho que aconteceu nada para ela
ninguém se importa com o que os proles dizem reação prole típica eles nunca...
Winston parou de escrever, em parte por sentir câimbras na mão. Não sabia
o que o levara a soltar aquela torrente de bobagem. O curioso, porém, é que, ao
fazê-lo, uma recordação inteiramente diferente se esclarecera em sua memória,
ao ponto de quase se sentir capaz de narrá-la. Percebia agora que fora por
causa do outro incidente que de súbito resolvera ir para casa e iniciar o seu
diário aquele dia.
Sucedera aquela manhã no Ministério, se é possível dizer, que sucede algo
tão nebuloso.
Eram quase onze horas e no Departamento de Registro, onde Winston
trabalhava, já arrastavam cadeiras dos cubículos e as arrumavam no centro do
salão, diante da grande teletela, preparando-se para os Dois Minutos de Ódio.
Winston ia ocupando seu lugar numa das filas do meio quando entraram
inesperadamente na sala duas pessoas que conhecia de vista, mas com quem nunca
falara. Uma delas era uma moça com quem se encontrara muitas vezes nos
corredores. Não sabia como se chamava, mas sabia que trabalhava no Departamento
de Ficção. Era de presumir - pois a vira levando uma chave inglesa nas mãos
sujas de graxa - que fosse mecânica de uma das máquinas de novelizar. Devia ter
uns vinte e sete anos, e era de aparência audaciosa, com cabelo negro e
espesso, rosto sardento e movimentos rápidos, atléticos. Uma estreita faixa
escarlate, emblema da Liga Juvenil Anti-Sexo, dava várias voltas à sua cintura,
o suficiente para realçar as curvas das ancas. Winston antipatizara com ela
desde o primeiro momento. E sabia porquê. Era por causa da atmosfera de campos
de hóquei, chuveiro frio, piqueniques e grande linha moral que conseguia
inspirar. Ele antipatizava com todas as mulheres, principalmente com as moças e
bonitas. Eram sempre as mulheres, e principalmente as moças, os militantes mais
fervorosos do Partido, os devoradores de palavras de ordem, os espiões amadores
e os espículas dos desvios. Esta jovem lhe dava a impressão de ser mais
perigosa que a maioria. Uma vez que se haviam cruzado no corredor, ela lhe
lançara um rápido olhar de esguelha que parecia tê-lo penetrado até o íntimo, e
o enchera de terror. Até lhe ocorrera a idéia de que talvez fosse da Polícia do
Pensamento. Na verdade, isso era pouco provável. Entretanto, continuava
sentindo um estranho mal-estar, em cuja composição havia medo e hostilidade, e
que sobrevinha sempre que ela sempre se aproximava.
A outra pessoa era um homem chamado O'Brien, membro do Partido Interno e
ocupante de um posto tão remoto e de tamanha importância que Winston dele só
tinha uma vaga idéia. Um silêncio momentâneo calou o grupo reunido em torno das
cadeiras quando viu o macacão negro do Partido Interno. O'Brien era um homem
grande, troncudo, de pescoço taurino e rosto grosseiro, engraçado, brutal.
Apesar da sua aparência temível tinha maneiras até distintas. Seu tique de
re-arranjar os óculos no nariz, um gesto curioso, desarmava e - de certo modo
indefinível - parecia civilizado. Era um gesto que, se alguém ainda pensasse em
velharias tais, poderia recordar um fidalgo do século dezoito oferecendo a
caixa de rapé. Winston vira O'Brien talvez meia dúzia de vezes em outros tantos
anos. Sentia-se fundamente atraído por ele, e não apenas por se sentir
intrigado pelo contraste entre a urbanidade de O'Brien e o seu físico de
pugilista. Era muito mais por causa de uma crença secreta ou talvez não
chegasse a crença, fosse mera esperança de que não era perfeita a ortodoxia
política de O'Brien. Havia em sua fisionomia algo que dava essa impressão. Ou
ainda, talvez não fosse ortodoxia o que estava escrito em seu rosto, mas apenas
inteligência. De qualquer forma, tinha o aspecto de ser pessoa com que se podia
conversar, se fosse possível fraudar a teletela e falar-lhe a sós. Winston
jamais fizera o menor esforço de verificar sua posição; na verdade, não havia
maneira de o fazer. Naquele momento O'Brien olhou o relógio-de-pulso, viu que
eram quase onze horas e evidentemente resolveu ficar no Departamento de Registro
até acabarem os Dois Minutos de Ódio. sentou-se numa cadeira da mesma fila que
Winston, a dois passos dele. Entre os dois encontrava-se uma mulherzinha de
cabelo cor de areia, que trabalhava no cubículo contíguo. A moça do cabelo
escuro ocupou uma cadeira logo atrás.
Mais um instante, e um guincho horrendo, áspero, como de uma máquina
monstruosa funcionando sem óleo, saiu da grande teletela. Era um barulho de
fazer ranger os dentes e arrepiar os cabelos da nuca. O ódio começara.
Como de hábito, a face de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, surgira
na tela. Aqui e ali houve assovios entre o público. A mulherzinha de cabelo cor
de areia emitiu um uivo misto de medo e repugnância. Goldstein era o renegado e
traidor que um dia, muitos anos atrás (exatamente quantos ninguém se lembrava)
fora uma das figuras de proa do Partido, quase no mesmo plano que o próprio
Grande Irmão, tendo depois se dedicado a atividades contrarevolucionárias,
sendo por isso condenado à morte, da qual escapara, desaparecendo misteriosamente.
O programa dos Dois Minutos de Ódio variava de dia a dia, sem que porém
Goldstein deixasse de ser o personagem central cotidiano. Era o traidor
original, o primeiro a conspurcar a pureza do Partido. Todos os subseqüentes
crimes contra o Partido, todas as traições, atos de sabotagem, heresias,
desvios, provinham diretamente dos seus ensinamentos. Em alguma parte do mundo,
ele continuava vivo e tramando suas conspirações: talvez no além-mar, sob
proteção dos seus patrões estrangeiros; talvez até mesmo - de vez em quando
corria o boato - em algum esconderijo na própria Oceania.
Winston sentiu contrair-se o diafragma. Nunca podia ver a face de
Goldstein sem uma dolorosa mistura de emoções. Era um rosto judaico, magro, com
um grande halo de cabelo branco esgrouviado e um pequeno cavanhaque - um rosto
arguto e no entanto, de certo modo, intrinsecamente desprezível, com um ar de
tolice senil no nariz comprido e fino no qual se equilibravam os óculos.
Parecia a cara duma ovelha, e a voz também recordava um balido. Goldstein
lançava o costumeiro ataque peçonhento às doutrinas do Partido - um ataque tão
exagerado e perverso que uma criança poderia refutá-lo, e no entanto
suficientemente plausível para encher o cidadão de alarme, de receio que outras
pessoas menos equilibradas o pudessem aceitar. Insultava o Grande Irmão,
denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata conclusão da paz com a
Eurásia, advogava a liberdade de palavra, a liberdade de imprensa, a liberdade
de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histericamente que a revolução
fora traída - e tudo numa linguagem rápida, polissilábica, que era uma espécie
de paródia do estilo habitual dos oradores do Partido, e até continha palavras
em Novilíngua: maior número dessas palavras, com efeito, do que qualquer membro
do Partido usaria na vida diária. E todo o tempo, para que não persistissem
dúvidas quanto à realidade oculta pela lengalenga especiosa de Goldstein,
marchavam por trás de sua cabeça, na teletela, infindas colunas do exército
eurasiano - fileiras após fileiras de homens sólidos com rostos asiáticos, sem
expressão, que vinham até a superfície da placa e sumiam, para ser seguidos por
outros exatamente idênticos. O ritmo cavo e monótono das botas dos soldados
formava uma cortina sonora para os balidos de Goldstein.
Antes do ódio se haver desenrolado por trinta segundos, metade dos
presentes soltava incontroláveis exclamações de fúria. Era demais, suportar a
vista daquela cara de ovelha satisfeita e do poderio terrífico do exército
eurasiano, mostrado na tela: além disso, ver ou mesmo pensar em Goldstein
produzia automaticamente medo e raiva. Era objeto de ódio mais constante que a
Eurásia ou a Lestásia pois quando a Oceania estava em guerra com uma dessas
potências, em geral estava em paz com a outra. O estranho, todavia, é que
embora Goldstein fosse odiado e desprezado por todo mundo, embora todos os
dias, e milhares de vezes por dia, nas tribunas, teletelas, jornais, livros,
suas teorias fossem refutadas, esmagadas, ridicularizadas, apresentadas aos
olhos de todos como lixo à toa... e apesar de tudo isso, sua influência nunca
parecia diminuir. Havia sempre novos bocós esperando para ser seduzidos. Não se
passava dia sem que espiões e sabotadores, obedientes a ordens dele, não fossem
desmascarados pela Polícia do Pensamento. Era comandante de um vasto exército
de sombras, uma rede subterrânea de conspiradores dedicados à derrocada do
Estado. Supunha-se que se chamava a Fraternidade. Murmurava-se também a
respeito de um livro terrível, um compêndio de todas as heresias, escrito por
Goldstein, e que circulava clandestinamente aqui e ali. Era um livro sem
título. Referiam-se a ele, simplesmente, por o livro. Mas só se sabia dessas
coisas através de vagos boatos. Nem a Fraternidade nem o livro eram assuntos
que um militante comum do Partido mencionasse.
No segundo minuto o ódio chegou ao frenesi. Os presentes pulavam nas
cadeiras, e berravam a plenos pulmões, esforçando-se para abafar a voz
alucinante que saía da tela. A mulherzinha do cabelo de areia ficara toda rosa,
e abria e fechava a boca como peixe jogado à terra. Até o rosto másculo de
O'Brien estava corado. Estava sentado muito teso na sua cadeira, o peito largo
se alteando e agitando como se resistisse ao embate duma vaga. A morena atrás de
Winston pusera-se a berrar "Porco! Porco! Porco!" De repente, apanhou
um pesado dicionário de Novilíngua e atirou-o à tela. O livro atingiu o nariz
de Goldstein e ricochetou; a voz continuou, inexorável. Num momento de lucidez,
Winston percebeu que ele também estava gritando com os outros e batendo os
calcanhares violentamente contra a travessa da cadeira. O horrível dos Dois
Minutos de Ódio era que embora ninguém fosse obrigado a participar, era
impossível deixar de se reunir aos outros. Em trinta segundos deixava de ser
preciso fingir. Parecia percorrer todo o grupo, como uma corrente elétrica, um
horrível êxtase de medo e vingança, um desejo de matar, de torturar, de amassar
rostos com um malho, transformando o indivíduo, contra a sua vontade, num lunático
a uivar e fazer caretas. E no entanto, a fúria que se sentia era uma emoção
abstrata, não dirigida, que podia passar de um alvo a outro como a chama dum
maçarico. Assim, havia momentos em que o ódio de Winston não se dirigia contra
Goldstein mas, ao invés, contra o Grande Irmão, o Partido e a Polícia do
Pensamento; e nesses momentos o seu coração se aproximava do solitário e
ridicularizado herege da tela, o único guardião da verdade e da sanidade num
mundo de mentiras. No entanto, no instante seguinte se irmanava com os
circunstantes, e tudo quanto se dizia de Goldstein lhe parecia verdadeiro.
Nesses momentos, o seu ódio secreto pelo Grande Irmão se transformava em
adoração, e o Grande Irmão parecia crescer, protetor destemido e invencível,
firme como uma rocha contra as hordas da Ásia, e Goldstein, apesar do seu
isolamento, sua fraqueza e da dúvida que cercava a sua própria existência, lhe
parecia um hipnotizador sinistro, capaz de destruir a estrutura da civilização
pelo mero poder da voz.
Nesses momentos era até possível dirigir o ódio neste ou naquele rumo, por
ato voluntário. De repente, por uma espécie desse esforço violento com que, num
pesadelo, se arranca a cabeça do travesseiro, Winston conseguiu transferir para
a moça de cabelo escuro, sentada atrás dele, o ódio que antes dedicava à figura
da tela. Belas e vívidas alucinações lhe atravessaram o cérebro. Haveria de
matá-la a golpes de um cajado de borracha. Amarrá-la-ia nua a um poste e a
crivaria de flechas como São Sebastião. Possui-la-ia e a degolaria no momento
do gozo. Além disso, percebeu mais claro que antes porque a odiava. Odiava-a
porque era jovem, bonita e assexuada, porque desejava ir para a cama com ela, e
porque nunca o faria, porque na cinturinha fina e convidativa, que parecia pedir
que a segurassem com o braço, só havia a odiosa faixa escarlate, o agressivo
símbolo de castidade.
O ódio chegou ao clímax. A voz de Goldstein transformara-se de fato num
balido de ovelha, e por um instante o rosto se transformou numa cara de
carneiro. Depois a cara de carneiro se fundiu na de um soldado eurasiano que
parecia avançar, enorme e terrível, com a metralhadora de mão rugindo,
parecendo saltar da superfície da tela, de modo tão real que alguns da primeira
fileira se inclinaram para trás. No mesmo momento, porém, arrancando um fundo
suspiro de alívio de todos, a figura hostil fundiu-se na fisionomia do Grande
Irmão, de cabelos e bigodes negros, cheio de força e de misteriosa calma, e tão
vasta que tomava quase toda a tela. Ninguém ouviu o que o Grande Irmão disse.
Eram apenas palavras de incitamento, o tipo das palavras que se pronunciam no
vivo do combate, palavras que não se distinguem individualmente mas que
restauram a confiança pelo fato de serem ditas. Então o rosto do Grande Irmão
sumiu de novo e no seu lugar apareceram as três divisas do Partido, em
maiúsculas, em negrito:
GUERRA É PAZ LIBERDADE É ESCRAVIDÃO IGNORÂNCIA É FORÇA
Mas o rosto do Grande Irmão pareceu persistir por vários segundos na tela,
como se o seu impacto nas pupilas fosse forte demais para se esmaecer tão
rápido. A mulherzinha do cabelo cor de areia atirara-se sobre o espaldar da
cadeira que tinha à frente. Com um murmúrio trêmulo que parecia dizer "Meu
Salvador", estendeu os braços para a tela. Depois ocultou a face nas mãos.
Era claro que orava.
Nesse momento, todo o grupo se pôs a entoar um canto ritmado
"G.I.!... G.I.!... G.I.!" repetido inúmeras vezes, com uma longa
pausa entre o G e o I - um som cavo e surdo, curiosamente selvagem, no fundo do
qual se parecia ouvir batidas de pés nus e o rufo dos atabaques. Durou meio
minuto talvez. Era um estribilho que se ouvia com freqüência nos momentos de
emoção dominadora. Era em parte um hino à sapiência e majestade do Grande Irmão
porém, mais que isso, era auto-hipnotismo, o afogar deliberado da consciência
por meio do barulho rítmico. As entranhas de Winston pareceram esfriar. Durante
os Dois Minutos de ódio, não era possível deixar de participar do delírio
geral, mas aquele cântico sub-humano "G.I.! G.I.!" sempre o enchia de pavor.
Naturalmente, cantava com os outros: seria impossível proceder de outra forma.
Dominar os sentimentos, controlar as feições, fazer o que todo mundo fazia, era
uma reação instintiva. Havia porém um lapso de dois segundos em que a expressão
de seus olhos poderia traí-lo. E foi exatamente nesse lapso que a coisa
sucedera - se é que de fato sucedera.
Momentaneamente, seu olhar encontrara o de O'Brien, que se erguera. Tirara
os óculos e ia colocá-los no lugar, com um gesto característico. Mas houve uma
fração de segundo em que os olhares se encontraram e, enquanto durou, Winston
viu - sim, viu! - que O'Brien estava pensando o mesmo que ele. Completara-se
uma inequívoca comunicação. Fora como se os dois espíritos se abrissem e os
pensamentos de um passassem ao outro, pelos olhos. "Estou contigo,"
pareceu dizer-lhe O'Brien. "Sei exatamente o que sentes. Sei tudo de teu
desprezo, teu ódio, teu nojo. Mas não te aflijas, estou a teu lado!" E daí
sumira-se a faísca de inteligência e a face de O'Brien se tornara inescrutável
como a de todos.
Fora tudo, e ele já nem tinha a certeza de que de fato acontecera. Tais
incidentes jamais tinham seqüela. Tudo que faziam era manter viva, dentro dele,
a fé, ou a esperança, de que houvesse outros inimigos do Partido. Afinal de contas,
talvez fossem verdadeiros os boatos de vastas conspirações subterrâneas - quem
sabe existisse mesmo a Fraternidade! Era impossível, não obstante as infindas
prisões, confissões e execuções, ter a certeza de que a Fraternidade não
passava de invencionice. Alguns dias ele acreditava, outros não. Não havia
provas, apenas visões fugidias que podiam significar algo ou nada: trechos de
conversa entreouvida, rabiscos apagados nas paredes das privadas - e uma vez,
até, no encontro de dois desconhecidos, um pequeno movimento de mãos que talvez
fosse um sinal identificador. Era tudo palpite: provavelmente imaginara a
coisa. Voltou ao cubículo sem tornar a olhar para O'Brien. Mal lhe passara pela
cabeça a idéia de aprofundar o contato momentâneo. Seria inconcebivelmente
perigoso, mesmo que soubesse como agir. Durante um segundo, dois, haviam
trocado um olhar equívoco, e era o fim da história. Mas até aquilo era um
acontecimento memorável, na solidão amuralhada em que se era obrigado a viver.
Winston levantou-se e acomodou-se melhor na cadeira. Soltou um arroto. Era
o gim que lhe subia do estômago.
Seus olhos tornaram a focar a página. Descobriu que estivera escrevendo,
num gesto automático, ao mesmo tempo que a memória divagava. E não era mais a
letra desajeitada e miúda de antes. A pena correra voluptuosamente sobre o
papel macio, escrevendo em grandes letras de imprensa:
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
muitíssimas vezes, enchendo meia página.
Não pôde deixar de sentir um laivo de pânico. Era absurdo, pois escrever
aquelas palavras não era mais perigoso que o ato inicial de abrir o diário,
mas, por um momento se sentiu tentado a rasgar as páginas usadas e abandonar
por completo a empresa.
Não o fez, contudo, porque sabia ser inútil. Quer escrevesse ABAIXO O
GRANDE IRMÃO ou não, não fazia diferença. Quer continuasse o diário, quer
parasse, não fazia diferença. A Polícia do Pensamento o apanharia do mesmo
modo. Cometera - e teria cometido, nem que não levasse a pena ao papel - o
crime essencial, que em si continha todos os outros. Crimidéia, chamava-se. O
crimidéia não era coisa que pudesse ocultar. Podia-se escapar com êxito algum
tempo, anos até, porém mais cedo ou mais tarde pegavam o criminoso.
E era sempre à noite - as prisões eram sempre à noite.
O súbito arranco ao sono, a mão rude sacudindo o ombro, as luzes ferindo
os olhos, o círculo de caras implacáveis em torno da cama. Na vasta maioria dos
casos não havia julgamento, nem notícia da prisão. As pessoas simplesmente
desapareciam, sempre durante a noite. O nome do cidadão era removido dos
registros, suprimida toda menção dele, negada sua existência anterior, e depois
esquecido. Era-se abolido, aniquilado; vaporizado era o termo corriqueiro.
Winston foi dominado por breve ataque de histeria. Pôs-se a escrever em
garranchos apressados:
me darão um tiro que me importa me darão um tiro na nuca não me importa
abaixo o grande irmão eles sempre dão tiro na nuca que me importa abaixo o
grande irmão
Ergueu-se um pouco na cadeira, ligeiramente envergonhado de si próprio, e
largou a caneta. Dali a um segundo levou um susto enorme. Batiam à porta.
Já?! Deixou-se ficar, quieto como um camundongo, na esperança vã de que a
pessoa se fosse sem insistir. Mas não, a batida repetiu-se. Seria pior
atrasar-se. Com o coração batendo como um tambor - mas com a face provavelmente
sem expressão, graças ao velho hábito - ele se levantou e encaminhou-se para a
porta a passos tardos.
Quando pôs a mão no trinco viu que deixara o diário aberto na mesa. ABAIXO
O GRANDE IRMÃO lia-se em toda a página, em letras quase visíveis da porta, de
tão grandes. Cometera um erro incrivelmente estúpido. Percebeu, entretanto, que
mesmo no seu pânico não quisera sujar o belo papel creme fechando o caderno
sobre a tinta fresca.
Respirou fundo e abriu a porta. Instantaneamente, uma vaga de alívio o
dominou. Uma mulher incolor, insignificante, de cabelo ralo e pele
encarquilhada, surgiu no vão.
Oh, camarada - disse, num gemido soturno - ouvi tua chegada. Achas que
podes vir dar uma olhada na minha pia da cozinha? Entupiu...
Era a sra. Parsons, esposa de um vizinho do mesmo andar. ("Sra. era
termo um tanto antipatizado pelo Partido - o correto era chamar todo mundo de
"camarada" - mas com certas mulheres era usado instintivamente.)
Teria uns trinta anos, mas parecia muito mais velha. Dava a impressão de ter
poeira nas rugas. Winston seguiu-a pelo corredor. Esses consertos amadores eram
uma chatice quase diária. A Mansão Vitória era um prédio antigo, construído por
volta de 1930, e estava caindo aos pedaços. O reboco vivia caindo das placas
das paredes e do forro, os canos arrebentavam com qualquer geada, havia
goteiras sempre que nevava um pouco, o sistema de aquecimento em geral funcionava
a meio-vapor quando não o fechavam de vez, para economizar combustível. Os
concertos, exceto os que os próprios inquilinos pudessem executar, dependiam da
sanção de remotos comitês, capazes de adiar dois anos a substituição duma
vidraça quebrada.
- É só porque o Tom não está - explicou a sra. Parsons vagamente.
O apartamento dos Parsons era maior que o de Winston, e lúgubre de outra
maneira. Tudo tinha um aspecto pisado, amassado, como se a casa acabasse de ser
visitada por um animal violento. Acessórios esportivos - tacos de hóquei, luvas
de boxe, uma bola furada, um par de shorts suados virados pelo avesso - jaziam
no soalho, e sobre a mesa havia uma pilha de pratos sujos e de cadernos de
exercício, sebentos e orelhudos. Nas paredes viam-se bandeiras escarlates da
Liga da Juventude e dos Espiões, e um cartaz tamanho natural do Grande Irmão.
Pairava no ar o costumeiro cheiro de repolho cozido, comum a todo o edifício,
mas ali misturado com a catinga mais pronunciada de suor - percebia-se isto à primeira
cheirada, embora fosse difícil explicar como - de suor de uma pessoa ausente.
Noutra sala alguém, com um pente e um pedaço de papel higiênico, estava
tentando acompanhar a música militar que ainda saía da teletela.
- São as crianças - disse a sra. Parsons, lançando uma olhada apreensiva
para a porta. - Não saíram hoje. E naturalmente...
Tinha o hábito de interromper as frases no meio. A pia da cozinha estava
cheia até quase em cima duma água esverdeada, imunda, que fedia a repolho, mais
que nunca. Winston ajoelhou-se e examinou o sifão. Tinha raiva de usar as mãos,
e detestava abaixar-se, o que em geral lhe provocava tosse. A sra. Parsons
ficou olhando, sem préstimo.
- Naturalmente, se Tom estivesse em casa, consertaria num momento - disse
ela. - Ele gosta desses serviços. É tão jeitoso, Tom.
Parsons era colega de Winston no Ministério da Verdade. Era um homem
gorducho mas ativo, de estupidez paralisante, uma massa de entusiasmo imbecil -
um desses servos dedicados e absolutamente fiéis dos quais dependia a
estabilidade do Partido, mais do que da Polícia do Pensamento. Aos trinta e
cinco fora a contragosto desligado da Liga da Juventude e antes de entrar para
ela conseguira ficar nos Espiões um ano além da idade limite. No Ministério,
trabalhava num serviço subordinado, para o que não precisava de inteligência,
mas por outro lado era figura de proa no Comitê Esportivo e em todos os outros
comitês empenhados na organização de piqueniques e passeatas comunais,
demonstrações espontâneas, campanhas de economia e atividades voluntárias em
geral. Informava ao interlocutor, com tranqüilo orgulho, soltando baforadas do
cachimbo, que comparecera ao Centro Comunal todas as noites, nos últimos quatro
anos. Um tremendo cheiro de suor, uma espécie de testemunho inconsciente da
dureza de sua vida, seguia-o por toda parte, e permanecia no ambiente mesmo
depois dele sair.
- Tens uma chave inglesa? - indagou Winston, apalpando a porca do sifão.
- Chave? - exclamou a sra. Parson, tornando-se invertebrada outra vez. -
Não sei não. Quem sabe as crianças...
Houve um estrondo de botinas e outro guincho no pente, recordando a
presença das crianças na sala de estar. A sra. Parsons trouxe a chave inglesa.
Winston soltou a água e com nojo retirou 'o bolo de cabelo humano que entupira
o cano. Lavou os dedos da melhor maneira possível na água fria da pia e voltou
para a sala.
- Mãos ao ar! - urrou uma voz selvagem. Um menino bonito, de uns nove anos
e cara de brigão, surgira por trás da mesa e o ameaçava com uma pistola
automática de brinquedo, imitado por sua irmãzinha, de sete, e que empunhava um
pedaço de madeira. Ambos vestiam calções azuis, camisas cinzentas e o lenço
vermelho que compunham o uniforme dos Espiões. Winston levantou as mãos sobre a
cabeça, mas com mal-estar, tão viciosa era a atitude do garoto, que não lhe
parecia pilhéria. - És um traidor! - berrou o menino. - És um ideocriminoso! És
um espião eurasiano. Eu te mato, te vaporizo, te mando para as minas de sal!
De repente, puseram-se os dois a saltar em torno dele, berrando
"traidor!" e "ideocriminoso!", a menininha imitando todos
os movimentos do irmão. Era um tanto arrepiante, como um brinquedo de filhotes
de tigre, que breve serão devoradores de homens. Havia nos olhos do menino uma
espécie de ferocidade calculadora, um desejo bastante evidente de esmurrar ou
dar um pontapé em Winston, e a consciência de ter quase o tamanho necessário
para a agressão. Ainda bem que não brandia uma pistola de verdade, pensou
Winston.
Os olhos da vizinha saltaram nervosamente de Winston às crianças, e
vice-versa. Sob a luz mais forte da sala de estar ele notou com interesse que
de fato havia pó nas rugas do seu rosto.
- Ficam tão barulhentos, - disse ela. - Estão desapontados porque não
puderam assistir ao enforcamento, é isso.
Não tenho tempo para levá-los, e Tom não voltará do serviço a tempo.
- Por que não podemos ir ver o enforcamento? - indagou o menino, num
vozeirão.
- Quero ver o forcamento! Quero ver o forcamento! - cantarolou a garota,
saltitando pelo cômodo.
Deviam ser enforcados aquela noite, no Parque, uns prisioneiros
eurasianos, criminosos de guerra. Isso acontecia uma vez por mês e era um
grande espetáculo popular. As crianças sempre exigiam que as levassem. Winston
despediu-se da sra. Parsons e encaminhou-se para a porta. Mas ainda não dera
seis passos pelo corredor quando um projétil o acertou na nuca, numa pancada
muito dolorosa. Foi como se um arame em brasa o tivesse atingido. Girou nos
calcanhares a tempo de ver a sra. Parsons arrastando o filho para a sala de
estar, enquanto o menino metia no bolso um estilingue.
- Goldstein! - estertorou o menino quando a porta se fechou. O que mais
impressionou Winston, contudo, foi o olhar de terror inerme da mulherzinha de
cara cinza.
De volta ao apartamento, passou rápido diante da teletela e tornou a
sentar-se à mesa, ainda esfregando o pescoço. Cessara a música. Substituíra-a
uma voz militar, que em tom stacccato lia, com gozo brutal, uma descrição dos
armamentos da nova Fortaleza Flutuante que acabava de ser ancorada entre a Islândia
e as Ilhas Faroe.
Com aquelas horrendas crianças, pensou, essa pobre mulher deve levar uma
vida de terror. Dali a um ano, ou dois, começarão a observá-la dia e noite, à
cata de sintomas de heterodoxia. Quase todas as crianças eram horríveis. O pior
de tudo é que, com auxílio de organizações tais como os Espiões, eram
sistematicamente transformadas em pequenos selvagens incontroláveis, e no
entanto nelas não se produzia qualquer tendência de se rebelar contra a
disciplina do Partido. Ao contrário, adoravam o Partido, e tudo quanto tinha
ligação com ele. As canções, as procissões, as bandeiras, as caminhadas. a
ordem unida com fusis de madeira, berrar palavras de ordem, adorar o Grande
Irmão - era para elas uma espécie de jogo formidável. Toda sua ferocidade era
posta para fora, dirigida contra os inimigos do Estado, contra os forasteiros,
traidores, sabotadores, ideocriminosos. Era quase normal que as pessoas de mais
de trinta tivessem medo aos próprios filhos. E com fartos motivos, pois rara
era a semana em que o Times não publicasse um tópico contando Como um pequeno
salafrário - "herói infantil" era a expressão usada - ouvira alguma
observação comprometedora e denunciara os pais à Polícia do Pensamento.
A picada do estilingue não doía mais. Winston segurou a caneta,
desanimado, indagando de seus botões se encontraria mais o que registrar no
diário. De repente, começou a pensar outra vez em O'Brien.
Anos atrás - quantos anos? Devia ser uns sete - sonhara estar caminhando
num quarto escuro como breu. E alguém, sentado ao seu lado, dissera ao senti-lo
passar: "Tornaremos a nos encontrar onde não há treva." Fora dito
baixinho, sem ênfase - uma declaração, não uma ordem. E ele continuara, sem
parar. O curioso é que, na ocasião, no sonho, as palavras não o haviam
impressionado maiormente. Somente mais tarde, e aos poucos, é que tinham ganho
em significação. Não podia lembrar agora se fora antes ou depois do sonho que
vira O'Brien pela primeira vez; nem se lembrava de quando identificara aquela
voz como a de O'Brien. Fosse como fosse, existia a identificação. O'Brien lhe
falara na escuridão.
Winston nunca conseguira ter certeza - mesmo depois do cintilar de olhares
daquela manhã ainda era impossível ter certeza - da amizade ou inimizade de
O'Brien. Nem lhe parecera ter muita importância. Entre eles havia um laço de
compreensão mais importante do que o afeto ou a ideologia. "Tornaremos a
nos encontrar onde não há trevas", dissera ele. Winston não sabia o que
significava, apenas acreditava que, de um modo ou outro, seria realidade.
A voz da teletela fez uma pausa. Um toque de clarim, belo e límpido,
flutuou no ar estagnado. A voz continuou, áspera:
- Atenção! Atenção, por favor! Acaba de chegar uma notícia da frente de
Malabar. Nossas forças do Sul da índia lograram uma gloriosa vitória. Estou
autorizado a dizer que essa batalha poderá aproximar a guerra do seu fim. Eis a
notícia...
Más notícias, pensou Winston. E com efeito, depois de uma sanguinolenta
descrição do aniquilamento de um exército eurasiano, com formidáveis cifras de
mortos e prisioneiros, divulgou-se a notícia de que, a partir da semana
próxima, a ração de chocolate seria reduzida de trinta a vinte gramas.
Winston tornou a arrotar. O gim estava-se gastando, deixando uma sensação
de vazio. A teletela - talvez para celebrar a vitória, talvez para afogar a
lembrança do chocolate perdido - atacou "Oceania, nossa terra." Era
dever de todos ouvirem o hino de pé. Todavia, na posição em que estava, não
podiam vê-lo.
A "Oceania, nossa terra," seguiu-se música mais leve, Winston
foi até a janela, sempre de costas para a tela. O dia continuava claro e
despejado. Nalgum lugar distante uma bomba-foguete explodiu com um estrondo
surdo, ecoante. Atualmente, caíam em Londres, vinte ou trinta bombas por
semana.
Lá embaixo, na rua, o vento ainda fustigava o cartaz rasgado, e a palavra
INGSOC ora aparecia ora desaparecia. Ingsoc. Os princípios sagrados do Ingsoc.
Novilíngua, duplipensar, a mutabilidade do passado. Sentiu-se como quem vagueia
nas florestas do fundo do mar, perdido num mundo monstruoso onde ele próprio
era o monstro. Estava só. O passado morto, o futuro inimaginável. Que certeza
haveria de estar ao seu lado uma única criatura humana viva? E de que maneira
saber que o domínio do Partido não duraria para sempre? Como resposta, os três
lemas da fachada branca do Ministério da Verdade lhe voltaram à mente:
GUERRA É PAZ LIBERDADE É ESCRAVIDÃO IGNORÂNCIA É FORÇA
Tirou do bolso uma moeda de vinte e cinco centavos. Ali também, em letras
minúsculas porém nítidas, liam-se as mesmas frases; do outro lado a cabeça do
Grande Irmão. Até do dinheiro aqueles olhos o perseguiam. Moedas, selos, capas
de livros, faixas, cartazes, maços de cigarro - em toda parte. Sempre os olhos
fitando o indivíduo, a voz a envolvê-lo. Adormecido ou desperto, trabalhando ou
comendo, dentro e fora de casa, no banheiro ou na cama - não havia fuga. Nada
pertencia ao indivíduo, com exceção de alguns centímetros cúbicos dentro do
crânio.
O sol deslocara-se no céu e, na sombra, as miríades de janelas do Ministério
da Verdade pareciam as sinistras seteiras de uma fortaleza. O coração de
Winston tremeu ante a pirâmide enorme. Era forte demais - não podia ser tomada
de assalto. Mil bombas-foguetes não a deitariam por terra.
Tornou a indagar de si próprio: para quem estaria escrevendo o diário?
Para o futuro, para o passado - para uma época que talvez fosse imaginária - E
diante dele abria-se não a morte, mas o aniquilamento. O diário seria reduzido
a cinzas e ele a vapor. Somente a Polícia do Pensamento leria o seu escrito,
antes de suprimi-lo e eliminá-lo da lembrança. Como poderia apelar para o
futuro sendo impossível a sobrevivência física de um vestígio do indivíduo, e
até mesmo de uma palavra anônima rabiscada num pedaço de papel?
A teletela assinalou catorze horas. Precisava sair dali a dez minutos.
Tinha de estar de volta ao serviço às catorze e trinta. Curiosamente, o soar
das horas pareceu dar-lhe novo ânimo. Ele não passava dum fantasma solitário
exprimindo uma verdade que ninguém jamais ouviria. Mas enquanto a exprimisse, a
continuidade não seria interrompida. Não é fazendo ouvir a nossa voz mas
permanecendo são de mente que preservamos a herança humana. Ele voltou à mesa,
molhou a pena e escreveu: Ao futuro ou ao passado, a uma época em que o pensamento
seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros e que não vivam
sós - a uma época em que a verdade existir e o que foi feito não puder ser
desfeito:
Cumprimentos da era de uniformidade, da era da solidão, da era do Grande
Irmão, da era do duplipensar!
Ele já estava morto, refletiu. Pareceu-lhe que só agora, depois de começar
a formular suas idéias, dera o passo decisivo. As conseqüências de cada ato são
incluídas no próprio ato. Escreveu:
Crimidéia não acarreta a morte: crimidéia É a morte.
Agora que se reconhecia como defunto, tornava-se importante ficar vivo o
mais tempo possível. Tinha manchados de tinta dois dedos da mão direita. Era
exatamente o tipo do pormenor que podia traí-lo. Algum enxerido do Ministério
(mulher, provavelmente; alguém como aquelazinha de cabelo cor de areia ou a
morena do Departamento de Ficção) poderia querer saber por que andara
escrevendo na hora do almoço, por que usara uma pena antiga, o que escrevera -
e então soltar um palpite no local competente. Winston foi ao banheiro e
cuidadosamente lavou a tinta, com o sabão áspero, arenoso e escuro, que
arranhava como lixa e que portanto era ótimo para o que tinha em vista.
Guardou o diário na gaveta. Era absolutamente inútil pensar em escondê-lo,
mas poderia ao menos certificar-se de que sua existência fora ou não
descoberta. Um cabelo deposto na margem da página daria na vista. Com a ponta
do dedo recolheu um grão identificável de pó esbranquiçado e depositou-o no
canto da capa, donde certamente cairia se o livro fosse mexido.
Winston sonhava com sua mãe.
Devia ter uns dez ou onze anos quando sua mãe desaparecera. E era alta,
estatuesca, meio calada, de movimentos vagarosos e magnífico cabelo claro. Do
pai lembrava-se mais vagamente. Era moreno e magro, vestia sempre roupas
escuras, bem postas (Winston lembrava-se vivamente das solas finas dos sapatos
do pai), e usava óculos. Os dois deviam, evidentemente, ter sido tragados num
dos grandes expurgos de 1950-60.
Naquele momento porém sua mãe estava sentada à frente dele, num lugar
fundo, com a filhinha nos braços. Ele não se lembrava da irmã senão como um
nenezinho fraco, sempre calado, de olhos grandes e vigilantes. Ambas o fitavam.
Encontravam-se nalgum subterrâneo - no fundo de um poço, ou numa tumba muito profunda
- mas era um lugar que, apesar de já ser muito mais baixo, submergia ainda e
cada vez mais. Estavam no salão de um navio que naufragava, e olhavam para ele
através da água que escurecia. Ainda havia ar no salão; elas podiam vê-lo e ele
a elas, mas todo tempo as duas continuavam afundando, baixando nas águas verdes
que dentro de alguns momentos as ocultariam para sempre. Ele se encontrava no
claro, e com ar, enquanto elas eram absorvidas pela morte, e estavam no fundo
por causa dele estar ali. Ele sabia disso, elas sabiam, e era visível que
sabiam. Mas não havia censura nem na fisionomia nem no coração das duas, apenas
a certeza de que deviam morrer para que ele continuasse vivo, e que aquilo era
parte da ordem inevitável das coisas.
Não podia lembrar-se do quê sucedera, mas sabia no sonho que, dum modo ou
de outro, a vida de sua mãe e de sua irmã tinham sido sacrificadas pela dele.
Era um desses sonhos que, embora retenham o cenário onírico característico, são
a continuação da vida intelectual do indivíduo, e no qual toma conhecimento de
fatos e idéias que mesmo depois de acordar ainda parecem novos e valiosos. A
coisa que agora impressionava Winston de repente era que a morte de sua mãe,
quase trinta anos atrás, fora trágica e tristonha, de um modo que não seria
mais possível. Ele percebia que a tragédia pertencia ao tempo antigo, a uma
época em que havia ainda vida privada, amor e amizade, e em que os membros duma
família amparavam uns aos outros sem indagar razões. A lembrança de sua mãe
machucava-lhe o coração porque ela morrera amando-o, numa época em que ele era
criança e egoísta demais para corresponder-lhe e porque, de certo modo, que ele
não recordava, ela se sacrificara a uma concepção de lealdade particular e
inalterável. Ele via que tais coisas não mais podiam acontecer. Hoje o que
havia era medo, ódio, dor, porém nenhuma dignidade de emoção, nenhuma mágoa
profunda ou complexa. Tudo isto ele pareceu ver nos grandes olhos de sua mãe e
sua irmã, olhando-o através da água verde em que afundavam, centenas de metros
abaixo de onde ele estava.
De repente encontrou-se num relvado fofo e curto, numa noite quente, em
que os raios oblíquos do sol ainda douravam o chão. A paisagem que contemplava
aparecia tanto em seus sonhos que nunca podia ter certeza de a ter visto ou não
no mundo real. Desperto, chamava-a de Terra Dourada. Era um velho pasto
estragado pelos coelhos, com uma picada que serpeava de um lado a outro, e
pontilhado de cupins. Na sebe maltratada, do outro lado do campo, os ramos dos
olmeiros balançavam de leve na brisa, e suas folhas palpitavam em densas
massas, como cabelo de mulher. Por ali perto, embora invisível, havia um regato
límpido e lento, em que nadavam as tainhas, nos espraiados à sombra dos
chorões.
A moça do cabelo escuro vinha ao encontro dele, atravessando o campo. Com
o que pareceu a Winston um único movimento, ela arrancou as roupas e atirou-as
desdenhosamente para o lado. Tinha o corpo alvo e macio, mas não lhe despertou
desejo; na verdade, mal o olhou. O que o possuía naquele instante era admiração
pelo gesto com que atirara as roupas de lado. Com sua graça e displicência
parecia aniquilar uma cultura inteira, todo um sistema de pensamento, como se o
Grande Irmão, o Partido e a Polícia do Pensamento pudessem ser lançados ao nada
por um gesto simples e esplêndido. Aquele também era um gesto que pertencia aos
tempos antigos. E Winston despertou com a palavra "Shakespeare" nos
lábios.
A teletela estava soltando Um apito ensurdecedor, que continuou no mesmo
tom durante uns trinta segundos. Eram sete e quinze, hora de se levantarem os
empregados de escritórios. Winston arrancou o corpo da cama - nu, porque um
membro do Partido Externo só recebia três mil cupões do racionamento de roupas
por ano, e as duas peças de um pijama exigiam seiscentos - e apanhou uma
camiseta suja e um par de cuecas que colocara numa cadeira próxima. A Educação
Física começaria dentro de três minutos. No momento seguinte foi presa de
violento acesso de tosse, que quase sempre o atacava pouco depois de levantar.
Esvaziava-lhe os pulmões de tal forma que só podia recomeçar a respirar
deitando-se de costas e aspirando fundo uma porção de vezes. As veias tinham
inchado com o esforço da tosse, e a variz ulcerada começou a coçar.
- Grupo de trinta a quarenta! - bradou uma aguda voz feminina. - Grupo de
trinta a quarenta! Tomai vossos lugares, por favor. De trinta a quarenta!
Winston ficou em posição de sentido diante do aparelho, onde já aparecera
a imagem de uma moça magricela porém musculosa, metida em uniforme e sapatos de
ginástica.
- Dobrar e esticar os braços! - ordenou. - Acompanhai o meu ritmo. Um,
dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro! Vamos, camaradas, um pouco de vida
nisso! Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro!...
A dor do acesso de tosse não afugentara inteiramente do espírito de
Winston a impressão produzida pelo sonho, e de certo modo os movimentos
rítmicos do exercício a reavivaram. Enquanto atirava mecanicamente os braços
para frente e para trás, afivelando no rosto o ar de carrancudo prazer que se
considerava recomendável durante a Educação Física, lutava para recordar-se do
período obscuro da infância. Era extraordinariamente difícil. Do acontecido
antes de 1960, tudo desbotara. Não havia anais a que fazer referência, e
portanto até o fio da vida pessoal perdia nitidez. Lembrava-se de momentâneos
acontecimentos que com toda probabilidade não tinham acontecido, recordava-se
dos pormenores de incidentes sem conseguir recapturar-lhes a atmosfera, e havia
longos períodos em branco, aos quais nada podia atribuir. Tudo então fora
diferente. Tinham sido diferentes até os nomes de países, e suas formas no
mapa. A Pista N.º 1 não tinha esse nome naquela época: chamava-se Inglaterra,
ou Grã-Bretanha, embora Londres - disso tinha certeza quase absoluta - sempre
tivesse sido Londres.
Winston não podia lembrar definitivamente uma época em que o país não
estivesse em guerra, mas era evidente um intervalo de paz bastante longo
durante a sua infância, porque uma das suas mais longínquas recordações era de
um bombardeio aéreo que parecera a todos surpreender. Fora talvez quando a
bomba atômica caíra em Colchester. Não se lembrava do bombardeio em si, mas
lembrava-se do pai a segurar-lhe a mão com força, enquanto corriam para um
lugar nas profundezas da terra, dando voltas e voltas numa escada espiral que
fazia ruído sob seus pés e que por fim lhe cansou tanto as pernas que ele
começou a choramingar e pararam para descansar. Sua mãe, com modos lentos e
sonhadores, seguia-os a grande distância. Levava nos braços a menina - ou
talvez fossem apenas cobertores: Winston não tinha certeza da garota já ser
nascida. Por fim tinham ido dar num lugar atulhado e barulhento, que verificou
ser uma estação do trem subterrâneo.
Havia gente sentada no chão de lajedo, e outros, muito apertadinhos,
sentavam-se em catres metálicos, arrumados como beliches. Winston, mãe e pai,
encontraram um lugar, perto dum velho e duma velha sentados num catre. O velho
vestia um terno escuro, de boa qualidade e boné de pano preto na cabeça toda branca.
Tinha o rosto escarlate, e os olhos azuis cheios de lágrimas. Fedia a gim.
Parecia porejá-lo pela pele, em vez de suor, e podia-se imaginar fossem puro
álcool as lágrimas que lhe cresciam nos olhos. Entretanto, apesar de
ligeiramente bêbedo, sofria uma dor genuína e insuportável. Com sua percepção
infantil, Winston viu que algo terrível, que não tinha perdão nem remédio,
acabara de suceder. Pareceu-lhe também saber do que se tratava. Morrera no
bombardeio alguém que o velho amava; uma netinha talvez. A curtos intervalos, o
velho repetia:
- Não deviamo tê confiança neles. Eu te disse, Mãe, não disse? Foi nisso
que deu tê confiança neles. Foi o que eu sempre disse. Não deviamo tê confiança
nos sacana.
Mas quais sacanas não mereciam confiança, Winston já não se lembrava.
Desde mais ou menos aquela época, a guerra fora literalmente contínua,
embora, a rigor, não fosse sempre a mesma guerra. Durante vários meses, durante
sua meninice, houvera confusas lutas de rua na própria Londres, e de algumas
ele se recordava vivamente. Mas seguir a história de todo o período, dizer quem
lutava, contra quem, em determinado momento, seria absolutamente impossível, já
que nenhum registro escrito, nem palavra oral, jamais faziam menção de outro
alinhamento de forças, diferente do atual. Naquele momento, por exemplo, em
1984 (se é que era 1984), a Oceania estava em guerra com a Eurásia e era aliada
da Lestásia. Em nenhuma manifestação pública ou particular se admitia jamais
que as três potências se tivessem agrupado diferentemente. Na verdade, como
Winston se recordava muito bem, fazia apenas quatro anos a Oceania estivera em
guerra com a Lestásia e em aliança com a Eurásia. Isso, porém, não passava de
um naco de conhecimento furtivo, que ele possuía porque a sua memória não era
satisfatoriamente controlada. Oficialmente, a mudança de aliados jamais tivera
lugar. A Oceania estava em guerra com a Eurásia: portanto, a Oceania sempre
estivera em guerra com a Eurásia. O inimigo do momento representava sempre o
mal absoluto, daí decorrendo a impossibilidade de qualquer acordo passado ou
futuro com ele.
O espantoso, refletiu pela décima milésima vez, ao forçar os ombros
dolorosamente para trás (mãos nas cadeiras, fazia girar o corpo pela cintura,
exercício que se acreditava fazer bem aos músculos dorsais) - o espantoso é que
pode mesmo ser verdade. Se o Partido tem o poder de agarrar o passado e dizer
que este ou aquele acontecimento nunca se verificou - não é mais aterrorizante
do que a simples tortura e a morte?
O Partido dizia que a Oceania jamais fora aliada da Eurásia. Ele, Winston
Smith, sabia que a Oceania fora aliada da Eurásia não havia senão quatro anos.
Onde, porém, existia esse conhecimento? Apenas em sua consciência, o que em
todo caso devia ser logo aniquilada. E se todos os outros aceitassem a mentira
imposta pelo Partido - se todos os anais dissessem a mesma coisa - então a
mentira se transformava em história, em verdade. "Quem controla o
passado," dizia o lema do Partido, "controla o futuro: quem controla
o presente controla o passado." E no entanto o passado, conquanto de
natureza alterável, nunca fora alterado. O que agora era verdade era verdade do
sempre ao sempre. Era bem simples. Bastava apenas uma série infinda de vitórias
sobre a memória. "Controle da realidade," chamava-se. Ou, em
Novilíngua, "duplipensar."
- Descansar! - latiu a instrutora, um pouco mais benévola.
Winston deixou cair os braços e lentamente tornou a encher os pulmões de
ar. Seu espírito mergulhou no mundo labiríntico do duplipensar. Saber e não saber,
ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente
arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as
contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a
lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da
democracia e que o Partido era o guardião da democracia; esquecer tudo quanto
fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e
depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao
processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a
inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava
de realizar. Até para compreender a palavra "duplipensar" era necessário
usar o duplipensar.
Nesse momento a instrutora chamou-os de nova à ginástica.
- Vamos ver quem de nós é capaz de tocar a ponta dos pés! - disse, com
entusiasmo - Sem dobrar os joelhos, camaradas, só a cintura. Um-dois! Um-dois!
Winston odiava esse exercício, que lhe produzia dores nas pernas, desde os
tornozelos até as nádegas e não raro lhe provocava acessos de tosse. O ar
semi-agradável sumiu de suas meditações. O passado, refletiu, não apenas fora
alterado, fora efetivamente destruído. Por que, como estabelecer até mesmo o
fato mais patente, se não havia dele registro, além do da memória? Tentou
recordar-se do ano em que ouvira pela primeira vez falar do Grande Irmão. Achou
que deveria ter sido na década de 1960 a 70, mas era impossível ter certeza.
Nas histórias do Partido, o Grande Irmão naturalmente figurava como chefe e
guardião da Revolução, desde o princípio. Suas elucubrações tinham aos poucos
recuado no tempo até atingir o mundo fabuloso de 1930 a 50, época em que os
capitalistas, com estranhos chapéus cilíndricos, ainda rodavam pelas ruas de
Londres em grandes e brilhantes automóveis ou carruagens com janelas de vidro.
Não era possível saber até onde essa lenda era verdade e até onde era invenção.
Winston não podia lembrar-se nem da data em que o Partido viera à luz. Não
acreditava ter ouvido a palavra Ingsoc antes de 1960, mas era provável que na
sua forma antiga, em Antilíngua - "Socialismo inglês" - fosse
corrente antes daquele ano. Tudo se fundia na névoa. As vezes, porém, podia
colocar o dedo numa mentira definida. Não era verdade, por exemplo, como
afirmavam os livros de história do Partido, que o Partido tivesse inventado o
aeroplano. Lembrava-se de aviões desde a mais tenra idade. Mas não podia provar
nada. Nunca havia prova. Apenas uma vez, em toda sua vida, tinha tido em mãos
prova documental inconfundível da falsificação de um fato histórico. E naquela
ocasião...
- Smith! - gritou da teletela a voz da megera. - Smith W! Tu, tu mesmo!
Inclina-te mais, por favor. Podes fazer mais que isso. Não, não estás te
esforçando. Mais baixo! Assim está melhor, camarada. Agora, todo mundo,
descansar! Olhai para mim.
Um calor quente e súbito dominou todo o corpo de Winston. O rosto
continuou inescrutável. Jamais revelar desânimo! Jamais revelar ressentimento!
Um simples olhar podia denunciá-lo. Ficou olhando a instrutora levantar os
braços acima da cabeça e - não se podia dizer com graça mas com notável decisão
e eficiência - inclinar-se e meter a falangeta sob os artelhos.
- Pronto, camaradas! É isto que vos quero ver fazer. Olhai de novo. Estou
com trinta e nove anos e tive quatro filhos. Olhai. - Inclinou-se de novo -
Vêem, que não dobro os joelhos! Todos podeis fazer, se quiserdes, -
acrescentou, enquanto se levantava. - Com menos de quarenta e cinco, qualquer um
pode tocar a ponta dos pés. Não temos todos o privilégio de lutar nas linhas da
frente, mas pelo menos podemos conservar a linha e a saúde. Lembrai-vos dos
rapazes da frente de Malabar! E dos marinheiros das Fortalezas Flutuantes!
Pensai no que eles têm de suportar. Vamos tentar de novo. Agora está melhor,
camarada, muito melhor! - ajuntou, animando-o, quando Winston, num tranco
violento, conseguiu tocar os pés sem dobrar os joelhos, pela primeira vez em
vários anos.
Com o suspiro profundo e inconsciente que nem mesmo a proximidade da
teletela podia impedir, ao iniciar o dia de trabalho, Winston puxou para perto
o falascreve, soprou a poeira do bocal e colocou os óculos. Depois desenrolou e
grampeou quatro pequenos rolos de papel que haviam caído do tubo pneumático à
direita da mesa.
Nas paredes do cubículo havia três orifícios. À direita do falascreve, um
pequeno tubo pneumático para mensagens escritas; à esquerda, outro maior, para
jornais; e no meio, bem ao alcance do braço de Winston, uma grande abertura
retangular protegida por uma grade de arame. Destinava-se ao desembaraço de
papéis servidos. Aberturas idênticas existiam aos milhares, ou às dezenas de
milhares em todo o edifício, não apenas nas salas, como a pequenos intervalos,
nos corredores. Por um motivo qualquer, haviam sido apelidados de buracos da
memória. Quando se sabia que algum documento devia ser destruído, ou mesmo
quando se via um pedaço de papel usado largado no chão, era gesto instintivo,
automático, levantar a tampa do mais próximo buraco da memória e jogar o papel
dentro dele para que fosse sugado pela corrente de ar morno, até as caldeiras
enormes, ocultas nalguma parte, nas entranhas do prédio.
Winston examinou as quatro tiras de papéis que havia desenrolado. Cada uma
continha um recado de apenas uma ou duas linhas, na gíria abreviada - não se
tratava só de Novilíngua, porém continha principalmente palavras nesse idioma -
utilizada no Ministério para comunicações internas. Diziam:
times 17.3.84 gi disc malrepro africa retifica
times 19.12.83 previsão 3 ac 4.º trimestre 83 errata verifica número hoje
times 14.2.84 minifarto malnotícia chocolate retifica
times 3.12.83 notícia ordemdia gi dupliplusimbom refs impessoas reescreve
compl subsuper prearquivo.
Com um ligeiro sentimento de satisfação, Winston colocou de lado o quarto
bilhete. Era um trabalho complexo e de responsabilidade, que seria melhor
deixar por último. Os outros três eram simples questão de rotina, conquanto o
segundo talvez exigisse uma tediosa pesquisa de cifras.
Winston discou "números atrasados" na teletela e pediu os
exemplares correspondentes do Times, que escorregaram da boca do tubo
pneumático depois de uns minutos de espera. As mensagens recebidas referiam-se
a artigos ou notícias que, por um motivo ou outro, deviam ser alterados ou,
como se dizia oficialmente, retificados. Por exemplo, o Times de dezessete de
março publicara que o Grande Irmão, discursando na véspera, predissera que a
frente meridional indiana continuaria serena mas que seria lançada em breve uma
ofensiva eurasiana no Norte da África. Entretanto, o Alto Comando Eurasiano
desfechara sua ofensiva no sul da Índia, deixando a África em paz. Tornava-se
portanto necessário reescrever um parágrafo do discurso do Grande Irmão, de
maneira a fazer com que predissesse exatamente o que sucedera. Ou ainda, o
Times de dezenove de dezembro publicara as previsões oficiais da produção de
vários artigos de consumo no quarto trimestre de 1983, correspondente ao sexto
trimestre do Novo Plano Trienal. O jornal de hoje continha uma notícia sobre a
produção real, pela qual se verificava que as profecias estavam redondamente
erradas.
O serviço de Winston era retificar as cifras originais, fazendo com que
concordassem com as posteriores. Quanto ao terceiro bilhete referia-se a
simplíssimo erro, que poderia ser consertado num minuto. Recentemente, em
fevereiro, o Ministério da Fartura dera a público uma promessa ("penhor
categórico" eram as palavras oficiais) de que não haveria corte da ração
de chocolate em 1984. Na verdade, como o sabia Winston, a ração de chocolate
deveria ser reduzida de trinta a vinte gramas no fim da semana. Bastava
portanto substituir a promessa original por uma advertência de que
provavelmente seria necessário reduzir a ração por volta de abril.
Assim que Winston providenciou as correções ordenadas, prendeu com um
grampo as correções falascritas aos exemplares correspondentes do Times e
meteu-os no tubo pneumático. Daí, com um movimento tão inconsciente quanto
possível, amassou o recado original e as notas que havia feito, e atirou-as no
buraco da memória, para pasto das chamas.
O que sucedia no labirinto invisível a que levavam os tubos pneumáticos,
ele não sabia em detalhe, mas apenas em termos gerais. Assim que fossem
reunidas e classificadas todas as correções consideradas necessárias a um dado
número do Times, aquela edição era reimpressa, destruído o número original, e o
exemplar correto colocado no arquivo, em seu lugar. Esse processo de alteração
contínua aplicava-se não apenas a jornais, como também a livros, publicações
periódicas, panfletos, cartazes, folhetos, filmes, bandas de som, caricaturas,
fotografias - a toda espécie de literatura ou documentação que pudesse ter o
menor significado político ou ideológico. Dia a dia e quase minuto a minuto o
passado era atualizado. Desta forma, era possível demonstrar, com prova
documental, a correção de todas as profecias do Partido; jamais continuava no
arquivo uma notícia, artigo ou opinião que entrasse em conflito com as
necessidades do momento. Toda a história era um palimpsesto, raspado e
reescrito tantas vezes quantas fosse necessário. Em nenhum caso seria possível,
uma vez feita a operação, provar qualquer fraude. A maior seção do Departamento
de Registro, muito maior do que a de Winston, consistia simplesmente de gente
que tinha por obrigação procurar e separar todos os exemplares de livros,
jornais e outros documentos superados e por isso destinados à eliminação.
Continuava no arquivo, com a data original, uma porção de Times que talvez, por
causa de modificações do alinhamento político, ou profecias erradas do Grande
Irmão, haviam sido alterados uma dúzia de vezes, e não havia outros exemplares
que pudessem contradizê-lo. Os livros também eram recolhidos e reescritos uma
porção de vezes, e invariavelmente entregues aos leitores sem admissão alguma
da troca. Nem mesmo as instruções escritas que Winston recebia, e das quais
invariavelmente se desfazia assim que as cumpria, ordenavam ou insinuavam
qualquer ato de falsificação: a referência era sempre a erros, enganos,
equívocos, mal-interpretações que precisavam ser corrigidos, no interesse da
exatidão.
Na verdade, porém (ele filosofou, enquanto reajustava as cifras do
ministério da Fartura), não chegava a falsificação. Era apenas a substituição
de uma sandice por outra. A maior parte do material tratado não tinha relação
alguma com coisas reais, nem mesmo o tipo da ligação que se contém numa mentira
declarada. As estatísticas eram tão fantásticas na versão original como na
retificada. Com efeito, era função do pessoal inventar estatísticas, tirando-as
da própria cachola. Por exemplo, o cálculo do Ministério da Fartura, prevendo a
produção trimestral de botinas num total de cento e quarenta e cinco milhões de
pares. A produção real, dizia-se, fora de sessenta e dois milhões. Todavia
Winston, ao reescrever a previsão, reduzira a cifra a apenas cinqüenta e sete
milhões, de modo a poder protestar, como de hábito, que a cota fora superada.
Em qualquer caso, os sessenta e dois milhões estavam tão perto da verdade
quanto cinqüenta e sete, ou cento e quarenta e cinco. Com toda probabilidade,
não haviam fabricado botina alguma. Ou, mais certo ainda, ninguém tinha a menor
idéia de quantos calçados tinham sido produzidos; nem ninguém se importava.
Tudo o que se sabia é que, cada trimestre, quantidades astronômicas de botinas
eram produzidas no papel, ao passo que talvez metade da população da Oceania
andava descalça. E assim era com todos os fatos registrados, pequenos ou
grandes. Tudo se fundia e confundia num mundo de sombras no qual, por fim, até
a data do ano se tornara incerta.
Winston olhou para o outro lado do corredor. Num cubículo correspondente
ao seu, um homenzinho de queixo escuro e cara de precisionista, trabalhava com
afinco, um jornal dobrado sobre os joelhos e a boca bem junto ao tubo do
falascreve. Chamava-se Tillotson, e parecia querer manter o que dizia em
segredo entre ele e a teletela. Levantou os olhos e seus óculos relampaguearam
uma centelha hostil na direção de Winston.
Winston mal conhecia Tillotson, e não tinha idéia de qual seria o seu
serviço. Os funcionários do Registro hesitavam em falar das suas atividades. No
longo corredor sem janelas, com sua dupla fila de cubículos e o interminável
roçar de papéis e jornais, e a zoeira das vozes murmurando dentro dos
falascreve, havia cerca de uma dúzia de pessoas que Winston não conhecia nem de
nome, embora as visse andar apressadas pelo pavimento ou gesticular frenéticas
nos Dois Minutos de Ódio. Sabia que no cubículo ao lado a mulherzinha do cabelo
cor de areia labutava dia após dia, não fazendo outra coisa senão procurar e
suprimir da imprensa os nomes de pessoas vaporizadas, e portanto consideradas
inexistentes. Era justo que tivesse esse emprego, pois seu marido fora
vaporizado havia alguns anos. A alguns cubículos adiante, uma criatura terna,
ineficiente, sonhadora, um homem chamado Ampleforth, de orelhas muito peludas e
surpreendente talento para manejar rimas e metros, empenhava-se na produção de
versões modificadas - textos definitivos, chamavam-se - de poemas que se haviam
tornado ideologicamente ofensivos mas que, por um motivo ou outro, tinham de
ser conservados nas antologias. E aquele corredor, com cerca de cinqüenta
funcionários, era apenas uma subseção, uma simples célula, podia-se dizer, da
enorme complexidade do Departamento de Registro. Para cima, para baixo, para os
lados, havia outros enxames de servidores executando uma inimaginável multidão
de tarefas. Havia as enormes oficinas gráficas, com os seus sub-redatores, seus
peritos em tipografia, e seus estúdios, equipadíssimos para a falsificação de
fotografias. Havia a seção de teleprogramas com os seus técnicos, seus
produtores, e as equipes de atores escolhidos especialmente pelo talento na
imitação de vozes. Havia batalhões de investigadores de referências, cujo
trabalho era apenas organizar listas de livros e periódicos a recolher. Havia
os vastos depósitos, onde os documentos corrigidos eram guardados, e os fornos
ocultos onde os originais eram destruídos. E funcionando anonimamente não se
sabia como, nem onde, ficava o cérebro orientador, que coordenava todo o
trabalho e fixava diretrizes, mandando conservar este ou aquele fragmento do
passado, falsificar outro, e eliminar completamente aquele outro.
E o Departamento de Registro, afinal de contas, não passava de uma pequena
parte do Ministério da Verdade, cuja missão básica era não reconstruir o
passado mas fornecer aos cidadãos da Oceania jornais, filmes, livros escolares,
programas de teletela, peças, romances - com todas as informações concebíveis,
instruções ou entretenimento, desde uma estátua até uma palavra de ordem, desde
um poema lírico até um tratado de biologia, desde um bê-á-bá até um dicionário
de Novilíngua. E o Ministério tinha que satisfazer não apenas as complexas
necessidades do Partido, como repetir a mesma operação, em nível inferior, para
o proletariado. Havia toda uma série de departamentos autônomos que tratavam de
literatura, música, teatro e divertimentos proletários em geral. Neles eram
produzidos jornalecos ordinários que continham pouca coisa mais que notícias de
esporte, polícia e astrologia, sensacionais noveletas de cinco centavos, filmes
transbordando de sexo, e cançonetas sentimentais compostas inteiramente por
meios mecânicos numa espécie de caleidoscópio especial denominado versificador.
Havia até uma sub-seção inteira - a Pornosec, como a chamavam em Novilíngua -
dedicada à produção da pornografia mais reles, embalada em envelopes fechados,
e que nenhum membro do Partido, além dos que nela trabalhavam, tinha licença de
ver.
Enquanto Winston trabalhava, três bilhetes haviam caído do tubo
pneumático; mas eram coisas simples, e ele os liquidou antes dos Dois Minutos
de Ódio o interromperem. Depois de terminado o ódio, voltou ao cubículo,
apanhou o dicionário de Novilíngua da prateleira, empurrou o falascreve para o
lado, limpou os óculos, e dedicou-se à tarefa principal da manhã.
O trabalho era o maior prazer na vida de Winston. Em geral, não passava
duma rotina aborrecida, mas incluía às vezes trabalhos tão difíceis e
intrincados que neles se podia perder como nas profundidades de um problema
matemático - falsificações delicadas, sem coisa alguma para servir de
orientação, além do conhecimento dos princípios do Ingsoc e um cálculo do que o
Partido desejava fosse dito. Winston destacava-se nesse tipo de trabalho. Em
certas ocasiões lhe haviam confiado até a retificação de artigos de fundo do
Times, escritos inteiramente em Novilíngua. Desenrolou o bilhete que pusera de
lado antes. Dizia:
times 3.12.83 noticia ordemdia gi dupliplusimbom refs impessoas reescreve
compl subsuper prearquivo.
Em Anticlíngua (ou inglês comum) se poderia traduzir: A notícia da Ordem
do Dia do Grande Irmão no Times de 3 de dezembro de 1983 é extremamente
insatisfatória e faz referência a pessoas não existentes. Reescreve por
completo e submete a minuta à autoridade superior antes de arquivar.
Winston leu o artigo ofensivo. Ao que parece, a Ordem do Dia do Grande
Irmão ocupara-se principalmente de elogiar a obra de uma organização conhecida
por CCFF, que fornecia cigarros e outras miudezas aos marinheiros das
Fortalezas Flutuantes. Um certo Camarada Withers, eminente membro do Partido
Interno, merecera menção especial e até uma condecoração, a Ordem do Mérito
Evidente, Segunda Classe.
Três meses depois a CCFF fora dissolvida de repente, sem que se
explicassem as razões. Podia-se imaginar que Withers e seus auxiliares tivessem
caído em desgraça, porém nada transpirara nem na imprensa nem na teletela. Era
de esperar-se, aliás, pois era incomum que os contraventores políticos fossem
julgados ou mesmo denunciados em público. Os grandes expurgos, envolvendo
milhares de pessoas, com julgamentos públicos de traidores e ideocriminosos que
confessavam abjetamente os seus crimes, sendo depois executados, eram
espetáculos especiais, que não ocorriam senão de dois em dois anos. O mais
comum era as pessoas caídas na antipatia do Partido sumirem simplesmente, e
nunca mais se ouvir falar delas. Nunca se tinha a mínima idéia do que lhes
sucedera. Em alguns casos, era até possível que não tivessem morrido. Sem
contar seus pais, Winston conhecia pessoalmente umas trinta pessoas que haviam
desaparecido.
Winston arranhou o nariz, de leve, com um grampo de papel. No cubículo do
outro lado o Camarada Tillotson ainda se inclinava furtivo sobre o falascreve.
Levantou a cabeça por um momento: de novo o lampejo hostil dos óculos. Winston
indagou de si próprio se acaso o Camarada Tillotson estava fazendo o mesmo que
ele. Era perfeitamente possível. Trabalho tão delicado não devia nunca ser
confiado a uma só pessoa; por outro lado, entregá-lo a um comitê seria admitir
abertamente a falsificação. O mais provável era que umas doze pessoas
estivessem trabalhando em versões rivais do que na verdade dissera o Grande Irmão.
Mais tarde, algum cérebro privilegiado do Partido Interno escolheria esta ou
aquela versão, retocá-la-ia nalguns pontos e daria início aos complicados
processos de referência cruzada necessários, e daí a mentira selecionada
passaria aos anais permanentes, tornando-se verdade.
Winston não sabia porque Withers se desgraçara. Talvez por incompetência
ou corrupção. Talvez o Grande Irmão apenas desejasse se livrar de um
subordinado demasiado popular. Ou quem sabe Withers, ou alguém ligado a ele
tivesse sido suspeito de tendências heréticas. Ou talvez - era o mais provável
- a coisa tivesse sucedido apenas porque os expurgos e as vaporizações eram
parte necessária da mecânica do governo. A única revelação positiva estava nas
palavras "refs impessoas", que indicavam que Withers já morrera. Não
se devia imaginar isso, automaticamente, quando as pessoas eram detidas. As
vezes eram postas em liberdade e assim continuavam um ano ou dois, antes de
executadas. Muito raramente, pessoas que se acreditavam mortas havia muito
tempo, reapareciam como fantasmas num julgamento público, implicavam centenas
de outras com seu testemunho e tornavam a desaparecer, então para sempre.
Withers, todavia, já era uma impessoa. Não existia; nunca existira. Winston
resolveu que não bastaria inverter a tendência do discurso do Grande Irmão,
Seria melhor focalizar um assunto completamente desligado do tema original.
Poderia transformar a oração na denúncia costumeira dos traidores e
ideocriminosos, porém isso daria um pouco na vista, enquanto que inventar uma
vitória na frente, ou algum triunfo de superprodução no Nono Plano Trienal,
poderia complicar demais os registros. Era preciso uma peça de pura fantasia.
De repente, brotou-lhe na mente, sob medida, a imagem de um tal Camarada Ogilvy,
recém-falecido em combate, em circunstâncias heróicas. Ocasiões havia em que o
Grande Irmão dedicava a sua Ordem do Dia ao tributo de um humilde membro do
Partido, um soldado raso, cuja vida e morte podiam ser apontadas como exemplos
dignos de ser seguidos. Hoje, ele homenagearia o Camarada Ogilvy. Bem verdade,
não existira essa pessoa, porém umas linhas de tipo e um par de fotos
falsificadas logo lhe dariam vida.
Winston pensou um momento, puxou o falascreve para perto e começou a ditar
no estilo familiar do Grande Irmão: estilo ao mesmo tempo militar e pedante, e
muito fácil de imitar, por causa da abundância de perguntas retóricas, que ele
fazia e ele próprio respondia ("Que lições devemos tirar deste fato,
camaradas? A lição - que é também um dos princípios fundamentais do Ingsoc - de
que, etc., etc.).
Aos três anos de idade o Camarada Ogilvy recusava todos os brinquedos,
além de um tambor, uma sub-metralhadora e um modelo de helicóptero. Aos seis
anos, - um ano antes do normal, por especial concessão - matriculara-se nos
Espiões; aos nove já era chefe da tropa. Aos onze, denunciara o tio à Polícia
do Pensamento, depois de entreouvir uma conversa que lhe parecera revelar
tendências criminosas. Aos dezessete tornara-se organizador distrital da Liga
Juvenil Anti-Sexo. Aos dezenove, desenhara uma granada de mão adotada pelo
Ministério da Paz e que, na sua primeira experiência, matara numa só explosão
trinta e um prisioneiros eurasianos. Aos vinte e três perecera em ação.
Perseguido por jatos inimigos ao sobrevoar o oceano índico com importantes
despachos, amarrara ao corpo como contrapeso a sua metralhadora e saltara do
helicóptero ao mar, com despachos e tudo - um fim que, segundo o Grande Irmão,
não se podia contemplar sem sentir inveja. O Grande Irmão acrescentou alguns
comentários sobre a pureza e a unidade de propósito da vida do Camarada Ogilvy.
Era abstinente total, não fumava, não se entregava a recreações além de uma
hora no ginásio; fizera voto de celibato, por acreditar que o casamento e o
cuidado da família eram incompatíveis com a devoção de vinte e quatro horas ao
dever. Não tinha na conversação outros assuntos além dos princípios do Ingsoc,
e nenhum objetivo na vida exceto a derrota do inimigo eurasiano e a perseguição
de espiões, sabotadores, ideocriminosos e traidores em geral.
Winston debateu consigo mesmo se devia ou não conferir ao Camarada Ogilvy
a Ordem do Mérito Evidente; por fim resolveu-se contra, em vista das
desnecessárias referências cruzadas que envolveria.
De novo tornou a relancear a vista para o rival no cubículo defronte. Algo
parecia dizer-lhe, com certeza, que Tillotson estava empenhado no mesmo
trabalho que ele. Não havia meio de saber qual das versões por fim seria
adotada, mas tinha a profunda convicção de que seria a sua. O Camarada Ogilvy,
inexistente uma hora atrás, era agora um fato. Pareceu-lhe curioso ter a
faculdade de criar homens mortos, mas não vivos. O Camarada Ogilvy, que jamais
existira no presente, agora existia no passado, e existia com a mesma
autenticidade, e as mesmas provas, que Carlos Magno ou Júlio César.
Na cantina de baixo pé direito, metida nas entranhas do solo, arrastava-se
devagarinho a fila do almoço. A sala já estava atulhada, e o barulho era
ensurdecedor. Da grade do balcão vinha uma nuvem de vapor de guisado, um cheiro
metálico, azedo, que não chegava a dominar o odor do gim Vitória. Do outro lado
da sala havia um pequeno bar, um simples nicho na parede, onde se podia comprar
gim a dez centavos a dose grande.
- Exatamente quem eu procurava - disse uma voz atrás de Winston.
Voltou-se. Era o seu amigo Syme, que trabalhava no Departamento de
Pesquisa. "Amigo" talvez não fosse a palavra correta. Não se tinham
mais amigos, tinham-se camaradas; mas havia alguns camaradas cuja companhia era
mais agradável que outros. Syme era filólogo, especialista em Novilíngua. Com
efeito, fazia parte da enorme equipe de peritos empenhada na compilação da
Décima Primeira Edição do dicionário da Novilíngua. Era um sujeito mirrado,
menor que Winston, de cabelo escuro e olhos grandes, saltados, que eram ao
mesmo tempo zombeteiros e tristonhos, e que pareciam examinar atentamente a
face do interlocutor.
- Queria te perguntar se tens uma gilete - disse ele.
- Nenhuma! - respondeu Winston, apressado, como quem se sente culpado. -
Procurei em toda parte. Não existem.
Todo mundo vivia procurando gilete. Na verdade tinha duas lâminas, que
estava escondendo. Havia meses que faltavam na praça. Em determinado momento,
havia sempre algum artigo necessário que as lojas do Partido não tinham para
fornecer. As vezes eram botões, outras linha para cerzir meias, outras
atacadores para sapatos; no momento, eram lâminas de barba. Só podiam ser
encontradas, com um pouco de sorte, numa busca furtiva no mercado
"livre."
- Há seis semanas que uso a mesma lâmina - acrescentou, mentindo.
A fila deu mais um salto à frente. Quando pararam, ele se voltou e encarou
Syme outra vez. Os dois apanharam bandejas de metal, engorduradas, de uma pilha
na ponta do balcão.
- Foste ver os enforcamentos, a noite passada? - indagou Syme.
- Estava trabalhando - disse Winston, com indiferença. - Com certeza verei
no cinema.
- Pobre substituição - comentou Syme. Seus olhos galhofeiros examinaram o
rosto de Winston. Pareciam dizer: "Eu te conheço. Vejo através de ti, sei
muito bem porque não foste ver os prisioneiros enforcados."
Intelectualmente, Syme era venenoso de tão ortodoxo. Falava com satisfação e
júbilo, muito desagradáveis, de ataques de helicópteros a aldeias inimigas,
julgamento e confissão de ideocriminosos, execuções no subsolo do Ministério do
Amor. Para se conversar direito com ele era essencial afastá-lo desses
assuntos, enredando-o, se possível, nas tecnicalidades da Novilíngua, a
respeito do que era interessante e bem informado. Winston virou a cabeça um
pouco para o lado, para fugir ao exame dos grandes olhos escuros.
- Foi um bom enforcamento - prosseguiu Syme, recordando. - Mas creio que
estragam o espetáculo quando, amarram os pés do cara. Gosto de vê-los
esperneando. Mas acima de tudo, no fim, a língua saltando da boca, azulzinha -
azul brilhante. É o detalhe que mais me interessa.
- Outro! - berrou o prole de avental branco, que empunhava a concha de
sopa.
Winston e Syme empurraram as bandejas por baixo da grade. E cada um
recebeu, em segundos, o almoço regulamentar - marmita de metal com um guisado
rosa-cinza, um pedaço de pão, um cubo de queijo, uma xícara de Café Vitória,
preto, uma tablete de sacarina.
- Vamos para aquela mesa debaixo da teletela, - disse Syme. - E no caminho
pegamos um gim.
O gim foi servido em xícaras de louça sem asa. Atravessaram em zigue-zague
o salão cheio e largaram as bandejas numa mesa de tampo de metal, no canto da
qual alguém deixara um lago de cozido, um líquido nojento que parecia vômito.
Winston apanhou - a xícara de gim, fez uma pausa para ganhar coragem e engoliu
a beberagem de gosto oleoso. Ao limpar as lágrimas dos olhos, descobriu de
repente que estava com fome. Pôs-se a engolir colheradas do cozido que, entre
outros ingredientes, tinha cubos de uma massa rosada, esponjosa, que devia ser
uma carne qualquer. Nenhum dos dois falou enquanto não esvaziaram as marmitas.
Na mesa à esquerda de Winston, um pouco para trás, alguém falava rápido, sem
parar, uma cantilena áspera que parecia o grasnar de um pato, e que conseguia
romper o falatório da cantina.
- Como vai o dicionário? - perguntou Winston, levantando a voz para se
fazer ouvir.
- Devagar - respondeu Syme. - Estou nos adjetivos. É fascinante.
O rosto se lhe iluminara imediatamente com a menção da Novilíngua.
Empurrou a marmita para o lado, apanhou com a mão delicada o cubo de queijo, o
pedaço de pão com a outra, e inclinou-se sobre a mesa, para poder falar sem
gritar.
- A Décima Primeira Edição será definitiva - disse ele. - Estamos dando à
língua a sua forma final - a forma que terá quando ninguém mais falar outra
coisa. Quando tivermos terminado, gente como tu terá que aprendê-la de novo.
Tenho a impressão de que imaginas que o nosso trabalho consiste principalmente
em inventar novas palavras. Nada disso! Estamos é destruindo palavras - às
dezenas, às centenas, todos os dias. Estamos reduzindo a língua à expressão
mais simples. A Décima Primeira Edição não conterá uma única palavra que possa
se tornar obsoleta antes de 2050.
Mordeu famintamente o pão e engoliu dois pedaços. Depois continuou a
falar, com uma espécie de paixão pedante. O rosto magro e moreno animara-se, os
olhos haviam perdido a expressão de chacota e tinham-se tornado quase
sonhadores.
- É lindo, destruir palavras. Naturalmente, o maior desperdício é nos
verbos e adjetivos, mas há centenas de substantivos que podem perfeitamente ser
eliminados. Não apenas os sinônimos; os antônimos também. Afinal de contas, que
justificação existe para a existência de uma palavra que é apenas o contrário
de outra? Cada palavra contém em si o contrário. "Bom", por exemplo.
Se temos a palavra "bom," para que precisamos de "mau"?
"Imbom" faz o mesmo efeito - e melhor, porque é exatamente oposta,
enquanto que mau não é. Ou ainda, se queres uma palavra mais forte para dizer
"bom", para que dispor de toda uma série de vagas e inúteis palavras
como "excelente" e "esplêndido" etc. e tal?
"Plusbom" corresponde à necessidade, ou "dupliplusbom" se
queres algo inda mais forte. Naturalmente, já usamos essas formas, mas na versão
final da Novilíngua não haverá outras. No fim, todo o conceito de bondade e
maldade será descrito por seis palavras - ou melhor, uma única. Não vês que
beleza, Winston? Naturalmente, foi idéia do Grande Irmão, - acrescentou, à
guisa de conclusão.
Uma tênue ansiedade perpassou pelo rosto de Winston à menção do Grande
Irmão. Isso não obstante, Syme imediatamente percebeu nele uma certa falta de
entusiasmo.
- Não aprecias realmente a Novilíngua, Winston - disse, quase com
tristeza. - Mesmo quando escreves em Novilíngua, pensas na antiga. Tenho lido
artigos teus no Times. São bons, mas são traduções. No teu coração, havias de
preferir a Anticlíngua, com toda a sua imprecisão e suas inúteis gradações de
sentido. Não percebes a beleza que é destruir palavras. Sabes que Novilíngua é
o único idioma do mundo cujo vocabulário se reduz de ano para ano?
Winston naturalmente não sabia. Sorriu, com ar de simpatia (ao que
esperava), não confiando em suas próprias palavras. Syme mordiscou outro
fragmento do pão escuro, mastigou-o um pouco e continuou: - Não vês que todo o
objetivo da Novilíngua é estreitar a gama do pensamento? No fim, tornaremos a
crimidéia literalmente impossível, porque não haverá palavras para expressá-la.
Todos os conceitos necessários serão expressos exatamente por uma palavra, de
sentido rigidamente definido, e cada significado subsidiário eliminado,
esquecido. Já, na Décima Primeira Edição, não estamos longe disso. Mas o
processo continuará muito tempo depois de estarmos mortos. Cada ano, menos e
menos palavras, e a gama da consciência sempre um pouco menor. Naturalmente,
mesmo em nosso tempo, não há motivo nem desculpa para cometer uma crimidéia. É
apenas uma questão de disciplina, controle da realidade. Mas no futuro não será
preciso nem isso. A Revolução se completará quando a língua for perfeita.
Novilíngua é Ingsoc e Ingsoc é Novilíngua, - agregou com uma espécie de
satisfação mística. - Nunca te ocorreu, Winston, que por volta do ano de 2050,
o mais tardar, não viverá um único ser humano capaz de compreender esta nossa
palestra?
- Exceto... - começou Winston, em tom de dúvida, mas parou de repente.
Estivera a pique de dizer "Exceto os proles", mas controlou-se,
sem ter plena certeza de que essa observação fosse ortodoxa. Syme, todavia,
adivinhara o que ele quisera dizer.
- Os proles não são seres humanos, - disse ele, descuidado. - Por volta de
2050, ou talvez mais cedo, todo verdadeiro conhecimento da Anticlíngua terá
desaparecido. A literatura do passado terá sido destruída, inteirinha. Chaucer,
Shakespeare, Milton, Byron - só existirão em versões Novilíngua, não apenas
transformados em algo diferente, como transformados em obras contraditórias do
que eram. Até a literatura do Partido mudará. Mudarão as palavras de ordem.
Como será possível dizer "liberdade é escravidão se for abolido o conceito
de liberdade? Todo o mecanismo do pensamento será diferente. Com efeito, não
haverá pensamento, como hoje o entendemos. Ortodoxia quer dizer não pensar...
não precisar pensar. Ortodoxia é inconsciência.
Qualquer dia, refletiu Winston, com convicção profunda e repentina, Syme
será vaporizado. É inteligente demais. Vê demasiado claro e fala sem
subterfúgios. O Partido não gosta de gente assim. Um dia ele desaparecerá. Está
na cara.
Winston liquidara o pão e queijo. Virou um pouco de lado na cadeira para
beber a xícara de café. Na mesa à esquerda o homem da voz estridente continuava
falando sem parar, sem dó dos ouvintes. Uma jovem, talvez sua secretária,
sentada de costas para Winston, escutava com atenção e parecia ansiosa em
concordar com tudo quanto ele dizia. De vez em quando Winston apanhava uma
observação como "Eu acho que tens tanta razão, concordo tanto
contigo," dita numa voz feminina, juvenil e um tanto tola. Mas a outra voz
não parava por um instante sequer, nem mesmo quando a moça falava. Winston
conhecia o homem de vista, embora a seu respeito não soubesse senão que ocupava
cargo importante no Departamento de Ficção. Teria uns trinta anos, e ostentava
pescoço musculoso, e boca grande, muito agitada. Como estava com a cabeça um
pouco inclinada para trás, seus óculos captavam a luz e apresentavam a Winston
dois discos brancos, em vez de olhos. O horrível era que daquela catadupa de
som que borbotava de sua boca, mal se podia distinguir uma palavra solta.
Apenas uma vez Winston apanhou uma frase - "eliminação completa e final do
goldsteinismo" - grasnada toda de uma vez, numa peça só, como se fosse uma
linha de linotipo. O resto não passava de barulho, quá-quá-quá. Embora não se
pudesse ouvir o que o homem dizia, não podia haver dúvida quanto à natureza
geral da ladainha. Talvez estivesse denunciando Goldstein e exigindo medidas
mais severas contra os ideocriminosos e sabotadores, talvez fulminando as
atrocidades do exército eurasiano; podia estar louvando Grande Irmão ou os
heróis da frente de Malabar - não fazia diferença. Fosse o que fosse, podia-se
ter a certeza de que cada palavra era pura ortodoxia, puro Ingsoc. Olhando a
cara sem olhos, a mandíbula mexendo sem parar, Winston teve a sensação curiosa
de não se tratar de um legítimo ente humano, mas de uma espécie de manequim.
Não era o cérebro do homem que falava, era a laringe. O que saía da boca era
constituído de palavras, mas não era fala genuína: era um barulho inconsciente,
como o grasnido dum pato.
Syme calara-se por um momento, e com o cabo da colher desenhava arabescos
de caldo sobre a mesa. A voz da outra mesa continuou grasnando rápido, fácil de
ouvir apesar da barulheira ambiente.
- Em Novilíngua há uma palavra que não sei se conheces. É patofalar -
disse Syme. - Grasnar como pato. É uma dessas palavras interessantes que têm
dois sentidos contraditórios. Aplicada a um adversário, é insulto; aplicada a
um correligionário, é elogio.
Sem dúvida alguma Syme será vaporizado, Winston tornou a pensar. Pensou-o
com um laivo de tristeza, embora soubesse muito bem que Syme o desprezava e
hostilizava ligeiramente, e que era perfeitamente capaz de denunciá-lo como
ideocriminoso se enxergasse algum motivo para assim Proceder. Havia algo de
errado, de sutilmente errado, em Syme. Carecia de discrição, indiferença, e de
estupidez salvadora. Não se podia dizer que fosse ortodoxo. Acreditava nos
princípios do Ingsoc, venerava o Grande Irmão, rejubilava-se com as vitórias,
odiava os hereges, não apenas com sinceridade como com zelo incansável e
informação recente, de que os militantes comuns não se aproximavam. Todavia, um
ligeiro ar de má fama estava sempre presente nele. Dizia coisas que era melhor
calar, lia livros demais, freqüentava o Café Castanheira, santuário de pintores
e músicos. Não havia lei, nem implícita, contra a freqüência do Café
Castanheira; ainda assim, a casa era de maus presságios. Os antigos e
desacreditados líderes do Partido costumavam reunir-se lá, antes de serem
expurgados. Dizia-se que o próprio Goldstein fora visto algumas vezes lá, anos
e décadas passadas. Não era difícil prever o fim de Syme. No entanto era fato
que se Syme percebesse, por três segundos que fosse, a natureza das opiniões
secretas de Winston, instantaneamente o denunciaria à Polícia do Pensamento.
Aliás, era o que faria qualquer um, Syme mais que os outros, porém.
O zelo não bastava. Ortodoxia era inconsciência.
Syme ergueu o olhar.
- Aí vem Parsons, - anunciou. - E alguma coisa no seu tom de voz pareceu
acrescentar: "aquele pobre idiota." De fato Parsons, vizinho de
apartamento de Winston na Mansão Vitória, vinha se encaminhando para o lado
deles - um homenzinho atarracado, de estatura média, com cabelo claro e cara de
rã. Aos trinta e cinco de idade, já criava rolos de gordura no pescoço e na
barriga, mas seus movimentos eram alerta e infantis. Toda a sua aparência era a
de um menininho crescido, tanto que, embora usasse o macacão costumeiro, era
quase obrigatório imaginá-lo como um garoto de calças curtas azuis, camisa
cinza e lenço vermelho dos Espiões. Visualizando Parsons, via-se sempre uma
figura de joelhos gordos e covinhas, mangas arregaçadas sobre braços cheios.
Com efeito, Parsons invariavelmente voltava aos shorts quando uma passeata
comunal ou qualquer outra atividade física lhe dava pretexto. Cumprimentou-os
com um "Alô, alô!" e sentou-se à mesa, cheirando intensamente a suor.
Gotinhas de transpiração brilhavam-lhe no rosto rosado. Era extraordinária sua
capacidade de exsudação. No Centro Comunal era sempre possível dizer quando ele
estivera jogando pingue-pongue, pela molhadeira do cabo da raquete. Syme
produzira uma tira de papel na qual havia uma longa coluna de palavras, e as
estudava com um lápis-tinta na mão.
- Olha só ele trabalhando na hora do almoço - disse Parsons, dando uma
cotovelada em Winston. - Puxa, hein? Que é isso aí, velhinho? Vai ver que é
algo difícil para mim. Smith, meu velho, já te digo porque te procuro. É aquela
conta que te esqueceste de me dar.
- Que conta é essa? - indagou Winston, procurando dinheiro
automaticamente. Cerca de quarta parte do salário de cada um tinha de ser
destinada a contribuições voluntárias, que eram tantas que se tornava difícil
se lembrar de todas.
- Para a Semana do Ódio. Sabes... coleta domiciliar. Sou o tesoureiro de
nosso quarteirão. Estamos dando uma virada grande... vamos dar um bruto show.
Te digo que não será minha culpa se a Mansão Vitória não ostentar mais
bandeiras que a rua toda. Me prometeste dois dólares.
Winston achou e entregou duas notas amassadas e imundas, que Parsons
anotou num pequeno caderno, com a letrinha caprichada do analfabeto.
- Por falar nisso, meu velho - continuou - eu soube que o malandrinho do
meu garoto te deu uma estilingada ontem. - Passei-lhe uma boa raspança por
causa disso. Sim, até disse que lhe tomaria o estilingue se repetisse a proeza.
- Creio que ficou um Pouco chateado de não assistir à execução - disse
Winston.
- Ah, bom... quero dizer, é o que deve esperar, não? São dois patifetes, e
peraltas, mas tão esforçados! Só pensam nos Espiões, e na guerra, naturalmente.
Sabes o que a minha filhinha fez sábado passado, quando a tropa saiu a passeio
para as bandas de Berkhamsted? Convenceu duas meninas a acompanhá-la,
afastou-se do grupo e passou a tarde toda acompanhando um desconhecido.
Estiveram duas horas no encalço dele, pelos bosques afora, e depois, quando
chegaram a Amersham, entregaram-no às patrulhas.
- Por que fizeram isso? - indagou Winston, um tanto chocado. Parsons
continuou, triunfante:
- Minha pirralha convenceu-se de que devia ser um agente estrangeiro...
talvez tivesse saltado de pára-quedas, por exemplo. Mas aqui é que está o
busilis, velho. Sabes o que a levou a segui-lo? Descobriu que ele usava uns
sapatos muito esquisitos - disse que antes nunca tinha visto ninguém com
sapatos daqueles. Era portanto provável que fosse estrangeiro. Bem espertinha
para um espirro de gente, de sete anos, hein?
- Que aconteceu ao homem? - perguntou Winston.
- Ah, isso não sei, naturalmente. Mas não ficaria nada surpreendido de que...
- e Parsons imitou um soldado fazendo mira com o fuzil, e com a língua estalou
um tiro.
- Bom - fez Syme, distraído, sem nem ao menos levantar os olhos do papel.
- Naturalmente, não podemos nos arriscar - comentou Winston, lealmente.
- Quero dizer, estamos em guerra - disse Parsons. Como se para confirmar
essas palavras, um toque de clarim soou da teletela, bem por cima da cabeça do
trio. Não se tratava, contudo, da proclamação de uma vitória militar, mas
apenas um anúncio do Ministério da Fartura.
- Camaradas! - gritou uma voz juvenil. - Atenção, camaradas! Temos
gloriosas notícias! Ganhamos a batalha da produção! Os totais completos da
produção de todos os artigos de consumo demonstram que o padrão de vida
aumentou de nada menos que vinte por cento sobre o ano passado. Em toda a
Oceania houve esta manhã incontroláveis demonstrações espontâneas, com os
trabalhadores marchando das fábricas e escritórios, e desfilando pelas ruas,
com estandartes exprimindo sua gratidão ao Grande Irmão, pela nova vida feliz
que a sua sábia liderança nos deu. Eis alguns dos totais finais. Gêneros
alimentícios...
A expressão "nova vida feliz" correu várias vezes. Ultimamente,
caíra no gosto do Ministério da Fartura. Parsons, a atenção presa pelo toque
marcial, escutava com ar solene e boca aberta, mistura de aborrecimento e
enlevo. Não podia acompanhar as cifras, mas tinha a certeza de que deviam
causar satisfação. Tirara do bolso um cachimbão imundo, já meio cheio de fumo
chamuscado. Com cem gramas de tabaco por semana, raramente era possível encher
o cachimbo até em cima. Winston fumava um cigarro Vitória, que mantinha
cuidadosamente na horizontal. A nova ração só começava no dia seguinte e lhe
restavam apenas quatro cigarros. Conseguira tapar os ouvidos aos barulhos mais
distantes e estava escutando a fanfarronice da teletela. Aparentemente, houvera
até demonstrações de agradecimento ao Grande Irmão por aumentar para vinte
gramas a ração semanal de chocolate. No entanto, apenas na véspera, fora
anunciada a redução para vinte gramas. Seria possível que engolissem aquilo,
vinte e quatro horas depois? Pois engoliam. Parsons engoliu facilmente, com
estupidez de animal. A criatura sem olhos, da outra mesa, engoliu
fanaticamente, apaixonadamente, com um desejo furioso de descobrir, denunciar e
vaporizar quem quer que ousasse sugerir que na semana anterior fora trinta
gramas. Syme também - de modo mais complexo, com duplipensar de permeio - Syme
engoliu. Então era ele o único de posse da lembrança?
Fabulosas estatísticas continuaram saindo da teletela. Em comparação com o
ano anterior havia mais comida, mais roupa, mais casas, mais móveis, mais
panelas, mais combustível, mais navios, mais helicópteros, mais livros, mais
recém-nascidos - tudo aumentara, exceto a doença, o crime e a loucura. Ano após
ano, minuto após minuto, todo mundo, tudo, tudo o mais ganhava as alturas. Como
fizera Syme antes, Winston tomou a colher e com o caldo se pôs a desenhar
calungas sobre a mesa. Meditava, ressentido, na textura física da vida. Teria
sido sempre assim? Teria a comida tido sempre o mesmo gosto? Olhou em torno da
cantina. Um salão de teto baixo, paredes sujas do contacto de inúmeros corpos;
maltratadas cadeiras e mesas de metal, tão juntinhas que os cotovelos se
tocavam. Colheres arcadas, bandejas trincadas, rústicas xícaras brancas;
gordurentas todas as superfícies, sujeira em cada frincha; e um cheiro azedo,
composto de gim ordinário, café ruim, guisado metálico e roupa suja. Havia
sempre, no estômago e na pele, uma espécie de protesto, a sensação de que se
perdera, para um gatuno, algo a que se tinha direito. Era fato que não tinha
recordação de nada muito diferente. Em todas as épocas que lembrava com
precisão, nunca houvera suficiente para comer, nunca tivera meias ou roupa
branca que não fossem esburacadas, mobília que não fosse capenga e gasta; e
cômodos mal aquecidos, trens subterrâneos atulhados, casas caindo aos pedaços,
pão escuro, chá raro, café nojento, cigarros insuficientes - nada barato e
abundante, exceto gim sintético. E conquanto as coisas piorassem com o
envelhecimento do corpo, não era isto um sinal de ser diferente a ordem natural
das coisas, quando o coração se confrangia ante o desconforto, a sujeira e a
escassez, os invernos intermináveis, as meias pegajosas, os elevadores que nunca
funcionavam, a água fria, o sabão áspero, os cigarros que se desfaziam, a
comida de sabor mau e estranho? Por que achar tudo isso intolerável, a menos
que se tivesse uma espécie de lembrança ancestral de coisas outrora diferentes?
Tornou a olhar em volta da cantina. Quase todo mundo era feio, e seria
feio ainda que se vestisse direito, em vez de usar o macacão do Partido. Do
outro lado do salão, sozinho numa mesa, um homem mirrado, que parecia um
besouro, tomava uma xícara de café, os olhinhos atirando dardos suspicazes para
um lado e outro. Como era fácil, pensou Winston, acreditar que o tipo físico
considerado ideal pelo Partido - rapazes altos e musculosos, donzelas de
grandes seios, louras, viçosas, queimadas de sol, alegres - existisse e mesmo predominasse.
Na verdade, até onde podia julgar, a maioria, na Pista N.º 1, era de gente
miúda, morena, mal favorecida. Era curioso que aquele tipo de escaravelho
proliferasse nos Ministérios: homenzinhos troncudos, ainda moços e já obesos,
de perninhas curtas, movimentos rápidos, assustados, faces gordas e
inescrutáveis, de olhos minúsculos. Era o tipo que parecia florescer melhor sob
o domínio do Partido.
O anúncio do Ministério da Fartura terminou com outra fanfarra e foi
seguido de música metálica. Parsons, movido a um vago entusiasmo pelo
bombardeio dos números, tirou o cachimbo da boca.
- O Ministério da Fartura fez excelente trabalho este ano - disse,
abanando a cabeça com ar de quem sabe o que fala. - Por falar nisso, meu velho
Smith, não tens uma giletinha que possas ceder?
- Nenhuma - replicou Winston. - Há seis semanas que estou usando a mesma
lâmina.
- Ah, bom... achei que não fazia mal perguntar.
- Sinto muito.
O grasnido da mesa próxima, provisoriamente calado pelo aviso do
Ministério, recomeçara, mais forte que nunca. Por algum motivo obscuro Winston
de repente se surpreendeu pensando na sra. Parsons, com o cabelo ralo e poeira
nas rugas. Dentro de dois anos aquelas crianças a denunciariam à Polícia do
Pensamento. A sra. Parsons seria vaporizada. Syme seria vaporizado. Winston
seria vaporizado. O'Brien seria vaporizado. Por outro lado, Parsons jamais
seria vaporizado. A criatura sem olhos, da voz grasnante, jamais seria
vaporizada. Os homenzinhos escaravelhais que tão de manso palmilhavam os labirintos
dos Ministérios - esses tampouco seriam vaporizados. E a moça do cabelo escuro,
a guria do Departamento de Ficção: jamais seria vaporizada. Parecia-lhe saber
por instinto quais sobreviveriam e quais pereceriam, embora não fosse fácil
dizer o que dava direito à sobrevivência.
Naquele momento, foi arrancado das suas meditações por um violento golpe.
A moça da mesa vizinha voltara-se de lado e estava olhando para ele. Era a
rapariga do cabelo escuro. Olhava-o com o rabo dos olhos, mas com intensa
curiosidade. No momento em que percebeu que ele também a fitava, desviou a
vista.
O suor escorreu pela espinha de Winston. Um horrível arrepio de terror
perpassou por ele. Sumiu quase imediatamente, mas deixou um ressalvo de
mal-estar. Por que o olharia daquele modo? Por que vivia a segui-lo?
Infelizmente, não podia se lembrar se ela já estava na mesa quando ele chegara,
ou se viera depois. A questão era que na véspera, durante os Dois Minutos de
ódio, sentara atrás dele sem haver necessidade visível de o fazer. Com toda a
certeza o seu objetivo real fora escutá-lo e verificar se gritava bem alto
contra Goldstein.
O pensamento anterior voltou à mente de Winston: provavelmente não era da
Polícia do Pensamento, devia ser o tipo do espião amador, que é a pior praga de
todas. Não sabia quanto tempo ela o estivera olhando, talvez uns cinco minutos,
e era possível que não tivesse a fisionomia perfeitamente controlada. Era
terrivelmente perigoso deixar os pensamentos vaguearem num lugar público, ou no
campo de visão duma teletela. A menor coisa poderia denunciá-lo. Um tique
nervoso, um olhar inconsciente de ansiedade, o hábito de falar sozinho - tudo
que sugerisse anormalidade, ou algo de oculto. De qualquer forma, uma expressão
facial imprópria (ar de incredulidade quando anunciavam uma vitória, por
exemplo) era em si uma infração punível. Em Novilíngua havia até uma palavra
para caracterizá-la: chamava-se facecrime.
A moça tornara a dar-lhe as costas. Afinal de contas, talvez não o
estivesse seguindo. Talvez fosse coincidência sentar-se perto dele dois dias
seguidos. Ele depôs cuidadosamente na beira da mesa o cigarro que se apagara.
Haveria de acabar de fumá-lo depois do trabalho, se pudesse evitar que o fumo
caísse. Com toda a probabilidade a pessoa da mesa vizinha era espiã da Polícia
do Pensamento, e ele provavelmente acabaria nos porões do Ministério do Amor,
dali a três dias, mas uma ponta de cigarro não podia ser desperdiçada. Syme
dobrara o papel em tira e metera-o no bolso. Parsons pusera-se a falar de novo.
- Já te contei, velho - perguntou, rindo e mordendo o cachimbo - uma vez
que os meus dois pirralhos puseram fogo na saia duma velha, na feira, porque a
viram embrulhar salsichas num cartaz do G.I.? De mansinho entraram atrás dela e
puseram fogo no pano com uma caixa de fósforos. Queimaram-na um pedaço, creio.
Safadinhos, hein? Vivos como azougue! Hoje em dia dão um treinamento de
primeira nos Espiões -, melhor do que no meu tempo. Que é que achas, que
forneceram aos garotos, agora? Estetoscópios para escutar pelas fechaduras! A
menina trouxe um para casa a outra noite - experimentou na porta de nossa sala
de estar, e calculou que podia ouvir o dobro do que antes, quando colava a
orelha na porta. Sim, naturalmente não passa dum brinquedo, mas já vai lhes
dando a idéia, não é?
Nesse momento, a teletela soltou um apito contundente. Era o sinal de
volta ao trabalho. Os três homens se levantaram num pulo, para correr aos
elevadores, e o fumo restante deslizou do cigarro de Winston.
Winston escrevia no diário:
Faz três anos. Era uma noite escura, numa ruela sem luz, perto duma grande
estação ferroviária. Ela estava parada perto duma porta, sob um lampião que mal
iluminava o lugar. Tinha rosto jovem, com pintura espessa. Foi realmente a
pintura que me chamou a atenção, pois era branca como uma máscara, e os lábios
muito vermelhos, brilhantes. As mulheres do Partido nunca se pintam. Não havia
ninguém mais na rua, nem teletela. Ela disse dois dólares e eu...
Por um minuto foi difícil continuar. Fechou os olhos e apertou com os
dedos, tentando afastar a visão que insistia em voltar. Tinha uma tentação
quase indomável de berrar um bando de palavras indecentes a pleno pulmão. Ou
bater a cabeça na parede, dar um pontapé na mesa ou atirar o tinteiro pela
janela - fazer algo violento, doloroso ou ruidoso que pudesse apagar a
lembrança-que o atormentava.
Nosso pior inimigo, refletiu, é o sistema nervoso. A qualquer momento a
tensão que há dentro da gente pode-se traduzir num sintoma visível. Pensou num
homem com quem cruzara na rua, havia algumas semanas: um sujeito de aspecto
comum, membro do Partido, de trinta e cinco ou quarenta anos, alto e magro,
levando uma pasta. Estavam a apenas alguns metros de distância quando o lado
esquerdo do rosto do homem se contorceu subitamente num espasmo. Tornou a
acontecer quando cruzaram: era apenas um tremor, um arrepio, rápido como o
clique do obturador duma máquina fotográfica, mas evidentemente habitual.
Lembrou-se de ter pensado na ocasião: esse pobre diabo está danado. O mais
aterrorizante era o ato talvez ser inconsciente. O pior de todos os perigos era
falar dormindo. Não havia meio de se proteger contra aquilo.
Ele suspirou e continuou escrevendo: Entrei com ela pela porta e
atravessamos um quintal, chegando à cozinha dum porão. Contra a parede havia
uma cama, e sobre a mesa uma lâmpada, muito fraquinha. Ela... rangeu os dentes.
Gostaria de cuspir. Ao mesmo tempo que na mulher da cozinha do porão pensou em
Katharine, sua esposa. Winston era casado - ou fora casado; com certeza ainda
era casado, pois, tanto quanto sabia, a esposa não morrera. Pareceu inalar de
novo o odor morno da cozinha do porão, um cheiro misto de percevejos, roupa
suja e perfume ordinário, e no entanto atraente, porque nenhuma mulher do
Partido usava perfume, nem se podia imaginar que fizesse tal coisa. Só os
proles usavam perfume. Para ele, aquele cheiro trazia à mente o ato sexual.
A escapada com aquela mulher fora a primeira, em dois anos ou mais. Andar
com prostitutas era proibido, naturalmente, mas era dessas regras que às vezes
os militantes tinham coragem de quebrar. Era perigoso, mas não era caso de vida
ou morte. Ser apanhado com uma meretriz poderia significar cinco anos num
acampamento de trabalhos forçados; apenas isso, se não houvesse outra infração.
E era fácil, contanto que se evitasse ser surpreendido no ato. Os bairros
pobres pululavam de mulheres prontas a se entregarem. Algumas podiam ser
compradas até por uma garrafa de gim, que os proles não tinham direito de
beber. Tacitamente, o Partido se inclinava até a incentivar a prostituição,
para dar saída a instintos que não podiam ser totalmente suprimidos. Mera
luxúria não tinha maior importância, contanto que fosse furtiva e sem alegria,
e só envolvesse mulheres de uma classe submersa e desprezada. O crime
imperdoável era a promiscuidade entre membros do Partido. Mas - embora este
crime fosse invariavelmente confessado pelos acusados, nos grandes expurgos -
era difícil imaginar que acontecesse.
O objetivo do Partido não era simplesmente impedir que homens e mulheres
criassem lealdades difíceis de controlar. Seu propósito real, não declarado,
era roubar todo o prazer ao ato sexual. Não tanto o amor como o erotismo era o
inimigo, tanto dentro como fora do casamento. Todos os casamentos entre membros
do Partido tinham que ser aprovados por um comitê nomeado para esse fim e -
embora o princípio jamais fosse claramente declarado - a permissão era sempre
recusada se o casal desse a impressão de haver qualquer atração física. O único
fim reconhecido do casamento era procriar filhos para o serviço do Partido. A
cópula devia ser considerada uma pequena operação ligeiramente repugnante, como
um clister. Isto tampouco era dito em voz alta, mas de modo indireto era
ensinado a cada membro do Partido, desde a infância. Havia até organizações
como a Liga Juvenil Anti-Sexo, que advogava completo celibato para ambos os
sexos. Todas as crianças deveriam nascer por inseminação artificial (insemart)
e educadas em instituições públicas. Isto, Winston sabia, não era para se levar
de todo a sério, mas de certo modo se encaixava na ideologia geral do Partido.
O Partido estava procurando matar o instinto sexual, ou, se não fosse possível
matá-lo, torcê-lo e torná-lo indecente. Ele não sabia o porquê dessa conduta,
mas assim era, e lhe parecia natural que assim fosse. E, no que se referia às
mulheres, os esforços do Partido haviam logrado considerável êxito.
Ele tornou a pensar em Katharine. Devia fazer nove, dez, quase onze anos
que se haviam separado. Era curioso que pensasse nela tão raramente. Às vezes,
passava dias e dias sem se lembrar de que fora casado. Tinham vivido juntos
apenas quinze meses. O Partido não permitia o divórcio, mas até incentivava a
separação quando não havia filhos.
Katharine era uma moça alta, de cabelos claros, muito ereta, de
esplêndidos movimentos. Tinha rosto ousado, aquilino, que se poderia chamar
nobre até se descobrir não haver Praticamente nada por trás dele. Logo no
começo da vida conjugal descobrira que Katharine possuía, sem exceção, a mente
mais estúpida, vulgar e vazia que já conhecera - embora fosse talvez por
conhecê-la mais intimamente que à maioria das pessoas. Não tinha na cabeça um
pensamento que não fosse uma palavra de ordem, e não havia imbecilidade,
absolutamente nenhuma, que ela não engolisse se o Partido a impingisse.
Dera-lhe, para uso interno, o apelido de "banda sonora humana".
Todavia, agüentaria viver com ela se não fosse uma coisa - sexo.
Assim que a tocava, a esposa parecia se encolher e enrijar. Abraçá-la era
o mesmo que cingir uma imagem de madeira articulada. E o estranho era que,
mesmo quando ela o apertava contra o seu corpo, ele tinha a impressão de que o
repelia com todas as suas forças. Era a rigidez dos seus músculos que dava
aquela impressão. Deixava-se ficar de olhos fechados, sem resistir nem
cooperar, apenas se submetendo. Embaraçava extraordinariamente, e tornava-se
horrível depois de algum tempo. Entretanto, ele suportaria viver com ela, se
pudessem combinar manter o celibato. Mas foi a própria Katharine quem recusou
esse arranjo. Disse que deviam produzir um filho, se possível. De modo que o
exercício continuou a ter lugar, uma vez por semana, regularmente, sempre que
não fosse impossível. Ela chegava a lembrá-lo pela manhã, como uma tarefa que
deve ser feita à noite e que não pode ser esquecida. Referia-se ao ato com duas
expressões. Uma era "fazer um filho," e a outra era "nosso dever
ante o Partido" (sim, palavras textuais). Muito em breve ele adquiriu
verdadeiro horror da aproximação do dia convencionado. Por sorte, não houve
filho, e por fim ela concordou em suspender as experiências. Pouco depois,
separaram-se.
Winston suspirou alto. Tornou a apanhar a caneta e escreveu:
Ela atirou-se na cama, e imediatamente, sem qualquer preliminar, da
maneira mais grosseira e horrível que se pode imaginar, levantei-lhe a saia.
Eu.. .Tornou a ver-se, à luz débil do abajur, as narinas cheias do odor de
percevejo e perfume barato, e no coração uma sensação de derrota e
ressentimento que, mesmo naquele momento, vinha de cambulhada com a recordação
do corpo branco de Katharine, congelado para sempre pelo poder hipnótico do
Partido. Por que teria de ser sempre assim? Por que não poderia ter uma mulher
própria, em vez de recorrer a essas aventuras sórdidas, com intervalos de
vários anos? Um amor genuíno, porém, era quase impossível de imaginar. Todas as
mulheres do Partido eram iguais. Nelas a castidade era tão profunda quanto a
lealdade ao Partido. Por meio de cuidadoso condicionamento, em tenra idade, por
meio de jogos e água fria, pelo lixo que lhes impingiam na escola, nos Espiões
e na Liga Juvenil, por meio de conferências, paradas, canções, lemas e música
marcial, tinham expulso o sentimento natural. A razão dizia-lhe que devia haver
exceções, mas no fundo do coração não acreditava nisso. Eram todas
inexpugnáveis, como desejava o Partido. E o que ele queria, mais do que ser
amado, era deitar abaixo aquela muralha de virtude, mesmo que fosse apenas uma
vez na vida inteira. Executado com êxito, o ato sexual era rebelião. O desejo era
crimidéia. Despertar o instinto de Katharine, se o tivesse conseguido, seria
como que seduzi-la, embora fosse sua esposa.
Mas era preciso escrever o resto da história. E ele escreveu:
Levantei o abajur. Quando a vi sob a luz... Depois da treva, a luzinha fraca
do candeeiro de querosene lhe parecera muito clara. Pela primeira vez, pôde ver
a mulher direito. Dera um passo para ela e se detivera, cheio de luxúria e
terror. Tinha dolorosa consciência do risco que corria entrando ali. Era
perfeitamente possível que as patrulhas o apanhassem na saída: podiam até estar
esperando na porta, naquele momento. E se ele fosse embora sem realizar o que
fora fazer!
Era preciso escrevê-lo, era preciso confessá-lo. O que vira de repente,
sob a luz da lâmpada, era que se tratava duma velha. A pintura do rosto era tão
grossa que dava a impressão de que ia rachar como uma máscara de cartão. Havia
fios brancos no cabelo; mas o detalhe verdadeiramente revoltante era a boca,
que se entreabria, revelando nada mais que uma caverna negra. A mulher não
tinha dente algum.
Ele escreveu com pressa, aos garranchos: Quando a vi sob a luz, percebi
que se tratava duma velha, de uns cinqüenta anos pelo menos. Mas fui em frente
e fiz o que fora fazer.
Tornou a apertar as pálpebras com os dedos. Escrevera tudo, por fim, mas
não fazia diferença. A terapia não dera resultado. Continuava, mais forte que
nunca, o desejo de berrar obscenidades a plenos pulmões.
Se há esperança, escreveu Winston, está nos proles. Se esperança houvesse,
devia estar nos proles, porque só neles, naquela massa desdenhada, formigante,
85% da população da Oceania, podia se gerar força suficiente para destruir o
Partido. O Partido não poderia ser derrubado de dentro. Seus inimigos, se é que
tinha inimigos, não tinham modo de se reunir, nem mesmo de se identificar.
Mesmo que existisse a legendária Fraternidade, como era possível que existisse,
era inconcebível que os seus membros pudessem jamais se reunir em grupos
maiores que dois ou três. A rebelião revelava-se num olhar, numa inflexão da
voz; no máximo, num cochicho ocasional. Mas os proles, se de algum modo
adquirissem consciência do seu poderio, não precisariam conspirar. Bastava-lhes
levantarem-se e sacudir-se, como um cavalo sacode as moscas. Se o quisessem, poderiam
demolir o Partido no dia seguinte. Mais cedo ou mais tarde, isso lhes haveria
de ocorrer. No entanto...
Lembrou-se de uma vez em que ia passando por uma rua cheia de gente quando
um tremendo grito de centenas de vozes - vozes de mulher - se fizera ouvir num
beco lateral, pouco adiante. Era um formidável brado de ira e desespero, um
"Oh-o-o-o-oh!" forte e grave, que continuou como a reverberação de um
sino. Seu coração dera um pinote. Começou! pensara. Um conflito! Por fim os
proles se libertam! Quando chegou ao local, viu um bando de duzentas ou
trezentas mulheres, cercando as barracas de uma feira, faces trágicas como se
fossem passageiros condenados num navio a soçobrar. Naquele momento exato,
porém, o desespero geral se subdividiu numa multidão de briguinhas. Ao que
parece uma das barracas tinha caçarolas estanhadas à venda. Eram de folha fina,
horrorosas, mas era dificílimo arranjar panelas. O estoque não durara muito,
portanto. As mulheres que tinham conseguido comprar tentavam se afastar com as caçarolas
em punho, pisadas e acotoveladas pelo resto, enquanto dúzias de outras
clamavam, em torno da barraca, acusando o feirante de favoritismo e de ter mais
caçarolas escondidas. Houve nova série de uivos. Duas mulheres gordalhufas, uma
delas com o cabelo caindo sobre os olhos, tinham agarrado a mesma caçarola e
estavam tentando se apossar dela. Por um momento, houve empate. Depois o cabo
se desprendeu. Winston observou-as enojado. E no entanto, por um momento, que
poderio aterrorizante se fizera ouvir naquele grito de algumas centenas de
gargantas! Por que não poderiam gritar dessa forma quando acontecesse algo de
fato importante?
Escreveu: Não se revoltarão enquanto não se tornarem conscientes, e não se
tornarão conscientes enquanto não se rebelarem.
Refletiu que a frase poderia ser quase a transposição de um dos textos
básicos do Partido. O Partido proclamava, naturalmente, ter libertado os proles
da servidão. Antes da Revolução eram oprimidos pelos capitalistas, tinham sido
chicoteados e submetidos à fome, as mulheres forçadas a trabalhar nas minas de
carvão (na verdade, as mulheres ainda trabalhavam nas minas), as crianças
vendidas às fábricas com a idade de seis anos. Simultaneamente, fiel aos
princípios do duplipensar, o Partido ensinara que os proles eram naturalmente
inferiores, que deviam ficar em sujeição, como animais, pela aplicação de
algumas regras simples. Pouquíssimo se sabia a respeito dos proles. Não era
necessário saber muito. Contanto que continuassem a trabalhar e se reproduzir,
não tinham importância suas outras atividades. Abandonados a si mesmos, como
gado solto nas planuras argentinas, haviam regressado a um modo de vida que
lhes parecia natural, uma espécie de tradição ancestral. Nasciam, cresciam nas
sarjeta, iam para o trabalho aos doze, atravessavam um breve período de
floração da beleza e do desejo sexual, casavam-se aos vinte, atingiam a
maturidade aos trinta, e em geral morriam aos sessenta. O trabalho físico
pesado, o trato da casa e dos filhos, as briguinhas com a vizinhança, o cinema,
o futebol, a cerveja e, acima de tudo, o jogo, enchiam-lhes os horizontes.
Mantê-los sob controle não era difícil. Alguns agentes da Polícia do Pensamento
estavam sempre entre eles, soltando boatos, marcando e eliminando os poucos
indivíduos julgados capazes de se tornar perigosos; mas não se tentava
doutriná-los com a ideologia do partido. Não era desejável que os proles
tivessem sentimentos políticos definidos. Tudo que se lhes exigia era uma
espécie de patriotismo primitivo ao qual se podia apelar sempre que fosse
necessário levá-los a aceitar rações menores ou maior expediente de trabalho. E
mesmo quando ficavam descontentes, como às vezes acontecia, o descontentamento
não os conduzia a parte alguma porque, não tendo idéias gerais, só podiam focalizar
a animosidade em ridículas reivindicações específicas. Os males maiores
geralmente lhes fugiam à observação. A grande maioria dos proles nem tinha
teletelas em casa. Até a polícia civil interferia pouquíssimo com eles. Havia
enorme criminalidade em Londres! todo um mundo subterrâneo de ladrões,
bandidos, prostitutas, vendedores de narcóticos e contraventores de todo tipo;
mas como tudo se passava entre os próprios proles, não tinha importância. Em
todas as questões morais, se permitia obedecerem ao código ancestral. O
puritanismo sexual do Partido não lhes era imposto. A promiscuidade não era
punida, e o divórcio era permitido. Nesse particular, até a adoração religiosa
teria sido permitida se os proles demonstrassem algum sintoma de desejá-la ou dela
carecerem. Ninguém desconfiava deles. Como dizia o lema do Partido: "Os
proles e os animais são livres."
Winston esticou o braço e coçou cautelosamente a variz ulcerada. Começara
a comichar de novo. O que sobrevinha invariavelmente era a impossibilidade de
saber como de fato fora a vida antes da Revolução. Tirou da gaveta um livro
escolar de história, que tomara emprestado à sra. Parsons, e pôs-se a copiar um
trecho no diário:
Antigamente (dizia), antes da gloriosa Revolução, Londres não era a bela
cidade que hoje conhecemos. Era um lugar escuro, sujo, miserável, onde pouca
gente tinha bastante que comer e onde centenas e milhares de pobres não tinham
calçado nem abrigo onde dormir. Crianças de mais ou menos a tua idade tinham de
trabalhar doze horas por dia, para patrões cruéis, que as castigavam com
chicotes quando trabalhavam muito devagar e não lhes davam senão fatias de pão
velho e água. Mas no meio dessa terrível pobreza havia umas poucas casas
belíssimas habitadas pelos ricos, que tinham até trinta criados para cuidar
deles. Esses homens ricos chamavam-se capitalistas. Eram gordos, feios, de
caras perversas, como a que vês na página ao lado. Repara que veste um grande
casaco negro, chamado fraque, e um chapéu estranho, brilhante, como uma chaminé
truncada, e que se chamava cartola. Era esse o uniforme dos capitalistas e
ninguém mais podia usá-lo. Os capitalistas eram donos de tudo no mundo, e todas
as outras pessoas eram escravas deles. Eram donos de toda a terra, todas as
casas, todas as fábricas, todo o dinheiro. Se alguém lhes desobedecesse, podiam
jogá-lo na prisão, ou podiam tomar-lhe o emprego e matá-lo lentamente, pela
fome. Quando um cidadão comum falava com um capitalista, tinha de se encolher e
se inclinar, tirar o boné e chamá-lo de "Senhor." O chefe de todos os
capitalistas denominava-se Rei, e...
Mas ele conhecia o resto do catálogo. Vinham as referências aos bispos com
suas vestes opulentas, os juizes e os mantos de arminho, o pelourinho, o cepo,
a roda de castigo, o gato de nove caudas, o Banquete do Lord Maior e a prática
de beijar o artelho do Papa. Haveria também o chamado jus primae noctis, que
provavelmente não seria citado num livro para crianças. Era o direito de todo
capitalista de dormir com qualquer operária de suas fábricas.
Como era possível dizer onde acabava a verdade e começava a mentira? Podia
ser verdade que o ser humano comum agora vivesse melhor do que antes da
Revolução. A única prova em contrário era o protesto mudo nos ossos, o
sentimento instintivo de que as condições em que vivia eram intoleráveis e que
deviam ter sido diferentes. De repente achou que as únicas coisas
verdadeiramente típicas da vida moderna não eram nem a crueldade nem a
insegurança, mas apenas a nudez, a miséria, o desânimo. Olhando-se em torno, verificava-se
que a vida não apenas diferia das mentiras que provinham das teletelas, como
também dos ideais que o Partido buscava atingir. Muitas atividades cotidianas,
mesmo para um membro do Partido, eram neutras e não políticas, questão de
cumprir tarefas tediosas, lutar por um lugar no trem subterrâneo, remendar uma
meia gasta, esmolar uma pastilha de sacarina, guardar uma ponta de cigarro. O
ideal criado pelo Partido era enorme, terrível, luzidio - um mundo de aço e
concreto, de monstruosas máquinas e armas aterrorizantes - uma nação de
guerreiros e fanáticos, marchando avante em perfeita unidade, todos tendo os
mesmos pensamentos e gritando as mesmas divisas - trezentos milhões com a mesma
cara - trabalhando perpetuamente, lutando, triunfando, perseguindo. A realidade
eram cidades caindo em ruínas, escuras, onde o populacho subnutrido perambulava
com sapatos furados, vivendo em remendadas casas do século dezenove que sempre
cheiravam a repolho e latrinas de mau funcionamento. Parecia ter uma visão de
Londres, vasta e arruinada, uma cidade de um milhão de latas de lixo, e
misturada com ela a figura da sra. Parsons, mulher de cara enrugada e cabelo
ralo, lidando sem esperança com um cano de esgoto.
Tornou a esticar o braço e a coçar o tornozelo. Dia e noite as teletelas
feriam os ouvidos com estatísticas provando que hoje o povo tinha mais
alimento, mais roupa, melhores casas, melhor divertimento - que vivia mais,
trabalhava menos, era mais alto, mais saudável, mais forte, mais feliz, mais
inteligente, mais bem educado, do que o povo de cinqüenta anos atrás. Nenhuma
palavra podia ser provada ou negada. O Partido proclamava, por exemplo, que
hoje 40% dos proles eram alfabetizados; e dizia que antes da Revolução o total
não chegava a 15%. O Partido afirmava que a mortalidade infantil era agora de
apenas 160 por mil, enquanto que antes fora trezentos por mil - e assim por
diante. Era uma equação única com duas incógnitas. Podia muito bem dar-se que
cada palavra, literalmente, dos livros de história, mesmo quando aceite sem
dúvida, fosse pura fantasia. Tanto quanto sabia, podia muito bem ser que nunca
tivesse havido o jus primae noctis, nem capitalistas, nem cartola.
Tudo se fundia na névoa. O passado era raspado, esquecida a raspagem, e a
mentira tornava-se verdade. Apenas uma vez na vida possuíra - depois do
acontecimento: era o que importava - prova concreta, inegável de uma
falsificação. Tivera-a entre os dedos durante uns trinta segundos. Devia ter
sido em 1973 - isto é, mais ou menos na ocasião em que se havia separado de
Katharine. O acontecimento, porém, tivera lugar sete ou oito anos antes.
Com efeito, a história começara por volta de 1965, o período dos grandes
expurgos em que os chefes originais da Revolução tinham sido liquidados duma
vez por todas. Aí por 1970 não sobrava ninguém, exceto o Grande Irmão. A essa
altura todos os restantes haviam sido acusados de traição e atividades
contra-revolucionárias. Goldstein fugira e escondera-se em lugar não sabido, e
dos outros alguns tinham desaparecido, enquanto que a maioria fora justiçada,
após espetaculares julgamentos públicos em que confessara amplamente seus
crimes. Entre os últimos sobreviventes, contavam-se três homens chamados Jones,
Aaronson e Rutherford. O trio devia ter sido preso em 1965. Como acontecia com
freqüência, tinham sumido durante um ano ou mais, de modo que ninguém sabia se
estavam vivos ou mortos; de repente tinham aparecido para se incriminar da
maneira habitual. Confessaram entendimentos com o inimigo (que naquela data era
a Eurásia), desfalque de dinheiros públicos, assassinatos de vários dignos
membros do Partido, intrigas contra a liderança do Grande Irmão que se tinham
iniciado muito antes da Revolução, e atos de sabotagem causadores da morte de
centenas de milhares de inocentes. Depois de confessar, tinham sido perdoados,
restabelecidos no Partido e nomeados para cargos que pareciam importantes mas
que não passavam de sinecuras. Os três haviam escrito longos e abjetos artigos
no Times, analisando as razões da sua defecção e prometendo emendar-se.
Algum tempo depois, Winston vira os três no Café Castanheira. Lembrava-se
do fascínio com que os examinara, com o rabo dos olhos. Eram bem mais velhos
que ele, relíquias de um mundo antigo, quase que as últimas grandes figuras
remanescentes do passado heróico do Partido. O encanto da luta clandestina e da
guerra civil ainda pairava ligeiramente sobre eles. Winston teve a impressão,
embora já os fatos e datas se fossem confundindo, que lhes soubera os nomes
muito antes de conhecer o do Grande Irmão. Mas eram também fora-da-lei,
inimigos, intocáveis, condenados à extinção com absoluta certeza, dali a um ano
ou dois. Ninguém que tivesse caído uma vez em mãos da Polícia do Pensamento
conseguia escapar. Eram cadáveres esperando que os devolvessem ao sepulcro.
Não havia ninguém nas mesas próximas. Não era prudente ser visto nas
proximidades dos três. Estavam sentados, mudos, diante de copos de gim com
cravo que era a especialidade do café. Dos três, o que mais impressionara
Winston pela aparência fora Rutherford. Havia sido um famoso caricaturista, e
seus desenhos brutais tinham concorrido para inflamar a opinião pública antes e
durante a revolução. Mesmo agora, a longos intervalos, suas caricaturas
apareciam no Times. Eram simplesmente uma imitação do antigo estilo, e
curiosamente inertes, sem convicção. Eram sempre um recozido de antigos temas -
cortiços, crianças esfomeadas, batalhas de rua, capitalistas de cartola (até
nas barricadas os capitalistas pareciam conservar as cartolas) - um esforço
infindo, frouxo, de voltar ao passado. Era um homem monstruoso, com uma juba de
cabelo grisalho e gorduroso, rosto inchado e cortado de cicatrizes, grossos
lábios negróides. Devia ter sido imensamente forte; agora o corpanzil era
apenas balofo, mole, caído, banhas sobrando em todas as direções. Parecia ruir
diante dos olhos dos circunstantes, como alguma montanha.
Eram quinze horas, hora solitária. Winston já não conseguia lembrar-se do
que fora fazer no café àquela hora. Estava quase deserto. Das teletelas se desprendia
uma música de latas. Os três estavam sentados no seu canto, sem falar, quase
imóveis. Sem que lhe pedissem, o garçom trazia novos copos de gim. Na mesa, ao
lado deles havia um tabuleiro de xadrez, com as peças arrumadas, mas o jogo não
começara. E então, durante talvez meio minuto, algo sucedeu às teletelas. A
música que tocavam mudou,' como também mudou o tom. Ouviu-se... era algo muito
difícil de descrever. Uma nota peculiar, partida, um zurro, uma chacota, que
Winston, para seu uso pessoal, considerou amarela. E da tela uma voz cantou:
Sob a frondosa castanheira Eu te vendi e tu me vendeste: Lá estão eles, e
aqui estamos nós, Sob a frondosa castanheira.
Os homens nem se mexeram. Mas quando Winston tornou a fitar o rosto
arruinado de Rutherford, notou que tinha os olhos rasos d'água. E pela primeira
vez observou, com uma espécie de arrepio por dentro, sem que no entanto
soubesse o que lhe dava arrepios, que tanto Aaronson como Rutherford tinham
nariz quebrado.
Pouco depois os três tinham sido presos de novo. Ao que parece, haviam-se
metido em novas conspirações no mesmo momento em que tinham ganho a liberdade.
No segundo julgamento, confessaram de novo todos os velhos crimes acrescentando
uma porção de outros. Foram executados e sua sina registrada nas histórias do
Partido, como advertência à posteridade. Cerca de cinco anos depois, em 1973,
Winston desenrolava um maço de documentos que acabava de cair do tubo
pneumático quando deu com um fragmento de papel que evidentemente fora colocado
entre os outros e esquecido. No instante em que o desenrolou percebeu-lhe o
valor. Era meia página arrancada do Times de uns dez anos antes - a parte
superior, e incluía a data - e continha uma foto dos delegados numa função do
Partido em Nova York. No meio do grupo destacavam-se Jones, Aaronson e
Rutherford. Impossível confundi-los; ademais, seus nomes constavam da legenda.
Isso não obstante, os homens tinham confessado, em ambos os julgamentos,
que naquela data tinham estado em solo eurasiano. Tinham voado de um aeroporto
secreto no Canadá a um ponto da Sibéria, onde conferenciaram com membros do
Estado Maior Eurasiano, a quem haviam traído importantes segredos militares. A
data gravara-se na mente de Winston porque era o dia do equinócio do verão; mas
a história toda deveria estar registrada numa porção de outros lugares. Só
havia uma conclusão possível: as confissões eram falsas.
Naturalmente, isto em si não era nenhum descobrimento. Nem Winston
imaginara que as pessoas suprimidas nos expurgos houvessem de fato cometido os
crimes de que eram acusadas. Mas ali estava prova concreta; era um fragmento do
passado abolido, como um osso de fóssil que surge numa camada errada e destrói
uma teoria geológica. Seria suficiente para fazer o Partido se desmoronar, se
fosse possível Publicá-la e tornar conhecida do mundo a sua significação.
Ele continuara trabalhando. Assim que vira a fotografia, e o que queria
dizer, cobrira-a com uma folha de papel. Por sorte, ao desenrolá-la, estava de
cabeça para baixo, em relação à teletela.
Colocou no joelho o bloco de rascunho e empurrou a cadeira para trás, de
modo a se afastar o mais possível da teletela. Manter o rosto sem expressão não
era difícil, e com esforço se podia até controlar a respiração: mas não era
Possível controlar o bater do coração, e a teletela era bastante sensível para
captá-lo. Ele se quedou por dez minutos, atormentado pelo terror de que algum
acidente - um pé de vento que de repente lhe limpasse a mesa - o traísse.
Então, sem tornar a descobri-la, jogou a fotografia no buraco da memória, com
outros papéis servidos. Dali a um minuto, talvez, não passaria de cinzas.
Isso fora dez, onze anos atrás. Hoje, talvez, tivesse guardado o recorte.
Era curioso que o fato de tê-lo entre os dedos lhe parecesse fazer tanta
diferença, agora que a fotografia propriamente dita, e o acontecimento que
registrava, não passavam de recordações. Seria menos forte o domínio do Partido
sobre o passado, indagou ele, porque existira um dia uma prova que deixara de
existir?
Mas hoje, supondo, que fosse possível recuperá-la das cinzas, a fotografia
talvez não fizesse prova alguma. Na ocasião em que descobrira o caso a Oceania
não estava mais em guerra com a Eurásia, e devia ter sido aos agentes da
Lestásia que os três haviam traído a pátria. Depois disso tinha havido outras
reviravoltas - duas, três, não lembrava quantas. Com toda a certeza as
confissões tinham sido escritas e reescritas, a ponto dos fatos e datas
originais não terem a mínima importância. O passado não podia apenas ser
modificado, podia ser mudado continuamente. O que mais o afligia, com uma
sensação de pesadelo, era nunca compreender com clareza por que se iniciara a
tremenda impostura. Eram óbvias as vantagens imediatas da falsificação do
passado, mas os motivos finais eram misteriosos. Ele tornou a pegar a caneta e
escreveu:
Compreendo COMO: não compreendo PORQUE. Indagou de seus botões, como
fizera muitas vezes, se não era lunático ele próprio. Talvez um lunático seja
apenas uma minoria de um. Antigamente, fora sinal de loucura acreditar que a
terra gira em torno do sol; hoje, crer que o passado é inalterável. Podia ser o
único a ter aquela crença, e sendo sozinho, lunático. A idéia de ser lunático,
porém, não o perturbava grandemente. O horror era estar enganado.
Tomou o livro escolar e olhou o retrato do Grande Irmão que formava o
frontispício. O olhar hipnótico fixou o de Winston. Era uma força enorme,
fazendo pressão - algo que penetrava o crânio, se chocava contra o cérebro,
amedrontava e fazia perder a fé, persuadia quase a negar a evidência dos
sentidos. No fim, o Partido anunciaria que dois e dois são cinco, e todos
teriam que acreditar. Era inevitável que o proclamasse mais cedo ou mais tarde:
exigia-o a lógica de sua posição. Sua filosofia negava tacitamente não apenas a
validez da experiência como a própria existência da realidade externa. O bom
senso era a heresia das heresias. E o que mais aterrorizava não era que
matassem o cidadão por pensar diferente, mas a possibilidade de terem razão.
Por que, afinal de contas, como sabemos que dois e dois são quatro? Ou que
existe a lei da gravidade? Ou que o passado é inalterável? Se tanto o passado
como o mundo externo só existem na mente, e se a mente em si é controlável...
então? Mas não! De repente a coragem de Winston pareceu fortalecer-se. O rosto
de O'Brien, sem ser recordado por nenhuma evidente associação de idéias,
surgira-lhe no espírito. E soube, com mais certeza do que antes, que O'Brien
estava do seu lado. Estava escrevendo o diário para O'Brien - a O'Brien; era
uma espécie de carta interminável, que ninguém leria, mas que era dirigida a
uma certa pessoa e por isso adquiria vibração.
O Partido ordenava que o indivíduo rejeitasse a prova visual e auditiva.
Era a sua ordem final, essencial. O coração de Winston fraquejou quando pensou
no enorme poderio que tinha pela frente, a facilidade com que qualquer
intelectual do Partido o deitaria por terra num debate, os sutis argumentos que
não conseguiria compreender, e muito menos responder. E no entanto, sentia ter
razão! Eles estavam errados! O óbvio, o tolo, e o verdadeiro tinham que ser
defendidos. Os truísmos são verdadeiros, esse é que é o fato! O mundo sólido
existe, suas leis não mudam. As pedras são duras, a água é líquida, os objetos
largados no ar caem sobre a crosta da terra. Com a impressão de falar com
O'Brien e também de estar fixando um importante axioma, ele escreveu:
A liberdade é a liberdade de dizer que dois e dois são quatro.
Admitindo-se isto, tudo o mais decorre.
Do fundo de uma viela vinha um cheiro de café torrado, - café de verdade,
e não café Vitória - que invadia a rua. Winston parou involuntariamente.
Durante talvez dois segundos perdeu-se no mundo semi-olvidado da infância. Daí
uma porta bateu, parecendo cortar o aroma como se fosse um ruído.
Caminhara vários quilômetros no leito da rua e a variz ulcerada estava
pulsando. Era a segunda vez em três semanas que falhava a um sarau no Centro
Comunal: gesto audacioso, pois podia ter a certeza de que era cuidadosamente
verificado o número de presenças no Centro. Em princípio, um membro do Partido
não tinha horas vagas, e não ficava nunca só, exceto na cama. Supunha-se que
quando não estivesse trabalhando, comendo ou dormindo, devia participar de
alguma recreação comunal; era sempre ligeiramente perigoso fazer qualquer coisa
que sugerisse o gosto pela solidão, mesmo que fosse apenas passear sozinho. Em
Novilíngua havia uma palavra para isso: proprivida, e significava
individualismo e excentricidade. Mas aquela noite, ao sair do Ministério,
tentara-o a calidez do ar de abril. O azul do céu era o mais morno que havia
visto aquele ano, e de súbito, pareceu-lhe intolerável a longa e ruidosa
noitada no Centro, com os jogos aborrecidos e cansativos, as conferências, a
camaradagem forçada, lubrificada pelo gim. Num impulso, afastara-se da parada
do ônibus e vagueara pelo labirinto de Londres, primeiro para o sul, depois
para o leste, depois para o norte, perdendo-se em ruas desconhecidas e pouco
ligando à direção tomada. "Se há esperança," escreveu no diário,
"está nos proles." As palavras tornavam-lhe à mente, expressão de uma
verdade mística e de um palpável absurdo. Encontrava-se nas favelas de cor
parda, que ficavam ao norte e a leste do que fora um dia a estação de São
Pancrácio. Subia uma rua calçada a lajes, de casinhas de dois andares, com
portas escalavradas que abriam sobre a via pública, e que de certo modo
sugeriam buracos de ratos. Entre as pedras da rua havia, aqui e ali, poças de
água imunda. Entrando e saindo das casas escuras, e embarafustando, pelos becos
estreitos que desembocavam dos dois lados da rua, o povo formigava numa
quantidade incrível - moças em plena floração, os lábios grosseiramente
pintados; rapazes que perseguiam as moças; mulheres inchadas e desgraciosas que
eram imagem do que seriam as moças dali a dez anos, velhos arcados, arrastando
os pés; crianças descalças e esfarrapadas que brincavam nas poças d'água e se
dispersavam aos gritos furiosos das mães. Talvez a quarta parte das janelas da
rua estavam quebradas e remendadas com papelão. A maioria não prestava atenção
em Winston; alguns o fitavam com uma espécie de disfarçada curiosidade. Duas
mulheres monstruosas, com braços cor de tijolo cruzados sobre o avental,
conversavam diante duma porta. Winston percebeu trechos de frase:
- Sim, eu disse prela. Tá muito bom, eu disse. Mas se tu tivesse no meu
lugar tu fazia que nem eu fiz. É faci criticá, eu falei, mas não tens os mermo
problema que eu.
- Ah - fez a outra - é isso mermo. Escritinho.
As vozes estridentes calaram-se de súbito. As mulheres estudaram-no em
silêncio hostil, quando ele passou. Mas não era exatamente hostilidade; era
mais uma espécie de cautela, um enrijamento momentâneo, como à passagem de um
animal raro. O macacão azul não podia ser comum numa rua como aquela. Na verdade,
era imprudente ser visto em tais lugares, a não ser que se tivesse uma tarefa
específica. As patrulhas poderiam detê-lo se o vissem. "Posso examinar
teus papéis, camarada? Que estás fazendo aqui? A que hora saíste do trabalho? É
o teu caminho habitual para casa?" e assim por diante. Não que houvesse
algum regulamento contra o regresso ao lar por um caminho diferente, mas
bastava para chamar a atenção da Polícia do Pensamento.
De repente, a rua toda se agitou. De todos os lados soaram gritos de
advertência. Os populares se escondiam em casa como coelhos. Uma moça saltou de
uma porta, pouco adiante de Winston, agarrou uma criancinha que brincava numa
poça, embrulhou-a no avental e tornou à casa, num pulo. No mesmo instante um
homem de terno preto, amassado como uma sanfona, e que surgira de um beco
lateral, correu para Winston, apontando o céu, muito nervoso:
- Vapor! - gritou. - Cuidado, patrão! Estoura já! Deita logo!
Não se sabia porque os proles tinham dado o apelido de "vapor"
às bombas-foguete. Winston prontamente se jogou de bruços. Os proles raro se
enganavam quando faziam essa advertência. Pareciam possuir uma espécie de
instinto que lhes dizia, com vários segundos de antecedência, que um foguete
estava chegando, embora voassem mais rápido que o som. Winston protegeu a
cabeça com os antebraços. Houve um ribombo que pareceu fazer o chão ofegar. Uma
chuva de detritos caiu-lhe nas costas. Quando se levantou viu que estava
coberto de fragmentos de vidro da janela próxima.
Continuou andando. A bomba demolira um grupo de casas duzentos metros
além, na mesma rua. Elevava-se para o céu uma nuvem negra de fumaça, e debaixo
dela outra de pó de caliça, na qual já se formava a multidão, cercando os
escombros. Diante dele, no lajeado, havia um montículo de reboco e estuque, e
no meio uma faixa vermelho vivo. Quando chegou perto viu que era uma mão humana
decepada pelo pulso. Fora o corte sanguinolento, a mão esbranquiçara de tal
modo que parecia um modelo de gesso. Com um pontapé atirou a mão à sarjeta e
depois, para evitar o povaréu, dobrou uma ruela à direita. Dali a três ou
quatro minutos deixara a área afetada pela bomba, e o sórdido formigamento da
vida das ruas continuava como se nada tivesse sucedido. Eram quase vinte horas,
e as lojas de bebidas freqüentadas pelos proles ("bares", eram
chamados) estavam cheias de fregueses. Pelas emporcalhadas portas de vai-vem,
que se abriam e fechavam sem cessar, vinha um cheiro de urina, serragem e
cerveja azeda. Num ângulo formado pela fachada saliente de uma casa, três
homens estavam parados, muito juntos, estudando um jornal seguro pelo do meio,
e que os dois outros liam por cima do ombro dele. Mesmo antes de chegar perto o
suficiente para lhes distinguir as feições, Winston pôde ver como estavam
absortos. Devia ser algo muito sério o que lhes prendia a atenção. Estava a
alguns passos de distância quando de repente o grupo se afastou e dois homens
se puseram a altercar violentamente. Por um minuto, até pareceu que fossem às
vias de fato.
- Não escutas o que t'digo? Pois se tou dizeno que nenhum número acabado
em sete já ganhou há mais de um ano e dois meis!
- Ganhô sim!
- Ganhô nada! Lá na terra tomei nota de tudo, doizano, num pedaço de papé.
Escrevi que nem relógio: direitinho. E t'digo que nenhum número acabado em sete...
- Ganhô sim! Espera aí que já me lembro do danado do número. Quatro, zero,
sete, era a terminação. Foi em fevereiro... segunda semana de fevereiro.
- Fevereiro a vovózinha! Eu tomei nota preto no branco. E t'digo que
nenhum número...
- Ora, cala a boca! - disse o terceiro homem. Estavam falando da Loteria.
A uns trinta metros de distância, Winston olhou para trás. Ainda discutiam,
rosto apaixonado, febril. A Loteria, com seus enormes prêmios semanais, era o
acontecimento público a que os proles davam a maior atenção. Era provável que
houvesse milhões de proles para quem a Loteria era o principal senão o único
motivo de continuar a viver. Era o seu deleite, sua loucura, seu anódino, seu
estimulante intelectual. Quando se tratava da Loteria, até gente que mal sabia
ler e escrever fazia intrincados cálculos e fantásticas proezas de memória.
Havia um exército de homens que ganhava a vida graças à simples venda de
sistemas, previsões e amuletos. Winston nada tinha que ver com a exploração da
Loteria, que era administrada pelo Ministério da Fartura, mas sabia (como
sabiam todos do Partido) que em grande parte os prêmios eram imaginários. Na
realidade, só eram pagas pequenas quantias, sendo pessoas inexistentes os
ganhadores da sorte grande. Na ausência de qualquer intercomunicação real entre
uma parte e outra da Oceania, não era difícil arranjar isso.
Mas se esperança havia, estava nos proles. Era preciso agarrar-se a isso
com unhas e dentes. Quando se traduzia o pensamento em palavras, parecia
razoável: mas quando se consideravam os seres humanos que passavam pela calçada
a idéia se transformava em ato de fé. A rua que tomara descia um declive. Teve
a sensação de já ter andado pela vizinhança, e de haver por perto uma avenida
principal. De alguma parte chegou-lhe aos ouvidos uma gritaria geral. A rua fez
uma curva brusca e acabou nuns degraus que conduziam a um beco em nível
inferior, onde alguns barraqueiros vendiam legumes murchos. Naquele momento,
Winston recordou-se donde estava. O beco dava para a rua principal, e depois da
próxima esquina, a menos de cinco minutos dali, ficava o bricabraque onde
comprara o livro branco que era agora seu diário. E a pequena papelaria, onde
comprara a caneta e o tinteiro.
Deteve-se um instante no alto da escada. Do outro lado do beco havia um
barzinho miserável cujas janelas pareciam embaciadas mas na verdade estavam
apenas cobertas de pó. Um ancião arcado mas ativo, com bigode branco eriçado
como um camarão, empurrou a porta e entrou. Contemplando-o, Winston de repente
imaginou que o velho, que devia ter no mínimo oitenta anos, já devia ser maduro
ao tempo da Revolução. Ele e uns poucos outros eram os últimos elos vivos com o
desaparecido mundo capitalista. No Partido não havia muita gente que tivesse
idéia formada antes da Revolução. A geração mais antiga tinha sido, na sua
maioria, liquidada nos grandes expurgos das décadas de 1950 a 70, e as sobras,
aterrorizadas, se haviam refugiado na mais completa submissão intelectual. Se
ainda restasse vivo alguém capaz de fazer uma descrição verídica das condições
na primeira metade do século, só podia ser um prole. De repente, veio à mente
de Winston o trecho do livro de história que copiara no seu diário, e um
impulso lunático o dominou. Entraria no bar, travaria conhecimento com o velho
e o interrogaria. Haveria de pedir-lhe: "Fale-me de sua vida quando o sr.
era menino. Como era, naqueles dias? As coisas eram melhores que hoje, ou eram
piores?"
Apressadamente, como se tivesse receio de perder a coragem, desceu os
degraus e atravessou a rua estreita. Era loucura, evidentemente. Como de praxe,
não havia regulamento contra a conversa com os proles nem a freqüência de seus
bares, mas era ato muito fora do comum para passar despercebido. Se as
patrulhas aparecessem ele poderia desculpar-se dizendo que se sentira mal,
porém era pouco provável que lhe dessem crédito. Empurrou a porta, e um
horrendo cheiro de queijo e cerveja azeda, atingiu-o em cheio. Quando entrou o
barulho das vozes diminuiu talvez a metade do volume. Por trás das costas podia
sentir todo mundo a examinar-lhe o macacão. Um jogo de flechinhas ao alvo, no
outro extremo da sala, interrompeu-se por uns trinta segundos. O velho que ele
seguira estava no balcão, altercando com o botequeiro, um rapaz corpulento, de
nariz de gancho e braços enormes. Vários fregueses do bar, com os copos na mão,
observavam a cena.
- Te pedi com educação, não foi? - insistiu o velho endireitando os ombros
belicosamente. - Qué me dizê que não têm uma caneca de pinta nesta birosca?
- E que demônio de troço é uma pinta? - quis saber o botequeiro,
inclinando-se para a frente e apoiando-se no balcão com as pontas dos dedos.
- Oia só ele! Botequineiro que nem sabe o que é pinta! Ué, uma pinta é a
metade duma quarta, e tem quatro quartas no galão. Daqui a pouco tenho que te
ensiná o abc!
- Nunca escuitei falá nisso - disse o rapaz. - Litro e meio-litro... é só
o que servimos. Aí estão as canecas na sua frente.
- Gosto de pinta - persistiu o velho. - Você bem que me podia servi uma
pinta. Não tinha essas besteiras de litro quando eu era moço.
- Quando tu era moço nós todos morava trepado nas arve - disse o
botequeiro, olhando de soslaio para os outros fregueses.
Houve uma gargalhada geral, e pareceu desaparecer o mal-estar causado pela
entrada de Winston. Sob a barba branca que despontava, o velho corou
violentamente. Voltou-se, falando sozinho, e tropeçou em Winston, que o segurou
delicadamente pelo braço.
- Permites que te ofereça um gole?
- O sr. é um cavalheiro - disse o outro, tornando a endireitar os ombros.
Não parecia ter notado o macacão azul de Winston. - Uma pinta! - acrescentou,
agressivo, dirigindo-se ao botequeiro. - Uma pinta da boa!
O taverneiro serviu dois meios-litros de cerveja marrom escura em canecas
que enxaguara num balde debaixo do balcão. Nos bares dos proles só se podia
tomar cerveja. Não lhes era permitido tomar gim, conquanto, na prática, fosse
facílimo arranjá-lo. O jogo das flechinhas se reanimara, e os homens encostados
ao balcão, haviam reiniciado a conversa sobre a Loteria. Por um momento, fora
esquecida a presença de Winston. Debaixo da janela havia uma mesa junto à qual
podia conversar à vontade com o velho. Era um perigo horrível, mas pelo menos
não havia teletela no salão, o que verificara logo ao entrar.
- Ele bem que podia me serví uma pinta, - queixou-se o velho, sentando. -
Meio litro não chega. Não satisfais. E um litro é muito. Me faz a bixiga
trabalhá. E o preço!?
- Deves ter visto muita coisa mudar, desde mocinho - começou Winston,
experimentando.
Os olhos azul pálido do homem percorreram o bar do alvo das flechas ao
balcão, do balcão à porta dos "Homens" como se as mudanças tivessem
ocorrido ali mesmo.
- A cerveja era mió - disse por fim. - E mais barata! Quando eu era moço,
cerveja clara - da boa - custava quatro dinheiros a pinta. Isso antes da
guerra, naturalmente.
- Que guerra? - indagou Winston.
- De todas as guerras - respondeu o velho, vagamente. Levantou o copo e
tornou a endireitar os ombros. - Com os meus mió voto de saúde e filicidade.
No pescoço magro o pomo de Adão, muito pontudo, fez um rapidíssimo
movimento de subir e descer, e a cerveja sumiu. Winston foi ao balcão e voltou
com dois outros meios-litros. O velho parecia ter esquecido seus preconceitos.
- És muito mais velho que eu - disse Winston. - Devias ser adulto antes de
eu nascer. Deves lembrar como era a vida antigamente, antes da Revolução. Gente
da minha idade não sabe nada daquela época. Só podemos ler nos livros, e o que
dizem os livros pode não ser verdade. Gostaria de conhecer tua opinião a respeito.
Os livros de história dizem que antes da Revolução a vida era completamente
diferente do que é hoje. Reinava a mais terrível opressão, injustiça, pobreza -
pior do que tudo que imaginamos. Aqui em Londres a maioria do povo nunca tinha
bastante o que comer, do berço ao túmulo. Metade da população não tinha sapato.
Trabalhava doze horas por dia, saía da escola aos nove anos, dormiam dez em
cada quarto. Ao mesmo tempo havia um grupinho, de alguns milhares - os chamados
capitalistas - ricos e poderosos. Eram donos de tudo quanto existia. Moravam em
casarões lindos com trinta empregados, passeavam de automóvel e carruagem de
quatro cavalos, bebiam champanha, usavam cartolas...
O rosto do velho se iluminou.
- Cartolas! - disse ele. - Engraçado que fale nisso. A mema coisa me veiu
na cabeça onte, não sei pruquê. Tava pensano, fais tanto tempo que não vejo uma
cartola! Acabaro, parece. A última veis que usei uma foi no entêrro de minha
cunhada. E isso foi... Ah, bom, não sei mais a data, mas foi uns cinqüenta anos
atrais. Naturalmente aluguei ela prô entêrro, compreende, né?
- As cartolas não têm importância - disse Winston, com paciência. - A
coisa é que esses capitalistas, mais alguns advogados e padres, e outros que
tais, que viviam no meio deles, eram os donos da terra. Tudo existia para o
gozo deles. O povinho comum, os trabalhadores, eram escravos deles. Podiam
fazer o que bem entendessem. Podiam mandar-vos como gado para o Canadá. Podiam
dormir com vossas filhas, se quisessem. Podiam mandar bater-vos com uma coisa
chamada gato de nove caudas. Tinhas que tirar o boné quando passavas por eles.
Cada capitalista andava com um bando de lacaios que...
O rosto do velho tornou a iluminar-se.
- Lacaios! - disse ele. - Palavra que não escuito já fais tempão. Lacaios.
Me fais vortá muito zano pra trais. Me lembro... chi, nem me alembro quanto
tempo! ... que eu às veis ia pro Aide Parque escuitá os cara fazeno discurso.
Exército da Sarvação, Católico, judeu, indiano... todo mundo. E havia um
sojeito - não sei do nome dele, mas era um faladô batuta, isso era. E metia o
pau. "Lacaios!" gritava. "Lacaios da burguesia! Cupichas da
classe dominante!" Parasita era outra palavra bonita. E hienas, ele falava
muito em hiena. O sior compreende, né, ele tava falando contro Partido Trabalhista.
Winston teve a impressão de que as linhas se haviam cruzado.
- O que na verdade desejo saber é isto: achas que hoje há mais liberdade
do que naquele tempo? És tratado mais como ser humano? No passado os ricaços,
os que mandavam...
- A Câmara dos Lordes - completou o velho, reminiscente.
- Vá lá, a Câmara dos Lordes. O que te pergunto é isto, essa gente te
tratava como inferior, só porque era rica e tu eras pobre? Não é verdade que
tinhas de chamar os ricos de "senhor" e tirar o boné quando passavas
por eles?
O velho pareceu meditar profundamente. Bebeu talvez a quarta parte da
caneca de chope antes de responder.
- Sim. Eles gostavo que a gente cumprimentasse eles co boné. Era siná de
respeito, né? Eu não concordava, mais fazia. Tinha de fazê.
- E era comum - apenas repito o que li, nos livros de história - que essa
gente e sua criadagem empurrassem os outros para a sargeta?
- Uma vez um cara me empurrou - disse o velho. - Me lembro como se fosse
onte. Era a noite da Regata - ficavam levado da breca em noite de Regata - e eu
bumba num rapaz na avenida Shaftesbury. Todo impelicado, o zinho - camisa de
peito duro, cartola, sobretudo preto. Ia indo em zigue-zague pela calçada e eu
esbarrei nele sem querer. Ele disse "Por que não olha para onde vai?"
disse. E eu disse "Cê pensa que comprou o raio da calçada?" Ele disse
"Eu te torço esse pescoço duma figa se você se mete a sebo." "Cê
tá bebo, já te mando prendê," eu disse. E o sr. não acredita, mas ele botô
as mãos no meu peito e me deu um empurrão que quaji me atira debaixo das roda
dum ônibu. Daí eu, uai, eu era moço, e ia lhe largá uma daquelas...
Uma espécie de desespero dominou Winston. A memória do velho não passava
de um monturo de pormenores à toa. Poderia interrogá-lo o dia inteiro sem obter
nenhum dado genuíno. De certo modo, as histórias do Partido talvez fossem
verdadeiras: podiam até ser completamente verídicas. Fez a última tentativa.
- Talvez não me expliquei bem, - disse. - O que quero dizer é o seguinte.
Vives há muito tempo. Viveste metade da vida antes da Revolução. Em 1925, por
exemplo já eras adulto. Pelo que recordas, podes dizer que a vida em 1925 era
melhor que agora, ou pior? Qual escolherias, quando preferias viver, naquela
época ou agora?
O homem fitou longamente o alvo das flechinhas. Terminou o chope, mais
devagar que antes. Quando falou foi com um ar tolerante, filosófico, como se a
cerveja o tivesse abrandado.
- Sei o que o sr. espera que eu diga. Espera que diga que preferia ser
moço traveis. A maioria das pessoa diz que queria ser moça, se o sr. perguntá.
A gente tem saúde e força quando é mais novo. Quando se chega a esta idade não
se tem mais saúde. Meus pé dói muito e minha bixiga então nem se fala. Seis a
sete veis por noite tenho de levantá, Mais tem sua vantage, sê velho. Não tenho
tanta dor de cabeça. Nada de muié, e é formidave. Há uns trinta ano que não
ando com muié, se o sr. credita. Nem quis, posso jurá.
Winston encostou-se ao peitoril da janela. Não adiantava continuar. Ia
comprar mais cerveja quando o velho de repente se levantou e se encaminhou
rápido para o mictório fedorento, ao lado da sala. O segundo meio-litro estava
funcionando. Winston ficou um minuto ou dois olhando a caneca vazia, e mal
notou quando os pés o levaram de novo para a rua. Dali a vinte anos, no máximo,
refletiu ele, a pergunta simples e momentosa "Antes da Revolução a vida
era melhor que agora?" deixaria de ser respondível para todo o sempre. De
fato, porém, já era irrespondível, pois alguns dispersos sobreviventes do mundo
antigo eram incapazes de comparar uma época com outra. Lembravam-se de um
milhão de coisas inúteis, duma briga com um colega, a busca de uma bomba de
bicicleta, a expressão no rosto de uma irmã falecida, o rodopio da poeira numa
manhã de vento, setenta anos atrás: mas todos os fatos relevantes já estavam
fora do alcance da sua visão. Eram como a formiga, que pode ver pequenos
objetos, mas não enxerga os grandes. E quando a memória falhava, e os registros
escritos eram falsificados - era forçoso aceitar a assertiva do Partido de que
tinham melhorado as condições da vida humana, porque não existia, nem jamais
poderia existir, qualquer padrão de comparação.
Naquele momento o fio dos seus pensamentos se deteve de repente. Ele parou
e levantou o olhar. Estava numa rua estreita, com algumas lojinhas escuras
perdidas entre residências. Bem por cima de sua cabeça pendiam três fanadas
esferas de metal, que tinham jeito de haver sido douradas. Pareceu-lhe conhecer
o lugar. Pois, claro! Estava diante da quinquilharia onde comprara o diário!
Um arrepio de medo o agitou. Já fora bastante ousado comprar o livro, e
jurara nunca mais se aproximar da casa. Entretanto, no momento em que deixava o
pensamento vaguear, os pés o levavam para lá, por iniciativa própria. Era
exatamente contra impulsos suicidas dessa natureza que esperara se defender,
iniciando o diário. Observou ao mesmo tempo que embora fossem quase vinte e uma
horas, a loja continuava aberta. Com a sensação de que daria menos na vista
entrando do que ficando na calçada, entrou. Se perguntassem, responderia,
plausivelmente, que procurava lâminas de barba.
O proprietário acabava de pendurar do teto um mal cheiroso candeeiro de
azeite. Era um homem de seus sessenta anos, frágil e arcado, de nariz comprido,
benévolo, olhos calmos deformados pelos óculos grossos, Tinha cabelo quase
branco, mas as sobrancelhas eram bastas e pretas. Os óculos, e seus movimentos
exageradamente gentis, e o fato de usar paletó de veludo negro, davam-lhe um ar
indefinível de intelectualidade, como se fosse literato, ou músico talvez. A
voz era suave, parecia desbotada e sua prosódia era menos dissonante do que a
da maioria dos proles.
- Reconheci o sr. na calçada, - disse, imediatamente.
- Foi o senhor que me comprou aquele álbum de recordações. Papel lindo, um
mimo para uma moça. Linho creme, chamava-se. Há uns... digamos cinqüenta
anos... que não se fabrica papel assim. - Contemplou Winston por cima das
lentes. - Procura alguma coisa em particular? Ou só quer uma olhada?
- Ia passando - respondeu Winston, aéreo. - Vim dar uma olhada. Não quero
nada.
- Perfeitamente - concordou o homem. - Não creio que pudesse satisfazê-lo.
- Fez um gesto de desculpas com a mão. - O sr. está vendo. Não tenho nada. Loja
vazia. Cá entre nós, está morto o ramo de antiquário. Ninguém mais o quer. Nem
há estoque. Móveis, porcelanas, cristais - tudo foi acabando. E naturalmente o
que era de metal foi fundido. Há muitos anos que não vejo um castiçal de latão.
Ao invés, a lojinha estava atulhada de mercadorias, mas coisa alguma valia
nada. Mal se podia andar, porque o chão estava tomado por pilhas de molduras
empoeiradas. Na janela havia bandejas com porcas e parafuso, formões sem corte,
canivetes de folha partida, relógios enegrecidos que nem fingiam poder
funcionar, e uma variedade enorme de bricabraque. Apenas numa mesinha ao canto
havia uma miscelânea - caixas de rapé, laqueadas, broches de ágata, coisas
assim - que parecia incluir algo interessante. Quando Winston dela se
aproximou, seu olhar foi atraído por um objeto liso, redondo, que brilhava
suavemente, à luz do lampião. Tomou-o na mão e examinou-o.
Era um pesado bloco de vidro, hemisférico, e tanto a textura como o
colorido do cristal ostentavam estranha suavidade, como a da água da chuva. Bem
no centro, ampliado pela superfície convexa, havia um objeto cor de rosa, em
voluta, que lembrava uma rosa ou uma anêmona do mar.
- Que é isto? - perguntou Winston, fascinado.
- É coral - informou o velho. - Deve ter vindo do oceano índico.
Costumavam embuti-lo assim, em vidro. Isso foi feito no mínimo há cem anos.
Quem sabe até mais.
- É lindo - suspirou Winston.
- É mesmo - concordou o velho, com ar de apreciador.
- Mas pouca gente o diria hoje. - Tossiu. - Se por acaso o sr. quiser
comprar, são quatro dólares. Lembro-me duma época em que uma coisa dessas
renderia oito libras esterlinas, e oito libras eram, .. bom, não sei mais
calcular... mas era um bocado de dinheiro. Hoje porém, quem liga às
antiguidades genuínas, as poucas que restam?
Winston pagou imediatamente os quatro dólares e meteu no bolso o cobiçado
objeto. Atraía-o não tanto a sua beleza como o fato de pertencer a uma época
muito diferente da atual. O vidro macio, límpido como água da chuva, não se
parecia com vidro algum, dos que conhecia. A coisa era-lhe duplamente atraente
por ser inútil, embora adivinhasse que fora usada outrora como peso de papéis;
pesava muito no bolso, mas por sorte não fazia muito volume. Era um objeto
estranho, comprometedor mesmo, para um membro do Partido possuir. Tudo quanto
fosse antigo, e tudo quanto fosse belo, era sempre vagamente suspeito. O velho
tornara-se bem mais loquaz depois de receber os quatro dólares. Winston
percebeu que teria aceito três, ou mesmo dois.
- Lá em cima tenho um quarto, que o sr. talvez queira conhecer - disse. -
Não há grande coisa, algumas peças apenas. Deixe-me acender o lampião.
Acendeu outra lâmpada e, sempre arcado, tomou a dianteira, subindo os
degraus altos e gastos. Ganharam um corredor minúsculo e entraram num cômodo
que não dava para a rua, abrindo sobre um pátio lajeado e uma floresta de
coifas de chaminé. Winston reparou que o quarto estava mobiliado como se alguém
ainda o habitasse. Havia um pedaço de tapete no soalho, um ou dois quadros na
parede, e uma poltrona funda, mal conservada, junto à lareira. Um carrilhão antigo,
com mostrador de doze horas, tiquetaqueava na escarpa. Sob a janela, ocupando
quase a quarta parte do cômodo, uma cama enorme, de casal, ainda com o colchão.
- Usei o quarto até minha mulher morrer - disse o velho, em tom de meia
desculpa. - Estou vendendo a mobília aos pouquinhos. Essa cama de mogno é
linda, ou seria, se fosse possível livrá-la dos percevejos. Creio porém que o
sr. julga um pouco sem jeito.
Levantou o lampião, para iluminar todo o quarto, e sob luz morna e
amarelada, o lugar parecia curiosamente convidativo. Pela cabeça de Winston
perpassou a idéia de que seria facílimo alugar o quarto por alguns dólares
semanais, se tivesse coragem de se arriscar. Era uma idéia louca, impossível, a
ser abandonada imediatamente. Mas o quarto despertara nele uma espécie de
nostalgia, de saudade ancestral. Parecia-lhe saber exatamente que impressão
dava sentar-se num quarto assim, numa poltrona ao pé do fogo, com os pés na
guarda e a chaleira no gancho: completamente só, em completa segurança, sem
ninguém a fitá-lo, sem voz a persegui-lo, sem ruído algum além do tique-taque
do relógio e o chilrear da chaleira.
- Não há teletela! - murmurou, embevecido.
- Nunca tive dinheiro para comprar uma - disse o velho. - E não sinto
falta. Ali tenho uma bonita mesa de abrir, naquele canto. Só que se o sr.
quiser usá-la tem de trocar as dobradiças.
No outro canto havia uma pequena estante de livros e Winston já se
encaminhara para ela. Só continha porcaria. A busca e destruição de livros fora
realizada no bairro dos proles com o mesmo método que nos outros. Era pouco
provável que ainda existisse na Oceania algum livro impresso antes de 1960. O
velho, ainda empunhando a lâmpada, estava parado na frente de um quadro
emoldurado em pau-rosa, preso à parede diante da lareira.
- Se o sr. estiver interessado em gravuras antigas... - começou,
delicadamente.
Winston atravessou o quarto para examinar o quadro. Era uma gravura em aço
de um edifício oval, de janelas retangulares, e uma pequena torre na frente.
Havia uma grade de ferro em torno do prédio, e atrás algo semelhante a uma
estátua. Winston fitou-o alguns momentos. Parecia-lhe vagamente familiar,
embora não se lembrasse da estátua.
- A moldura está fixa na parede - explicou o velho.
- Se quiser, posso desparafusá-la.
- Conheço esse prédio - anunciou Winston por fim.
- Está em ruínas, agora. Fica no meio da rua do Palácio da Justiça.
- É isso, perto do Foro. Foi bombardeado em... há muitos anos. Era uma
igreja, antigamente. Chamava-se S. Clemente dos Dinamarqueses. - Sorriu, com ar
de desculpa, como quem dissesse algo ligeiramente ridículo e acrescentou: -
Laranjas e limões, dizem os sinos de S. Clemente!
- Como é?
- Ah... Laranjas e limões, dizem os sinos de S. Clemente. Uma modinha que
havia quando eu era menino. Não me lembro como é que continuava, mas sei que
acabava assim: Aí vem uma luz para te levar para a cama, Aí vem um machado para
te cortar a cabeça. Era uma espécie de dança. Faziam um corredor de mãos dadas
e braços erguidos e a gente passava por baixo. Quando chegava em "para te
cortar a cabeça," desciam os braços e prendiam a pessoa. Era tudo com o
nome das igrejas. Todas as igrejas de Londres - isto é, as principais.
Winston indagou vagamente de si mesmo a que século pertenceria a igreja.
Era sempre difícil determinar a idade de um prédio londrino. Tudo quanto fosse
grande e imponente, e de aparência relativamente nova, era automaticamente
declarado post-revolucionário, enquanto que tudo mais, evidentemente antigo,
era atribuído a um período obscuro denominado Idade Média. Afirmava-se que
séculos e séculos de capitalismo não haviam produzido nada de valor. Da
arquitetura não se podia aprender mais história do que dos livros. Ruas, pedras
comemorativas, estátuas, nomes de ruas - tudo quanto pudesse lançar luz sobre o
passado fora sistematicamente alterado.
- Nunca soube que foi uma igreja.
- Ainda há uma porção delas em pé - disse o velho - embora as utilizem
para outros fins. Como era mesmo a cantiga? Ah, já sei: "Laranjas e
limões, dizem os sinos de S. Clemente. Me deves três vinténs, dizem os sinos de
S. Martinho" É o que lembro. O vintém era uma moedinha de cobre, meio
parecida com um centavo.
- E S. Martinho, onde ficava?
- S. Martinho? Ainda está no lugar. Fica na praça da Vitória, ao lado da
pinacoteca. Um edifício com fachada triangular, colunata, e grande escadaria.
Winston conhecia bem o prédio. Era um museu destinado a diversas
exposições de propaganda - miniaturas de bombas-foguetes e Fortalezas
Flutuantes, modelos de cera representando atrocidades do inimigo e assim por
diante.
- Chamava-se S. Martinho dos Campos - acrescentou o velho - mas não me
lembro de nenhum campo naquelas paragens.
Winston não comprou a gravura. Teria sido uma propriedade ainda mais
incongruente do que o peso de papéis, e impossível de levar para casa, a não
ser que a tirasse da moldura. Mas se deixou ficar alguns minutos com o velho,
cujo nome, descobriu, não era Weeks - como se poderia concluir do letreiro na
fachada - mas Charrington. Ao que parecia, o sr. Charrington era um viúvo de sessenta
e três anos e residia na loja havia trinta. Todo esse tempo tencionara mudar o
nome da placa, mas nunca tomara a decisão final. Durante a palestra, a cantiga
meio esquecida ecoou na cabeça de Winston. "Laranjas e limões, dizem os
sinos de S. Clemente. Me deves três vinténs, dizem os sinos de S.
Martinho!" Era curioso, mas repetindo a letra tinha a ilusão exata de
ouvir sinos, os sinos de uma Londres perdida que ainda existia nalguma parte,
disfarçada e esquecida. De suas torres fantasmas, ele parecia ouvi-los
bimbalhando. Entretanto, até onde podia recordar, nunca na vida ouvira um sino.
Despediu-se do sr. Charrington e desceu a escada sozinho, para que o velho
não o visse examinando a rua antes de sair. Já resolvera que, depois de um
intervalo apropriado - um mês, por exemplo, - correria de novo o risco de
visitar a loja. Talvez não fosse mais perigoso do que falhar a um sarau no
Centro. A grande tolice fora voltar ali, depois de comprar o diário, sem saber
se o dono da loja merecia confiança. Contudo...
Sim, pensou, haveria de voltar. Compraria novas amostras de linda
bobagem. Compraria a gravura de S. Clemente dos Dinamarqueses, desemoldurando-a
e levando-a para casa escondida dentro do macacão. Arrancaria da memória do sr.
Charrington o resto da cançonetas. Até o projeto lunático de alugar o quarto de
cima tornou a cintilar no seu juízo. Durante uns cinco segundos talvez a
exaltação o tornou descuidado e ele pisou a calçada sem dar uma única espiadela
preliminar. Ia até trauteando, com melodia improvisada Laranjas e limões, dizem
os sinos de S. Clemente, Me deves três vinténs, dizem os... De repente o
coração pareceu-lhe gelar no peito, e as tripas derreterem. Uma pessoa de
macacão azul vinha na direção oposta, a menos de dez metros. Era a morena do
Departamento de Ficção. A luz crepuscular era pouca, mas suficiente para
reconhecê-la. Ela olhou-o bem no rosto e continuou como se não o tivesse visto.
Durante uns segundos, Winston sentiu-se tão paralisado que não pôde se
mexer. Depois virou para a direita e saiu com passos tardos, sem notar que
tomara a direção errada. De qualquer maneira, uma questão se esclarecera. Não
podia mais haver dúvida de que a moça o estava espionando. Devia tê-lo seguido
até lá, porque não era crível que por puro acaso fosse passear a mesma noite
pela mesma ruinha obscura, a quilômetros de distância de qualquer bairro
habitado por membros do Partido. Era demasiada coincidência. Pouco importava
que pertencesse à Polícia do Pensamento, ou que fosse mera espiã amadora,
impelida pelo desejo de fazer média. Provavelmente, vira-o também entrar no
bar.
Andar era um esforço. A cada passo, o peso de cristal no bolso lhe batia
na coxa, e eIe teve ganas de jogá-lo fora.
O pior de tudo era a dor de barriga. Durante uns dois minutos, teve a
impressão de que morreria se não fosse logo à privada. Mas não devia haver
gabinetes públicos num bairro daqueles. Felizmente, o espasmo passou, deixando
em seu lugar uma dor surda.
A rua era um beco sem saída. Winston parou, ficou uns segundos pensando no
que fazer, depois deu meia-volta e regressou. Ao se voltar, ocorreu-lhe que
como a moça cruzara por ele uns três minutos antes, haveria de alcançá-la,
provavelmente. Poderia segui-la até um lugar ermo, e então esmigalhar-lhe o
crânio com um paralelepípedo. O peso de papel seria suficiente para isso. Mas
ele abandonou imediatamente o plano, porque era insuportável a simples idéia do
esforço físico. Não podia correr, não podia desferir uma Pancada. Além disso,
ela era jovem e vigorosa e certamente se defenderia. Pensou também em correr ao
Centro Comunal e ficar lá até fechar, de modo a estabelecer um álibi parcial
para a noite. Mas também isso era impossível. Uma tremenda lassitude o
dominava. O que queria era ir logo para casa, sentar-se e descansar.
Passava das vinte e duas quando chegou ao apartamento. As luzes seriam
desligadas na chave geral às vinte e três e trinta. Foi à cozinha e engoliu uma
xícara quase cheia de gim Vitória. Foi então à mesa, no nicho da sala,
sentou-se e tirou o diário da gaveta. Mas não o abriu imediatamente. Na
teletela uma mulher com voz de lata berrava uma canção patriótica. Ele ficou
contemplando o papel mármore da capa do caderno, tentando sem êxito banir dos
sentidos aquela voz.
Era à noite que vinham buscar a gente, sempre à noite.
O melhor era matar-se antes de ser apanhado. Sem dúvida havia gente capaz
disso. Com efeito, muitos dos desaparecidos eram suicidas. Mas era preciso
coragem desesperada para se matar num mundo em que era impossível obter armas
de fogo, ou veneno rápido e certo. Pensou, com uma espécie de assombro, na
inutilidade biológica da dor e do medo, na traição do corpo humano que sempre
se congela na inércia, no momento exato em que dele se exige esforço especial.
Poderia ter silenciado a moça morena se conseguisse agir com rapidez, mas
precisamente por causa do perigo extremo que corria perdera a capacidade de
agir. Ocorreu-lhe que, em momentos de crise, nunca se luta com um inimigo
externo, mas com o próprio organismo. Mesmo agora, apesar do gim, a dor surda
do ventre tornava impossível dois pensamentos consecutivos. E é o mesmo em
todas as situações aparentemente heróicas ou trágicas. No campo de batalha, na
câmara de tortura, num navio que naufraga, as causas por que lutamos são sempre
secundárias, esquecidas, porque o corpo incha e se infla até ocupar todo o
universo, e mesmo quando não nos paralisa o medo, nem gritamos de dor, a vida é
uma luta, minuto a minuto, contra a fome, o frio, a insônia, contra uma dor de
estômago ou de dentes.
Abriu o diário. Era importante escrever alguma coisa. A mulher da teletela
atacara nova canção. Sua voz parecia ferir-lhe os miolos como estilhaços
irregulares de vidro. Ele procurou pensar em O'Brien, para quem, ou a quem,
estava escrevendo o diário, mas ao invés se pôs a pensar no que lhe aconteceria
quando a Polícia do Pensamento o levasse. Não fazia diferença, se o matassem
logo. Ser morto era o que esperava. Mas antes da morte (ninguém falava de tais
coisas, mas todo mundo sabia) havia a rotina da confissão: rastejar no chão e
implorar misericórdia, o estalo de ossos partidos, os dedos quebrados e o
cabelo com coágulos de sangue. Por que passar por tudo isso, se o fim era
sempre o mesmo? Por que não encurtar de alguns dias ou algumas semanas a vida
do sujeito? Ninguém jamais escapava ao descobrimento, nem ninguém deixava de
confessar. Quando se sucumbia à crimidéia era certo que em determinada data se
estava morto. Por que então aquele terror fatal do futuro, que nada alterava?
Ele tornou a tentar, com um pouco mais de êxito, conjurar a imagem de
O'Brien. "Tornaremos a nos encontrar onde não há treva," dissera
O'Brien. Ele sabia o que significavam aquelas palavras, ou acreditava saber. O
lugar onde não havia trevas era o futuro imaginário, que nunca se podia ver mas
que, pelo pensamento, se podia partilhar misticamente. Mas com a voz da tela a
lhe azucrinar os ouvidos, não era possível continuar o fio dos pensamentos. Pôs
um cigarro na boca. Metade do fumo caiu-lhe na língua, uma poeira amarga
difícil de cuspir. O rosto do Grande Irmão surgiu-lhe na mente, deslocando o de
O'Brien. Tal como fizera uns dias antes, tirou um níquel do bolso e examinou-o.
O rosto fitava-o de frente, pesado, calmo, protetor, mas que espécie de
sorriso se ocultava sob o bigode negro? Como um dobre a finados, voltaram-lhe à
mente as palavras:
GUERRA É PAZ LIBERDADE É ESCRAVIDÃO IGNORÂNCIA É FORÇA
Ia pela metade o expediente matutino e Winston saíra do cubículo para ir à
toalete.
Uma figura solitária caminhava ao seu encontro, do outro extremo do
corredor enorme, bem iluminado. Era a moça do cabelo escuro. Quatro dias se
haviam passado desde o encontro diante da casa de quinquilharia. Quando se
aproximou, viu que ela trazia o braço direito na tipóia, que se não distinguia
a distância por ser da mesma cor que o macacão. Certamente machucara a mão
fazendo girar um dos grandes caleidoscópios nos quais eram "criados"
os enredos das novelas. Era um desastre comum no Departamento de Ficção.
Estavam a talvez quatro metros de distância quando a moça tropeçou e caiu
de bruços. Soltou um grito de dor agudo. Devia ter caído sobre o braço ferido.
Winston deteve-se. A moça levantara-se sobre os joelhos. Seu rosto estava de
cor amarelo-creme, que fazia destacar a boca, mais vermelha que nunca. Fixava-o
dentro dos olhos, com uma expressão implorante que parecia mais de medo que de
dor.
Uma emoção estranha agitou o coração de Winston. Diante dele estava um
inimigo que queria matá-lo; mas diante dele, também, havia uma criatura humana,
sofrendo, talvez com um osso quebrado. Já se adiantara instintivamente para
ajudá-la. No momento em que a vira cair sobre o braço vendado, sentira como que
uma dor no próprio corpo.
- Te machucaste? indagou.
- Não é nada. Meu braço. Daqui a um instantinho está bom.
Ela falou como tivesse o coração agitado. Empalidecera fortemente.
- Não quebraste nada?
- Não, estou bem. Doeu um pouco, mas já passou. Deu-lhe a mão livre, e ele
ajudou-a a levantar-se. Ela já recuperara um pouco do seu colorido e parecia
estar melhor.
- Não é nada - repetiu. - Apenas deu um baque no pulso. Obrigada,
camarada!
E com isso continuou na direção em que ia antes, com o mesmo passo
decidido, como se de fato fosse nada. O incidente todo mal durara meio minuto.
Nem isso, talvez. Não permitir que os sentimentos se revelem na fisionomia era
um hábito que adquirira proporções de instinto, e além disso tudo sucedera
diante duma teletela. Não obstante, fora muito difícil não trair uma surpresa
momentânea, porque nos dois ou três segundos que estivera a ajudá-la a moça
passara à mão dele um objeto qualquer. Não havia dúvida de que o fizera
intencionalmente. Era algo pequeno e chato. Quando entrou no mictório, ele
transferiu o objeto ao bolso e apalpou-o com as pontas dos dedos. Era um pedaço
de papel, dobrado várias vezes.
Parado diante do vaso ele conseguiu, manobrando os dedos, desdobrar o
papel. Evidentemente, continha um recado. Por um momento, sentiu-se tentado a
trancar-se na privada e lê-lo ali mesmo. Mas seria uma estúpida loucura, como
sabia muito bem. Não havia lugar que as teletelas vigiassem com maior atenção e
continuidade.
Voltou ao cubículo, sentou-se, atirou o fragmento de papel, com toda a
naturalidade, entre outros papéis sobre a escrivaninha, colocou os óculos e
puxou o falascreve na sua direção. "Cinco minutos", disse ele consigo
mesmo, "cinco minutos no mínimo!" Dentro do peito o coração lhe
martelava com um barulho de dar medo. Felizmente, estava ocupado com um
trabalho de rotina, mera retificação de uma lista de cifras, o que não exigia
grande atenção.
Fosse o que fosse, devia ter sentido político a mensagem do papel. Tanto
quanto podia imaginar, só havia duas possibilidades. Uma, e a mais provável,
era de que a moça fosse agente da Polícia do Pensamento, como temia. Não sabia
por que a Polícia do Pensamento haveria de mandar recados daquela maneira, mas
devia ter seus motivos. O que estava escrito no papel podia ser uma ameaça, uma
intimação, uma ordem de suicídio, uma armadilha qualquer. Mas havia outra
possibilidade, mais louca, que insistia em levantar a cabeça, embora debalde
tentasse suprimi-la. Era de a mensagem vir não da Polícia do Pensamento, mas de
alguma organização clandestina. Talvez a Fraternidade existisse, afinal de
contas! Talvez a moça fizesse parte dela! Sem dúvida, a idéia era absurda, mas
lhe brotara na mente no mesmo instante em que sentira o papel na mão. Só dali a
uns dois minutos foi que a outra explicação mais provável lhe ocorrera. E mesmo
agora, conquanto o intelecto lhe dissesse que o recado com certeza significava
morte - não era o que ele acreditava, e a esperança irracional persistia, o
coração tumultuava, e foi com dificuldade que impediu a voz de tremer ao
murmurar os números dentro do falascreve.
Enrolou todos os papéis da tarefa terminada e meteu o maço no tubo pneumático.
Oito minutos haviam passado. Reajustou os óculos no nariz, suspirou e puxou
outro maço de papéis, com o recado em cima. Alisou-o com os dedos. No papel
estava escrito, em caligrafia graúda e irregular:
Eu te amo.
Durante vários segundos ele ficou tão boquiaberto que nem se lembrou de
atirar no buraco da memória o papel incriminador. Quando afinal o jogou fora,
não pôde resistir a uma segunda leitura, para se certificar de que eram aquelas
as palavras, embora soubesse muito bem do perigo que corria em demonstrar
demasiado interesse.
O resto da manhã, foi-lhe muito difícil trabalhar. Pior que concentrar a
mente numa série de servicinhos insignificantes era a necessidade de ocultar
sua agitação perante a teletela. Teve a impressão de que uma fogueira lhe ardia
na barriga. Foi um tormento o almoço na cantina quente, cheia, ruidosa. Tivera
a esperança de ficar a sós uns minutos, na hora do almoço, mas por azar o
imbecil do Parsons viera sentar-se ao lado dele, o fedor de suor quase
sobrepujando o cheiro ativo do guisado, e metralhou-o com uma série de
comentários sobre a Semana do ódio. Estava interessadíssimo num modelo, em
papier maché, da cabeça do Grande Irmão, de dois metros de largura, que a tropa
de Espiões da filha estava confeccionando para a festa. O mais irritante era
que, em meio à barulhada de vozes, Winston mal ouvia o que dizia Parsons, e se
via obrigado a pedir-lhe, constantemente, que repetisse palavras fátuas. Apenas
uma vez entreviu a moça, do outro lado da sala, sentada com outras duas. Ela
pareceu não tê-lo visto, e ele não olhou mais naquela direção.
A tarde foi mais suportável. Logo depois do almoço chegou-lhe às mãos um
serviço delicado, difícil, que tomou várias horas de pesquisa e exigiu o
abandono de tudo o mais.
Consistia da falsificação de uma série de relatórios de produção, de dois
anos antes, de maneira a desacreditar um eminente membro do Partido Interno que
estava agora meio comprometido. Era a função que Winston desempenhava com mais
talento, e durante mais de duas horas conseguiu não pensar na moça. Depois, a
lembrança do seu rosto voltou e com ela um desejo furioso, intolerável, de
estar só. Seria impossível pensar na situação enquanto não conseguisse ficar
só. À noite, porém, tinha de ir ao Centro Comunal. Engoliu outra refeição sem
gosto na cantina, correu ao Centro, tomou parte na farsa solene de um
"grupo de discussão", jogou duas partidas de pingue-pongue, tragou
vários copos de gim e assistiu uma conferência de meia-hora, sob o título
"Ingsoc em relação ao xadrez." Sentia a alma seca de tanto
aborrecimento, mas não teve impulso de fugir à noitada no Centro. À vista das
palavras Eu te amo crescera dentro dele o desejo de viver, parecendo-lhe
estúpido assumir riscos pequenos. Não foi senão às vinte e três horas, sozinho
na cama - e no escuro, que era o jeito de se defender da teletela, contanto que
ficasse quieto - que pôde pensar continuamente.
Era um problema físico que exigia solução: como entrar em contacto com a
moça e combinar um encontro. Já não considerava a possibilidade de ser
armadilha. Sabia que não era, por causa da inconfundível agitação da morena ao
lhe entregar o bilhete. Era evidente que morria de medo, como seria natural.
Tampouco lhe passara pela cabeça a idéia de recusar a declaração. Cinco noites
antes pensara em esmagar-lhe o crânio com um paralelepípedo; mas isso não
importava. Pensava em seu corpo nu e jovem, como o vira em sonhos. Imaginara-a
uma tola, como todas as outras, a cabeça recheada de patranhas e ódio, a
barriga cheia de gelo. Uma espécie de febre o dominou, ao pensar que poderia
perdê-la, o corpo jovem e alvo fugindo dele! O que temia, mais do que qualquer
outra coisa, era que ela mudasse de idéia, se não fizesse logo por entrar em
contacto com ela. Mas era enorme a dificuldade física de se encontrarem. Era
como mover uma pedra no xadrez, depois de ter levado mate. Para onde quer que
se virasse, tinha a teletela pela frente. Na verdade, todas as maneiras
possíveis de se comunicar com ela lhe haviam ocorrido nos cinco minutos após
ler o recado; mas agora, com tempo para refletir, examinou-as, uma a uma, como
quem depõe na mesa uma fila de instrumentos.
Evidentemente, não se podia repetir o encontro havido aquela manhã. Se ela
trabalhasse no Departamento de Registro, seria relativamente simples, porém ele
tinha idéia muito vaga da localização do Departamento de Ficção e não havia
pretexto para visitá-lo. Se soubesse onde morava, e a que hora deixava o
trabalho, poderia dar um jeito para encontrá-la no caminho de casa. Mas
segui-la não era aconselhável, porque teria que esperar nas imediações do
Ministério, o que certamente seria notado. Quanto a mandar uma carta pelo
correio, era impossível. Por um processo que nem mesmo era secreto, todas as
cartas eram abertas em trânsito. Na verdade, pouquíssima gente escrevia cartas.
Quando, ocasionalmente, havia necessidade de se mandar uma comunicação,
existiam cartões postais impressos com longas listas de frases, e o cidadão
riscava as que não se aplicavam. Além do mais, não sabia o nome da moça, e
muito menos o endereço. Por fim resolveu que o melhor lugar seria a cantina. Se
conseguisse sentar-se a uma mesa com ela, mais ou menos no meio da sala, longe
das teletelas, e com suficiente ruído de conversação em torno - e se essas
condições durassem uns trinta segundos, talvez fosse possível trocar algumas
palavras.
Durante uma semana, a partir daquele dia, a vida foi um sonho sem
descanso. No dia seguinte ela não apareceu na cantina senão quando ele estava
de saída, e o apito já tocara. Com certeza fora transferida a outra turma.
Passaram sem se olhar. No dia seguinte, ela estava na cantina na hora do
costume, mas com outras três colegas, e bem debaixo duma teletela. A seguir,
por três dias penosos, não apareceu. O cérebro e o corpo de Winston pareciam
atacados de intolerável sensibilidade, uma espécie de transparência, que
transformava em agonia qualquer movimento, qualquer som, contacto ou palavra
que tivesse de pronunciar ou ouvir. Mesmo dormindo não podia fugir-lhe à
imagem. Não tocou o diário. Se alívio havia, estava no trabalho, no qual às
vezes podia se esquecer do mundo por períodos de até dez minutos. Não tinha a
menor idéia do que teria acontecido com ela. Não havia jeito de informar-se.
Poderia ter sido vaporizada, poderia ter-se suicidado, poderia ter sido
transferida a outra parte da Oceania: o pior, e mais provável, era que tivesse
simplesmente mudado de idéia, e resolvido evitá-lo.
No dia seguinte ela reapareceu. Já não tinha o braço na tipóia, porém o
pulso ainda estava enrolado em esparadrapo. O consolo de revê-la foi tamanho
que não pôde resistir à tentação de fitá-la durante vários segundos. No dia
seguinte, quase conseguiu falar-lhe. Ao entrar na cantina, ela já estava junto
duma mesa, longe da parede, e sozinha. Era cedo, e a sala não estava cheia. A
fila avançou vagarosa até Winston quase chegar ao balcão. Nesse momento
deteve-se uns dois minutos porque alguém se queixava de não ter recebido sua
pastilha de sacarina. Mas a jovem ainda estava só quando Winston tomou a
bandeja e se encaminhou para a mesa. Ia caminhando com naturalidade, fingindo
procurar lugar mais adiante. Estava a três metros dela, talvez. Mais dois
segundos e pronto. Então uma voz atrás dele chamou "Smith!" Ele
fingiu não ouvir. "Smith!" repetiu mais alto. Inútil. Voltou-se. Um
moço louro, cara de bobo, chamado Wilsher, que ele mal conhecia, convidava-o,
com um sorriso, a sentar-se à sua mesa. Não era seguro recusar. Tendo sido
reconhecido, não podia preferir a mesa da moça sozinha. Daria na vista.
Sentou-se com um sorriso amável.
O rosto louro e tolo correspondeu. Winston teve uma alucinação em que se
via dando uma machadada bem no meio daquele sorriso alvar. Uns minutos depois,
a mesa da jovem estava cheia.
Ela porém devia tê-lo visto encaminhar-se na sua direção, e talvez lhe percebesse
o intento. No dia seguinte, ele procurou chegar cedo. Com efeito, lá estava
ela, numa mesa mais ou menos no mesmo lugar, e só. A pessoa que o antecedia na
fila era um homenzinho de movimentos rápidos, feito um besouro, de cara chata e
olhos miúdos e suspicazes. Quando Winston se voltou do balcão, com a bandeja,
viu que o homenzinho ia reto na direção da mesa da moça. O coração caiu-lhe aos
pés. Havia lugar numa mesa pouco mais adiante, porém na aparência do homem
alguma coisa dizia que amava o próprio conforto o suficiente para escolher a
mesa mais vazia. Com gelo no coração, Winston acompanhou-o. Não adiantaria
nada, a menos que pudesse ficar a sós com ela.
Nesse momento houve um baque tremendo. O homenzinho estava de quatro, a
bandeja voara longe, e dois arroios de sopa e café corriam pelo soalho. Ele
levantou-se com uma olhada maligna a Winston, de quem evidentemente desconfiava
de o haver derrubado. Mas nada sucedeu. Cinco segundos depois, com o coração
dando pinotes, Winston sentava-se à mesa da moça.
Não a olhou. Desocupou a bandeja e começou a comer. Era importantíssimo
falar imediatamente, antes que viesse alguém. No entanto, um medo terrível se
apossara dele. Uma semana se passara desde que ela lhe dera o recado. Talvez
tivesse mudado de idéia, com certeza mudara de idéia! Era impossível que uma
coisa dessas corresse bem; isso não acontece na vida real. Ele teria calado
para sempre se naquele momento não visse Ampleforth, o poeta de orelhas
peludas, vagando pelo salão, à procura de um lugar para sentar. Com seus modos
aéreos, Ampleforth tinha simpatia por Winston, e certamente escolheria aquela
mesa, se o visse. Sobrava-lhe talvez um minuto. Tanto Winston como a moça
comiam sem parar. Ingeriam sem o menor prazer uma sopa rala, um caldo de vagens.
Muito baixinho, Winston pôs-se a falar. Nenhum dos dois levantou a vista.
Metendo colherada após colherada do liquido na boca, trocaram as palavras
necessárias, num murmúrio sem expressão.
A que horas sais do serviço? Dezoito e trinta. Onde podemos nos encontrar?
Praça da Vitória, perto do monumento. É cheio de teletelas. Não importa, se
houver povo. Algum sinal? Não. Não te aproximes, se eu não estiver no meio da
multidão. Não me olhes. Apenas chega perto.
- A que horas?
- Às dezenove.
- Muito bem. Ampleforth não viu Winston e sentou-se noutra mesa. Não
tornaram a falar e até onde é possível a duas pessoas sentadas à mesma mesa:
uma diante da outra, não se olharam. A moça terminou o almoço rapidamente e se
foi, enquanto Winston fumava um cigarro Vitória.
Já antes da hora marcada, Winston estava na praça. Deu algumas voltas em
torno da base da enorme coluna em gomos, no alto da qual a estátua do Grande
Irmão, voltada para o sul, fitava os céus onde havia derrotado os aeroplanos
eurasianos (aeroplanos lestasianos, tinha sido, anos atrás) na batalha da Pista
Nº 1. Na rua, diante da coluna, havia a estátua de um homem a cavalo que se
supunha representar Oliveiros Cromwell. Cinco minutos depois da hora a moça
ainda não aparecera. De novo o medo terrível se apossou de Winston. Ela não
viria, mudara de idéia! Encaminhou-se lentamente para a face norte da praça e
com pálido prazer identificou a igreja de S. Martinho, cujos sinos, quando
ainda tinha sinos, haviam cantado "Me deves três vinténs." Nesse momento,
viu a moça junto à base do monumento, lendo ou fingindo ler uma proclamação que
subia em espiral pela coluna. Não era seguro aproximar-se enquanto não se
acumulasse mais gente. Havia teletelas por toda parte. Naquele momento, porém,
elevou-se da esquerda uma gritaria, acompanhada do barulho de veículos pesados.
De repente, todo mundo pareceu convergir para um só ponto. A moça deu volta em
torno dos leões, na base do monumento, e juntou-se à massa. Winston seguiu-a.
Enquanto corria percebeu, por uns gritos, que estava passando um comboio de
prisioneiros eurasianos.
Já uma quantidade considerável de pessoas bloqueava o lado sul da praça.
Winston, que em circunstâncias normais gravitava para a periferia de qualquer
aglomeração, empurrou, acotovelou, esgueirou-se, tentando alcançar o meio do
povaréu. Dali a pouco estava a um braço de distância da moça, mas de permeio
havia um enorme prole e uma mulher quase tão vasta, sua esposa certamente, e
formavam impenetrável muralha de carne. Winston forcejou de lado e com um violento
empurrão conseguiu meter o ombro entre os dois. Por um momento teve a impressão
de que iam esmagar suas entranhas com as ancas musculosas, mas por fim passou,
suando um pouco. Estava ao lado dela. Os ombros se tocavam, e ambos fixavam um
ponto qualquer, no meio da rua.
Uma longa fila de caminhões, com guardas de cara de pau, armados de
metralhadoras de mão, e postados em cada canto, ia passando lentamente. Nos
caminhões iam de cócoras, muito apertados, uns soldadinhos amarelos, metidos em
esfarrapados uniformes verdoengos. As tristes caras mongólicas olhavam para
fora, sem a menor curiosidade. De vez em quando, os caminhões davam um tranco e
se ouvia o tilintar de metais: todos os prisioneiros usavam grilhões. Passaram
muitos caminhões atulhados de caras tristes. Winston sabia que estavam
passando, mas só os via intermitentemente. O ombro da moça, e o seu braço
direito, até o cotovelo, se comprimiam contra ele. A face estava tão perto que
podia quase sentir-lhe o calor. Ela assumira imediatamente o comando da
situação, como fizera na cantina. Pôs-se a falar com a mesma voz sem expressão
que antes, mal mexendo os lábios, um murmúrio que se perdia em meio ao vozerio
e ao estrondo dos caminhões.
- Estás-me ouvindo?
- Estou.
- Estás livre domingo à tarde?
- Estou.
- Então escuta com cuidado. Tens que decorar isto. Vai à estação de
Paddington...
Com uma precisão militar que o assombrou, a moça delineou o itinerário que
deveria seguir. Meia hora de trem. Sair da estação e encaminhar-se para a
esquerda. Dois quilômetros pela estrada. Uma porteira sem travessão superior.
Um caminho atravessando o campo. Uma alameda gramada. Uma picada entre
touceiras. Uma árvore morta coberta de musgo. Era como se tivesse um mapa na
cabeça. - Lembras de tudo? - murmurou por fim.
- Lembro.
- Viras à esquerda, depois à direita, depois à esquerda outra vez. A
porteira sem travessão de cima.
- Sim. A que horas?
- Às quinze, mais ou menos. Talvez tenhas que esperar. Chegarei por outro
caminho. Decoraste tudo?
- Decorei.
- Então dá o fora o mais depressa possível. Não seria preciso dizê-lo. Mas
por um momento não lhes foi possível livrar-se da multidão. Os caminhões
continuavam passando, e o povo, insaciável, queria olhar. No começo algumas
vaias e assovios tinham soado, de membros do Partido ali presentes, mas não
haviam durado muito. A emoção geral era de simples curiosidade. Estrangeiros,
fossem da Eurásia ou da Lestásia, eram considerados animais estranhos.
Literalmente, não eram vistos nunca a não ser como prisioneiros, e mesmo como prisioneiros
não eram vistos senão de relance. Nem se sabia o que lhes acontecia, além de
alguns enforcados como criminosos de guerra: os outros desapareciam,
presumivelmente em campos de trabalhos forçados. Aos rostos redondos dos
mongóis se haviam sucedido faces de tipo mais europeu, sujas, barbudas e
exaustas, de zigomas salientes. Seus olhos às vezes fitavam os de Winston, com
estranha intensidade, e se afastavam. O comboio terminava. No último caminhão
vinha um velho, o rosto coberto de cabelo grisalho desgrenhado, viajando de pé
com os punhos juntos cruzados diante do peito, como se estivesse acostumado a
algemas. Era quase chegado o momento dos dois se separarem. Mas no último
instante, quando a multidão ainda os prendia, a mão da moça procurou a de Winston
e apertou-a ligeiramente.
O aperto de mão não durou nem dez segundos e no entanto pareceu que as
mãos tinham estado juntas longo tempo. Ele teve tempo de aprender todos os
detalhes daquela mão. Explorou os longos dedos afuselados, as unhas bem feitas,
a palma calejada pelo trabalho duro, a carne macia do pulso. Decorou-a pelo
tato e soube que a reconheceria se a visse. No mesmo instante ocorreu-lhe que
ainda não sabia a cor dos olhos da moça. Deviam ser castanhos, mas não raro
gente de cabelo escuro tem olhos azuis. Voltar a cabeça e olhá-la seria uma
loucura inconcebível. Com as mãos se apertando, invisíveis em meio aos corpos,
os dois olhavam firmes para a frente, e ao invés dos da jovem, os olhos do
velho prisioneiro fitaram melancolicamente Winston por entre as grenhas de
cabelo encanecido.
Winston ia caminhando pela alameda pintalgada de luz e sombra, banhando-se
em lagos dourados sempre que os ramos se separavam. Debaixo das árvores, à
esquerda, o chão era um mar de campânulas. O ar parecia beijar-lhe a pele. Era
dois de maio. Do meio do bosque se ouvia o arrulhar dos pombos bravos.
Ainda era cedo. A viagem não oferecera empecilhos, e a moça tinha tanta
experiência, evidentemente, que Winston sentia menos medo do que sentiria, em
circunstâncias normais. Presumivelmente ela saberia achar um lugar seguro. Em
geral, não se podia imaginar maior segurança no campo do que em Londres. Não
havia teletelas, naturalmente, mas havia sempre o perigo de microfones ocultos,
que captavam as vozes e reconheciam os transviados; além disso, não era fácil
viajar só sem atrair a atenção. Para distâncias inferiores a cem quilômetros
não havia necessidade de carimbar o passaporte, mas às vezes havia patrulhas
nas estações, examinando os papéis de todos os membros do Partido que por acaso
encontrassem, e fazendo perguntas indiscretas. Todavia, nenhuma patrulha
aparecera, e afastando-se da estação ele verificara, olhando para trás com
freqüência, que ninguém o seguia. O trem estava cheio de proles, alegres e festivos
por causa do calor. O vagão de bancos de pau em que viajou estava completamente
tomado por uma família só, enorme, desde a bisavó banguela até um nenê de um
mês, a caminho de uma visita aos parentes do interior e, como explicaram sem
cerimoniosamente a Winston, da compra de um pouco de manteiga no mercado negro.
A alameda alargou-se e dali a um minuto ele chegou à picada de que ela lhe
falara, um simples atalho de gado, que mergulhava entre as touceiras. Não tinha
relógio, mas não deviam ser ainda quinze horas. As campânulas eram tantas que
não podia caminhar sem pisá-las. Ajoelhou-se e pôs-se a colher algumas, em
parte para matar o tempo, mas em parte também pela vaga idéia de que seria
agradável ter um ramo de flores para dar à moça quando aparecesse. Já reunira
um maço regular, e estava sentindo o aroma um tanto enjoativo quando um ruído o
fez gelar: era o estalido inconfundível de um pé quebrando um ramo. Continuou
colhendo flores. Era o que melhor tinha a fazer. Podia ser a pequena, mas podia
ser outra pessoa. Voltar-se seria acusar-se. Colheu mais uma e mais outra
campânula. De repente sentiu uma mão no ombro.
Olhou para cima. Era a moça. Ela abanou a cabeça, num sinal evidente de
que devia ficar quieto. Depois separou as touceiras e tomou a frente, seguindo
a picada no rumo do bosque. Era claro que ali estivera antes, pois evitava os
trechos pantanosos como quem conhece o chão. Winston seguiu-a, ainda com o ramo
de flores na mão. Sua primeira sensação foi de alívio mas, olhando o corpo
forte e esguio à sua frente, com a faixa rubra apertada, que ressaltava a curva
dos quadris, começou a pesar-lhe a própria inferioridade. Mesmo agora ainda lhe
parecia perfeitamente possível que ela se voltasse, lhe desse uma olhada e se
afastasse. Winston estava embriagado pela doçura do ar e o verdor das folhas.
Já na caminhada da estação, à luz do sol de maio, se sentira sujo e estiolado,
uma criatura de quatro paredes, com os poros entupidos do pó fuliginoso de
Londres. Ocorreu-lhe que até aquele momento ela provavelmente não o vira à
plena luz do dia. Chegaram à árvore caída de que ela havia falado. A moça
saltou sobre o tronco e forcejou abrindo uma touceira, num lugar onde não
parecia haver caminho. Quando Winston a seguiu, achou-se numa clareira natural,
um pequeno recôndito atapetado de relva e completamente cercado de altos
freixos novos, como uma parede. A moça parou e voltou-se.
- Aqui estamos, - anunciou. Os dois se entreolharam, a vários passos de
distância. Winston ainda não tivera coragem de se aproximar.
- Não quis dizer nada na alameda - continuou ela - porque podia ser que
houvesse um microfone escondido. Não creio que haja, mas pode haver. E aqueles
suínos são bem capazes de reconhecer a voz da gente. Aqui não há perigo.
Ele continuou sem coragem de se aproximar.
- Não há perigo? - indagou, estupidamente.
- Não. Olha as árvores. - Eram freixos pequenos, que tinham sido podados e
haviam brotado de novo, formando uma floresta de ramos, nenhum dos quais mais
grosso que um punho. - Não há lugar para se esconder um micro. E eu já estive
aqui antes.
Estavam apenas conversando. Winston conseguira achegar-se um pouco. Ela
estava parada diante dele, muito tesa, tendo nos lábios um sorriso que parecia
irônico, como se admirada de que levasse tanto tempo para agir. As campânulas
tinham caído ao chão, em cascata. Pareciam ter caído por si próprias. Ele
segurou-lhe a mão.
- Acreditas - disse - que até agora não sabia a cor dos teus olhos? - Eram
castanhos, notou, um castanho bastante claro, com cílios escuros. - Agora que
viste direito como sou, ainda agüentas me olhar?
- Facilmente.
- Tenho trinta e nove anos. Tenho uma esposa de que não me posso livrar.
Tenho varizes. E cinco dentes postiços.
- Pouco me importa. No momento seguinte, ela estava nos seus braços, sem que
fosse possível dizer por iniciativa de quem. No começo não sentiu senão a mais
completa incredulidade. O corpo moço apertado contra o seu, a massa de cabelo
escuro tocando-lhe a face e... sim! ela virou o rosto e ele beijou a boca
grande e vermelha. Ela passara-lhe os braços pelo pescoço, e o chamava de
querido, amado, bem amado. Winston puxou-a para o chão, e ela não resistiu
permitindo-lhe que fizesse o que bem entendesse. Mas a verdade é que não tinha
outra sensação física, exceto a do mero contacto. Sentia-se incrédulo e
orgulhoso. Estava satisfeito daquilo acontecer, mas não tinha desejo físico. -
Era cedo demais, a juventude e a boniteza o haviam amedrontado, ele estava
muito acostumado a viver sem mulher... não sabia por que razão. A moça ergueu-se
um pouco e tirou uma campânula dos cabelos. E sentou-se, encostada nele,
passando um braço por sua cintura.
- Não tem importância, querido. Não há pressa. Temos a tarde inteira. Este
esconderijo não é esplêndido? Encontrei-o uma vez que me perdi num passeio
coletivo. Pode-se ouvir uma pessoa se aproximar a cem metros de distância.
- Como te chamas? - perguntou Winston.
- Júlia. Eu sei o teu nome. É Winston... Winston Smith.
- Como descobriste?
- Creio que tenho mais jeito de descobrir as coisas. Diz-me, que achavas
de mim antes do dia em que te dei o recado?
Ele não se sentiu tentado a mentir-lhe. Seria uma espécie de sacrifício
amoroso contar-lhe tudo.
- Eu te odiava - disse. - Queria te violar e depois te assassinar. Há duas
semanas, pensei muito a sério em te esmagar a cabeça com uma pedra. Se queres
saber, imaginei que fosses da Polícia do Pensamento.
A moça riu-se com gozo, evidentemente interpretando aquelas palavras como
um tributo à excelência do seu disfarce.
- Da Polícia do Pensamento? Pensaste mesmo isso?
- Bem, talvez não, exatamente. Mas pelo teu aspecto geral... apenas porque
és jovem, fresca e sadia, compreendes ... pensei que provavelmente...
- Pensaste que eu fosse boa militante. Pura de palavras e atos. Faixas,
passeatas, palavras de ordem, jogos, piqueniques comunais... toda a tralha. E
achaste que se eu tivesse uma pequena oportunidade havia de te denunciar como
ideocriminoso e levar-te à morte?
- Sim, algo parecido. Há muitas raparigas assim, sabes, não é?
- É esta porcaria que dá essa impressão - disse ela, arrancando a faixa
escarlate da Liga Juvenil Anti-Sexo e atirando-a a uma ramagem. Daí, como se o
gesto lhe recordasse algo, apalpou o bolso do macacão e tirou uma barra de
chocolate. Quebrou-a pela metade e deu um dos pedaços a Winston. Antes mesmo de
pegá-lo ele sentiu, pelo cheiro, que se tratava de chocolate fora do comum. Era
escuro e brilhante, e envolto em papel prateado. Em geral o chocolate era
pardo-fosco, quebradiço, com gosto de fumaça de lixo. Ele porém já havia
provado chocolate daqueles. O Perfume adocicado despertara-lhe recordações que
não podia precisar, mas que eram poderosas e perturbadoras.
- Onde arranjaste isto?
- No mercado negro - ela respondeu, indiferente. - Na verdade,
externamente eu sou assim. Destaco-me nos jogos. Fui chefe de tropa nos
Espiões, faço trabalho voluntário três noites por semana na Liga Juvenil
Anti-Sexo. Passei horas e horas grudando sandices pelas paredes de Londres.
Sempre levo uma ponta de faixa nas passeatas. Estou sempre de cara alegre e nunca
tiro o corpo de nada. Grita sempre com a massa, digo eu. É o único jeito de não
correr perigo.
O primeiro fragmento de chocolate derretera-se na língua de Winston.
Delicioso! Mas ainda revoluteava pela periferia da sua consciência aquela
recordação, algo que podia sentir mas não reduzir a uma forma definida, como um
objeto visto com o rabo do olho. Empurrou-a para longe, sabendo apenas que se
tratava da lembrança de algum ato que gostaria de desfazer mas não podia.
- És muito moça - disse. - Uns dez ou quinze anos mais moça que eu. Que
foi que viste em mim para te atrair?
- Alguma coisa na tua cara. Achei que devia me arriscar. Tenho jeito para
descobrir gente que não se adapta. Assim que te vi achei que eras contra eles.
Eles, aparentemente, eram o Partido, e principalmente o Partido Interno, a
respeito do qual falava com ódio e desdém manifestos, a ponto de arrepiar
Winston, embora soubesse estarem em segurança, se é que podiam estar em
segurança nalguma parte. Outra coisa que o surpreendera fora a linguagem forte
que usava. Não era recomendável dizer nomes feios, sendo-se membro do Partido,
e Winston raramente xingava, pelo menos em voz alta. Júlia, entretanto, parecia
incapaz de mencionar o Partido, especialmente o Partido Interno, sem usar os
palavrões que se vêem escritos a giz e a carvão em certas ruas escuras. Não lhe
desagradava que assim fosse: era apenas um sintoma da revolta de Júlia contra o
Partido e seus métodos, e lhe parecia natural e saudável, como o espirro de um
cavalo que fareja feno podre. Tinham saído da clareira e vagueavam outra vez
pela alameda pintalgada, com os braços passados pela cintura, sempre que o
caminho permitisse a passagem de dois. Ele observou que a cintura dela parecia
muito mais maleável sem a faixa odiosa. Falavam em cochichos. Fora da clareira,
dissera Júlia, era melhor ficarem quietinhos. Dali a pouco chegaram ao fim do
bosquete. Ela o deteve.
É melhor pararmos aqui. Pode haver alguém vigiando. Não corremos perigo
enquanto ficarmos por trás das ramadas.
Estavam na sombra de umas aveleiras. O sol, filtrando-se por entre as
folhas inúmeras, ainda lhes ardia no rosto. Winston olhou para o campo e sofreu
um choque, lento e curioso, de reconhecimento. Conhecia-o de vista. Um pasto
velho, no restolho, com um caminho que serpeava de um lado a outro, pontilhado
de cupins. Na sebe irregular, do lado oposto, os ramos dos olmeiros balouçavam
de leve na brisa, e suas folhas palpitavam em densas massas, como cabelo de
mulher. Devia haver por aqui, embora não pudesse vê-lo, um regato com
espraiados verdes onde nadavam tainhas.
- Não há um regato por aqui? - sussurrou.
- Há, sim. Fica na beirada do outro campo. Tem peixes, uns peixes grandes.
Podes vê-los nadando nas lagoas, sob os chorões, abanando a cauda.
- É a Terra Dourada... quase - murmurou ele.
- Terra Dourada?
- Não é nada. Uma paisagem que às vezes vejo em sonhos.
- Olha! - cochichou Júlia. Um tordo pousara num ramo, a menos de cinco
metros de distância, quase na altura do rosto dos dois. Era possível que não os
tivesse visto. Estava ao sol, e eles na sombra. Estirou as asas, tornou a
fechá-las cuidadosamente, inclinou a cabeça por um instante, como que saudando
o sol, e desencadeou uma torrente sonora. Dentro do silêncio da tarde era
pasmoso o volume de som. Winston e Júlia deixaram-se ficar, muito juntos,
imóveis, fascinados. A música continuou, minuto após minuto, com assombrosas
variações, sem nunca se repetir, quase como se o pássaro estivesse a exibir, de
propósito, o seu virtuosismo. Às vezes parava por alguns segundos, abria e
fechava as asas, depois inflava o peito malhado e tornava a romper na cantoria.
Winston observava-o com um ar de vaga reverência. Para quem, para o que,
estaria o tordo cantando? Não havia nem companheira nem rival à vista. Que é
que o fazia pousar num campo deserto e soltar sua música no vazio? Winston
indagou de si mesmo se, apesar de tudo, não haveria por perto um microfone
escondido. Ele e Júlia tinham falado em sussurros, e o micro não poderia tê-los
percebido, mas com certeza captaria o canto do tordo. Talvez, na ponta do fio,
um homenzinho com cara de besouro escutasse atento - escutasse o canto. Aos
poucos, porém, o embevecimento da música repeliu da mente de Winston todas as
especulações. Era uma espécie de bálsamo despejado por cima de todo seu corpo,
misturado com os raios do sol que se filtravam por entre as folhas. Parou de
pensar, ficou apenas sentindo. No seu braço, a cintura da moça era morna e
macia. Atraiu-a para mais perto, de modo a senti-la junto ao peito; o corpo de
Júlia parecia derreter-se no dele. Onde quer que o tocasse com as mãos, cedia
como água. As bocas estavam presas; muito diferente dos beijos quase formais
que haviam trocado antes. Quando separaram o rosto, os dois suspiraram
profundamente.
O passarinho assustou-se e esvoaçou, fugindo.
Winston aproximou os lábios da orelha dela.
- Agora - sussurrou.
- Aqui não - foi a resposta. - Vamos voltar para o esconderijo. É mais
seguro.
Rapidamente, quebrando aqui e ali uns ramos secos, os dois voltaram para a
clareira. Quando mais uma vez se encontraram na segurança da muralha de árvores
novas, Júlia voltou-se e parou diante dele. Ambos ofegavam, mas o sorriso
reapareceu nas comissuras dos lábios. Ela o fitou durante um instante, e depois
apalpou o zíper do macacão. Ah, sim! Foi quase como no sonho de Winston. Quase
com a mesma ligeireza, ela tirou a roupa, e quando a atirou para um lado foi
com o mesmo gesto magnífico que parecia aniquilar toda uma civilização. O corpo
muito branco lampejou ao sol. Mas, por um momento, ele não o olhou. Tinha os
olhos grudados na face sardenta, no leve sorriso de ousadia. Ajoelhou-se diante
dela e tomou-lhe as mãos.
- Já fizeste isto antes?
- Naturalmente. Centenas de vezes... quer dizer, muitíssimas vezes.
- Com membros do Partido?
- Sempre com membros do Partido.
- Do Partido Interno?
- Não, com aqueles porcos, não. Mas há uma porção que gostaria de fazer
uma fezinha, se tivesse oportunidade. Não são tão santos quanto pretendem.
O coração dele deu um pulo. Muitíssimas vezes, dissera ela. Oxalá tivessem
sido centenas... milhares. Tudo quanto cheirasse a corrupção o enchia sempre de
ardentes esperanças. Quem poderia saber? O Partido talvez estivesse podre sob a
crosta superior; seu culto da severidade é a auto-negação podiam ser apenas uma
máscara da iniqüidade. Se pudesse infeccioná-los todos com lepra ou sífilis,
com que prazer o faria! Tudo que servisse para apodrecer, debilitar, minar! Ele
puxou-a para baixo, a fez ajoelhar-se à sua frente.
- Escuta. Quantos mais homens tiveste, mais te quero. Compreendes?
- Perfeitamente.
- Odeio a pureza, odeio a virtude. Não quero que exista virtude alguma, em
parte nenhuma. Quero que todos sejam corruptos até os ossos.
- Então eu sirvo, querido. Sou corrupta até os ossos.
- Gostas de fazer isto? Não me refiro a mim, somente. Gostas da coisa em
si?
- Adoro!
Acima de tudo, era o que ele desejava ouvir. Não somente o amor de uma
pessoa, mas o instinto animal, o desejo simples, indiscriminado; era a força
que faria a derrocada do Partido. Apertou-a contra o chão, esmagando
campânulas. Desta vez não houve empecilho. Dentro de alguns instantes, o ofegar
do peito de ambos voltou ao normal, e com um agradável torpor, caíram
separados. O sol parecia ter esquentado mais. Ambos tinham sono. Ele puxou o
macacão abandonado e cobriu-a um pouco. Quase imediatamente caíram no sono e
dormiram cerca de meia-hora.
Winston acordou primeiro. Sentou-se e ficou contemplando a face sardenta,
ainda adormecida, apoiada na palma da mão. Com exceção da boca, Júlia não podia
ser considerada bonita. Olhando-se de perto, descobria-se uma ruga ou duas
perto dos olhos. O cabelo escuro e curto era extraordinariamente espesso e
macio. Winston raciocinou que ainda não sabia todo o nome dela, e onde morava.
Aquele corpo jovem e forte, agora completamente desprotegido, provocou
nele uma sensação de pena, e proteção. Mas não voltou de todo a ternura física,
orgânica, que sentira sob a aveleira, enquanto cantava o tordo. Puxou o macacão
de lado e estudou a pele branca e macia. Antigamente, pensou ele, um homem
olhava um corpo de mulher, via que era desejável e pronto. Mas agora não era
possível ter amor puro, ou pura lascívia. Não havia mais emoção pura; estava
tudo misturado com medo e ódio. A união fora uma batalha, o clímax uma vitória.
Era um golpe desferido no Partido. Era um ato político.
- Podemos voltar aqui - disse Júlia. - Em geral, não há perigo em usar
duas vezes o mesmo esconderijo. Mas só daqui a um mês ou dois, claro.
Assim que despertara, mudara totalmente sua conduta. Tornou-se alerta e
prática, vestiu-se, ajustou na cintura a faixa escarlate, e pôs-se a organizar
os detalhes da viagem de regresso. A Winston pareceu natural deixar-lhe a
iniciativa. Evidentemente, Júlia tinha uma dose de manha prática de que ele
carecia, e parecia também ter conhecimento exaustivo dos arredores de Londres,
fruto de inúmeros passeios comunais. O itinerário que ela lhe sugeriu diferia
bastante do que usara antes, e levava-o a outra estação.
- Nunca vás para casa pelo mesmo caminho que vieste - aconselhou, com ar
de quem anuncia um importante princípio geral. Iria primeiro, e Winston
esperaria meia-hora, antes de tomar o rumo de volta.
Disse o nome dum lugar onde poderiam se encontrar depois do trabalho, dali
a quatro dias. Era uma rua de bairro pobre, onde havia uma feira geralmente
cheia de gente ruidosa. Ela fingiria procurar algo nas barracas, como se
quisesse comprar atacadores de sapato ou linha de coser. Se achasse não haver
perigo, assoaria o nariz quando ele se aproximasse; senão, deveria passar sem
reconhecê-la. Com sorte, porém, não haveria risco em conversarem um quarto de
hora no meio da multidão combinando outro encontro.
- E agora preciso ir embora - disse ela, assim que ele decorou as
instruções. - Devo voltar às dezenove e trinta. Tenho de trabalhar duas horas
para a Liga Juvenil Anti-Sexo, distribuindo volantes, ou algo parecido. Não é
horroroso? Queres me dar uma escovadela, por favor? Tenho alguma folha ou
raminho no cabelo? Tens certeza? Então, adeus, meu amor, adeus!
Atirou-se nos braços dele, beijou-o quase com violência, e dali a um
momento abriu caminho entre as árvores, desaparecendo no bosque com barulho
mínimo. Winston continuava sem saber-lhe o nome nem o endereço. Não fazia
diferença, porém, pois era inconcebível que pudessem se encontrar num recinto
fechado, ou trocar qualquer comunicação escrita.
Aconteceu porém que nunca voltaram à clareira do bosque. Durante o mês de
maio só houve outra ocasião em que conseguiram ficar sós algum tempo. Foi
noutro esconderijo conhecido de Júlia, o campanário de uma igreja arruinada,
local quase deserto onde uma bomba atômica caíra trinta anos antes. Era bom
lugar para se esconder, mas o perigo era chegar até lá. O resto do tempo só
podiam se encontrar nas ruas, cada vez num lugar diferente, e nunca durante
mais de meia-hora. Na rua, em geral era possível conversar, de certo modo.
Vagueando pelas calçadas cheias de gente, sem ser lado a lado, e nunca se
entreolhando, tinham palestras curiosas, intermitentes, que sumiam e
reapareciam como os fachos de um farol, subitamente silenciadas pela
aproximação de um uniforme do partido ou a proximidade de uma teletela, e
reiniciadas, minutos mais tarde, no meio duma frase, ou então cortadas
ex-abrupto quando se separavam num ponto combinado, e continuadas quase sem
introdução no dia seguinte. Júlia parecia bastante acostumada a esta espécie de
conversa, a que chamava "falar a prestações." Tinha também uma
surpreendente habilidade de falar sem mexer os lábios. Apenas uma vez, em quase
um mês de encontros noturnos, conseguiram trocar um beijo. Iam passando em
silêncio por uma rua lateral (Júlia nunca falava quando estavam longe das
artérias principais) quando se ouviu um ribombo ensurdecedor; a terra tremeu e
o ar se escureceu. Winston achou-se caído de lado, com escoriações e muito
medo. Uma bomba-foguete devia ter caído bem perto. De repente viu o rosto de
Júlia, a alguns centímetros do seu, branca de morte, branca como giz. Até os
lábios tinham perdido a cor. Estava morta! Apertou-a contra o peito e sentiu que estava beijando um rosto vivo e
palpitante. Aquela brancura toda era dum pó que caíra em cima dos dois. A face
de ambos fora coberta de forte camada de caliça.
Havia noites em que, chegados ao ponto de encontro, tinham de passar um
pelo outro sem dar sinal de vida, por causa de alguma patrulha à vista, ou de
um helicóptero pairando por perto. Mesmo que fosse menos perigoso, seria
difícil encontrar tempo para se encontrar. A semana de trabalho de Winston era
de sessenta horas, e a de Júlia ainda mais longa, e os dias de folga variavam
conforme a pressão do serviço, nem sempre coincidindo. E Júlia raro tinha uma
noite inteiramente livre. Perdia um tempo fabuloso, assistindo conferências e
demonstrações, distribuindo literatura da Liga Juvenil Anti-Sexo, preparando
faixas para a Semana do Ódio, cobrando contribuições da campanha de poupança, e
atividades similares. Valia a pena, dizia ela; era camuflagem. Respeitando as
leis menores podia infringir as maiores. Chegou mesmo a induzir Winston a
hipotecar mais uma noite, oferecendo-se para trabalhar numa fábrica de
munições, nas horas vagas, o que faziam voluntariamente todos os zelosos
militantes. Assim, uma noite por semana, Winston passava quatro horas de
paralisante chatice, atarraxando e montando pedacinhos de metal, provavelmente
partes de fusíveis de bomba, numa oficina mal iluminada e ventilada onde o
bater dos martelos se misturava penosamente com a música das teletelas.
Quando se encontraram na torre da igreja, foram preenchidos os claros da
sua conversação fragmentada. Era uma tarde sufocante. No quartinho em cima do
compartimento dos sinos, o ar era quente e estagnado, e havia um cheiro
horrível de guano de pombo. Passaram horas conversando, sentados no soalho
empoeirado, coberto de detritos. De vez em quando um deles se levantava para
espiar pelas seteiras, verificar que não vinha ninguém.
Júlia tinha vinte e seis anos de idade. Morava numa hospedaria com outras
trinta moças ("Sempre o mau cheiro das mulheres! Como eu odeio as
mulheres!" exclamava, entre parênteses), e trabalhava, como ele imaginara,
nas máquinas novelizadoras do Departamento de Ficção. Apreciava o trabalho, que
consistia principalmente em fazer funcionar e manter em bom estado um poderoso
e complicado motor elétrico. Era "inesperta" porém gostava de usar as
mãos e sentia-se à vontade com maquinaria. Sabia descrever todo o processo de
composição de um romance, desde a diretriz geral traçada pelo comitê de
Planejamento até os retoques finais, pelo Esquadrão de Reescritores. Ela, porém,
não se interessava pelo produto acabado. "Não tinha gosto pela
leitura," disse. Para ela, os livros não passavam de artigos que tinham
que ser produzidos, como botinas ou compotas.
Não se recordava de coisa alguma antes de 1960, e a única pessoa que conhecera
e falava freqüentemente dos dias anteriores à Revolução era um avô, que
desaparecera quando Júlia tinha oito anos. Na escola, capitaneara o time de
hóquei e dois anos consecutivos ganhara o troféu de ginástica. Fora chefe de
tropa nos Espiões e secretária distrital da Liga da Juventude antes de entrar
para a Liga Juvenil Anti-Sexo. Sempre se demonstrara excelente cidadã. Até fora
(sinal infalível de boa reputação) escolhida para trabalhar na Pornosec, a
sub-secção do Departamento de Ficção que produzia pornografia barata para
distribuição entre os proles. Os que lá trabalhavam lhe davam o apelido de Casa
da Lama, observou ela. Ali permanecera um ano, ajudando a produzir livretos em
envoltórios fechados, com títulos tais como Contos da Chibata ou Uma Noite Num
Internato de Moças, comprados furtivamente por jovens proles, que tinham a
impressão de adquirir algo ilegal.
- Como são esses livros? - indagou Winston, curioso.
- Oh, droga horrorosa. São chatíssimos. Só têm seis enredos, que são
misturados e adaptados. Naturalmente eu só estava nos caleidoscópios. Nunca
estive no Esquadrão de Reescritores. Não sou literata, meu caro... nem sirvo
para isso.
Winston soube, estarrecido, que todos os trabalhadores da Pornosec eram
moças, à exceção do chefe. A teoria era de que os homens, cujos instintos
sexuais são menos controláveis que os das mulheres, corriam maior risco de ser
contaminados pela imundície que lhes passava pelas mãos.
- Nem gostam de mulheres casadas - acrescentou. - As pequenas são
consideradas sempre tão puras! Eu pelo menos não sou.
Tivera o seu primeiro caso amoroso aos dezesseis anos, com um militante de
sessenta, que depois se suicidara para fugir à prisão.
- E fez muito bem - comentou Júlia - porque senão haveriam de descobrir
meu nome, quando ele confessasse. - Depois daquele houvera muitos outros. Aos
seus olhos, a vida era muito simples. Queria divertir-se; "eles",
isto é, o Partido, não queriam deixá-la; por isso infringia a lei da melhor
maneira possível. Parecia achar igualmente natural que "eles"
quisessem proibir os prazeres e que os cidadãos buscassem fugir à prisão.
Odiava o Partido, e confessava-o em outras tantas palavras cruas, mas não o
criticava em geral. Exceto no que tangia à sua vida particular, não lhe
interessava a doutrina partidária. Ele observou que Júlia nunca usava palavras
de Novilíngua, nem mesmo as que haviam passado à linguagem corrente. Nem nunca
ouvira falar da Fraternidade, recusando-se mesmo a acreditar na sua existência.
Considerava estúpida qualquer revolta organizada contra o Partido; fadada ao
insucesso, dizia. O inteligente era desrespeitar a lei e continuar vivendo.
Winston indagou de si mesmo, vagamente, quantos outros, como Júlia, devia haver
na nova geração - jovens crescidos no mundo da Revolução, não sabendo nada
mais, achando o Partido algo inalterável, como o céu, não se rebelando contra
sua autoridade, mas simplesmente fugindo a ela, como um coelho evita o cão.
Não discutiram a possibilidade de casamento. Era demasiado longínqua para
merecer consideração. Nenhum comitê imaginável sancionaria tais núpcias, mesmo
que Winston pudesse se livrar de Katherine. Nem como sonho de olhos abertos
oferecia esperança.
- Que tal era tua mulher? - indagou Júlia.
- Era... conheces a palavra de Novilíngua bempensante? Isto é,
naturalmente ortodoxa, incapaz de um mau pensamento?
- Não, não conheço a palavra, mas conheço o tipo, isso conheço.
Ele pôs-se a contar-lhe a história de sua vida conjugal, mas o curioso é
que ela já parecia conhecer as partes essenciais. Descreveu a Winston, quase
como se o tivesse visto ou sentido, o enrijamento do corpo de Katherine assim
que ele a tocava, a maneira por que parecia ainda repeli-lo com toda força,
mesmo quando nele se enroscava com braços e pernas. Com Júlia ele não achava
difícil falar de tais coisas: afinal, Katherine deixara de ser uma lembrança
dolorosa para ser apenas desagradável.
- Eu agüentaria se não fosse uma coisa - disse ele. Falou-lhe da frígida
cerimoniazinha a que Katherine o forçava uma vez por semana. - Ela o detestava,
mas nada conseguiria fazê-la mudar de idéia. Costumava chamar o ato de. .. és
capaz de adivinhar?
- Nosso dever para com o Partido - disse Júlia, prontamente.
- Como sabes?
- Também estive na escola, querido. Aulas de sexo uma vez por mês para as
maiores de dezesseis. E no Movimento Juvenil. Esfregam na cara da gente, anos a
fio. Sei que dá resultado, em muitas. Mas nunca se pode saber; há tantas
hipócritas.
Ela pôs-se a discorrer sobre o assunto. Com Júlia, tudo girava em torno da
sua própria sexualidade. Assim que este assunto vinha à tona, de algum modo,
mostrava-se muito informada. Ao contrário de Winston, percebera o sentido
íntimo do puritanismo sexual do Partido. Não era apenas pelo fato do instinto
sexual criar um mundo próprio, fora do controle do Partido e que portanto devia
ser destruído, se possível. O mais importante era a privação sexual que
provocava a histeria, desejável porque podia ser transformada em febre
guerreira e adoração dos chefes. Ou como explicava Júlia:
- Quando amas, gastas energia; depois, ficas contente, satisfeito, e não
te importas com coisa alguma. Eles não gostam que te sintas assim. Querem que
estoures de energia o tempo todo. Todo esse negócio de marchar para cima e para
baixo, dar vivas, agitar bandeirolas, é sexo que azedou. Se estás contente
contigo mesmo, por que havias de admirar o Grande Irmão, os Planos Trienais e
os Dois Minutos de Ódio e todo o resto da maldita burrice?
Era bem verdade, pensou ele. Havia uma ligação direta e íntima entre a
castidade e a ortodoxia política. Como poderiam ser mantidos no tom o medo, o
ódio e a credulidade lunática que o Partido necessitava nos seus membros, a não
ser pelo engarrafamento de um poderoso instinto, usado como força motriz? O
impulso sexual era perigoso ao Partido e o Partido o transformara em vantagem a
seu favor. A truque semelhante tinham submetido o instinto da paternidade. Como
não era possível abolir a família (ao contrário, os pais eram incitados a
gostar dos filhos quase à moda antiga) as crianças eram sistematicamente
atiradas contra os pais, e ensinadas a espioná-los e a denunciar os seus
desvios. Dessa forma a família se tornara uma extensão da Polícia do
Pensamento. Era um meio pelo qual todo mundo podia ser cercado, noite ou dia,
por delatores que o conheciam intimamente.
De supetão, o pensamento de Winston voltou a Katherine. Sem dúvida, ela o
denunciaria à Polícia do Pensamento se não fosse tão estúpida que não
percebesse a heresia dos pensamentos. Mas o que na verdade a recordou foi o
calor sufocante da tarde, que lhe cobria a testa de bagas de suor. Começou a
contar a Júlia algo que acontecera, ou antes, que deixara de acontecer, numa
tarde muito quente, onze anos atrás.
Havia apenas três ou quatro meses que haviam casado. Tinham-se perdido num
passeio comunal, em Kent. Haviam se afastado dos outros apenas uns minutos, mas
tomado um caminho errado, e por fim se achado na beira de uma velha mina de
calcário. Era uma queda vertical de dez ou vinte metros, com grandes rochas ao
fundo. Não havia ninguém a quem perguntar a direção certa. Assim que
descobriram estar perdidos, Katherine começou a ficar nervosa. Afastar-se do
bando barulhento, por uns minutos que fosse, dava-lhe a impressão de estar
agindo mal. Queria correr de volta pelo caminho e procurar na outra direção.
Mas nesse momento Winston notou uns tufos de prímulas crescendo nas grutas do
penedo. Um tufo era de duas cores, maravilha e tijolo, aparentemente crescendo
na mesma raiz. Nunca vira nada parecido, e chamou Katherine.
- Olha, Katherine! Olha aquelas flores. Aquele maço perto do fundo. Vês
que são de cores diferentes?
Ela já virara para regressar, mas veio espiar, inquieta. Chegou até a
inclinar-se sobre o rochedo para ver onde ele apontava. Winston estava parado,
um pouco para trás, e segurou-a pela cintura para firmá-la. Naquele momento,
ocorreu-lhe que estavam completamente sós. Não havia por ali nenhuma criatura
humana, não se movia uma folha, não havia um pássaro acordado. Num lugar
daqueles, era muito pequeno o perigo de haver um microfone escondido, e se
microfone houvesse, só poderia captar sons. Era a hora mais quente, mais
sonolenta da tarde. O sol fustigava-os, e a testa dele estava banhada em suor.
Uma idéia lhe veio...
- Por que não lhe deste um bom empurrão? - indagou Júlia. - Eu daria.
- Sim, querida, já sei. Eu também, se fosse a pessoa que sou hoje. Ou
talvez eu... não sei não.
- Lamentas não tê-la empurrado?
- Lamento. De certo modo, foi uma pena.
Estavam sentados, um ao lado do outro, sobre o soalho empoeirado. Puxou-a
para mais perto. Júlia descansou a cabeça no ombro dele, e o aroma agradável
dos seus cabelos sobrepujou o cheiro dos pombos. Era muito moça, pensou
Winston, ainda esperava algo da vida, não compreendia não ser solução empurrar
uma pessoa inconveniente, rochedo abaixo.
- Na verdade, não faria a menor diferença.
- Então por que lamentas não ter empurrado a zinha?
- Por que prefiro uma positiva a uma negativa. Neste jogo, não podemos
ganhar. Alguns fracassos são melhores que outros, e é tudo.
Sentiu-a dar de ombros, num movimento de desaprovação. Sempre o
contradizia quando ele saía com essas. Não aceitava, como lei da natureza, a
derrota do indivíduo. De certo modo percebia estar condenada, e que mais cedo
ou mais tarde a Polícia do Pensamento a apanharia e mataria, mas com outra
parte do cérebro acreditava ser possível construir um mundo secreto onde podia
viver como quisesse. Tudo que precisava era sorte, esperteza e audácia. Não
compreendia que não existia felicidade, que a única vitória estava no futuro
distante, muito depois da morte, e que desde o momento de declarar guerra ao
Partido era melhor considerar-se cadáver.
- Estamos mortos - disse ele.
- Não estamos mortos ainda - contestou Júlia, prosaicamente.
- Fisicamente, não. Seis meses, um ano... cinco anos concebivelmente.
Tenho medo da morte. És jovem, de modo que presumo que tens mais medo que eu.
Naturalmente, procuraremos evitá-la. Mas isso não faz muita diferença. Enquanto
os humanos permanecerem humanos, a vida e a morte são a mesma coisa.
- Besteira! Com quem preferes dormir, comigo ou com um esqueleto? Não
gostas de estar vivo? Não aprecias a sensação de dizer: este sou eu, esta é
minha mão, minha perna, sou real, sou sólido, sou vivo! Não gostas disto?
Ela voltou-se e apertou os seios contra o corpo dele. Winston pôde
sentir-lhe os peitos, maduros e firmes, sob o macacão. O corpo dela parecia
transmitir ao seu um pouco de juventude e vigor.
- Gosto, sim.
- Então para de falar de morte. E agora ouve, temos de combinar novo
encontro. Já podemos voltar à clareira do bosque. Demos-lhe uma boa folga. Mas
desta vez deves ir por caminho diferente. Já pensei em tudo. Pegas o trem...
mas olha, já te desenho um mapa.
E com seus modos práticos ela marcou um retângulo de pó e, tirando um pau
do ninho de um pombo, pôs-se a riscar uma planta no chão.
Winston olhou em torno do quartinho mal ajambrado sobre a loja do sr.
Charrington. Ao lado da janela, a cama enorme fora feita, com cobertores
esfarrapados e um travesseiro sem fronha. O relógio antigo, de mostrador de
doze horas, tiquetaqueava na lareira. No canto, sobre a mesa de abrir, o peso
de papéis que ele comprara na última visita cintilava suavemente na
semi-obscuridade.
Na guarda do fogão havia um veterano fogareiro a óleo, uma caçarola e duas
xícaras, fornecidos pelo sr. Charrington. Winston acendeu o fogo e pôs a panela
d'água a ferver. Trouxera um envelope cheio de Café Vitória e umas pastilhas de
sacarina. Os ponteiros do relógio marcavam sete e vinte; na verdade eram
dezenove e vinte. Ela devia chegar às dezenove e trinta.
Loucura, loucura, dizia-lhe o coração; loucura consciente, gratuita,
suicida. De todos os crimes que um membro do Partido podia cometer, este era o
mais difícil de ocultar. A idéia a princípio lhe viera à cabeça sob forma de
uma visão do peso de vidro espelhado pela superfície da mesa de dobrar. Como
previra, o antiquário acedera em alugar o quarto. Evidentemente, vinham a
calhar uns dólares extra. Nem pareceu chocado ou desrespeitoso quando ficou
claro que Winston queria o quarto com a finalidade de receber uma mulher. Ao
invés, seu olhar perdeu-se na meia distância e ele falou de generalidades, com
um ar tão delicado que parecia ter-se tornado parcialmente invisível. A
possibilidade da solidão, disse ele, é muito valiosa. Todo mundo quer um lugar
onde possa ficar só. E quando tem um lugar assim, é cortesia comum se calarem
os que dele souberem. E apesar de parecer fanado e fora da vida, acrescentou
até que a casa tinha duas entradas, sendo uma pelo quintal, que abria sobre o
beco.
Debaixo da janela, alguém cantava. Winston espiou para fora, protegido
pela cortina de musselina. O sol de junho ainda boiava alto nos céus, e no
pátio ensolarado uma mulher monstruosa, sólida como uma pilastra normanda, com
formidandos antebraços avermelhados e um avental de aniagem na cintura,
caminhava entre uma tina de lavar e um varal, estendendo uma porção de panos
quadrados em que Winston reconheceu fraldas. Sempre que não tinha a boca cheia
de prendedores, cantava, com poderosa voz de contralto:
"Foi apenas uma fantasia desesperada,
Que passou como um dia de abril,
Mas um olhar, uma palavra, e os sonhos provocados,
Roubaram o meu coração gentil!"
Havia semanas que a canção estava em voga em Londres. Era uma das músicas
sem conta, publicadas para os proles, por uma sub-seção do Departamento de
Música. As letras eram compostas, sem intervenção humana, num instrumento
chamado versificador. Mas a mulher cantava com tamanho sentimento que
transformava aquela horrível pieguice num som quase agradável. Winston podia
ouvir a mulher cantando e o ranger dos sapatos no lajeado, gritos de crianças
nas ruas, e às vezes, na distância, o regougo esmaecido do tráfego, e no
entanto o quarto parecia curiosamente mudo, por causa da ausência da teletela.
Loucura, loucura, loucura! tornou a pensar. Era inconcebível que pudessem
freqüentar aquele lugar por mais de algumas semanas sem serem descobertos. Mas
a tentação de ter um esconderijo que fosse verdadeiramente deles, dentro de
casa, à mão, fora demasiada. Durante algum tempo após a visita ao campanário da
igreja, não tinham podido se encontrar. As horas de trabalho tinham sido
drasticamente aumentadas, à espera da Semana do Ódio. Ainda faltava mais de um
mês, porém os preparativos vastos, complexos, exigiam trabalho extra de todo
mundo. Afinal, ambos haviam conseguido a mesma tarde livre. Tinham combinado ir
à clareira do bosque. Como sempre, Winston mal olhou para Júlia, quando se
cruzaram no meio da multidão. Mas pela breve olhada que lhe lançou, pareceu-lhe
que estava mais pálida do que do costume.
- Não pode ser - murmurou, assim que julgou seguro falar. - Quero dizer,
amanhã não posso.
- Que?
- Amanhã de tarde, não posso ir.
- Por quê?
- Pelo motivo comum. Desta vez começou cedo. Por um momento, ele se sentiu
furioso. Naquele mês, volvido desde que a conhecera intimamente, modificara-se
a natureza do seu desejo. No começo, pouca sensualidade houvera nele. O
primeiro contato amoroso fora simplesmente um ato de volição. Mas depois da
segunda vez as coisas haviam mudado de figura. O aroma dos cabelos, o gosto da
boca, a maciez da pele pareciam havê-lo penetrado, ou envolvê-lo. Ela se
tornara uma necessidade física, algo que não apenas queria como sentia ter
direito a gozar. Quando Júlia anunciou que não poderia ir, teve a impressão de
estar sendo lesado. Mas naquele momento a multidão os apertou e,
acidentalmente, as mãos se encontraram. Ela apertou-lhe ligeiramente as pontas
dos dedos, num gesto que parecia pedir não desejo mas afeto. Winston raciocinou
que, quando se vive com uma mulher, esse tipo de desapontamento deve ser uma
coisa normal, que acontece mais de uma vez; de repente, dominou-o uma profunda
ternura, como nunca sentira antes. Desejou que fossem um casal com dez anos de
existência em comum. Desejou passear com ela pelas ruas, como estavam fazendo
naquele instante, mas abertamente, sem medo, falando de frivolidades e
comprando pequenas bobagens para o lar. Desejou, acima de tudo, que tivessem um
lugar onde ficar a sós, sem sentir a obrigação de fazer o amor, cada vez que se
encontravam. Não foi exatamente naquele instante, mas no dia seguinte, que lhe
ocorreu alugar o quarto do antiquário. Quando sugeriu o plano a Júlia, ela
concordou com inesperada presteza. Ambos sabiam ser loucura. Era como se
dessem, de propósito, um passo para o túmulo. Sentado na beira da cama, Winston
tornou a pensar nos porões do Ministério do Amor. Era curioso que aquele horror
predestinado se acendesse e apagasse na sua consciência. Lá estava ele, fixado
no tempo futuro, precedendo a morte com a mesma certeza que 99 precede 100. Não
era possível evitá-lo, mas talvez fosse adiá-lo; e no entanto, ao invés disso,
de vez em quando, ele encurtava a vida, por um ato consciente, voluntário.
Naquele momento, ouviu-se um passo rápido nas escadas. Júlia irrompeu no
quarto. Trazia um saco de ferramentas de lona marrom crua, com que às vezes a
vira entrando e saindo do Ministério. Tentou colhê-la nos braços, mas Júlia
desvencilhou-se um tanto apressada, em parte por estar ainda com a bolsa na
mão.
- Meio segundo - disse. - Olha só o que eu trouxe. Trouxeste esse horrendo
Café Vitória? Logo vi. Podes levá-lo de volta, porque não precisamos dele.
Olha.
Ajoelhou-se, abriu a bolsa, e tirou algumas chaves-inglesas e de fenda que
enchiam a parte superior. Por baixo havia vários pacotes de papel. O primeiro
embrulho que entregou a Winston lhe pareceu, ao tato, ter uma consistência
estranha e no entanto vagamente familiar. Estava cheio de uma substância
pesada, pulverulenta, que cedia onde se apertasse o papel.
- É açúcar?
- Açúcar de verdade. Nada de sacarina. E aqui temos um pão - um pão
branco, decente, não aquela broa insossa - e uma latinha de geléia. Uma lata de
leite... e olha! Disso eu me orgulho. Tive de enrolá-lo numa estopa, porque...
Mas não era preciso explicar porque o enrolara. O aroma já enchia o
quarto, um aroma rico e convidativo, que lhe parecia uma emanação da meninice,
mas que de vez em quando ainda sentia, propagando-se por um corredor antes de
uma porta bater, ou espalhando-se misteriosamente numa rua cheia de gente; um
cheiro olfateado uns segundos e depois perdido de novo.
- É café - murmurou Winston. - Café de verdade.
- Café do Partido Interno. Um quilo inteiro aqui.
- Como conseguiste arranjar tudo isto?
- É tudo para o Partido Interno. Não há nada que aqueles suínos não
tenham. Nada. Mas naturalmente os garçons e os empregados afanam as coisas e...
olha, trouxe também um pacotinho de chá.
Winston acocorara-se ao pé de Júlia. Rasgou um bico do pacote.
- Chá mesmo. Não são folhas de amora.
- Tem rodado muito chá por aí. Capturaram a Índia, sei lá - explicou ela,
vagamente. - Mas escuta, querido. Quero que me dês as costas três minutos. Vai
sentar do outro lado da cama. Não chegues à janela. E não olhes enquanto eu não
te disser.
Winston ficou olhando, distraído, através da cortina de musselina. Lá no
pátio a mulher dos braços avermelhados continuava marchando da tina para o
varal, e vice-versa. Tirou dois prendedores de roupa da boca e cantou com
profundo sentimento:
"Dizem que o tempo tudo cura,
Dizem que sempre se pode esquecer,
Mas os sorrisos e lágrimas, anos a fio,
Ainda fazem meu coração sofrer."
Sabia de cor a estúpida canção. A voz subia, boiando no doce ar estival,
muito afinada, carregada de uma espécie de feliz melancolia. Tinha-se a
impressão de que ficaria perfeitamente contente se a noite de junho fosse
infindável, e inesgotável o monte de roupa suja, para ficar ali mil anos,
pendurando fraldas no varal e cantarolando bobagens. E Winston achou curioso o
fato de nunca ter ouvido um membro do Partido cantar a sós, espontaneamente.
Isso teria parecido ligeiramente ortodoxo, uma excentricidade perigosa, como
falar sozinho. Talvez fosse apenas quando as pessoas estão próximas da fome que
sentem desejo de cantar.
- Já podes virar - disse Júlia. Ele voltou-se e, por um segundo, quase não
pôde reconhecê-la. Francamente, esperara vê-la nua. Mas Júlia não estava nua.
Operara uma transformação muito mais surpreendente. Pintara o rosto.
Devia ter ido a uma loja do bairro proletário e comprado um jogo completo
de cosmética. Passara batom forte nos lábios, ruge nas faces, pó de arroz no
nariz; até havia, em torno dos olhos, um toque de tinta que os realçava. A
maquilagem não fora bem feita, mas nesse particular Winston não tinha grandes
exigências. Não havia nunca visto ou imaginado uma mulher do Partido usando
cosméticos. Era espantosa a melhora do seu aspecto. Com uns retoques de cor
aqui e ali Júlia não apenas se fizera muito mais bonita como, sobretudo, mais
feminina. O cabelo curto e o macacão masculinizante apenas davam destaque a
esse efeito. Quando a tomou nos braços, uma onda de violeta sintética lhe
invadiu as narinas. Lembrou-lhe a semi-escuridão de uma cozinha no sub-solo e a
boca cavernosa de uma mulher. Era o mesmo cheiro; mas não importava.
- E perfume, também!
- Sim, querido. Perfume também! E sabes o que vou trazer da próxima vez?
Vou arranjar um vestido de verdade, vestido de mulher, não sei ainda onde, e
vou usá-lo em vez destas calças horrorosas. E vou usar meias de seda e sapatos
de salto alto! Neste quarto serei mulher, não uma militante do Partido!
Jogaram a roupa para o lado e se aboletaram na vasta cama de mogno. Era a
primeira vez que ele se despia de todo em presença dela. Até então tivera muita
vergonha do corpo pálido e magro, das varizes saltadas na barriga da perna e a
mancha acima do tornozelo. Não havia lençóis, porém o cobertor sobre o qual se
haviam deitado era poído e liso, o tamanho e a elasticidade da cama os encheram
de espanto.
- Com certeza está cheia de percevejos, mas que importa? - disse Júlia.
Não se viam mais camas de casal, exceto na casa dos proles. Winston algumas
vezes dormira numa, na infância. Júlia jamais, tanto quanto podia se lembrar.
Dali a pouco adormeceram. Quando Winston acordou os ponteiros do relógio
indicavam quase nove. Não se mexeu, porque Júlia estava dormindo com a cabeça
apoiada na curva do braço dele. A maior parte da maquilagem se transferira para
a cara dele e o travesseiro, porém uma mancha de ruge ainda realçava a beleza
das maçãs do rosto de Júlia. Um raio amarelo do sol poente atravessava oblíquo
os pés da cama e iluminava a lareira, onde fervia ruidosamente a água da
caçarola. No pátio, a mulher se calara, porém débeis gritos de crianças ainda
flutuavam no ar, vindos da rua.
Winston ficou a meditar vagamente se no passado abolido fora normal
dormirem numa cama assim, na fresca de uma noite de verão, um homem e uma
mulher sem roupa, fazendo o amor quando quisessem, falando do que bem
entendessem, sem sentir nenhuma obrigação de levantar, simplesmente largados no
leito ouvindo os ruídos pacíficos lá de fora. Não era possível que tivesse
havido uma era em que tais coisas fossem comuns. Júlia acordou, esfregou os
olhos e ergueu-se num cotovelo, para olhar o fogareiro.
- Metade da água evaporou - disse ela. Daqui a um minuto levanto e faço
café. Ainda temos uma hora. A que horas cortam a luz no teu prédio?
- Às vinte e três e trinta.
- Na minha hospedaria às vinte e três. Mas precisas chegar mais cedo
porque... Ei! Vai-te embora, bicho imundo!
Ela de repente enredou-se na cama, apanhou um sapato do chão e atirou-o
com força a um canto, com um gesto vigoroso, juvenil, como ele a vira fazer,
jogando o dicionário em Goldstein, aquela manhã, durante os Dois Minutos de
Ódio.
- Que foi?
- Um rato. Mostrou o focinho ali naquele buraco do rodapé. Estás vendo o
buraco? Preguei-lhe um bom susto.
- Ratos! - murmurou Winston. - Neste quarto!
- Andam por toda parte - disse Júlia, indiferente, tornando a deitar-se. -
Vivem até na cozinha da pensão. Alguns bairros de Londres pululam de ratos.
Sabias que atacam criancinhas? Pois é, atacam. Em algumas dessas ruas, uma
mulher não tem coragem de deixar um filho sozinho dois minutos. São os
grandões, pardos, os piores. E o mais horrível é que -os brutos...
- Chega! - implorou Winston, cerrando os olhos.
- Querido! Estás tão pálido? Que aconteceu? Tens nojo de ratos?
- De todos os horrores do mundo... um rato! Ela apertou-se contra ele e
enrolou as pernas e os braços nele, como se para tranqüilizá-lo com o calor de
seu corpo. Ele não reabriu os olhos imediatamente. Por alguns momentos tivera a
sensação de voltar a um pesadelo que se repetia ciclicamente na sua vida. Era
sempre a mesma coisa. Estava parado diante duma muralha de trevas, e do outro
lado da muralha havia algo insuportável, algo demasiado horrível para se fazer
face. No sonho, a sua sensação mais profunda era sempre de auto-engano, porque
de fato não sabia o que havia atrás da muralha de treva. Com um esforço fatal,
como se arrancasse um pedaço do próprio cérebro, poderia ter trazido o mistério
à luz. Mas sempre acordava sem descobrir o que era: de certo modo, porém,
ligava-se com o que dizia Júlia quando a interrompera.
- Desculpa - pediu ele. - Não é nada. É que não gosto de ratos e pronto.
- Não te preocupes, querido, não deixarei que os bicharocos entrem aqui.
Vou calafetar o buraco com aniagem, antes de sairmos. E da próxima vez trago
reboco e tapo o orifício direitinho.
Já fora meio esquecido o instante negro de pânico. Sentindo-se
ligeiramente envergonhado de si mesmo, ele sentou-se, encostando na guarda da
cama. Júlia saltou, vestiu o macacão e fez café. O cheiro que se elevou da
caçarola era tão poderoso e inebriante que eles fecharam a janela, não fosse
alguém senti-lo e começar a especular. Ainda melhor que o sabor do café era a
textura sedosa que lhe dava o açúcar, de que Winston quase esquecera após
tantos anos de sacarina. Com a mão no bolso e segurando uma fatia de pão com
geléia na outra, Júlia passeou pelo quarto, dando olhadas indiferentes à
estante de livros, indicando a melhor maneira de consertar a mesa dobradiça,
atirando-se na velha poltrona estofada para ver se era confortável, e
examinando o absurdo relógio de doze horas com uma espécie de chacota
tolerante. Levou para a cama o peso de papéis, para examiná-lo na luz melhor.
Ele tomou-o, fascinado, como sempre, pelo aspecto macio, de água de chuva, do
vidro secular.
- Que é isto? - indagou Júlia.
- Não creio que seja nada... quer dizer, não creio que tenha servido para
nada. É por isso que gosto dele. É um pedacinho de história que se esqueceram
de alterar. É uma mensagem de cem anos atrás, se ao menos soubéssemos lê-la.
- E aquela gravura ali - Júlia indicou com a cabeça o quadro na parede
oposta - também tem cem anos de idade?
- Mais. Talvez duzentos. Não se sabe. Hoje em dia é impossível descobrir a
idade de qualquer coisa.
Ela foi espiá-la.
- Foi aqui que o bruto meteu o focinho - disse, dando um chute no rodapé,
logo abaixo do quadro. - Que lugar é esse? Já vi essa casa.
- É uma igreja, ou foi uma igreja. Chamava-se S. Clemente dos
Dinamarqueses. - O fragmento de cantiga que o sr. Charrington lhe ensinara
voltou-lhe à memória e ele acrescentou, quase com saudade: - Laranjas e limões,
dizem os sinos de S. Clemente!
Para sua imensa surpresa, Júlia continuou:
- Me deves três vinténs, dizem os sinos de S. Martinho,
Quando me pagarás? dizem os sinos de Old Bailey... Não me lembro como é
que continua. Só sei que acaba assim: Aí vem uma luz para te levar para a cama.
Aí vem um machado para te cortar a cabeça!
Pareciam santo e senha. Mas devia haver outro verso depois de "os
sinos de Old Bailey." Talvez conseguisse arrancá-lo da lembrança do sr.
Charrington, se o espicaçasse bem.
- Quem te ensinou isso?
- Meu avô. Costumava cantar-me essa cantiga quando eu era menina. Foi
vaporizado quando eu tinha oito anos... ou pelo menos desapareceu. O que será
limão? -acrescentou, inconseqüente. - Já vi laranja. É uma espécie de fruta
redonda, amarela, com casca grossa.
- Eu me lembro do limão. Era bem comum até 1950 e pouco. Era tão azedo que
só de cheirar a gente ficava com a boca amarga.
- Aposto que esse quadro tem bichos por trás - disse Júlia. - Um dia
destes arranco-o daí e dou-lhe uma boa limpadela. Acho que já é hora de irmos
embora. Preciso tirar esta tinta da cara. Que chatura! Depois tiro o batom do
teu rosto.
Winston só levantou dali a uns minutos. O quarto escurecia. Voltou-se para
a luz e ficou examinando o peso de papéis. O que lhe oferecia inexaustível
interesse não era o fragmento de coral, porém o interior do vidro em si. Tinha
tremenda profundidade e no entanto era quase transparente como o ar. Como se a
superfície do vidro fosse a abóbada celeste, contendo um pequenino mundo,
completo com sua atmosfera. Winston tinha a impressão de poder penetrá-lo, e
que de fato estava nele, junto com a cama de mogno e a mesa dobradiça, o
relógio, a gravura em aço e o próprio peso de papéis. O peso de vidro era o
quarto em que estava, e o coral era a vida de Júlia e a dele, fixadas para a
eternidade no coração do cristal.
Syme desaparecera. Um dia, faltou ao trabalho: alguns levianos comentaram
sua ausência. No dia seguinte ninguém mais falou dele. No terceiro dia, Winston
foi ao vestíbulo do Departamento de Registro, examinar o indicador geral. Um
dos avisos era uma lista impressa de membros do comitê de Xadrez, do qual Syme
fizera parte. Tinha quase exatamente o mesmo aspecto que antes - nada fora
riscado - mas faltava um nome. Bastava. Syme deixara de existir: nunca
existira.
Fazia um calor infernal. No labirinto ministerial, as salas sem janelas,
com ar condicionado, tinham temperatura normal, mas lá fora as calçadas assavam
os pés da gente, e era um horror o mau cheiro dos subterrâneos na hora de maior
tráfego. Iam a pleno vapor os preparativos para a Semana do Ódio, e o pessoal
de todos os ministérios trabalhava extra. Passeatas, comícios, paradas
militares, conferências, exposições de bonecos de cera, sessões
cinematográficas, programas de teletela, era preciso organizar tudo; era preciso
montar palanques, fazer efígies, inventar lemas, escrever canções, circular
boatos, falsificar fotos. Os colegas de Júlia, no Departamento de Ficção,
haviam suspendido a produção de novelas e estavam redigindo uma série de
panfletos de atrocidades. Winston, além do seu serviço regular, passava longas
horas, todos os dias, examinando exemplares atrasados do Times, alterando e
embelezando tópicos que seriam citados nos discursos. Tarde da noite, quando
bandos de proles desordeiros vagabundeavam pelas ruas, a cidade tinha um ar
curiosamente febril. As bombasfoguetes caíam com maior freqüência e às vezes
havia, na distância, enormes explosões, que ninguém sabia explicar, e a
respeito das quais corriam cabeludos boatos.
O novo gingle que seria prefixo musical da Semana do Ódio (Canção do Ódio,
era o seu título) já fora composta e era tocada incessantemente nas teletelas.
Tinha um ritmo selvagem, de latido, que não podia exatamente ser chamado de
música, e parecia o rufar de um tambor. Entoada por centenas de vozes, ao som
de passos em marcha, era aterrorizante. Os proles a haviam adotado e nas ruas,
à noite, competia com a sempre popular "Foi apenas uma fantasia
desesperada". Os filhos dos Parsons a tocavam, a qualquer hora da noite ou
do dia, com um pente e um pedaço de papel higiênico. As noites de Winston
estavam mais ocupadas que nunca. Bandos de voluntários, organizados por
Parsons, preparavam a rua, para a Semana, cosendo bandeiras e faixas, pintando
cartazes, fixando paus de bandeira nos telhados e arriscando o pescoço para
esticar fios através da rua, para sustentar as faixas. Parsons gabava-se de que
só a Mansão Vitória exibiria quatrocentos metros de fita agaloada. Sentia-se no
seu elemento e andava alegre como um periquito.
O calor e o trabalho manual lhe haviam dado pretexto para usar shorts e
camisa aberta. Andava por toda parte, empurrando, puxando, serrando,
martelando, improvisando, alegrando todo mundo, incitando os camaradas com
exortações e soltando, de cada dobra do corpo, uma nuvem inesgotável de cheiro
acre de suor.
De repente, aparecera por toda Londres um novo cartaz. Não tinha legenda,
e representava simplesmente a monstruosa figura de um soldado eurasiano, de
três ou quatro metros de altura, avançando com enormes botas e uma cara mongólica
sem expressão, apontando uma metralhadora portátil apoiada no quadril. De onde
quer que se olhasse o cartaz, o cano da metralhadora, ampliado pela
perspectiva, parecia apontar para a gente. O cartaz enchera todos os espaços
livres, tornando-se mais numeroso do que os retratos do Grande Irmão. Os
proles, normalmente apáticos em relação à guerra, estavam sendo incitados a um
dos cíclicos frenesis de patriotismo. Como que para se harmonizar com a atitude
geral, as bombas-foguetes matavam mais gente do que de costume. Uma caiu em
Stepney, num cinema cheio, sepultando várias centenas de vítimas nas ruínas.
Toda a população da vizinhança saiu à rua, para um longuíssimo cortejo fúnebre,
que durou horas e foi, na verdade, um comício de indignação. Outra bomba caiu
sobre um terreno baldio usado como parque infantil, e fez picadinho de várias
dezenas de crianças. Houve outras demonstrações de raiva, Goldstein foi
queimado em efígie, centenas de cartazes do soldado eurasiano foram rasgados e
jogados nas fogueiras, e uma porção de lojas foram pilhadas, na confusão;
correu então um boato de que os espiões estavam dirigindo as bombasfoguetes por
meio de ondas de rádio, e um velho casal, suspeito de ser de origem
estrangeira, teve a casa incendiada e morreu sufocado.
No quarto em cima da loja do sr. Charrington, quando conseguiam ir lá,
Júlia e Winston ficavam deitados, lado a lado, na cama debaixo da janela, nus
por causa do calor. O rato não voltara mais, porém os percevejos se haviam
multiplicado nefandamente. Não pareciam se importarem. Sujo ou limpo, o quarto
era o paraíso. Assim que chegavam, polvilhavam tudo com pimenta comprada no
mercado negro, tiravam a roupa e faziam o amor com o corpo suado, adormeciam e
despertavam para verificar que os percevejos haviam reagido e se agrupavam para
o contra-ataque.
Durante o mês de junho encontraram-se quatro, cinco, seis... sete vezes.
Winston abandonara o hábito de beber gim a toda hora. Parecia não precisar mais
dele. Engordara, a variz ulcerada sarara, deixando apenas uma nódoa parda na
pele, acima do tornozelo; não sofria mais de acessos de tosse de madrugada. O
processo da vida cessara de ser intolerável, e não sentia mais ímpetos de fazer
caretas para a teletela nem de gritar nomes feios. Agora que possuíam um
esconderijo seguro, quase um lar, já não lhes parecia tão mau encontrar-se
freqüentemente, e apenas por algumas horas. O que importava era a existência do
quarto sobre a loja do antiquário. Saber que estava lá, inviolado, era quase o
mesmo que estar nele. O quarto era um mundo, uma redoma do passado, onde
sobreviviam animais extintos. O antiquário, pensava Winston, era outro animal
extinto. Geralmente se detinha uns minutos para conversar com ele, antes de
subir. O velho parecia sair raramente, ou nunca, e tampouco parecia ter
fregueses. Levava uma existência fantasmagórica entre a lojinha escura e uma
cozinha ainda menor onde preparava as refeições e que continha, entre outras
coisas, um gramofone incrivelmente antigo, com uma enorme trompa. Parecia
contente de poder conversar. Perambulando no meio do seu estoque de frioleiras,
com o nariz comprido, os óculos espessos, e os ombros arcados metidos num
paletó de veludo, tinha sempre um ar vago mais de colecionador de que de
mercador. Com desbotado entusiasmo acariciava uma velharia insignificante - uma
tampa de porcelana para garrafa, um pedaço pintado de caixa de rapé, um
medalhão de pechisbeque contendo um anel de cabelo de alguma criança morta -
sem nunca pedir a Winston que comprasse nada, mas apenas que admirasse. Conversar
com ele era como ouvir uma caixa de música já gasta. Tirara dos cantos da
memória outros fragmentos de cançonetas esquecidas. Havia uma que falava de
vinte e quatro gralhas, outra a respeito duma vaca de chifre partido, e ainda
outra sobre a morte do pobre pintarroxo.
- Pensei que o sr. poderia se interessar - dizia, com uma risadinha de
desculpas, sempre que apresentava novo fragmento. Mas nunca podia lembrar mais
do que alguns versos de cada canção.
Winston e Júlia sabiam - de modo que nunca baniam do espírito - que não
podia durar muito o que estava acontecendo. Havia ocasiões em que a morte
vindoura parecia tão palpável quanto a cama que ocupavam, e então se agarravam
com uma espécie de desesperada sensualidade, como uma alma danada se agarra ao último
bocado de prazer quando faltam apenas cinco minutos para soar a hora. Mas havia
também ocasiões em que tinham a ilusão não apenas de segurança como de
permanência. Tinham a impressão de que, enquanto estivessem naquele quarto,
nenhum mal lhes poderia advir. Chegar até lá era difícil e perigoso, mas o
quarto era um santuário. Era como se Winston olhasse dentro do peso de papel,
com sensação de ser possível penetrar aquele mundo de vidro, e que, uma vez
dentro dele, o tempo se imobilizaria. Com freqüência se entregavam a sonhos
escapistas conscientes. A sorte haveria de ajudá-los, indefinidamente, e
continuariam a aventura até o fim da vida natural. Ou Katherine morreria e, com
auxílio de manobras sutis, Winston e Júlia conseguiriam casar. Ou então se suicidariam
juntos. Ou desapareceriam, alterando as fisionomias de modo que ninguém os
reconhecesse, aprenderiam a falar com sotaque proletário, arranjariam emprego
numa fábrica e viveriam até o fim numa ruela obscura. Tudo tolice, como bem
sabiam. Na verdade, não havia fuga. Não tinham intenção de executar nem o único
plano praticável, o suicídio. Viver dia a dia, semana a semana, esticando um
presente que não tinha futuro, parecia um instinto irresistível, como os nossos
pulmões sempre procuram inspirar, enquanto existe ar.
Às vezes, falavam também de se dedicar à rebelião ativa contra o Partido,
sem a menor noção de como dar o primeiro passo. Mesmo que a fabulosa
Fraternidade existisse, havia o problema de encontrar o caminho dos seus
quadros. Contou a Júlia a estranha intimidade que existia, ou parecia existir,
entre ele e O'Brien, e o impulso que às vezes sentia, de comparecer
simplesmente à presença de O'Brien, anunciar-se como inimigo do Partido e
pedir-lhe auxílio. Curioso que isto não parecesse a Júlia nada de
impossivelmente audacioso. Estava acostumada a julgar as pessoas pela
fisionomia, e lhe parecia natural que Winston acreditasse e confiasse em
O'Brien, por causa de uma simples olhada. Além do mais, parecia-lhe ponto
pacífico que todo mundo, ou quase, odiava secretamente o Partido e haveria de
quebrar suas leis, se acreditasse poder fazê-lo em segurança. Mas recusava-se a
acreditar que existisse, ou pudesse existir, oposição generalizada, organizada.
As caraminholas a respeito de Goldstein e o seu exército clandestino, dizia
ela, não passavam de besteiras que o Partido inventara, para servir aos seus
propósitos, e que os militantes fingiam crer. Vezes sem conta, em comícios do
Partido e demonstrações espontâneas, ela gritara a plenos pulmões, pedindo a
execução de gente cujos nomes nunca ouvira e em cujos supostos crimes não
acreditava de modo algum. Quando se haviam realizado os julgamentos públicos,
ocupara o seu lugar nos destacamentos da Liga da Juventude que circundavam o
tribunal, de manhã à noite, entoando ritmicamente "Morte aos
traidores!" Durante os Dois Minutos de Ódio sempre superava os outros nos
insultos a Goldstein. Entretanto tinha idéia muito obscura de quem fosse
Goldstein e que doutrinas pregava. Crescera depois da Revolução e era moça
demais para se lembrar das batalhas ideológicas de 1950 a 1970. Era coisa que
não podia imaginar um movimento político independente: e depois, o Partido era
invencível. Sempre existiria, e seria sempre o mesmo. Só era possível
rebelar-se contra ele por desobediência secreta ou, no máximo, por atos
isolados de violência, como assassinar alguém, dinamitar alguma coisa.
De certo modo era muito mais alerta do que Winston, e muitíssimo menos
suscetível à propaganda do Partido. Uma vez, quando ele mencionou a guerra
contra a Eurásia, a propósito de qualquer coisa, ela o espantou dizendo, com
toda a naturalidade que, na sua opinião, não havia guerra alguma. As
bombas-foguete que caíam diariamente sobre Londres eram provavelmente
disparadas pelo governo da própria Oceania, "só para amedrontar a
turma." Era uma idéia que jamais ocorrera a Winston. Também provocou uma
espécie de inveja nele contando-lhe que durante os Dois Minutos de Ódio tinha
grande dificuldade para não estourar em gargalhadas. Porém só punha em dúvida
os ensinamentos do Partido quando a interessavam pessoalmente. No mais, estava
disposta a aceitar a mitologia oficial, simplesmente porque a diferença entre
verdade e mentira não lhe parecia importante. Acreditava, por exemplo, e porque
o aprendera na escola, que o Partido inventara o aeroplano. (Quando ele estava
na escola, recordava Winston, antes de 1960, o Partido só afirmava ter
inventado o helicóptero; doze anos mais tarde, no tempo de Júlia, já reclamava
o avião; dali a uma geração com certeza se apossaria da máquina a vapor.) E
quando ele disse que os aviões existiam antes dele nascer, e muito antes da
Revolução, o fato pareceu a Júlia totalmente sem interesse. Afinal, que
importava o inventor dos aeroplanos? Foi choque maior para ele descobrir, por
um comentário passageiro, que ela não se lembrava de que, quatro anos atrás, a
Oceania estivera em guerra com a Lestásia, e em paz com a Eurásia. Era verdade
que considerava a guerra uma farsa; mas aparentemente não notara nem a mudança
do nome do inimigo. "Pensei que sempre estivéssemos em guerra com a
Eurásia," exclamou, evasivamente. Isso o amedrontou um pouco. A invenção
dos aeroplanos sucedera antes de Júlia nascer, mas a reviravolta da guerra
ocorrera havia apenas quatro anos, quando já era adulta. Discutiu com ela
durante um quarto de hora talvez. No fim, conseguiu forçar-lhe a memória a
recordar vagamente que, outrora, o inimigo fora a Lestásia e não a Eurásia.
Todavia, isso não lhe parecia significativo.
- Que importa? - indagou, impaciente. - É sempre uma horrível guerra
depois da outra, e a gente sabe que o noticiário é todo falso mesmo.
Às vezes ele lhe falava do Departamento de Registro e das impudentes
falsificações que lá executava. Essas coisas não pareciam horrorizá-la. Não
sentia o abismo abrindo-se aos seus pés, ao pensar nas mentiras que se
transformavam em verdades. Ele contou-lhe a história de Jones, Aaronson e
Rutherford, e do momentoso papelzinho que um dia tivera entre os dedos. Não a
impressionou grandemente. Na verdade, a princípio, ela nem compreendeu a
situação.
- Eram teus amigos?
- Não, nunca os conheci. Eram membros do Partido Interno. Além disso, eram
muito mais velhos do que eu. Pertenciam ao passado, vinham de antes da
Revolução. Eu mal os conhecia de vista.
- Então por que te preocupas? Não vivem matando gente o tempo todo?
Tentou fazê-la compreender.
- Foi um caso excepcional. Não foi apenas um assassínio. Percebes que o
passado, a partir de ontem, foi abolido? Se sobrevive nalguma parte, é em
alguns objetos sólidos, sem palavras ligadas a ele, como naquele pedaço de
vidro. Já não sabemos quase nada sobre a Revolução e os anos anteriores à
Revolução. Todos os registros foram destruídos ou falsificados, todo livro
reescrito, todo quadro repintado, toda estátua, rua e edifício rebatizado, toda
data alterada. E o processo continua, dia a dia, minuto a minuto. A história
parou. Nada existe, exceto um presente sem-fim no qual o Partido tem sempre
razão. Eu sei, naturalmente, que o passado é falsificado, mas jamais me seria possível
prová-lo, mesmo sendo eu o autor da falsificação. Depois de feito o serviço,
não sobram provas. A única prova está dentro da minha cabeça, e não sei com
certeza se outros seres humanos partilham minhas recordações. Apenas naquele
caso, em minha vida toda, possuí prova real, concreta, depois do
acontecimento... anos depois.
- E de que adiantou?
- Não adiantou nada, porque a joguei fora uns minutos depois. Porém se a
mesma coisa acontecesse hoje, eu guardaria a prova.
- Ora, eu não! Estou disposta a correr riscos, mas só por coisas que
valham a pena, não por causa de pedacinhos de papel. Que poderias fazer com o
recorte, se o guardasses?
- Pouca coisa, talvez. Mas era prova. Poderia ter semeado algumas dúvidas,
aqui e ali, supondo que ousasse mostrá-lo a alguém. Não creio que possamos
alterar coisa alguma nesta vida. Mas posso imaginar pequenos nódulos de
resistência brotando aqui e ali... pequenos grupos de gente que se reúne, e vão
crescendo, e deixando algumas notas, de modo que a geração seguinte possa
continuar a obra.
- Não estou interessada na próxima geração, querido. Estou interessada em
nós.
- És rebelde só da cintura para baixo - disse ele. Ela achou esta frase
excepcionalmente jocosa e atirou os braços em torno dele, deliciada.
Tampouco tinha Júlia o menor interesse pelas ramificações da doutrina do
Partido. Sempre que ele começava a falar dos princípios do Ingsoc, duplipensar,
a mutabilidade do passado e a negação da realidade objetiva, e a usar palavras
de Novilíngua, ela ficava aborrecida, confusa, e dizia não ter jamais prestado
atenção a essas coisas. Sabia que era tudo lixo, portanto para que se preocupar
com ele? Sabia quando aplaudir e quando vaiar, e era toda a ciência de que
precisava. Quando ele persistia em falar de tais assuntos, Júlia tinha o hábito
desconcertante de adormecer. Era uma dessas pessoas que podem adormecer a
qualquer momento, em qualquer posição. Falando com ela, Winston percebeu como
era fácil aparentar ortodoxia, sem ter a menor noção do que fosse ortodoxia. De
certo modo, o ponto de vista do Partido se impunha com mais êxito às pessoas
incapazes de compreendê-lo. Aceitavam as mais flagrantes violações da realidade
porque jamais percebiam inteiramente a enormidade do que se lhes exigia, e não
estavam suficientemente interessadas para observar o que acontecia. Graças à
falta de compreensão permaneciam sãs de juízo. Apenas engoliam tudo, e o que
engoliam não lhes fazia mal, porque não deixava resíduo, do mesmo modo que um
grão de milho passa, sem ser digerido, pelo corpo de uma ave.
Por fim acontecera. Chegara a esperada mensagem. Pareceu-lhe que a vida
toda estivera esperando aquilo.
Caminhava pelo longo corredor do Ministério e estava quase no local onde
Júlia lhe metera o bilhete na mão quando percebeu que alguém o seguia, mais
encorpado que ele. Essa pessoa, fosse quem fosse, tossiu um pouco, como um
prelúdio à fala. Winston parou abruptamente e voltou-se. Era O'Brien.
Afinal encontravam-se face a face, e pareceu-lhe que o seu único impulso
era fugir. O coração martelava furiosamente. Não conseguiria falar. O'Brien,
todavia, continuara no mesmo movimento, colocando a mão por um momento no braço
de Winston, de modo que agora caminhavam lado a lado. Começou a falar com a
solene cortesia característica que tanto o diferenciava da maioria dos membros
do Partido Interno.
- Tinha esperança de poder-te falar - disse. - Li outro dia no Times um
teu artigo em Novilíngua. Tens um interesse de erudito na Novilíngua, não é?
Winston recuperara um pouco do seu auto-controle.
- Erudito, não. Sou um mero amador. Não é o meu forte. Nunca tive nenhuma
interferência na construção do idioma.
- Mas o escreves com muita elegância - insistiu O'Brien. - E não é apenas
minha opinião. Recentemente, conversei com um amigo teu, que é um perito. No
momento, foge-me da memória o nome dele.
O coração de Winston tornou a pular, doloridamente. Era inconcebível que
aquelas palavras não fossem referência a Syme. Porém Syme não estava apenas
morto, fora abolido, era uma impessoa. Seria mortalmente perigoso fazer-lhe uma
referência identificável. A observação de O'Brien deveria, evidentemente, ser
tomada como sinal, código. Dividindo uma pequena crimidéia, os dois tornavam-se
cúmplices. Tinham continuado pelo corredor, mas de repente O'Brien se deteve.
Com a amistosidade curiosa e desarmante que sempre lograva comunicar ao gesto,
recolocou os óculos no nariz. E continuou:
- O que eu de fato queria te dizer, a propósito do artigo, é que notei o
uso de duas palavras obsoletas. Que se tornaram obsoletas muito recentemente.
Já viste a décima edição do Dicionário de Novilíngua?
Não. Não creio que já tenha sido publicado. No Departamento de Registro
ainda usamos a nona.
- Creio que a décima edição só será publicada daqui a alguns meses. Mas
foram preparados alguns exemplares especiais, de amostra. E eu recebi um.
Talvez gostasse de examiná-lo?
- Apreciaria imenso - disse Winston, percebendo imediatamente aonde levava
a conversa.
- Algumas novidades são muito engenhosas. A redução do número de verbos,
por exemplo... creio que gostarás de ver isso. Vejamos, mando-te um mensageiro
te entregar o dicionário? O pior é que invariavelmente me esqueço de tudo. O
melhor, talvez, seria ir buscá-lo no meu apartamento, à hora que quisesses.
Espera, que já te dou meu endereço. Estavam parados diante duma teletela. Um
tanto distraído, O'Brien procurou em dois bolsos e deles tirou um pequeno
canhenho de capa de couro e uma lapiseira-tinta, de ouro. Logo abaixo da
teletela, em posição tal que pudesse ser lido por quem estivesse de plantão no
outro extremo do fio do aparelho, ele rabiscou um endereço, arrancou a página e
deu a Winston.
- Em geral estou em casa à noite - disse ele. - Se não estiver, minha
empregada te entregará o Dicionário.
E afastou-se, deixando Winston com o pedaço de papel que, desta vez, não
havia necessidade de esconder. Não obstante, decorou-o cuidadosamente e algumas
horas mais tarde jogou-o no buraco da memória, com um maço de outros papéis.
Tinham conversado um par de minutos, no máximo. O episódio só podia ter um
significado. Fora engendrado como meio de dar a Winston o endereço de O'Brien.
Isto era necessário porque, exceto pela pergunta direta, não era nunca possível
descobrir onde morava uma pessoa. Não havia guias nem indicadores de espécie
alguma. "Se queres me ver, podes me encontrar aqui," era o sentido da
mensagem de O'Brien. Talvez até houvesse um recado oculto no Dicionário. Fosse
como fosse, uma coisa era certa. A conspiração com que sonhava existia, e ele
alcançara a sua periferia.
Sabia que mais cedo ou mais tarde obedeceria ao chamado de O'Brien. Talvez
amanhã, talvez após longa espera... não tinha certeza. O que estava acontecendo
era apenas o desenvolvimento de um processo iniciado muitos anos antes. O
primeiro passo fora um pensamento secreto, involuntário, o segundo fora o
início do diário. Passara das idéias às palavras, e agora das palavras aos
atos. O último passo era algo que teria lugar no Ministério do Amor. Ele o
aceitara. O fim estava contido no começo. Mas era assustador; ou mais
exatamente, era um prenúncio de morte, como se estivesse menos vivo. Até mesmo
falando com O'Brien, um tiritar de frio se apossara do corpo de Winston, quando
o significado das palavras calou. Tivera a sensação de pisar na terra úmida de
um túmulo, e não era consolo algum saber que o túmulo lá estava, à sua espera.
Winston acordara com os olhos rasos d'água. Júlia rolou sonolenta para
ele, murmurando algo que poderia ser "Que foi?"
- Sonhei - começou ele. E calou-se. Era complexo demais para traduzi-lo em
palavras. Havia o sonho em si e havia, ligada a ele, uma lembrança consciente,
que penetrara no seu espírito alguns segundos depois de acordar.
Deixou-se ficar de costas, olhos fechados, ainda embebido da atmosfera do
sonho. Era um vasto sonho luminoso em que toda a sua vida parecia estirar-se
diante dele como uma paisagem numa tarde de verão, depois da chuva. Tudo
acontecera dentro do peso de papel, mas a superfície do vidro era a abóbada
celeste, e dentro da abóbada estava tudo inundado de luz clara e suave na qual
se podia enxergar distâncias intermináveis. O sonho também estava incluído -
com efeito, de certo modo consistira nisso - por um gesto do braço feito por
sua mãe, e repetido trinta anos mais tarde pela judia que vira no cinema, tentando
proteger o filhinho contra as balas, antes que os helicópteros fizessem
explodir os dois.
- Sabes - perguntou - que até este momento eu acreditava ter assassinado
minha mãe?
- Por que a assassinaste? - indagou Júlia, quase a dormir.
- Não a assassinei. Não fisicamente. No sonho, recordara-se da sua última
visão da mãe, e alguns minutos após despertar havia voltado à mente um bando de
pequenos acontecimentos com ela relacionados. Era uma lembrança que ele devia
ter deliberadamente excluído da consciência durante muitos anos. Não tinha
certeza da data, mas não podia ter menos de dez anos, talvez doze, quando
sucedera.
O pai sumira havia algum tempo; quanto tempo antes, não podia precisar.
Lembrava-se melhor das circunstâncias agoniadas da época: os pânicos periódicos
dos ataques aéreos, a corrida às estações do trem subterrâneo, as pilhas de
escombros por toda parte, as proclamações ininteligíveis pregadas nas esquinas,
os bandos de rapazes todos de camisa da mesma cor, as filas enormes diante das
padarias, o metralhar intermitente na distância - e acima de tudo, o fato de
nunca haver o bastante para comer. Lembrava-se de longas tardes passadas com
outros meninos remexendo em latas de lixo e montes de refugo, catando os talos
de folhas de repolho, cascas de batatas, às vezes até pedaços de casca de pão
velho que limpavam cuidadosamente das cinzas. e também da espera da passagem de
caminhões que faziam determinado itinerário, carregando comida para o gado e
que, sacolejando nos trechos de mau calçamento, às vezes derrubavam fragmentos
de torta de algodão.
Quando o pai desapareceu, sua mãe não demonstrou nenhuma surpresa ou mágoa
violenta, porém uma repentina mudança a acometeu. Parecia ter perdido a fibra.
Era evidente, até para Winston, que ela esperava algo que deveria acontecer.
Fazia todo o necessário - cozinhava, lavava, remendava, fazia a cama, varria,
espanava - sempre muito devagar e com uma curiosa economia de gestos
supérfluos, como uma figura criada por um artista e que se movesse por si
mesma. O corpo grande e bem proporcionado pareceu cair num marasmo natural.
Durante horas a fio ficava sentada quase imóvel na cama, cuidando da filhinha,
uma criança miúda, enferma, muito calada, de dois ou três anos, e a quem a
magreza dera feições de símio. De raro em raro, tomava Winston nos braços e
apertava-o contra o seio longo tempo, sem dizer nada. E ele percebia, apesar da
pouca idade e do seu egoísmo, que esta atitude era ligada a uma coisa
imencionável que não tardaria a ocorrer.
Lembrava-se do quarto em que moravam, um aposento escuro, abafado, que
parecia cheio, pela metade, com uma cama de cabeceira branca. Na guarda da
lareira havia um fogareiro a gás, e uma prateleira onde ficavam os gêneros. No
patamar, fora do quarto, havia uma pia de louça marrom, comum a várias
famílias. Lembrava-se do corpo estatuesco de sua mãe, inclinado sobre o
fogareiro, mexendo a caçarola.
Sobretudo lembrava-se da sua fome contínua, e das brigas encarniçadas e
sórdidas às refeições. Perguntava a sua mãe, chocarreiramente, milhares de
vezes, porque não havia mais comida, gritava e esbravejava com ela
(recordava-se até dos tons de sua voz, que estava começando a mudar
prematuramente e de vez em quando reboava de maneira especial), ou tentava uma
nota patética e nasal, num esforço de ganhar mais que o seu quinhão. E ela
estava disposta a dar-lhe mais que o quinhão. Considerava natural que ele,
"o rapaz", recebesse a maior porção; por mais que lhe desse, porém,
ele invariavelmente pedia mais. Em cada refeição ela lhe pedia que não fosse
egoísta e lembrasse que a irmãzinha doente também precisava de alimento, mas
era inútil. Ele chorava de raiva quando a mãe parava de servi-lo, tentava
arrancar-lhe das mãos a caçarola e a colher, furtava bocados do prato da irmã.
Sabia que assim as condenava à fome, mas não podia evitá-lo; sentia-se até com
direito a agir dessa forma. A fome clamorosa que tinha na barriga parecia
justificá-lo. Entre as refeições, se a mãe não vigiasse, ele constantemente
pilhava as magras provisões da prateleira.
Um dia, foi distribuída uma ração de chocolate. Havia semanas ou meses que
não se via chocolate. Winston lembrava-se com muita clareza daquele precioso
pedacinho de chocolate. Era uma barra de duas onças (naquele tempo ainda se
falava em onças) para os três. Evidentemente, devia ser dividida em três partes
iguais. De repente, como se ouvisse a voz de outrem, ele se ouviu exigindo, com
voz grossa e forte, que lhe dessem a barra toda. A mãe respondeu-lhe que não
fosse guloso. Houve uma longa e incômoda discussão, que durou horas, com
gritos, uivos, lágrimas, queixas, acordos. A irmãzinha, agarrada à mãe com as
duas mãos, exatamente como um filhote de macaco, olhava-o com grandes olhos
doídos. Por fim, a mãe quebrou a barra em quatro pedaços iguais, dando três a Winston
e o último à menina. A garota apanhou e ficou a olhá-lo, feito água parada,
talvez sem saber o que fosse. Winston observou-a um momento. Depois, com um
bote repentino e célere, arrancou o pedaço de chocolate da mão da irmã e correu
para a porta.
- Winston, Winston! - chamou sua mãe. - Volta e devolve o chocolate da tua
irmã!
Ele parou, mas não voltou. Os olhos ansiosos de sua mãe o fixavam. Naquele
momento ela estava pensando na coisa que ele não sabia o que fosse, mas que
deveria acontecer. A menina, consciente de ter sido furtada, gemia debilmente.
A mulher passou o braço em torno da filha e apertou-lhe o rosto contra o peito.
Naquele gesto havia algo que revelou a Winston: sua irmã estava morrendo. Fez
meia-volta e disparou escada abaixo, o chocolate a melar-lhe os dedos.
Nunca mais tornara a ver a mãe. Depois de devorar o chocolate, sentira-se
um tanto envergonhado de si mesmo e ficara na rua várias horas, até a fome lhe
indicar o caminho de casa. Quando chegou, a mãe desaparecera. Naquela época, isso
já estava se tornando normal. Nada sumira do quarto, exceto a mulher e a filha.
Não tinham levado roupa alguma, nem mesmo o capote da mãe. Até aquele dia,
Winston não sabia com certeza se ela estava morta ou não. Era perfeitamente
possível que a tivessem apenas enviado a uma colônia correcional. Quanto à
irmã, poderia ter sido mandada, como Winston, a um dos orfanatos surgidos em
conseqüência da guerra civil; ou podia ter sido levada para o campo com sua
mãe, ou meramente abandonada em algum lugar, para morrer.
O sonho ainda estava vívido no seu espírito, especialmente o gesto
protetor do braço no qual parecia se conter todo o seu significado. Winston
lembrou-se de outro sonho, de dois meses antes. Na posição exata em que sua mãe
sentara na cama miserável, de colcha branca, com a filha agarrada ao peito, ela
aparecera no navio naufragado, bem abaixo dele, e afundando cada vez mais,
sempre a fitá-lo através da água escura.
Contou a Júlia a história do desaparecimento de sua mãe. Sem abrir os
olhos, ela rolou sobre si mesma e instalou-se em posição mais confortável.
- Eu te vejo como uma ferinha diabólica, naquela época - disse ela,
indistintamente. - Todas as crianças são feras.
- São, mas o importante da história... Pela sua respiração pausada
tornou-se evidente que ela adormecera de novo. Ele gostaria de ter continuado
falando da mãe. Não supunha, pelo que ainda se lembrava dela, que tivesse sido
mulher fora do comum, e muito menos inteligente; e no entanto possuíra uma
espécie de nobreza, de pureza, simplesmente porque obedecia a cânones que eram
seus próprios. Seus sentimentos eram dela mesma, e não podiam ser alterados
pelas circunstâncias externas. Não lhe ocorreria que um ato ineficaz se
tornaria, por isso mesmo, sem sentido. Quando se ama alguém, ama-se, e quando
não se tem nada mais para lhe dar, ainda se lhe dá amor. Acabado o chocolate; a
mãe agarrara a menina. Era inútil, não adiantava nada, não produzia mais
chocolate, não evitava nem a morte da menina nem a sua; mas parecia-lhe natural
fazê-lo. A refugiada do navio também cobrira o menininho com o braço, que não
era mais defesa contra as balas do que uma folha de papel. O que o Partido
fizera de terrível era persuadir os seus membros de que meros impulsos, meras
sensações, não tinham importância, ao mesmo tempo que lhes roubava todo poder
sobre o mundo material. Uma vez no jugo do Partido, o que a pessoa sentisse ou
não, o que fizesse ou deixasse de fazer, literalmente não fazia diferença.
Acontecesse o que acontecesse, o indivíduo sumia, e nem ele nem seus atos eram
jamais mencionados. Era banido do rio da história. E no entanto, aos cidadãos
de apenas duas gerações atrás, isto não teria parecido importante, porque não
tentavam alterar a história. Eram governados por lealdades particulares que não
punham em dúvida. O que importava eram relações individuais, e podia ter valor
em si um gesto completamente irrelevante, um abraço, uma lágrima, uma palavra
dita a um moribundo. De repente, ocorreu-lhe que os proles tinham continuado
assim. Não eram leais a um partido, país ou ideologia, eram leais aos seus
semelhantes. Pela primeira vez na vida não desprezou os proles nem pensou neles
apenas como força inerte que um dia ganharia vida e regeneraria o mundo. Os
proles tinham continuado humanos. Não se haviam endurecido por dentro. Haviam
conservado as emoções primitivas que ele próprio tivera que reaprender por
esforço consciente. E assim raciocinando ele se lembrou, sem ligação aparente,
de como vira, havia algumas semanas, uma mão amputada na rua e como a chutara
para a sarjeta, como se fosse um talo de couve.
- Os proles são seres humanos - disse ele, em voz alta. - Nós não somos
humanos.
- Por que? - quis saber Júlia, que acordara outra Vez. Ele meditou uns
instantes.
- Já te ocorreu que o melhor que temos a fazer é simplesmente ir embora
daqui, antes que seja tarde demais, e nunca mais nos vermos?
- Sim, querido, já me ocorreu diversas vezes, Mas não, não vou sair, e
pronto.
- Temos tido sorte - disse ele - mas não pode durar muito tempo. És jovem.
Pareces normal e inocente. Se te afastas de gente como eu, podes viver mais
cinqüenta anos.
- Não. Já pensei em tudo. O que fizeres, eu faço também. E não te afobes.
Tenho jeito para viver.
- Podemos ficar juntos mais seis meses... um ano... não há maneira de saber.
No fim, é certo que nos separem. Percebes como seremos solitários? Quando nos
pegarem, não haverá nada, literalmente nada, que possamos fazer um pelo outro.
Se eu confessar, eles te fuzilam, e se eu recusar confessar, te fuzilam do
mesmo modo. Nada que eu possa dizer ou fazer, ou proibir-me de dizer, te adiará
de cinco minutos a hora da morte. Nem ao menos saberemos se o outro estará
morto ou vivo. Ficaremos completamente inermes. A única coisa que importa é que
não atraiçoemos um ao outro, embora nem isso faça a menor diferença.
- Se te referes à confissão, ah, isso confessaremos. Todo mundo sempre
confessa. Não podes evitar. Eles torturam a gente.
- Não, não é confessar. Confissão não é traição. O que digas ou faças não
importa. O que importa são os sentimentos. Se conseguirem me obrigar a deixar
de te amar... isso seria traição.
Ela raciocinou.
- Isso não podem fazer. É a única coisa que não podem. Podem te fazer
dizer qualquer coisa... tudo... mas não podem te obrigar a acreditar. Não
penetram na gente.
- Não - ele concordou, um pouco mais esperançoso.
- É verdade. Não penetram na gente. Se podes sentir que vale a pena
continuar humano, mesmo que isso não dê o menor resultado, terás vencido os
torturadores.
Ele pensou na teletela com seu ouvido insone. Podiam espionar o indivíduo
noite e dia, mas se ele não perdesse a cabeça ainda conseguia ludibriá-los. Com
toda a sua sagacidade, não tinham jamais conquistado o segredo de descobrir o
que pensa outro ser humano. Talvez isso fosse menos verdade quando o cidadão
lhe caísse nas unhas. Não se sabia o que acontecia dentro do Ministério do
Amor, mas era possível adivinhar: torturas, drogas, delicados instrumentos que
registravam as reações nervosas do paciente, e o desgaste gradual pela falta de
sono, a solidão, o interrogatório persistente. Pelo menos, seria impossível
ocultar fatos. Podiam ser encontrados pela pergunta, e arrancados pela tortura.
Mas se o objetivo era não tanto continuar vivo como continuar humano, que
diferença poderia fazer, no fim? Não podiam alterar os sentimentos do
indivíduo: nem ele próprio o consegue, mesmo que o deseje. Podiam desnudar, nos
mínimos detalhes, tudo quanto houvesse feito, dito ou pensado; mas o coração, cujo funcionamento é um mistério
para o próprio indivíduo, continuava inexpugnável.
Haviam resolvido, por fim haviam resolvido! A sala em que estavam era
comprida e suavemente iluminada. A teletela fora reduzida a um murmúrio; a
maciez e espessura do tapete azul dava a impressão de se andar no veludo. No extremo
da sala, O'Brien estava sentado a uma mesa, sob uma lâmpada de abajur verde,
com um monte de papéis de cada lado. Nem se dignara levantar o olhar quando o
criado introduziu Júlia e Winston.
O coração de Winston batia com tanta força que duvidava poder falar.
Haviam resolvido, haviam resolvido afinal, era tudo que conseguia pensar. Fora
ousadia ir à casa de O'Brien, e pura loucura chegar à sua porta com Júlia;
embora fosse verdade que tivessem ido por caminhos diferentes apenas se
encontrando diante da porta. Mas era preciso muita coragem e esforço nervoso
para entrar num lugar desses. Só em ocasiões muito raras se viam por dentro as
residências do Partido Interno, ou se visitava o bairro em que moravam os
chefes. Toda a atmosfera do enorme edifício de apartamentos, a riqueza e a
vastidão de tudo, os cheiros fora do comum de boa comida e bom fumo, os
elevadores silenciosos e incrivelmente rápidos, disparando para cima e para
baixo, os criados de jaqueta branca, sempre apressados - era tudo intimidante.
Embora Winston tivesse um bom pretexto de ali estar, a cada passo assombrava-o
o medo de que um guarda de farda negra aparecesse de repente, ao dobrar uma
esquina, exigisse seus papéis e o mandasse embora. O criado de O'Brien, porém,
admitira os dois sem titubear. Era um homenzinho de cabelo escuro, paletó
branco, cara losangular, inteiramente sem expressão, e que poderia passar por
chinês. O corredor pelo qual os guiou era atapetado, e tinha paredes creme, com
rodapé branco, tudo imaculadamente limpo. Era de dar medo.
Winston não se lembrava de ter visto um corredor cujas paredes não fossem
marcadas da sujeira do contacto de corpos humanos.
O'Brien tinha um pedaço de papel entre os dedos e parecia estudá-lo
atentamente. O rosto largo, inclinado de modo que se podia ver a linha do
nariz, parecia ao mesmo tempo formidável e inteligente. Durante talvez vinte
segundos ele continuou imóvel. Depois puxou o falascreve para perto e ditou um
recado no jargão híbrido dos Ministérios: - Itens um vírgula cinco vírgula sete
aprovados completos ponto sugestão contida item seis dupliplus ridícula quase
crimidéia cancelar pontos incontinuar construtivo anteobtendo pluscompleto
orçamento máquinas extracustos ponto fim mensagem.
Levantou-se deliberadamente da cadeira e aproximou-se deles, sem ruído,
andando pelo tapete espesso. Com as palavras em Novilíngua, parecia ter deixado
para trás um pouco da sua atmosfera oficial, porém a sua catadura era mais
fechada do que de costume, como se estivesse aborrecido com a interrupção. Ao terror
que Winston já sentia misturou-se de repente um traço de embaraço comum.
Pareceu-lhe perfeitamente possível que houvesse cometido um erro estúpido. Na
verdade que prova tinha de que O'Brien fosse um conspirador político? Nada,
além de uma chispa no olhar e uma única observação equívoca: fora isso, só a
sua imaginação secreta, fundada num sonho. Não podia ao menos fingir que fora
pedir o Dicionário emprestado, pois nesse caso seria impossível explicar a
presença de Júlia. Quando O'Brien passou pela teletela, um pensamento pareceu
vir-lhe à mente. Deteve-se, voltou-se e apertou um comutador na parede. Houve
um estalido seco e a voz parou.
Júlia soltou uma pequena exclamação, uma espécie de guincho de surpresa.
Mesmo em meio ao seu pânico, Winston ficou tão admirado que não pode deixar de
exclamar:
- Desligou a teletela!
- Sim - disse O'Brien - desliguei. Nós temos esse privilégio.
Estava na frente deles. O corpanzil sólido dominava o casal, e a expressão
fisionômica continuava indecifrável. Estava esperando, severo, que Winston
falasse, mas do que?
Era bem concebível que não passasse de um homem ocupado, surpreendido e
irritado com a interrupção. Ninguém falou. Depois de calar-se a teletela a sala
parecia quieta como um túmulo. Os segundos passaram, enornes. Com dificuldade,
Winston continuava a fixar seus olhos nos de O'Brien. De repente, a carranca se
dissolveu no que poderia ser o começo dum sorriso. Com seu gesto
característico, O'Brien recolocou os óculos no nariz.
- Falo eu, ou falas tu?
- Eu falo - ofereceu-se Winston prontamente. - Aquilo está mesmo
desligado?
- Está. Tudo desligado. Estamos sós.
- Viemos aqui porque... Fez uma pausa, percebendo pela primeira vez como
eram vagos os seus motivos. Como não sabia que espécie de auxílio esperava de
O'Brien, não era fácil dizer a que fora. Continuou, consciente de que suas
palavras deviam parecer fracas e pretensiosas:
- Acreditamos que existe alguma conspiração, alguma organização secreta
trabalhando contra o Partido, e que estás envolvido nela. Queremos também
trabalhar nela. Somos inimigos do Partido. Não acreditamos nos princípios do
Ingsoc. Somos ideocriminosos. Também somos adúlteros. Conto tudo isto porque
queremos nos entregar à tua mercê. Se queres incriminar-nos de qualquer outra
forma, estamos prontos.
Calou-se e olhou sobre o ombro, com a impressão de que a porta se abrira.
De fato, o criado de cara amarela surgira sem bater. Winston viu que ele trazia
uma bandeja com um frasco de cristal e copos.
- Martin é dos nossos - disse O'Brien, impassível. - Traz a bebida aqui,
Martin. Põe a bandeja na mesa redonda. Temos cadeiras suficientes? Então
sentemos e conversemos comodamente. Traz uma cadeira para ti, Martin. Falamos
de negócios. Podes deixar de ser criado durante dez minutos.
O homenzinho sentou-se, completamente à vontade, e no entanto ainda com ar
de servo, o ar de um criado de quarto que goza de um privilégio. Winston
considerou-o de soslaio. Ocorreu-lhe que a vida toda do homem era desempenhar
um papel, e que achava perigoso abandonar, por um momento que fosse, sua falsa
personalidade. O'Brien tomou a garrafa de cristal pelo pescoço e encheu os
copos com um líquido vermelho escuro. Provocou em Winston vagas memórias de
algo que vira havia muito tempo numa parede ou num tapume - uma vasta garrafa
composta de luzes que pareciam borbulhar e despejar o conteúdo num copo. Visto
de cima, o líquido parecia quase negro, mas no frasco brilhava como um rubi.
Tinha um cheiro agridoce. Viu Júlia apanhar o copo e cheirá-lo com cândida
curiosidade.
- Chama-se vinho - informou O'Brien, com a sombra dum sorriso. - Sem
dúvida leste a respeito do vinho, nos livros. Mas não são muitos do Partido
Externo que o conhecem. - O rosto solenizou-se de novo, e ele ergueu o copo:
- Creio que devemos beber um brinde. À saúde do nosso chefe, Emmanuel
Goldstein.
Winston agarrou o copo com certa ânsia. Vinho era algo com que sonhara e
sobre o qual lera. Como o peso de papel ou as cantigas semi-esquecidas do sr.
Charrington, pertencia ao passado, desaparecido e romântico, o tempo de dantes,
como gostava de chamá-lo secretamente, nos seus pensamentos. Sem saber por que
motivo, sempre acreditara que o vinho tinha sabor intensamente doce, como de
geléia de amora, e um efeito inebriante imediato. Mas quando o engoliu, a
bebida lhe causou uma decepção. A verdade era que, depois de beber gim durante
anos, mal podia prová-lo. Depôs na mesa o copo vazio.
- Então Goldstein existe?
- Sim, existe, e está vivo. Onde, não sei.
- E a conspiração... a organização? Existe? Não é mera invenção da Polícia
do Pensamento?
- Existe, sim. Chama-se a Fraternidade. Nunca saberás muito mais a
respeito da Fraternidade, exceto que existe e que pertences a ela. Voltarei ao
assunto daqui a pouco. - Olhou o relógio-pulseira. - É imprudente, mesmo para
os membros do Partido Interno, desligar a teletela mais de meia-hora. Não
devias ter vindo com a moça, e tereis de sair separados. Tu, camarada - e indicou
Júlia com a cabeça - sairás antes. Temos uns vinte minutos à nossa disposição.
Compreendeis que devo fazer algumas perguntas. Em termos gerais, a que estais
dispostos?
- A qualquer coisa de que formos capazes - respondeu Winston.
O'Brien voltara-se um pouco na cadeira, de modo que estava de frente a
Winston. Quase não considerava Júlia, parecendo achar que Winston falava por
ela. Piscou repetidamente, e começou a fazer as perguntas em voz baixa, sem
expressão como se fosse uma rotina, uma espécie de catecismo, cujas respostas
já lhe fossem conhecidas.
- Estás disposto a dar a vida?
- Estou.
- Estás disposto a assassinar?
- Estou.
- A cometer atos de sabotagem que poderão causar a morte de centenas de
inocentes?
- Sim.
- A trair tua pátria às potências estrangeiras?
- Sim.
- Estás disposto a fraudar, forjar, fazer chantagem, corromper a mente
infantil, distribuir entorpecentes, incentivar a prostituição, disseminar doenças
venéreas - fazer tudo quanto possa causar a desmoralização e debilitar o poder
do Partido?
- Sim.
- Se, por exemplo, servisse aos nossos interesses atirar ácido sulfúrico
no rosto duma criança, farias isso?
- Faria, sim.
- Estás disposto a perder tua identidade e viver o resto da tua vida como
garçom ou estivador?
- Estou.
- Estás disposto a te suicidar, se e quando isso te for ordenado?
- Sim.
- Estais dispostos, os dois, a vos separardes e nunca mais vos tornardes a
ver?
- Não! - irrompeu Júlia. A Winston pareceu haver uma longa pausa antes de
responder. Por um momento até lhe pareceu estar privado da fala. A língua
movia-se sem som, formando primeiro a sílaba de uma palavra, depois de outra,
inúmeras vezes. Até pronunciá-la, não sabia ao certo o que diria.
- Não - repetiu, por fim.
- Fizeste bem de me dizer - disse O'Brien. - É necessário saber tudo.
Voltou-se para Júlia e acrescentou, com voz um pouco mais expressiva:
- Compreendes que, mesmo que ele sobreviva, talvez seja pessoa diferente?
Pode ser que tenhamos de dar-lhe nova identidade. Seu rosto, seus movimentos, a
forma de suas mãos, a cor do cabelo... até a voz poderão ser diferentes. E tu
também podes te transformar numa pessoa diferente. Nossos cirurgiões podem
alterar as pessoas, torná-las irreconhecíveis. Às vezes é necessário. Às vezes
chegamos a amputar um membro.
Winston não pôde impedir outra olhada de soslaio ao rosto mongol de
Martin. Não havia cicatrizes visíveis. Júlia empalidecera um pouco, e suas
sardas se destacavam mais, porém olhava O'Brien nos olhos. Murmurou algo que
parecia ser assentimento.
- Bom. Então está resolvido. Havia uma caixa de cigarros, de prata, sobre
a mesa.
Com ar distraído, O'Brien ofereceu-a aos outros, serviu-se e depois
levantou-se, pondo-se a passear de um lado para outro da sala, como se pensasse
melhor de pé. Eram cigarros muito bons, bem feitos e firmes, de papel
extraordinariamente sedoso. O'Brien tornou a olhar o relógio-pulseira.
- Melhor voltares à cozinha, Martin - disse ele. - Vou ligar daqui a um
quarto de hora. Examina bem a cara destes camaradas antes de ires. Hás de
revê-los. Eu talvez não.
Exatamente como fizera à porta, o homenzinho de olhos escuros os fitou com
firmeza. Não havia em seus modos uma fagulha de amabilidade. Estava aprendendo
de cor as fisionomias, porém não sentia interesse por eles. Winston imaginou
que um rosto sintético talvez fosse incapaz de mudar de expressão. Sem falar
nem fazer qualquer cumprimento, Martin saiu, fechando a porta atrás de si, em
silêncio. O'Brien continuava passeando pela sala, uma das mãos no bolso do
macacão negro, a outra segurando o cigarro.
- Compreendem que lutarão no escuro? Estarão sempre no escuro. Receberão
ordens e obedecerão, sem saber porque. Mais tarde vos mandarei um livro do qual
aprenderão a verdadeira natureza da sociedade em que vivemos, e a estratégia
pela qual a destruiremos. Quando tiverem lido o livro, serão membros integrais
da Fraternidade. Mas entre os objetivos gerais pelos quais lutamos, e as
tarefas imediatas do momento, nada saberão. Digo-vos que existe a Fraternidade,
mas não posso dizer-vos se conta com cem membros, ou dez milhões. Pelo vosso
conhecimento pessoal, não poderão dizer que chega a uma dúzia. Terão três ou
quatro contatos, que serão renovados de tempos em tempos, à medida que
desaparecerem. Como este foi seu primeiro contato, será conservado. Quando
receberem ordens, será de mim. Se considerarmos necessário comunicar-nos com
vocês, será por meio de Martin. Quando forem por fim presos, confessarão. É
inevitável. Mas terão pouquíssimo para confessar, além de vossas próprias
ações. Não conseguirão trair senão um punhado de gente sem importância.
Provavelmente não trairão nem a mim. A essa altura, já estarei morto, ou terei
me transformado em pessoa diferente, com cara diferente.
Continuou a caminhar de um lado para outro sobre o tapete macio. Apesar do
volume do seu corpo, havia uma graça notável nos seus movimentos. Destacava-se
até no gesto que metia a mão no bolso, ou manipulava um cigarro. Mais do que de
força, dava a impressão de confiança e de compreensão, colorida de ironia. Por
mais sério que fosse, não tinha nada da parcialidade estreita que distingue o
fanático. Quando falava de assassínio, suicídio, moléstias venéreas, membros
amputados e rostos alterados, era com um ligeiro ar de zombaria. "Isto é
inevitável," parecia dizer o seu tom de voz. "Isto é o que temos de
fazer, sem piedade. Mas não é o que faremos quando a vida de novo valer a pena
ser vivida." Uma onda de admiração, quase de adoração, fluiu de Winston.
Esquecera-se da figura remota de Goldstein. Quando se olhava para os ombros
poderosos de O'Brien e sua cara de feições tão maciças, tão feia e no entanto
tão civilizada, era impossível acreditar que pudesse ser derrotado. Não havia
estratagema que ele não pudesse vencer, nenhum perigo que não pudesse prever.
Até Júlia parecia impressionada. Deixara o cigarro apagar e agora escutava
atentamente. O'Brien continuou:
- Já ouviste boatos da existência da Fraternidade. Sem dúvida já tens idéia
dela. Imaginaste, provavelmente, um vasto mundo clandestino de conspiradores,
reunindo-se secretamente, em porões, rabiscando mensagens nas paredes,
reconhecendo-se por meio de códigos ou gestos especiais. Nada disso existe. Os
membros da Fraternidade não têm meio algum de se reconhecer e é impossível a
qualquer um conhecer a identidade de mais que outros poucos. O próprio
Goldstein, se caísse nas mãos da Polícia do Pensamento, não poderia fornecer
uma lista completa dos conspiradores, nem informação que permitisse compilá-la.
Não existe essa lista. A Fraternidade não pode ser eliminada porque não é uma
organização no sentido comum da palavra. Nada a cimenta, exceto uma idéia, uma
idéia indestrutível. Jamais terás nada para te sustentar, exceto, a idéia. Não
terás camaradagem nem incentivo. Quando por fim fores apanhado, não terás
socorro. Nunca ajudamos nossos militantes. No máximo, quando é absolutamente
necessário que alguém silencie, conseguimos às vezes meter uma lâmina de barba
na cela do preso. Terás que te acostumar a viver sem resultados e sem
esperança. Trabalharás algum tempo, serás preso, confessarás e morrerás. São os
únicos resultados que verás. Não há possibilidade de se dar uma mudança
perceptível durante nossa vida. Nós somos os mortos. Nossa única vida
verdadeira está no futuro. Nela tomaremos parte como punhados de pó e de ossos.
Mas a que distância está esse futuro, não há meio de saber. Pode ser daqui a
mil anos. No momento, nada é possível, exceto alargar aos poucos a zona de
sanidade mental. Não podemos agir coletivamente. Só podemos expandir nosso
conhecimento de indivíduo a indivíduo, geração após geração. Em face da Polícia
do Pensamento, não há outro modo.
Parou e pela terceira vez olhou para o relógio.
- Já é quase hora de saíres, camarada - disse a Júlia.
- Espera, o frasco ainda está pela metade. Encheu os copos e ergueu o seu
pela haste.
- A que brindaremos, desta vez? - perguntou, ainda com a mesma leve
sugestão de ironia. - À confusão da Polícia do Pensamento? À morte do Grande
Irmão? À humanidade? Ao futuro?
- Ao passado - arriscou Winston.
- O passado é mais importante - concordou O'Brien, gravemente. Esvaziaram
os copos, e dali a um momento Júlia levantou-se. O'Brien tirou uma caixinha do
alto de um armário e deu-lhe uma pastilha branca, que recomendou dissolver na
boca. Era importante, disse ele, não sair cheirando vinho: os ascensoristas
eram muito observadores. Assim que a porta se fechou sobre a moça pareceu
esquecer que ela existia. Deu mais uma ou duas passadas e deteve-se.
- Há minúcias a providenciar. Tens um esconderijo qualquer?
Winston explicou que tinha o quarto da loja do sr. Charrington.
- Bastará, por enquanto. Mais tarde, arranjaremos algo para os dois. É
importante mudar de esconderijo freqüentemente. Entrementes, vou mandar-te um
exemplar do livro... - e Winston reparou que até O'Brien parecia pronunciar
aquela palavra como se estivesse grifada - o livro de Goldstein, compreendes,
assim que for possível. Talvez se passem alguns dias antes de eu conseguir um.
Não há muitos exemplares, como podes imaginar. A Polícia do Pensamento
procura-os e destrói-os quase no mesmo ritmo em que são produzidos. Faz pouca
diferença, porém. O livro é indestrutível. Se o último exemplar sumisse, poderíamos
reproduzi-lo quase palavra por palavra. Levas uma pasta de couro ao escritório?
- indagou.
- Em geral, levo.
- Que jeito tem?
- É preta, muito surrada. Com duas alças.
- Preta, duas alças, muito surrada... bom. Um dia, no futuro próximo - não
posso fixar a data - uma das mensagens da tua tarefa matutina conterá um erro
de imprensa, e terás que pedir repetição. No dia seguinte, irás à repartição
sem a pasta. Nesse dia, na rua, um homem tocará teu braço e dirá "Acho que
derrubaste esta pasta." E a que te entregar conterá um exemplar do livro
de Goldstein. Deves devolvê-lo dentro de catorze dias.
Calaram-se ambos por uns instantes.
- Temos um par de minutos, ainda - disse O'Brien. - Tornaremos a nos
encontrar... se nos encontrarmos...
Winston levantou o olhar para ele.
- Onde não há treva? - perguntou, hesitante. O'Brien fez que sim, sem
aparentar surpresa.
- Onde não há treva - repetiu, como se reconhecesse a alusão. - E agora,
queres dizer alguma coisa antes de sair? Dar um recado? Fazer uma pergunta?
Winston raciocinou. Não parecia haver nenhuma outra pergunta a que
desejasse resposta; e menos impulso ainda de pronunciar generalidades
altissonantes. Em vez de coisas diretamente ligadas a O'Brien ou à
Fraternidade, surgiu-lhe na mente uma espécie de figura composta do quarto
escuro onde sua mãe passara os últimos dias, o quartinho por cima da loja do
sr. Charrington, o peso de papéis, e a gravura em aço na moldura de pau-rosa.
Quase sem querer, perguntou:
- Conheces uma cantiga muito velha que começa Laranjas e limões, dizem os
sinos de S. Clemente?
De novo O'Brien fez que sim com a cabeça. Com uma espécie de grave
cortesia, completou a quadra:
"Laranjas e limões, dizem os sinos de S. Clemente,
Me deves três vinténs, dizem os sinos de S. Martinho,
Quando me pagarás? dizem os sinos de Old Bailey,
Quando eu ficar rico, dizem os sinos de Shoreditch."
- Sabes o último verso! - exclamou Winston.
- Sei, sim. E agora, creio que é hora de te retirares. Espera um pouco. É
melhor te dar uma destas pastilhas.
Quando Winston se levantou, O'Brien estendeu a manopla. Apertou-lhe a mão
com força, quase quebrando os ossos de Winston. De saída, olhou para trás, mas
O'Brien já parecia estar entregue à tarefa de bani-lo do seu espírito. Estava
esperando, com a mão no comutador da teletela. Por trás dele, eram visíveis a
escrivaninha com o abajur verde, o falascreve e as cestas de arame cheias de
papéis. O incidente estava encerrado. Dali a trinta segundos, O'Brien
mergulharia no seu trabalho interrompido e de grande importância para o
Partido.
Winston estava gelatinoso de cansaço. Gelatinoso era a palavra certa.
Ocorreu-lhe espontaneamente. O corpo parecia ter não apenas a debilidade da
gelatina, como a sua translucidez. Tinha a impressão de que, se erguesse a mão,
conseguiria ver a luz do outro lado. Todo o sangue e a linfa se haviam
esgotado, num imenso deboche de trabalho, deixando apenas uma frágil estrutura
de nervos, ossos e pele. Todas as sensações pareciam ampliadas. O macacão
roçava-lhe os ombros, a calçada comichava-lhe sob os pés, e até abrir e fechar
a mão era um esforço que fazia as juntas estalarem.
Em cinco dias, trabalhara mais de noventa horas. E o mesmo acontecera com
todo mundo no Ministério. Agora, estava tudo acabado e, literalmente, não havia
mais o que fazer, nenhuma tarefa do Partido até o dia seguinte, pela manhã.
Podia passar seis horas no esconderijo e nove na própria cama. Lentamente, à
luz do sol moderado daquela tarde, tomou por uma rua suja, na direção da loja
do sr. Charrington, sempre de olho no aparecimento de alguma patrulha, porém
irracionalmente convencido de que aquele dia não havia perigo de que o
detivessem. A pesada pasta que levava chocava-se contra seus joelhos a cada
passo, provocando uma sensação de formigamento na perna. Dentro dela estava o
livro, que já estava em seu poder havia seis dias, e que ainda não conseguira
abrir, nem mesmo olhar.
No sexto dia da Semana do Ódio, depois das passeatas, discursos, gritaria,
cantoria, bandeiras, cartazes, filmes, esculturas em cera, rufar de tambores e
guinchar de clarins, reboar de pés em marcha, ronco das esteiras dos tanques,
zumbido dos aviões no ar, troar dos canhões - depois de seis dias de atividade,
quando o grande orgasmo se aproximava trêmulo do clímax e o ódio geral contra a
Eurásia se condensara em tamanho delírio que a multidão teria certamente
esquartejado com as unhas os dois mil prisioneiros de guerra eurasianos cujo
enforcamento público se realizaria no último dia - exatamente nesse momento,
fora anunciado que a Oceania não estava em guerra com a Eurásia. Estava em
guerra com a Lestásia. A Eurásia era aliada.
Evidentemente, não se admitiu modificação alguma. Apenas se fez saber, com
extrema inesperabilidade e em toda parte ao mesmo tempo, que a inimiga era a
Lestásia e não a Eurásia. Winston estava participando de uma demonstração numa
praça central de Londres quando o fato ocorreu. Era noite, e os rostos brancos
e as bandeiras escarlates estavam banhadas na luz dos refletores. A praça fora
tomada por vários milhares de pessoas, inclusive um bloco de mil escolares com
o uniforme dos Espiões. Na plataforma enfeitada de vermelho arengava à massa um
orador do Partido Interno, homenzinho magro com braços desproporcionadamente
longos, e uma cabeçorra calva sobre a qual dançavam algumas melenas. Figura de
um conto fantástico, contorcido de ódio, agarrava com uma das mãos o pescoço do
microfone, enquanto com a outra, enorme no extremo do braço ossudo, gadunhava o
ar, ameaçadoramente. A voz, metalizada pelos amplificadores, catalogava
incessantemente atrocidades, massacres, deportações, pilhagens, violações,
tortura de prisioneiros, bombardeio de civis, propaganda mentirosa, agressões
injustas, tratados desrespeitados. Era quase impossível escutá-lo sem se deixar
convencer, primeiro, e depois enlouquecer. Com intervalo de alguns momentos a
fúria da multidão fervia e a voz do orador era afogada por um rugido feroz,
selvagem, subindo incontrolável de milhares de gargantas. Os berros mais
selvagens eram os dos escolares. Havia uns vinte minutos que falava quando um
mensageiro subiu à plataforma e um pedaço de papel foi passado às mãos do
demagogo. Ele desenrolou-o sem parar; nada se alterou na sua voz, nem nos
gestos, nem no conteúdo do que dizia. Mas de repente mudaram os nomes. Sem que
uma palavra fosse pronunciada nesse sentido, uma onda de compreensão percorreu
a massa. A Oceania estava em guerra com a Lestásia! No momento seguinte houve
uma tremenda comoção. As faixas, bandeiras e cartazes que adornavam a praça
estavam todos errados! Cerca da metade ostentava caras erradas! Era sabotagem!
Os agentes de Goldstein tinham agido! Houve um ruidoso interlúdio durante o
qual os cartazes foram arrancados das paredes, as bandeiras rasgadas e pisadas.
Os Espiões executaram proezas admiráveis, marinhando sobre os telhados e
cortando as faixas presas às chaminés. Dentro de um minuto ou dois tudo acabou.
O orador, ainda agarrado ao microfone, ombros arcados para frente, a mão enorme
ainda ameaçando, continuara o discurso. Dali a um minuto, os urros de fera da
multidão furiosa de novo rasgaram os ares. O ódio continuou exatamente como
antes. Apenas o alvo fora mudado.
Em retrospecto, o que impressionara Winston, fora ter o orador passado de
um inimigo a outro no meio da frase, não apenas sem pausa: sem a menor ofensa à
sintaxe. Mas, no momento, tivera outras coisas a preocupá-lo. Fora no momento
exato das desordens que um homem, cujo rosto não pôde ver, lhe deu um tapinha
no ombro e disse: "Desculpe, acho que derrubaste tua pasta." , E Winston
a tomara distraído, sem falar. Sabia que alguns dias se passariam, sem
oportunidade de abri-la. No instante em que a demonstração acabara, fora direto
ao Ministério da Verdade, embora já fosse quase vinte e três horas. Todo o
pessoal do Ministério fizera o mesmo. Não havia necessidade das ordens emitidas
pelas teletelas, chamando-os aos seus postos.
A Oceania estava em guerra com a Lestásia: a Oceania sempre estivera em
guerra com a Lestásia. Grande parte da literatura política dos últimos cinco
anos tornara-se completamente obsoleta. Relatórios e reportagens de todo gênero
- jornais, livros, panfletos, filmes, faixas sonoras, fotografias - tudo
precisava ser retificado com a velocidade do raio. Embora nenhuma ordem
específica, sabia-se que os chefes do Departamento tencionavam que, dali a uma
semana, não existisse em parte alguma qualquer referência à guerra com a
Eurásia, ou à aliança com a Lestásia. O trabalho era estafante, e mais ainda
porque o processo não podia ser chamado pelo seu nome legítimo. No Departamento
de Registro todos trabalhavam dezoito horas cada vinte e quatro, com apenas
duas sonecas de três horas. Tinham trazido colchões do porão e armado pelos
corredores: as refeições consistiam de sanduíches e Café Vitória levados em
carrinhos pelos empregados da cantina. Cada vez que Winston parava para ir
dormir, procurava deixar a escrivaninha limpa, mas cada vez que voltava, de
olhos remelentos e doloridos, encontrava mais um monte de cilindros de papel,
que lhe cobriam a mesa como uma nevasca, quase tapando o falascreve e
transbordando para o chão, de modo que a primeira tarefa era sempre pô-los em
ordem, para ter lugar onde trabalhar. - O pior era que o trabalho não era todo
puramente mecânico. Com freqüência, bastava substituir apenas um nome por outro,
mas qualquer notícia detalhada exigia cautela e imaginação. Era considerável, o
próprio conhecimento de geografia necessário para transferir a guerra de uma a
outra parte do mundo.
No terceiro dia, seus olhos doíam insuportavelmente e precisava limpar os
óculos repetidas vezes. Era como se lutasse contra uma esmagadora missão
física, algo que podia recusar e que, no entanto, tinha ânsia neurótica de
realizar. Tanto quanto podia se lembrar, não o perturbava o fato de ser uma
cínica mentira cada palavra que murmurava no falascreve, cada rabisco do seu
lápis-tinta. Tinha a ânsia de todos os colegas do Departamento de realizar uma
falsificação perfeita. Na manhã do sexto dia diminuiu o chorrilho de papeletas.
Durante quase meia-hora, nada saiu do tubo; depois caiu um cilindro, e depois
nada. Ao mesmo tempo o trabalho amainava em toda parte. Um profundo suspiro,
embora secreto, levantou-se em toda a repartição. Encerrara-se uma formidanda
proeza, que nunca poderia ser mencionada. Era agora impossível a qualquer ser
humano provar documentadamente que houvera uma guerra com a Eurásia. Às doze em
ponto, anunciou-se inesperadamente que todos os funcionários do Ministério
estavam de folga até a manhã seguinte. Winston, ainda levando a pasta que
continha o livro, e que tivera aos pés enquanto trabalhava, e sob o corpo
enquanto dormia, foi para casa, barbeou-se e quase adormeceu no banho, embora a
água não estivesse mais do que tépida.
Com uma espécie de voluptuoso estralar de juntas, subiu a escada da loja
do sr. Charrington. Estava cansado, mas não tinha mais sono. Abriu a janela,
acendeu o sujo fogareiro de óleo e encheu d'água uma caçarola, para o café.
Júlia não devia demorar; enquanto não viesse, leria o livro. Sentou-se na
poltrona esfiapada e abriu a pasta.
Um pesado volume negro, numa encadernação tosca, sem nome nem título na
capa. O tipo também parecia ligeiramente irregular. As páginas estavam gastas
nas margens, e se destacavam com facilidade, como se o livro tivesse passado
por muitas mãos. No frontispício havia o título:
TEORIA E PRÁTICA DO COLETIVISMO OLIGARQUICO
por
Emmanuel Goldstein
Winston pôs-se a ler:
Capítulo I
Ignorância é Força
Desde que se começou a escrever a história, e provavelmente desde o fim do
Período Neolítico, tem havido três classes no mundo, Alta, Média e Baixa.
Têm-se subdividido de muitas maneiras, receberam inúmeros nomes diferentes, e
sua relação quantitativa, assim como sua atitude em relação às outras, variaram
segundo as épocas; mas nunca se alterou a estrutura essencial da sociedade.
Mesmo depois de enormes comoções e transformações aparentemente irrevogáveis, o
mesmo diagrama sempre se restabeleceu, da mesma forma que um giroscópio em
movimento sempre volta ao equilíbrio, por mais que seja empurrado deste ou
daquele lado.
Os objetivos desses três grupos são inteiramente irreconciliáveis...
Winston parou de ler, principalmente com o intuito de apreciar o fato de
estar lendo, em conforto e segurança. Estava só: nem teletela, nem orelha no
buraco da fechadura, nem impulso nervoso de espiar por cima do ombro ou de
tapar a página com a mão. O ar doce do verão soprava-lhe na face. De algum
lugar distante vinham amortecidos gritos de crianças: no quarto não havia ruído
além da voz de inseto do relógio. Ele afundou mais ainda na poltrona e pousou
os pés na guarda da lareira. Era a felicidade, a eternidade. De repente, como
às vezes fazemos com um livro que temos a certeza de ler e reler, palavra por
palavra, abriu-o numa página diferente e encontrou-se no Capítulo III.
Continuou:
Capítulo III
Guerra é Paz
A divisão do mundo em três grandes super-estados foi acontecimento que
poderia ter sido, e deveras foi, previsto antes de meados do século vinte. Com
a absorção da Europa pela Rússia e do Império Britânico pelos Estados Unidos
passaram a ter existência efetiva duas das três grandes potências, a Eurásia e
a Oceania. A terceira, a Lestásia, só surgiu como unidade distinta após outra
década de lutas confusas. As fronteiras entre os três super-estados são
arbitrárias em alguns pontos, e em outros flutuam segundo as fortunas da
guerra, mas de modo geral obedecem linhas geográficas. A Eurásia compreende
toda a parte setentrional dos continentes europeu e asiático, de Portugal ao
estreito de Béring. A Oceania compreende as Américas, as ilhas do Atlântico,
inclusive as Britânicas, a Australásia e a parte meridional da África. A
Lestásia, menor que as outras, e de fronteiras ocidentais menos definidas,
compreende a China e os países ao sul da China, as Ilhas do Japão e uma grande
porém cambiante porção da Mandchúria, da Mongólia e do Tibé.
Numa ou noutra aliança, esses três super-estados estão permanentemente em
guerra, e assim tem sido nos últimos vinte e cinco anos. A guerra, contudo, não
é mais a luta desesperada e aniquiladora que costumava ser nas primeiras
décadas do século vinte. É uma luta de objetivos limitados entre combatentes
incapazes de destruir um ao outro, sem causa material para guerrear e sem mesmo
qualquer genuína divergência ideológica. Isto não significa que as operações de
guerra, ou a atitude em relação a ela, se tenham tornado mais cavalheirescas ou
menos sanguinárias. Ao contrário, a histeria guerreira é contínua e universal
em todos os países, e atos tais como estupros, pilhagens, matança de crianças e
escravização de povoações inteiras, e represálias contra prisioneiros que
chegam a incluir a morte pela água fervente e o enterramento de seres vivos,
são considerados normais, e até meritórios, quando cometidos pelos amigos, e
não pelo inimigo. Materialmente, porém, a guerra envolve número muito pequeno
de cidadãos, principalmente peritos de alta especialização, e causa
relativamente poucas vítimas. O combate, quando há combate, trava-se nas vagas
fronteiras cuja localização, o indivíduo comum só pode imaginar, ou em torno
das Fortalezas Flutuantes que guardam os pontos estratégicos das rotas
marítimas. Nos centros de civilização a guerra não significa senão escassez
constante de mercadorias de consumo, e a queda ocasional de uma bombafoguete,
que talvez cause algumas dezenas de mortes. Com efeito, a guerra mudou de
aspecto. Mais exatamente, mudaram de ordem de importância as razões pelas quais
se faz a guerra. Os motivos já parcialmente presentes nas grandes guerras do
início do século vinte tornaram-se, dominantes e são agora reconhecidos
conscientemente, e levados em consideração.
Para compreender a natureza da guerra atual porque, apesar do
reagrupamento que se dá a intervalos, é sempre a mesma guerra - deve-se
perceber, em primeiro lugar, que não pode ser decisiva. Nenhum dos três
super-estados poderia ser definitivamente vencido, nem mesmo pelos dois outros
juntos. O equilíbrio é muito grande, e formidáveis suas defesas naturais. A
Eurásia é protegida por suas vastas massas de terra, a Oceania pela imensidade
do Atlântico e do Pacífico, a Lestásia pela fecundidade e a industriosidade dos
seus habitantes. Tampouco existe, sempre do ponto de vista material, nada, que
valha a pena. Com o estabelecimento de economias auto-suficientes, nas quais a
produção e o consumo se equilibram, a luta pelos mercados - causa principal das
guerras anteriores - desapareceu, ao passo que a procura das matérias primas
não é mais caso de vida ou morte. Cada um dos três super-estados é tão vasto
que possui em seu próprio território quase todos os materiais de que necessita.
Na medida em que a guerra tem objetivo econômico direto, é uma guerra pela mão
de obra. Entre as fronteiras dos super-estados, e não permanentemente de posse
de nenhum, há um tosco quadrilátero cujos ângulos são Tanger, Brazzaville, Darwin
e Hong Kong, contendo aproximadamente um quinto da população da terra. É pela
Posse dessas regiões densamente povoadas, e da calota polar setentrional, que
as três potências vivem em guerra. Na prática, nenhuma jamais controla toda a
área contestada. Partes dela mudam de mãos constantemente, e é a casualidade de
se apoderar deste ou daquele fragmento, por um repentino golpe de traição, que
dita a incessante modificação dos aliados.
Todos os territórios disputados contém valiosos minerais, e alguns produzem
importantes produtos vegetais, tais como borracha, que nos climas mais frios é
necessário sintetizar por métodos relativamente caros. Acima de tudo, porém,
contém uma prodigiosa reserva de mão de obra barata. Quem quer que controle a
África equatorial, ou os países do Oriente Médio, ou a índia meridional, ou o
arquipélago indonésio, dispõe também de massas de dezenas ou centenas de
milhões de peões diligentes e mal-pagos. Os habitantes dessas regiões,
reduzidos mais ou menos abertamente à condição de escravos, passam
continuamente de conquistador a conquistador e são gastos, como o carvão ou o
petróleo, na corrida para produzir mais armamentos, capturar mais território,
controlar mais braços, para produzir mais armamentos, para capturar mais
território e assim infinitamente. Cumpre notar que a luta, na verdade, nunca se
alastra além da periferia das áreas contestadas. As fronteiras da Eurásia
oscilam entre a bacia do rio Congo e a margem norte do Mediterrâneo; as ilhas
do Oceano índico e do Pacífico são constantemente capturadas e recapturadas
pela Oceania ou pela Lestásia; na Mongólia a linha divisória entre Eurásia e
Lestásia não é estável; em torno do Pólo as três potências reclamam enormes
territórios em grande parte desabitados e inexplorados; mas o equilíbrio de
forças mantém-se sempre na mesma, e permanece inviolado o território que forma
o núcleo de cada super-estado. Além disso, o trabalho dos povos explorados que
vivem no Equador não é realmente necessário para a economia do mundo. Nada
acrescentam à riqueza da terra, desde que só produzem para finalidades bélicas,
sendo o propósito de fazer guerra estar sempre em melhor posição para fazer
outra guerra. O trabalho escravo permite a aceleração do ritmo guerreiro. Se
não existisse, a estrutura da sociedade mundial, e o processo pelo qual se
mantém, não mudaria essencialmente.
O objetivo primário da guerra moderna (segundo os princípios do
duplipensar, essa meta é simultaneamente reconhecida e não reconhecida pelos
cérebros orientadores do Partido Interno) é usar os produtos da máquina sem
elevar o padrão de vida geral. Desde o fim do século dezenove, foi latente na
sociedade industrial o problema de dar fim ao excesso de artigos de consumo.
Atualmente, que poucos seres humanos têm bastante para comer, esse problema
evidentemente não urge, e assim poderia vir a ser, mesmo sem a intervenção de
um processo destruidor artificial. O mundo de hoje é um planeta nu, faminto e
dilapidado, em comparação com o que existia antes de 1914, e ainda mais se
comparado com o futuro imaginário aguardado pelos seus habitantes daquela era.
No começo do século vinte, a visão de uma sociedade futura incrivelmente rica,
repousada, ordeira e eficiente - um refulgente mundo anti-séptico de vidro, aço
e concreto branco de neve - fazia parte da consciência de quase toda pessoa
alfabetizada. A ciência e a tecnologia se desenvolviam num ritmo prodigioso, e
parecia natural imaginar que continuassem se desenvolvendo. Isto não ocorreu,
todavia, em parte por causa do empobrecimento causado por longa série de
guerras e revoluções, em parte porque o progresso científico e técnico dependia
do hábito empírico do raciocínio, que não podia sobreviver numa sociedade
estritamente regimentada. No seu conjunto, o mundo é hoje mais primitivo do que
era cinqüenta anos atrás. Certas zonas atrasadas progrediram, e vários
dispositivos, sempre ligados à guerra e à espionagem policial, foram
desenvolvidos, mas já não há experiência nem invenção, e nunca foram
completamente reparados os estragos da guerra atômica de 1950 e pouco. Não
obstante, persistem os perigos inerentes à máquina. Desde o momento em que a
máquina surgiu, tornou-se claro a todos que sabiam raciocinar que desaparecera
em grande parte a necessidade do trabalho braçal do homem e, portanto, a da
desigualdade humana. Se a máquina fosse deliberadamente utilizada com esse
propósito, a fome, o excesso de trabalho, a sujeira, o analfabetismo e a doença
poderiam ter sido eliminados em algumas gerações. E na verdade, sem ter sido
usada com esse propósito, porém por uma espécie de processo automático -
produzindo riqueza que às vezes se tornava impossível deixar de distribuir - a
máquina elevou grandemente o padrão de vida do ser humano comum, num período de
uns cinqüenta anos, ao fim do século dezenove e no começo do vinte.
Tornou-se também claro que o aumento total da riqueza ameaça a destruição
- com efeito, de certo modo era a destruição - de uma sociedade hierárquica.
Num mundo em que todos trabalhassem pouco, tivessem bastante que comer,
morassem numa casa com banheiro e refrigerador, e possuíssem automóvel ou mesmo
avião, desapareceria a mais flagrante e talvez mais importante forma de
desigualdade. Generalizando-se, a riqueza não conferia distinção. Era possível,
sem dúvida, imaginar uma sociedade em que a riqueza, no sentido de posse
pessoal de bens e luxos, fosse igualmente distribuída, ficando o poder nas mãos
de uma pequena casta privilegiada. Mas na prática tal sociedade não poderia ser
estável. Pois se o lazer e a segurança fossem por todos usufruídos, a grande
massa de seres humanos normalmente estupidificada pela miséria aprenderia a ler
e aprenderia a pensar por si; e uma vez isso acontecesse, mais cedo ou mais
tarde veria que não tinha função a minoria privilegiada, e acabaria com ela. De
maneira permanente, uma sociedade hierárquica só é possível na base da pobreza
e da ignorância. Regressar ao passado agrícola, como imaginaram alguns
pensadores no começo do século vinte, não era solução praticável. Entrava em
conflito com a tendência para a mecanização, que se tornara pouco menos que
instintiva em quase todo o mundo, e além disso, qualquer país que permanecesse
industrialmente atrasado ficaria indefeso militarmente e estaria fadado a ser
dominado, direta ou indiretamente, pelos rivais mais progressistas.
Tampouco era solução satisfatória manter as massas na miséria restringindo
a produção de mercadorias. Isto aconteceu, em grande parte, durante a fase
final do capitalismo, mais ou menos entre 1920 e 1940. Permitiu-se que
estagnasse a economia de muitos países, a terra deixou de ser arroteada, o
maquinário básico permaneceu na mesma, grandes setores da população foram
impedidos de trabalhar e mantidos semivivos por meio de caridade estatal. Mas
isto também provocava debilidade militar, e como fossem evidentemente
desnecessárias as privações, tornavam inevitável a oposição. O problema era
manter em movimento as rodas da indústria sem aumentar a riqueza real do mundo.
Era preciso produzir mercadorias, porém não distribuí-las. E, na prática, a única
maneira de o realizar é pela guerra contínua.
O essencial da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas
humanas, mas dos produtos do trabalho humano. A guerra é um meio de despedaçar,
ou de libertar na estratosfera, ou de afundar nas profundezas do mar, materiais
que de outra forma teriam de ser usados para tornar as massas demasiado
confortáveis e portanto, com o passar do tempo, inteligentes. Mesmo quando as
armas de guerra não são destruídas, sua manufatura ainda é um modo conveniente
de gastar mão de obra sem produzir nada que se possa consumir. Uma Fortaleza
Flutuante, por exemplo, contém trabalho suficiente para construir várias
centenas de navios cargueiros. Depois de algum tempo é desmantelada, por
obsoleta, sem ter trazido benefício material a ninguém, e com novo e enorme
esforço, constrói-se outra. Em princípio, o esforço bélico é sempre planejado
de maneira a consumir qualquer excesso que possa existir depois de satisfeitas
as necessidades mínimas da população. Na prática, as necessidades da população
são sempre subestimadas, e o resultado é haver uma escassez crônica de metade
dos essenciais mas isto é considerado vantagem. É uma política consciente
manter perto do sofrimento até os grupos favorecidos porquanto o estado geral
de escassez aumenta a importância dos pequenos privilégios e assim amplia a
distinção entre um grupo e outro. Pelos padrões do início do século vinte, até
mesmo um membro do Partido Interno leva vida austera e laboriosa. Não obstante,
os poucos luxos de que goza, o apartamento espaçoso e bem mobiliado, a melhor
qualidade da sua roupa, a superioridade da sua comida, bebida e fumo, seus dois
ou três criados, seu automóvel ou helicóptero particular, o colocam numa esfera
diferente de um membro do Partido Externo, que por sua vez tem vantagens
semelhantes em comparação com as massas submersas a que chamamos
"proles". A atmosfera social é de uma cidade sitiada, onde a posse de
um pedaço de carne de cavalo diferencia entre a riqueza e a pobreza. E, ao
mesmo tempo, a consciência de estar em guerra e portanto em perigo, faz parecer
natural a entrega de todo o poder a uma pequena casta: é uma inevitável
condição de sobrevivência.
Veremos que a guerra não apenas realiza a necessária destruição como a
efetua de maneira psicologicamente aceitável. Em princípio, seria bastante
simples gastar o excesso de mão de obra construindo templos e pirâmides,
cavando buracos e tornando a enchê-los, ou mesmo produzindo grandes quantidades
de mercadorias e queimando-as. Mas isso só daria a base econômica, mas não a
emocional, de uma sociedade hierárquica. Trata-se aqui não do moral das massas,
cuja atitude não tem importância, contanto que sejam mantidas no trabalho, mas
do moral do Partido. Espera-se que até mesmo o mais humilde membro do Partido
seja competente, industrioso e inteligente, dentro de estreitos limites, porém
é também necessário que seja um fanático crédulo e ignorante, cujas reações
principais sejam medo, ódio, adulação e triunfo orgiástico. Em outras palavras,
é necessário que tenha a mentalidade apropriada ao estado de guerra. Não
importa que de fato haja uma guerra e, como não é possível uma vitória
decisiva, pouco importa que a guerra vá bem ou mal. O que importa é que possa
existir o estado de guerra. A divisão intelectual que o Partido exige dos seus
membros, e que é mais fácil de obter numa atmosfera de guerra, é agora quase
universal, porém, quanto mais se sobe nos quadros, mais nítida se torna. É
precisamente no Partido Interno que a histeria de guerra e o ódio ao inimigo são
mais fortes. Na sua posição de administrador, muitas vezes é necessário a um
membro do Partido Interno saber se esta ou aquela notícia de guerra é falsa, e
muitas vezes, ele pode perceber que a guerra inteira é espúria e que, ou não
está sendo travada, ou está sendo travada por objetivos diferentes dos
declarados: mas essa consciência é facilmente neutralizada pela técnica do
duplipensar. Entrementes, nenhum membro do Partido Interno hesita por um
instante na sua crença mística de que a guerra é real, que está fadada a
terminar pela vitória, ficando, a Oceania senhora indisputável do mundo
inteiro.
Todos os membros do Partido Interno crêem, como num artigo de fé, nessa
vitória futura. Será obtida quer pela aquisição gradual de território e, conseqüentemente,
acúmulo de esmagadora preponderância de força, quer pelo descobrimento de uma
nova arma irrespondível. A busca de novas armas prossegue sem cessar, e é uma
das poucas atividades restantes em que o espírito inventivo ou especulativo se
pode expandir. Atualmente, na Oceania, a ciência quase cessou de existir, no
sentido antigo. Em Novilíngua não existe palavra para "ciência". O
método empírico de raciocínio, no qual se basearam todos os desenvolvimentos
científicos passados, se opõe aos princípios fundamentais do Ingsoc. E mesmo o
progresso tecnológico só se verifica quando os seus produtos podem ser, de
alguma forma, utilizados para limitar a liberdade humana. Em todas as artes
úteis o mundo ou está parado ou retrocede. Os campos são cultivados com arados
de tração animal, enquanto os livros são escritos por máquinas. Mas nos
assuntos de importância vital - ou seja, a guerra e a espionagem policial -
ainda é incentivado o sistema empírico, ou pelo menos tolerado. As duas metas
do Partido são conquistar toda a superfície da terra e extinguir de uma vez
para sempre qualquer possibilidade de pensamento independente. Há, portanto,
dois grandes problemas que o Partido deve resolver. Um deles é descobrir o que
pensa outro ser humano, e o outro é matar várias centenas de milhões de pessoas
em alguns segundos, sem dar aviso prévio. Este é o assunto da pesquisa
científica que ainda subsiste. O cientista de hoje ou é uma mistura de
psicólogo e inquisidor, estudando com extraordinária minúcia o significado das
expressões faciais, dos gestos, e tons de voz, e verificando os efeitos
reveladores das drogas-da-verdade, terapia de choque, hipnose e tortura física;
ou é químico, físico ou biólogo só interessado pelos ramos da sua profissão
ligados à supressão da vida. Nos vastos laboratórios do Ministério da Paz, e
nas estações experimentais ocultas nas florestas brasileiras ou no deserto
australiano, ou nas ilhas perdidas da Antártida, os grupos de peritos continuam
sua missão, infatigáveis. Alguns se ocupam, simplesmente, de planejar a
logística de futuras guerras; outros de inventar maiores e ainda maiores
bombas-foguete, explosivos cada vez mais poderosos, blindagens mais e mais
resistentes; outros buscam novos gases, mais letais, ou venenos solúveis
capazes de ser produzidos em quantidades tais que destruam a vegetação de
continentes inteiros, ou culturas de germes maléficos imunizados contra todos
os anticorpos possíveis; outros se esforçam para produzir um veículo que abra
caminho sob a terra como um submarino por baixo d'água, ou um aeroplano tão
independente da base como um navio de vela; outros ainda exploram
possibilidades mais remotas, tais como focalizar os raios do sol através de
lentes suspensas a milhares de quilômetros da terra, ou provocar terremotos e
maremotos artificiais pela alteração do calor no centro do planeta.
Mas nenhum desses projetos jamais se aproxima da realização, e nenhum dos
três super-estados obtém dianteira significativa sobre os outros. O que é mais
notável é que as três potências já possuem, na bomba atômica, uma arma muito
mais poderosa do que as suas atuais pesquisas lhes permitirão descobrir.
Conquanto o Partido, segundo seu hábito, reivindique essa invenção, as bombas
atômicas apareceram em mil novecentos e quarenta e poucos, e foram usadas em
larga escala cerca de dez anos mais tarde. Nessa ocasião, algumas centenas de
bombas foram lançadas contra os centros industriais, principalmente da Rússia
européia, Europa ocidental e América do Norte. O efeito foi convencer os grupos
dominantes de todos os países que algumas bombas atômicas mais significariam o
fim de toda sociedade organizada e, portanto, do seu próprio poder. Daí por
diante, embora não se fizesse, nem se insinuasse qualquer tratado formal, as
bombas-A não foram mais jogadas. As três potências continuam produzindo bombas
atômicas, e as guardam à espera da oportunidade decisiva que aguardam para mais
cedo ou mais tarde. Entrementes, a arte da guerra permaneceu quase estática
durante trinta ou quarenta anos. Usam-se mais helicópteros do que antigamente,
os aviões de bombardeio foram em grande parte substituídos por projéteis
auto-impelidos, e o frágil encouraçado móvel deu lugar à quase insubmergível
Fortaleza Flutuante; fora isso, foi pequeno o desenvolvimento. O tanque, o
submarino, o torpedo, a metralhadora, e até o fuzil e a granada de mão
continuam sendo usados. E apesar dos infindos morticínios comunicados pela
imprensa e as teletelas, nunca se repetiram as batalhas desesperadas das
guerras anteriores, em que centenas de milhares e até milhões de homens eram às
vezes mortos em algumas semanas.
Nenhum dos três estados tenta qualquer manobra que envolva o risco d'uma
séria derrota. Quando empreendem uma operação de grande envergadura, é em geral
um ataque de surpresa a um aliado. É a mesma a estratégia seguida pelas três
potências, ou pelo menos as que fingem seguir.
O plano prevê, pela combinação de luta, trocas e oportunos golpes de
traição, a aquisição de uma série de bases que circundem completamente um ou
outro rival, e então assinar um pacto de amizade com esse rival, permanecendo
em paz com ele o tempo suficiente para que as suspeitas esmoreçam. Durante
esses anos de espera, foguetes carregados de bombas atômicas podem ser
acumulados em todos os pontos estratégicos; serão por fim disparados
simultaneamente, com efeitos tão devastadores que é impossível retaliar. Surge
então o momento de assinar um tratado de amizade com a terceira potência
mundial, preparando outro ataque. Este plano, evidentemente, é puro castelo no
ar, impossível de realizar. Além disso, não há combate algum, exceto nas zonas
contestadas, em torno do Equador e do Pólo Norte; jamais se empreende qualquer
invasão de território inimigo. Isto explica o fato de serem arbitrárias em
muitos pontos as fronteiras entre os super-estados. A Eurásia, por exemplo,
poderia facilmente conquistar as Ilhas Britânicas, que geograficamente fazem
parte da Europa, e por outro lado seria possível a Oceania levar suas
fronteiras até o Reno ou o Vístula. Mas isto violaria o princípio de integração
cultural, respeitado por todos os lados, embora jamais formulado. Se a Oceania
conquistasse as regiões outrora conhecidas por França e Alemanha, seria
necessário, ou exterminar os habitantes, tarefa de enorme dificuldade física,
ou assimilar uma população de uns cem milhões de pessoas que, no que se refere
ao desenvolvimento técnico, estão mais ou menos no nível da Oceania. O problema
é o mesmo para os três super-estados. É absolutamente necessária, para sua
estrutura, que não haja contacto com estrangeiros, exceto, limitadamente, com
prisioneiros de guerra e escravos de cor. Mesmo o aliado oficial de hoje é
considerado com suspeita. Além dos prisioneiros de guerra, o cidadão médio da
Oceania jamais põe olhos num cidadão da Eurásia ou da Lestásia, sendo-lhe
proibido aprender línguas estrangeiras. Se lhe fosse permitido o contacto com
os forasteiros, descobriria que são criaturas semelhantes e que é mentira a
maior parte do que ouviu a respeito deles. Acabar-se-ia o mundo fechado em que
vive, e se evaporariam o medo, o ódio, e o sentido de razão permanente, de que
depende o seu moral. É portanto admitido por todos os lados que, não obstante a
freqüência com que a Pérsia, o Egito, Java ou Ceilão mudam de mãos, as
fronteiras básicas não devem nunca ser atravessadas, salvo pelas bombas.
Atrás disto tudo há um fato que se não menciona jamais em voz alta, mas
que é tacitamente compreendido e usado como orientação: ou seja, o de que as
condições de vida, nos três super-estados, são mais ou menos as mesmas. Na
Oceania, a filosofia dominante é chamada Ingsoc, na Eurásia é chamada
Neo-Bolchevismo, e na Lestásia é conhecida por uma palavra chinesa em geral
traduzida por Adoração da Morte, mas que se poderia melhor chamar Obliteração
do Ego. O cidadão da Oceania não pode saber coisa alguma a respeito dos
fundamentos das outras duas filosofias, aprendendo porém a execrá-las como
bárbaros ultrajes à moralidade e ao sentido comum. Na verdade, as três
filosofias mal se distinguem umas das outras, e os sistemas sociais de que são
base não se distinguem de modo algum. Por toda parte há a mesma estrutura
piramidal, a mesma adoração de um chefe semi-divino, a mesma economia que
existe para a guerra contínua. Segue-se que os três super-estados não só não
podem vencer um ao outro, como não levariam vantagem se o fizessem. Ao
contrário, enquanto continuarem em conflitos, amparam-se uns aos outros, como
três fusis num sarilho. E, como é praxe, os grupos dominantes das três
potências ao mesmo tempo sabem e ignoram o que estão fazendo. Dedicam a vida à
conquista do mundo, mas também sabem que é necessário continuar a guerra, sem
fim e sem vitória. Entrementes, o fato de não haver perigo de conquista torna
possível a negação da realidade que é a característica principal do Ingsoc, e
dos sistemas rivais de raciocínio. Neste ponto é necessário repetir o que já
dissemos: que a guerra, tornando-se contínua, mudou fundamentalmente de
caráter.
No passado a guerra era, quase por definição, algo que mais cedo ou mais
tarde chegava ao fim, em geral em inconfundível vitória ou derrota. Também no
passado, a guerra era um dos instrumentos pelo qual as sociedades humanas se
mantinham em contato com a realidade física. Todos os governantes de todas as
épocas têm tentado impor aos seus adeptos uma falsa visão do mundo, mas não
podiam se dar ao luxo de encorajar nenhuma ilusão que tendesse a prejudicar a
eficiência militar. Considerando que a derrota significava a perda de
independência, ou outro resultado geralmente julgado indesejável, era preciso
tomar sérias precauções contra a derrota. Não se podia ignorar os fatos
físicos. Na filosofia, religião, ética, ou política, dois e dois podem ser
cinco, mas quando se desenha um canhão ou um aeroplano, somam quatro. As nações
ineficientes eram vencidas, mais cedo ou mais tarde, e a luta pela eficiência
era inimiga das ilusões. Além do mais, para ser eficiente, era necessário saber
aprender do passado, o que exigia conhecimento bastante exato do que sucedera
nesse passado. Naturalmente, os jornais e livros sempre foram parciais, e
coloridos por diversos pontos de vista, mas seria impossível a falsificação da
espécie e na escala hoje praticada. A guerra era uma firme salvaguarda de saúde
mental e, no que se referia às classes dominantes, provavelmente a mais
importante de todas as salvaguardas. Enquanto era possível perder ou ganhar
guerras, nenhuma classe dominante podia ser completamente irresponsável.
Mas quando a guerra se torna literalmente contínua, cessa também de ser
perigosa. Quando a guerra é contínua, não existe necessidade militar. O
progresso técnico pode cessar e os fatos mais palpáveis podem ser negados ou
desprezados. Como vimos, as pesquisas que poderiam ser chamadas científicas são
ainda levadas a cabo, com finalidades bélicas, mas são, em essência, um sonho
vão, e não importa que não dêem o menor resultado. A eficiência não mais é
necessária, nem mesmo a eficiência militar. Nada é eficiente na Oceania, exceto
a Polícia do Pensamento. Já que cada um dos super-estados é invencível, cada
qual é, com efeito, um universo separado dentro do qual se pode praticar sem
risco qualquer perversão mental. A realidade só exerce a sua pressão através
das necessidades da vida cotidiana - comer e beber, morar e vestir, evitar engolir
veneno, cair de janelas do último andar, e coisas semelhantes. Entre a vida e a
morte, e entre o prazer físico e a dor física, ainda há uma distinção, mas é
só. Sem contato com o mundo externo e com o passado, o cidadão da Oceania é
como um homem no espaço interestelar, que não tem meios de saber que direção
leva para baixo ou para cima. Os governantes desse estado são absolutos como os
faraós e os césares não puderam ser. São obrigados a evitar que os seus
correligionários morram de fome em quantidades tais que se tornem inconvenientes,
e são forçados a permanecer no mesmo baixo nível de técnica militar que os seus
rivais; uma vez atingido esse mínimo, porém, podem torcer a realidade e dar-lhe
a forma que lhes aprouver.
A julgar pelos padrões das guerras passadas, a guerra de hoje é, portanto,
uma impostura. É como os combates entre certos ruminantes, cujos chifres são
dispostos em ângulo tal que não podem ferir um ao outro. Entretanto, apesar de
irreal, ela tem sentido. Devora os excedentes dos artigos de consumo, e ajuda a
conservar a atmosfera mental especial que uma sociedade hierárquica exige. A
guerra, como veremos, é agora assunto puramente interno. No passado, os grupos
dominantes de todos os países, não obstante pudessem reconhecer seu interesse
comum e, em conseqüência, limitassem o poder destruidor da guerra, de fato
combatiam, e o vencedor sempre saqueava o vencido. Em nossos dias, eles não
combatem uns aos outros. A guerra é travada, pelos grupos dominantes, contra os
seus próprios súditos, e o seu objetivo não é conquistar territórios, nem
impedir que os outros o façam, porém manter intacta a estrutura da sociedade.
Daí, o se haver tornado equívoca a própria palavra "guerra." Seria
provavelmente correto dizer que a guerra deixou de existir ao se tornar
contínua. A pressão que exerceu sobre os seres humanos entre a Idade Neolítica
e o começo do século XX desapareceu e foi substituída por algo bem diferente. O
efeito seria mais ou menos o mesmo se os três super-estados, ao invés de se
guerrearem, concordassem em viver em paz perpétua, cada qual inviolado dentro
das suas fronteiras. Pois nesse caso ainda seria um universo contido em si
próprio, para sempre livre da influência moderadora do perigo externo. Uma paz
verdadeiramente permanente seria o mesmo que a guerra permanente. Este - embora
a vasta maioria dos membros do Partido só o compreendam num sentido mais raso -
é o significado profundo do lema do Partido: Guerra é Paz.
Winston parou de ler por um momento. Na distância remota uma bomba-foguete
estourou. Ainda não sumira a deliciosa sensação de se sentir só com o livro
proibido, num quarto sem teletela. A solidão e a segurança eram sensações
físicas, de certo modo misturadas com o cansaço do seu corpo, a maciez da
cadeira, a brisa gentil que tocava o rosto, soprando pela janela. O livro
fascinava-o ou, mais exatamente, dava-lhe nova tranqüilidade. De certo modo,
nada lhe dizia de novo, mas isso fazia parte do seu atrativo. Dizia o que ele
diria, se lhe fosse possível pôr ordem nos seus pensamentos desataviados. Era
produto de um cérebro semelhante ao seu, porém -enormemente mais poderoso, mais
sistemático, menos medroso. Ele percebia que os melhores livros são os que
dizem o que já se sabe. Voltara ao Capítulo 1 quando ouviu o passo de Júlia na
escada e levantou-se para lhe sair ao encontro. Ela largou a bolsa de
ferramentas no chão e atirou-se aos braços dele. Fazia mais de uma semana que
não se viam.
- Recebi o livro - anunciou ele, quando se soltaram.
- Recebeste? Que bom! - exclamou ela, sem maior interesse, e imediatamente
se ajoelhou ao pé do fogareiro de óleo para fazer café.
Não voltaram ao assunto senão depois de terem estado meia hora na cama. A
noite refrescara um pouco, levando-os a puxar a colcha. Lá de baixo vinham os
ruídos familiares de botinas arrastando no lajeado, e cantoria. A mulheraça de
braços vermelhos, que Winston Vira na sua primeira visita, parecia fazer parte
do pátio. Parecia não haver hora do dia em que não estivesse marchando entre o
tanque e o varal, ora tapando a boca com prendedores de roupa, ora abrindo os
pulmões com gosto. Júlia deitara-se de lado e parecia estar a ponto de
adormecer. Ele apanhou o livro, que depusera no soalho, e acomodou-se,
encostando na cabeceira da cama.
- Deves lê-lo - disse ele. - Tu também. Todos os membros da Fraternidade
devem lê-lo.
- Tu lês - disse ela com os olhos fechados. - Lê alto. É o melhor. E assim
vais explicando ao mesmo tempo.
os ponteiros do relógio marcavam seis, indicando as dezoito. Ainda tinham
três ou quatro horas pela frente. Ele apoiou o livro nos joelhos e pôs-se a
ler:
Capítulo I
Ignorância é Força
Desde que se começou a escrever a história, e provavelmente desde o fim do
Período Neolítico, tem havido três classes no mundo, Alta, Média e Baixa.
Têm-se subdividido de muitas maneiras, receberam inúmeros nomes diferentes, e
sua relação quantitativa, assim como sua atitude em relação às outras, variaram
segundo as épocas; mas nunca se alterou a estrutura essencial da sociedade.
Mesmo depois de enormes comoções e transformações aparentemente irrevogáveis, o
mesmo diagrama sempre se restabeleceu, da mesma forma que um giroscópio em
movimento sempre volta ao equilíbrio, por mais que seja empurrado deste ou
daquele lado.
- Júlia, estás acordada? - indagou Winston.
- Estou, meu amor. Estou escutando. Vai lendo. É maravilhoso.
Ele continuou a ler: Os objetivos desses três grupos são inteiramente
irreconciliáveis. O objetivo da Alta é ficar onde está. O da Média é trocar de
lugar com a Alta. E o objetivo da Baixa, quando tem objetivo - pois é
característica constante da Baixa viver tão esmagada pela monotonia do trabalho
cotidiano que só intermitentemente tem consciência do que existe fora de sua
vida - é abolir todas as distinções e criar uma sociedade em que todos sejam
iguais. Assim, por toda a história, trava-se repetidamente uma luta que é a
mesma em seus traços gerais. Por longos períodos a Alta parece firme no poder,
porém mais cedo ou mais tarde chega um momento em que, ou perde a fé em si
própria ou sua capacidade de governar com eficiência, ou ambas. É então
derrubada pela Média, que atrai a Baixa ao seu lado, fingindo lutar pela
liberdade e a justiça. Assim que alcança sua meta, a Média joga a Baixa na sua
velha posição servil e transforma-se em Alta. Dentro em breve, uma nova classe
Média se separa dos outros grupos, de um deles ou de ambos, e a luta recomeça.
Das três classes, só a Baixa nunca consegue nem êxito temporário na obtenção
dos seus ideais. Seria exagero dizer que não se registra na história progresso
material. Mesmo hoje, neste período de declínio, o ser humano comum é
fisicamente melhor do que há alguns séculos. Mas nenhum progresso em riqueza,
nenhuma suavização de maneiras, nenhuma reforma ou revolução jamais aproximou
um milímetro a igualdade humana. Do ponto de vista da Baixa, nenhuma modificação
histórica significou mais do que uma mudança do nome dos amos.
Por volta dos fins do século dezenove, a recorrência do ciclo se tornara
óbvia a muitos observadores. Surgiram então escolas filosóficas que
interpretavam a história como um processo cíclico e protestavam que a
desigualdade era a lei inalterável da vida humana. Essa doutrina, naturalmente,
sempre teve seus adeptos, mas na maneira pela qual foi então exposta havia uma
transformação significativa. No passado, fora uma doutrina especificamente da
Alta a necessidade de uma forma hierárquica de sociedade. Fora pregada por
reis, aristocratas e sacerdotes, advogados, etc., que a parasitavam, e fora
geralmente amaciada por promessas de recompensa num mundo imaginário de
além-túmulo. A Média, enquanto lutou pelo poder, sempre fez uso de termos tais
como liberdade, justiça e fraternidade. Agora, todavia, o conceito de
fraternidade humana começou a ser atacado pelos que não se encontravam em
posição de mando, porém esperavam conquistá-las dentro em breve. No passado a
Média fizera revoluções sob a bandeira da igualdade, estabelecendo nova tirania
assim que derrubava a antiga. Com efeito, os novos grupos Médios proclamavam
antecipadamente sua tirania. O socialismo, teoria aparecida no início do século
dezenove é o último elo duma cadeia de pensamento que se iniciava nas rebeliões
dos escravos antigos, ainda estava profundamente infeccionado pelo Utopismo do
passado. Mas em cada variante de Socialismo que apareceu de 1900 para cá, o
propósito de estabelecer a liberdade e a igualdade ia sendo abandonado cada vez
mais abertamente. Os novos movimentos, que apareceram em meados do século, o
Ingsoc na Oceania, o Neo-bolchevismo na Eurásia, a Adoração da Morte, como é
comumente chamado, na Lestásia, tinham o propósito consciente de perpetuar a
desliberdade e a desigualdade. Esses novos movimentos, naturalmente, surgiram
dos mais antigos e tenderam a conservar o nome e a render tributo à sua
ideologia. Mas o propósito de todos era deter o progresso e congelar a história
num dado momento. O movimento familiar do pêndulo deveria ter lugar mais uma
vez, e então parar. Como de hábito, a Alta devia ser posta abaixo pela Média,
que então se tornaria a Alta; desta vez porém a Alta, por meio de uma
estratégia consciente, conseguiria manter permanentemente sua posição.
As novas doutrinas nasceram em parte por causa do acúmulo de conhecimento
histórico, e o crescimento do sentido histórico, que mal existira antes do
século dezenove. O movimento cíclico da história era agora inteligível ou
parecia ser; e, sendo inteligível, era alterável. Mas a causa principal,
subexistente, era que, desde o começo do século vinte, a igualdade humana se
tornara tecnicamente possível. Verdade ainda que os homens não eram iguais nos
seus talentos inatos e que as funções tinham de ser especializadas de maneira
que favoreciam uns indivíduos contra outros; porém não havia mais nenhuma
necessidade real de distinção de classe nem de grandes diferenças de fortuna.
Em épocas anteriores, as distinções não tinham sido apenas inevitáveis como
desejáveis. A desigualdade era o preço da civilização. Todavia, com o
desenvolvimento da produção à máquina, alterou-se o caso. Mesmo que ainda fosse
necessário aos seres humanos desempenhar diferentes tipos de profissão, já não
era preciso que vivessem em diferentes níveis sociais ou econômicos. Portanto,
do ponto de vista dos novos grupos que estavam a pique de tomar o poder, a
igualdade humana não era mais um ideal a atingir, era um perigo a evitar. Em
épocas mais primitivas, quando de fato não era possível uma sociedade justa e
pacífica, fora bem fácil acreditar nela. A idéia de um paraíso terreno em que
os homens vivessem juntos num estado de fraternidade, sem leis nem trabalho
brutal, incendiara durante milhares de anos a imaginação humana. E essa visão
tinha certo fascínio mesmo sobre os grupos que realmente se beneficiaram de
cada mudança histórica. Os herdeiros das revoluções inglesas, francesa e
americana haviam parcialmente acreditado nas suas próprias frases a respeito
dos direitos do homem, liberdade de palavra, igualdade perante a lei, e
quejandas, e até haviam permitido que sua conduta fosse por elas influenciadas,
dentro de certos limites. Mas ao advir a quarta década do século vinte, eram
autoritárias todas as principais correntes de pensamento político. O paraíso
terreno se desacreditara no momento exato em que se tornara realizável. Cada
nova teoria política, fosse qual fosse o seu rótulo, conduzia de novo à
hierarquia e à regimentação. E no endurecimento geral de atitudes verificado
por volta de 1930, práticas havia longo tempo abandonadas, em alguns casos
durante séculos - prisão sem julgamento, uso de prisioneiros de guerra como
escravos, execuções públicas, tortura para arrancar confissões, o uso de reféns
e deportação de populações inteiras - não só voltaram a ser comuns como eram
toleradas e até defendidas por pessoas que se consideravam esclarecidas e
progressistas.
Só depois de uma década de guerras nacionais, guerras civis, revoluções e
contra-revoluções em toda parte do mundo é, que o Ingsoc e seus rivais
emergiram como teorias políticas completas. Haviam porém sido antecipados por
vários sistemas, geralmente chamados totalitários, aparecidos no mesmo século,
sendo evidentes, havia muito tempo, as linhas principais do mundo que nasceria
do caos existente. Fora também bastante evidente que tipo de pessoas
controlaria este mundo. A nova aristocracia era composta, na sua maioria, de
burocratas, cientistas, técnicos, organizadores sindicais, peritos em
publicidade, sociólogos, professores, jornalistas e políticos profissionais.
Esta gente, cuja origem estava na classe média assalariada e nos escalões
superiores da classe operária, fora moldada e criada pelo mundo estéril da
indústria monopolista e do governo centralizado. Comparada com os seus
antecessores, era menos avarenta, menos tentada pelo luxo, mais faminta de
poder puro e, acima de tudo, mais consciente do que fazia e mais decidida a
esmagar a oposição. Esta última diferença era cardeal. Comparadas com as que
existem hoje, todas as tiranias do passado foram frouxas e ineficientes. Os
grupos governantes foram sempre infestados, até certo ponto, de idéias
liberais, e se contentavam de deixar pontas soltas por toda parte, considerando
apenas o ato patente e se desinteressando pelo raciocínio dos seus súditos. Até
a igreja católica da Idade Média era tolerante, pelos padrões atuais. Em parte
a razão deste fato residia na impossibilidade dos governos do passado manterem
sob constante vigilância os seus cidadãos. A invenção da imprensa, contudo,
tornou mais fácil manipular a opinião pública, processo que o filme e o rádio
levaram além. Com o desenvolvimento da televisão, e o progresso técnico que
tornou possível receber e transmitir simultaneamente pelo mesmo instrumento, a
vida particular acabou. Cada cidadão, ou pelo menos cada cidadão
suficientemente importante para merecer espionagem, passou a poder ser mantido
vinte e quatro horas por dia sob os olhos da polícia e ao alcance da propaganda
oficial, fechados todos os outros canais de comunicação. Existia pela primeira
vez a possibilidade de fazer impor não apenas completa obediência à vontade do
Estado como também completa uniformidade de opinião em todos os súditos.
Depois do período revolucionário de 1950 a 1970, a sociedade reagrupou-se,
como sempre, em Alta, Média e Baixa. Mas a nova Alta, ao contrário das
antecessoras, não agia por instinto: sabia o que era preciso para garantir sua
posição. Havia muito tempo se percebera que a única base segura da oligarquia é
o coletivismo. A riqueza e o privilégio são mais fáceis de defender quando
possuídos em conjunto. A chamada "abolição da propriedade privada",
que se verificou em meados do século, significou, com efeito a concentração da
propriedade em número muito menor de mãos, mas com a diferença de que os novos
donos eram um grupo em vez de uma massa de indivíduos. Individualmente, nenhum
membro do Partido possui coisa alguma, exceto ninharias pessoais.
Coletivamente, o Partido é dono de tudo na Oceania, porque tudo controla, e
dispõe dos seus produtos como bem lhe parece. Nos anos que se seguiram à
Revolução, conseguiu galgar quase sem oposição esse posto de comando, porque
todo o processo foi apresentado como ato de coletivização. Sempre se imaginara que
se a classe capitalista fosse expropriada, o Socialismo adviria: e
inquestionavelmente os capitalistas tinham sido expropriados. Fábricas, minas,
terras, casas, transporte - tudo lhes fora tomado: e dado que não mais eram
propriedade particular, evidentemente deviam ser propriedade pública. O Ingsoc,
que brotou do movimento socialista anterior e dele herdou a fraseologia, com
efeito executara o principal do programa socialista. E o resultado, previsto e
pretendido antecipadamente, fora tornar permanente a desigualdade econômica.
Mas vão mais fundo os problemas de perpetuar a sociedade hierárquica. Só
há quatro modos de um grupo governante abandonar o poder. Ou é vencido de fora,
ou governa tão ineficientemente que as massas são levadas à revolta, ou permite
o aparecimento de um grupo médio forte e descontente, ou perde a confiança em
si e a disposição de governar. Essas causas não funcionam de per si, e via de
regra as quatro se apresentam em diferentes proporções. Uma classe dominante
que possa se guardar contra as quatro permaneceria eternamente no poder. No fim
de contas, o fator determinante é a atitude mental da própria classe dominante.
Depois de meados deste século, desapareceu o primeiro perigo. As três
potências em que o mundo se dividiu são de fato invencíveis, e só poderiam se
tornar vulneráveis por meio de lentas mutações demográficas que um governo com
amplos poderes consegue evitar facilmente. O segundo perigo, também é apenas
teórico. As massas nunca se revoltarão espontaneamente, e nunca se revoltarão
apenas por ser oprimidas. Com efeito, se não se lhes permite ter padrões de
comparação nem ao menos se darão conta de que são oprimidas. As crises
econômicas decorrentes do passado eram totalmente desnecessárias e hoje já não
podem se verificar, mas podem suceder outros deslocamentos igualmente grandes,
sem que haja resultados políticos, por não existir maneira de articular o
descontentamento e dar-lhe vazão. No que tange ao problema da superprodução,
latente em nossa sociedade desde o desenvolvimento da técnica da máquina, é
resolvido por meio do método da guerra contínua (vide Capítulo 3), também útil
para manter o moral público no diapasão desejado. Do ponto de vista dos nossos
atuais governantes, portanto, os únicos perigos genuínos são a formação de um
novo grupo de gente capaz, sem muito trabalho, e faminta de poder, e o
crescimento do liberalismo e do ceticismo nas suas fileiras governamentais.
Isto é, o problema é educacional. É um problema de moldar continuamente a
consciência tanto do grupo dirigente como do grupo executivo, mais amplo, que
fica logo abaixo dele. - A consciência das massas precisa ser influenciada
apenas de modo negativo.
Dados estes esclarecimentos, poder-se-ia inferir, se já não se conhecesse,
a estrutura geral da sociedade oceânica.
No alto da pirâmide está o Grande Irmão. O Grande Irmão é onipotente. Cada
sucesso, realização, vitória, descobrimento científico, toda sabedoria,
sapiência, virtude, felicidade, são atribuídos diretamente à sua liderança e
inspiração. Ninguém nunca viu o Grande Irmão. É uma cara nos tapumes, uma voz
das teletelas. Podemos ter razoável certeza de que nunca morrerá, e já existe
considerável incerteza da data em que nasceu. O Grande Irmão é a forma em que o
Partido resolveu se apresentar ao mundo. Sua função é a de ponte focal para o
amor, medo, reverência, emoções que podem mais facilmente ser sentidas em
relação a um indivíduo do que a uma organização. Abaixo do Grande Irmão vem o
Partido Interno, com seus seis milhões de membros, ou seja, menos de dois por
cento da população da Oceania. Abaixo do Partido Interno vem o Externo, que
pode ser chamado de mãos do Estado, se ao primeiro se atribuir o papel de
cérebro. Abaixo dele vem a massa muda a que nos referimos habitualmente por
"proles" e que talvez constitua oitenta e cinco por cento da
população. Nos termos da nossa classificação anterior, os proles são a Baixa,
pois a população escrava das terras equatoriais, que constantemente trocam de
mãos, não é parte permanente nem necessária da estrutura.
Em princípio, não é hereditária a participação em qualquer dos três
grupos. Filho de pais do Partido Interno não é, em teoria, a ele filiado. A
admissão a qualquer das esferas do Partido se faz por exame, prestado aos
dezesseis anos. Não há nenhuma discriminação racial, nem qualquer pronunciado
domínio de uma província sobre outra. Encontram-se judeus, negros,
sul-americanos de puro sangue índio nos postos mais elevados do Partido, e os
administradores regionais são sempre convocados dentre os naturais da área. Em
nenhuma parte da Oceania têm os habitantes a impressão de ser colônia
administrada de uma longínqua capital. A Oceania não tem capital, e o seu chefe
titular é uma pessoa cujo paradeiro todos ignoram. Não é centralizada de modo
algum, à exceção da língua franca, que é o inglês, e da Novilíngua, que é o
idioma oficial. Seus governantes não são ligados por laços de consangüinidade
mas pela obediência a uma doutrina comum. É verdade que a nossa sociedade é
estratificada, e muito rigidamente, segundo o que - à primeira vista - parecem
ser linhas hereditárias. Há muitíssimo menos movimento de vai e vem entre os
grupos diferentes do que acontecia no capitalismo ou mesmo nos períodos
pré-industriais. Entre os dois ramos do Partido existe certa dose de intercâmbio,
cujo único propósito, porém, é permitir a exclusão dos fracos do Partido
Interno e a neutralização dos mais ambiciosos militantes do Partido Externo,
guindados a uma esfera mais elevada. Na prática, os proletários não têm direito
de entrar para o Partido. Os mais bem dotados, que poderiam se tornar núcleos
de descontentamento, são simplesmente assinalados pela Polícia do Pensamento e
eliminados. Mas esse estado de coisas não é necessariamente permanente, nem é
questão de princípio. O Partido não é uma classe no antigo sentido da palavra.
Não tem por objetivo transmitir o poder aos próprios filhos; e se não houvesse
outro meio de conservar os mais capazes nos postos de comando, estaria
perfeitamente disposto a recrutar toda uma geração nova das fileiras do
proletariado. Nos anos cruciais, muito contribuiu para neutralizar a oposição o
fato de o Partido não ser um organismo hereditário. O antigo tipo de
socialista, treinado a lutar contra o que às vezes se chamava "privilégio
de classe," supunha que o que não fosse hereditário não podia ser
permanente. Não percebia que a continuidade de uma oligarquia não precisava ser
física, nem fazia pausa para refletir que as aristocracias hereditárias sempre
tiveram vida curta, enquanto que organizações auto-renovantes, como a Igreja
Católica, às vezes duram centenas e mesmo milhares de anos. A essência do jugo
oligárquico não é a herança de pai a filho, mas a persistência de certo ponto
de vista em face do mundo e de certa maneira de viver, imposta aos vivos pelos
mortos. Um grupo dominante só continua mandando enquanto consegue nomear seus
sucessores. O Partido não se interessa pela perpetuação do seu sangue, mas pela
perpetuação da entidade. O que importa não é quem maneja o poder, contanto que
permaneça sempre a mesma a estrutura hierárquica.
Todas as crenças, hábitos, gostos, emoções e atitudes mentais que
caracterizam a nossa época são realmente destinados a sustentar a mística do
Partido e impedir que se perceba a verdadeira natureza da sociedade atual. A
rebelião física não é possível no momento, nem qualquer preliminar de rebelião.
Dos proletários nada há a temer. Entregues a si mesmos, continuarão, de geração
em geração e de século a século, trabalhando, procriando e morrendo, não apenas
sem qualquer impulso de rebeldia, como sem capacidade de descobrir que o mundo
poderia ser diferente do que é. Só poderiam ficar mais perigosos se o progresso
da técnica industrial tornasse necessário educá-los mais; porém, como a
rivalidade militar e comercial não tem mais importância, declina o nível da
educação popular. As opiniões das massas, ou a ausência dessas opiniões, são
alvo da máxima indiferença. Não é possível dar-lhes liberdade intelectual
porque não possuem intelecto. Num membro do Partido, por outro lado, não se
pode tolerar nem o menor desvio de opinião a respeito do assunto menos
importante.
O membro do Partido vive, do berço à cova, sob os olhos da Polícia do
Pensamento. Mesmo quando está sozinho jamais pode ter certeza do seu
isolamento. Onde quer que esteja, dormindo ou acordado, trabalhando ou
descansando, no banho ou na cama, pode ser examinado sem aviso e sem saber que
o examinam. Nada do que ele faz é indiferente. Suas amizades, seus
divertimentos, sua conduta em relação a esposa e aos filhos, a expressão de seu
rosto quando está só, as palavras que murmura no sono, e até os movimentos
característicos do seu corpo, é tudo ciosamente analisado. É certo que
descobrem não apenas as mais minúsculas infrações, como qualquer
excentricidade, por pequena que seja, qualquer modificação de hábitos, qualquer
maneirismo nervoso que possa ser o sintoma duma luta íntima. Não tem liberdade
de escolha em direção alguma. Por outro lado, seus atos não são regulados pela
lei nem por nenhum código legal, claramente formulado. Na Oceania não existe
lei. Pensamentos e atos que, descobertos, resultariam em morte certa, não são
formalmente proibidos, e os intermináveis expurgos, prisões, torturas,
detenções e vaporizações não são infligidos como castigo por crimes realmente
cometidos, mas são apenas a liquidação de pessoas que poderiam talvez cometer
um crime no futuro. O membro do Partido não só deve ter as opiniões certas,
como os instintos certos. Muitas das crenças e atitudes dele exigidas não são
nunca declaradas abertamente, e não poderiam ser esmiuçadas sem pôr a nu as
contradições inerentes do Ingsoc. Se for uma pessoa naturalmente ortodoxa (em
Novilíngua bempensante), saberá, em todas as circunstâncias, sem precisar
raciocinar, qual é a verdadeira crença e a emoção desejável. Mas, de qualquer
maneira, um trabalhoso treino mental, a que se submeteu na infância, e que gira
em torno das palavras novilinguísticas crimedeter, negrobranco e duplipensar,
faz com que ele não tenha nem disposição nem capacidade para pensar a fundo em
coisa alguma.
Espera-se que o membro do Partido não tenha emoções pessoais nem lapsos de
entusiasmo. Supõe-se que viva num frenesi contínuo de ódio aos inimigos
estrangeiros e aos traidores internos, de gozo ante as vitórias e de
autodegradação perante o poderio e a sabedoria do Partido. Os descontentamentos
produzidos por essa vida nua e insatisfatória são deliberadamente purgados e
dissipados por estratagemas tais como os Dois Minutos de Ódio, e as
especulações que poderiam vir a induzir uma atitude de cepticismo ou de
rebeldia são antecipadamente suprimidas pela disciplina aprendida na infância.
O primeiro e mais simples estágio dessa disciplina, e pelo qual passam até as
crianças de tenra idade, chama-se, em Novilíngua, crimedeter. Crimedeter é a
faculdade de deter, de paralisar, como por instinto, no limiar, qualquer
pensamento perigoso. Inclui o poder de não perceber analogias, de não conseguir
observar erros de lógica, de não compreender os argumentos mais simples e
hostis ao Ingsoc, e de se aborrecer ou enojar por qualquer trem de pensamentos
que possa tomar rumo herético. Crimedeter, em suma, significa estupidez
protetora. Mas estupidez não basta. Pelo contrário, a ortodoxia, na sua
expressão lata, exige sobre o processo mental do indivíduo controle tão
completo quanto o de um contorcionista sobre seu corpo. Em última análise, a
sociedade oceânica repousa na crença de que o Grande Irmão é onipotente e o
Partido infalível. Mas como na realidade nem o Grande Irmão é onipotente nem o
Partido infalível, é preciso haver uma incansável flexibilidade, de momento a
momento, na interpretação dos fatos. Aqui, a palavra chave é negrobranco. Como
tantas outras palavras da Novilíngua, esta tem dois sentidos mutuamente
contraditórios. Aplicada a um adversário, caracteriza o hábito de afirmar
impudentemente que o negro é branco, em contradição aos fatos evidentes.
Aplicada a um membro do Partido, significa leal disposição de dizer que o preto
é branco quando o Partido o exige. Significa, também, a capacidade de acreditar
que o preto é branco, e mais ainda, de saber que o preto é branco, e de
acreditar que jamais se imaginou o contrário. Isto exige contínua alteração do
passado, possibilitada pelo sistema de raciocínio que na verdade abrange tudo o
mais, e que em Novilíngua se chama duplipensar.
A alteração do passado é necessária por duas razões, uma das quais é
subsidiária e, por assim dizer, precatória. A razão subsidiária é de que o
membro do Partido, como o proletário, tolera as condições atuais em parte por
não possuir padrões da comparação. Deve ser isolado do passado, da mesma forma
que deve ser isolado do estrangeiro, porque lhe é necessário crer que vive
melhor que os ancestrais e que o nível médio de conforto material sobe
constantemente.
Todavia, a razão mais importante para o reajuste do passado é a
necessidade de salvaguardar a infalibilidade do Partido. Não significa apenas
que se modifiquem discursos, estatísticas e registros de todo gênero para
demonstrar que as predições do Partido são sempre certas. É que não se pode
admitir, jamais, nenhuma modificação de doutrina ou de agrupamento político.
Mudar de idéia, ou de política, é confessar fraqueza. Se, por exemplo, a
Eurásia ou a Lestásia (qualquer das duas) for a inimiga de hoje, então aquele
país deve ter sido sempre o inimigo. E se os fatos dizem coisas diferentes,
então é preciso alterá-los. Assim se reescreve continuamente a história. Essa
falsificação cotidiana do passado, realizada pelo Ministério da Verdade, é tão
necessária à estabilidade do regime como o trabalho de repressão e espionagem
levado a cabo pelo Ministério do Amor.
A mutabilidade do passado é o dogma central do Ingsoc. Argúe-se que os
acontecimentos passados não têm existência objetiva, porém só sobrevivem em
registros escritos e na memória humana. O passado é o que dizem os registros e
as memórias. E como o Partido tem pleno controle de todos os registros, e
igualmente do cérebro dos seus membros, segue-se que o passado é o que o
Partido deseja que seja. Segue-se também que embora o passado seja alterável,
jamais foi alterado num caso específico. Pois quando é re-escrito na forma
conveniente, a nova versão passa a ser o passado, e nada diferente pode ter
existido. Isto se aplica mesmo quando, como acontece com freqüência, o mesmo
sucesso tem que ser alterado várias vezes no decurso de um ano. Todas as vezes
o Partido é detentor da verdade absoluta, e claramente o absoluto não pode
nunca ser diferente do que é agora. Ver-se-á que o controle do passado depende,
acima de tudo, do treino da memória. Não passa de ato mecânico certificar-se de
que todos os registros escritos concordam com a ortodoxia do momento. Mas
também é necessário recordar que os acontecimentos se deram da maneira
desejada. E se for necessário rearranjar as lembranças de cada um, ou alterar
os registros escritos, então é necessário esquecer que assim se procedeu. Esse
é um truque que pode ser aprendido como se aprende qualquer outra técnica
mental. É aprendido pela maioria dos membros do Partido e certamente por todos
que são tão inteligentes quanto ortodoxos. Em Anticlíngua chama-se, com toda a
franqueza, "controle da realidade." Em Novilíngua, chama-se
duplipensar, conquanto duplipensar abranja muita coisa mais.
Duplipensar quer dizer a capacidade de guardar simultaneamente na cabeça
duas crenças contraditórias, e aceitá-las ambas. O intelectual do Partido sabe
em que direção suas lembranças devem ser alteradas; portanto sabe que está
aplicando um truque na realidade; mas pelo exercício do duplipensar ele se
convence também de que a realidade não está sendo violada. O processo tem de
ser consciente, ou não seria realizado com a precisão suficiente, mas também
deve ser inconsciente, ou provocaria uma sensação de falsidade e, portanto, de
culpa. O duplipensar é a pedra basilar do Ingsoc, já que a ação essencial do
Partido é usar a fraude consciente ao mesmo tempo que conserva a firmeza de
propósito que acompanha a honestidade completa. Dizer mentiras deliberadas e
nelas acreditar piamente, esquecer qualquer fato que se haja tornado
inconveniente, e depois, quando de novo se tornar preciso, arrancá-lo do olvido
o tempo suficiente à sua utilidade, negar a existência da realidade objetiva e
ao mesmo tempo perceber a realidade que se nega - tudo isso é indispensável.
Mesmo no emprego da palavra duplipensar é necessário duplipensar. Pois,
usando-se a palavra admite-se que se está mexendo na realidade; é preciso um
novo ato de duplipensar para apagar essa percepção e assim por diante,
indefinidamente, a mentira sempre um passo além da realidade. Em última
análise, foi por meio do duplipensar que o Partido conseguiu - e, tanto quanto
sabemos, continuará, milhares de anos - deter o curso da história.
No passado, as oligarquias caíram do poder por se ossificarem ou se
amolecerem. Ou se tornaram estúpidas e arrogantes, deixando de se ajustar às
novas circunstâncias, e foram derrubadas; ou se tornaram liberais e covardes,
fizeram concessões quando deviam ter usado força, e por isso foram apeadas do
poder. Em outras palavras, caíram pela consciência ou a inconsciência. A grande
obra do Partido é ter produzido um sistema de pensamento no qual ambas as
condições podem co-existir. Não poderia ser permanente o domínio do Partido em
nenhuma outra base intelectual. Para se dominar, e continuar dominando, é
preciso deslocar o sentido de realidade. Pois o segredo do mando é combinar a
crença na própria infalibilidade com a capacidade de aprender com os erros
anteriores.
Não há quase necessidade de dizer que os mais sutis praticantes do
duplipensar são os que o inventaram e sabem que é um vasto sistema de fraude
mental. Em nossa sociedade, os que têm o melhor conhecimento do que sucede são
também os que estão mais longe de ver o mundo tal qual é. Em geral, quanto
maior a compreensão, maior a ilusão: quanto mais inteligente, menos ajuizado.
Nítida ilustração desta afirmativa é o fato da histeria de guerra aumentar de
intensidade à medida que se sobe na escala social. Aqueles cuja atitude em face
da guerra é mais próxima da sensatez são povos submissos dos territórios
disputados. Para eles a guerra não passa de uma calamidade contínua que se
diverte a jogá-los de um lado para outro como um maremoto. Lhes é completamente
indiferente saber quem está ganhando. Percebem que a mudança de donos significa
apenas que farão o mesmo trabalho que antes para os novos amos, que os tratarão
como os tratavam os antigos. Os operários ligeiramente mais favorecidos a que
chamamos "proles" têm consciência intermitente da guerra. Quando é
necessário, são instigados e levados a frenesis de ódio e medo, mas, entregues
a si próprios, são capazes de esquecer, por longos períodos, que a guerra está
acontecendo. É nas fileiras do Partido, e acima de tudo do Partido Interno, que
se encontra o verdadeiro entusiasmo de guerra. Acreditam na conquista do mundo,
com maior firmeza, aqueles que a sabem impossível. Esse particularíssimo
amálgama de opostos - sabedoria e ignorância, cinismo e fanatismo - é um dos
sinais que distinguem a sociedade oceânica. A ideologia oficial abunda em
contradições mesmo onde não há para elas qualquer razão prática. Assim, o
Partido rejeita e vilifica qualquer princípio originalmente defendido pelo
movimento socialista, e no entanto o faz em nome do socialismo. Prega um desdém
pela classe operária de que não há exemplo há muitos séculos, e todavia veste
os militantes num uniforme que foi característico dos trabalhadores manuais e
adotado por essa razão. Mina sistematicamente a solidariedade da família, ao
passado que dá ao seu chefe um nome que é um apelo direto ao sentimento de
lealdade familiar. Até os nomes dos quatro Ministérios por que somos governados
ostentam uma espécie de impudência na sua deliberada subversão dos fatos. O
Ministério da Paz ocupa-se da guerra, o da Verdade com as mentiras, o do Amor
com a tortura e o da Fartura com a fome. Essas contradições não são acidentais,
nem resultam de hipocrisia ordinária: são exercícios conscientes de
duplipensar. Pois é só reconciliando contradições que se pode reter
indefinidamente o poder. De nenhuma outra maneira seria possível quebrar o
antigo ciclo. Se é preciso impedir para sempre a igualdade humana - se, como a
chamamos, a Alta deve conservar permanentemente sua posição - então a condição
mental deve ser a de insânia controlada.
Mas há outra questão que, até este momento, não consideramos. E é esta:
por que se deve impedir a igualdade humana? Suponhamos que tenha sido bem
descrita a mecânica do processo: qual é o motivo desse vasto e bem calculado
esforço para congelar a história num determinado instante?
Aqui chegamos ao segredo central. Como vimos, a mística do Partido e,
acima de tudo, do Partido Interno, depende do duplipensar. Mais fundo do que
isto, porém, há o motivo original, o instinto jamais posto em dúvida, que
primeiro levou à conquista do poder e gerou o duplipensar, a Polícia do
Pensamento, a guerra contínua e todo o restante equipamento necessário. Esse
motivo realmente consiste...
Winston dera-se conta do silêncio, como quem percebe um novo som.
Parecia-lhe que Júlia estava muito quieta havia bastante tempo. Estava deitada
de lado, nua da cintura para cima, com a face apoiada na mão e um cacho de
cabelo castanho caído sobre os olhos. O peito subia e descia com regularidade.
- Júlia? Nenhuma resposta.
- Júlia, estás acordada? Nenhuma resposta. Estava dormindo. Ele fechou o
livro, pousou-o cuidadosamente no soalho, deitou-se e puxou a colcha sobre
ambos.
Refletiu que ainda não aprendera o segredo final. Compreendia como; ainda
não entendia por quê. O Capítulo I, como o III, não lhe dissera nada que já não
soubesse; apenas sistematizara o conhecimento que já possuía. Mas depois de
lê-lo tinha maior certeza de não estar louco. Estar em minoria, mesmo em
minoria de um, não era sintoma de loucura. Havia verdade e havia mentira, e não
se está louco porque se insiste em se agarrar à verdade mesmo contra o mundo
todo. Um raio amarelo do sol poente penetrou em oblíqua pela janela e iluminou
o travesseiro. Ele fechou os olhos.
O sol no rosto e o corpo macio da moça, encostado ao seu, davam-lhe um
forte sentimento de sonolência e confiança. Estava em segurança, e tudo ia bem.
Adormeceu murmurando "A sanidade mental não é questão de
estatística", e com a impressão de que essas palavras continham profunda
sabedoria.
Quando acordou, teve a sensação de ter dormido longo tempo, porém uma
consulta ao antigo relógio mostrou-lhe que eram apenas vinte e trinta.
Deixou-se ficar na cama alguns instantes. Depois, a cantoria costumeira, forte
e rija, subiu do quintal:
"Foi apenas uma fantasia desesperada,
Que passou como um dia de abril,
Mas um olhar, uma palavra, e os sonhos provocados,
Roubaram o meu coração gentil!"
A cantiga pueril parecia ter conservado a popularidade. Ainda se fazia
ouvir por toda parte. Sobrevivera à Canção do Ódio. Júlia acordou com o
barulho, espreguiçou-se como uma gata e pulou da cama.
- Estou com fome! - anunciou. - Vamos fazer um café. Bolas! O fogareiro
apagou e a água esfriou! - Apanhou o fogareiro e sacudiu-o. - Está vazio.
- Creio que o velho Charrington pode arranjar um pouco de óleo.
- O engraçado é que eu verifiquei que estava cheio. Vou me vestir -
acrescentou ela. - Parece que esfriou um pouco.
Winston também se levantou e vestiu-se. A voz infatigável -cantou:
"Dizem que o tempo tudo cura,
Dizem que sempre se pode esquecer,
Mas os sorrisos e lágrimas anos a fio,
Ainda fazem meu coração sofrer."
Prendendo o cinto, ele foi até a janela. O sol devia ter-se escondido
atrás das casas. Já não brilhava no quintal. Os paralelepípedos estavam
molhados, como se tivessem sido lavados, e ele teve a impressão de que o céu
também fora lavado, tão fresco e pálido era o azul entre as coifas das
chaminés. Incansável, a mulher marchava daqui para acolá, arrolhando e
desarrolhando a boca com os prendedores, cantando e emudecendo, estendendo mais
fraldas, e mais e mais. Ele se indagou se a mulher era lavadeira profissional
ou apenas a escrava de vinte ou trinta netos. Júlia viera juntar-se a ele;
juntos contemplavam, com um certo fascínio, a figura reforçada da prole.
Fitando a mulher na sua atitude característica, os braços grossos alcançando o
varal, as ancas muito salientes, fortes, como as de uma égua, ele achou, pela
primeira vez, que ela era bonita. Antes, nunca lhe havia ocorrido que pudesse
ser belo o corpo de uma mulher de cinqüenta anos, ampliado a monstruosas
dimensões pelos partos sucessivos, depois enrijada, calejada pelo trabalho até
ficar grosseira como um nabo muito maduro. Mas era, e afinal, pensou ele, por
que não? O corpo sólido, sem contornos, como um bloco de granito, e a pele
vermelha arrepiada, representavam o mesmo, em relação ao corpo de Júlia, que o
fruto de uma rosa brava junto à rosa de jardim. Por que seria o fruto
considerado inferior à flor?
- Ela é bonita! - murmurou ele.
- Tem um metro de diâmetro, nas cadeiras - disse Júlia.
- É o seu estilo de beleza - respondeu Winston. Ele passou o braço em
torno da cintura fina de Júlia. Do quadril ao joelho, o flanco da moça
colava-se ao dele. Dos seus corpos não sairia filho algum. Era a única coisa
que nunca poderiam fazer. Só pela palavra oral, e pela comunicação mental
podiam transmitir o segredo. A mulher do quintal não tinha mente, só tinha
braços fortes, coração quente, ventre fértil. Ele gostaria de saber quantos
filhos ela tivera. Talvez quinze, facilmente. Tivera o seu floramento momentâneo,
um ano talvez, de beleza de rosa brava, e depois, inchara de repente, como um
fruto fertilizado, tornando-se dura, vermelha e rústica, e a sua vida fora
apenas lavar, esfregar, remendar, cozinhar, varrer, polir, consertar, esfregar,
lavar, primeiro para os filhos, depois para os netos, durante trinta anos sem
interrupção. E no fim ainda cantava. A reverência mística que Winston por ela
sentia misturava-se, de certo modo, com o aspecto do céu pálido e sem nuvens,
dilatando-se, por trás das chaminés, e atingindo distâncias intermináveis. Era
curioso pensar que o céu era o mesmo para todos, na Eurásia como na Lestásia,
como na Oceania. E o povo que vivia sob o céu era também muito parecido - por
toda parte, em todo o mundo, centenas ou milhares de milhões de pessoas
exatamente assim, ignorantes da existência dos outros, separadas por muralhas
de ódios e mentiras, e no entanto quase exatamente iguais - gente que nunca
aprendera a pensar mas guardava no coração, no ventre e nos músculos a força
que um dia revolucionaria o mundo. Se esperança havia, estava nos proles! Sem
ler o livro até o fim, sabia que devia ser essa a mensagem final de Goldstein.
O futuro pertencia aos proles. E poderia ter a certeza de que, quando chegasse
o momento, o mundo que construiriam não lhe seria tão alheio, a ele, a Winston
Smith, quanto o mundo do Partido? Sim, porque ao menos seria um mundo de
sanidade mental. Onde há igualdade, há sanidade. Mais cedo ou mais tarde
aconteceria: a força se transformaria em consciência. Os proles eram imortais;
não era possível duvidar-se, fitando a valente figura da mulher no pátio. Por
fim chegaria o seu despertar. E até que isso acontecesse, nem que levasse mil
anos para acontecer, agüentariam vivos contra tudo, como os pássaros,
transmitindo de corpo a corpo a vitalidade que o Partido não possuía e que não
podia matar.
- Lembras-te do tordo - perguntou ele - que cantou para nós, o primeiro
dia, na borda do bosque?
- Não estava cantando para nós, - disse Júlia. - Estava cantando para se
distrair. Nem isso. Apenas cantava.
Os pássaros cantavam, os proles cantavam, o Partido não cantava. No mundo
inteiro, em Londres e em Nova York, na África e no Brasil e nas terras
misteriosas e proibidas de além-fronteiras, nas ruas de Paris e Berlim, nas
aldeias da infindável planície russa, nos bazares da China e do Japão, em toda
parte a mesma figura sólida, invencível, que o trabalho e os partos sucessivos
haviam tornado monstruosa, trabalhando desde nascer até morrer, e sempre
cantando. Daqueles corpos robustos viria um dia uma raça de seres conscientes.
O futuro era deles. Mas era possível participar desse futuro mantendo o
espírito vivo como eles mantinham o corpo, e passar adiante a doutrina secreta
de que dois e dois são quatro.
- Nós somos os mortos - disse ele.
- Nós somos os mortos - repetiu Júlia, lealmente.
- Vós sois os mortos - ecoou uma voz de ferro, por trás deles.
Separaram-se num pulo. As entranhas de Winston pareciam ter gelado. Podia
ver todo o branco dos olhos de Júlia. cuja face adquirira um tom amarelo
leitoso. A mancha de ruge, ainda nas faces, destacava-se vivamente, como se não
tocasse a pele que tinha por baixo.
- Sois os mortos - repetiu a voz de ferro.
- Foi atrás do quadro - sussurrou Júlia.
- Foi atrás do quadro - confirmou a voz. - Ficai exatamente onde estais.
Não vos mexais enquanto não receberdes ordem.
Começava, por fim começava! Nada podiam fazer, exceto olhos entrefitar nos
olhos. Correr, fugir da casa antes que fosse tarde demais - essa idéia não lhes
ocorreu. Incrível desobedecer à voz de ferro da parede. Houve um estalido, como
se tivesse corrido um ferrolho, e um tilintar de vidro quebrado. O quadro caíra
ao chão, revelando uma teletela.
- Agora, podem enxergar a gente - disse Júlia.
- Agora podemos vos enxergar - disse a voz. - Ficai no meio do quarto, um
de costas para o outro. Juntai as mãos na nuca. Não vos toqueis.
Não se tocavam, e no entanto pareceu a Winston que podia sentir o tremor
do corpo de Júlia. Ou talvez fosse o seu próprio. Mal podia impedir os dentes
de chocalharem, mas os joelhos não obedeciam ao seu controle. Ouviram-se botas
ferradas marchando lá baixo, dentro e fora da casa.
O pátio parecia cheio de homens. Algo parecia estar rolando sobre o
lajeado. O cântico da mulher parara abruptamente. Houve um barulho metálico,
prolongado, arrastado, como se a tina de roupa tivesse sido jogada de um lado a
outro do quintal. Depois uma confusão de gritos furiosos que acabaram num uivo
de dor.
- A casa está cercada - disse Winston.
- A casa está cercada - repetiu a voz. Ouviu Júlia trincar os dentes.
Creio que é melhor a gente se despedir, disse ela. É melhor vos
despedirdes - disse a voz. E depois uma voz completamente diferente, fina,
culta, e que deu a Winston a impressão de já a haver ouvido nalguma parte:
- E por falar nisso, já que falamos do assunto, Aí vem uma luz para te
levar para a cama, Aí vem um machado para te cortar a cabeça!'
Algo caíra na cama, por trás de Winston. A ponta de uma escada fora metida
pela vidraça e quebrara o caixilho. Alguém entrava pela janela. Ouviu-se um
tropel de botas que subiam por dentro da casa. O quarto encheu-se de homens
robustos, de uniformes negros, botas ferradas nos pés e bastões nas mãos.
Winston já não tremia. Mal mexia os olhos. Só uma coisa lhe importava:
ficar muito quieto, ficar imóvel, para não lhes dar pretexto para espancá-lo!
Um homem de cara lisa, de pugilista, em que a boca não passava de uma frincha,
parou diante dele, brandindo o bastão com ar pensativo. Winston fitou-o nos
olhos. Era quase insuportável a impressão de nudez, as mãos na nuca, o rosto e
o corpo expostos.
O homem mostrou a ponta da língua branca, umedeceu o lugar onde deveriam
estar os lábios, e passou adiante. Houve outro estrondo. Alguém apanhara o peso
de papel da mesa e o arrebentara de encontro à lareira.
O fragmento de coral, uma partícula crespa de rosa, como um enfeite de
bolo, rolou pelo capacho. Que pequenino, pensou Winston, como sempre fora
pequenino! Houve uma exclamação e um baque, atrás dele, e levou um pontapé no
tornozelo que quase o fez perder o equilíbrio. Um dos homens desferira um murro
no plexo de Júlia, fazendo-a dobrar-se em dois como um canivete. Rolava pelo
chão, ofegante. Winston não ousava virar a cabeça nem um milímetro, mas de vez
em quando o rosto lívido da moça entrava no seu campo de visão. Em meio ao seu
terror, tinha a impressão de poder sentir a dor no seu próprio corpo, a dor
fatal que no entanto era menos ansiosa que a luta de Júlia para recobrar o
fôlego. Ele sabia como era: a dor terrível, agoniante, presente o tempo todo
mas que não podia ainda ser sofrida porque, antes de tudo, era necessário
respirar. Então dois homens a suspenderam pelos ombros e joelhos e a levaram
para fora do quarto, como um saco. Winston viu-a de relance, cabeça para baixo,
amarela e contorcida, olhos fechados, e ainda com uma mancha de ruge em cada
face; foi a última vez que viu Júlia.
Continuou imóvel. Ainda ninguém o esbordoara. Pensamentos que surgiam por
si mesmos, mas que pareciam totalmente desinteressantes, começaram a revolutear
na sua cabeça. Teriam apanhado também o sr. Charrington? Que teriam feito com a
lavadeira do quintal? Reparou que tinha urgente vontade de urinar, e sentiu-se
ligeiramente surpreso, porque se aliviara havia apenas duas ou três horas.
Observou que o velho relógio da lareira marcava nove, significando vinte e uma
horas. Mas a luz lhe parecia forte demais. Já não deveria estar esmorecendo às
vinte e uma, em agosto? Seria possível que ele e Júlia se tivessem enganado -
dormido mais de 10 horas e acreditado que fossem vinte e trinta quando na
verdade eram oito e trinta da manhã seguinte? Não prosseguiu no raciocínio. Não
interessava.
Outro passo, mais ligeiro, se fez ouvir no corredor. O sr. Charrington
entrou no quarto. De repente, tornou-se mais cortês a conduta dos homens de
uniforme negro. Na aparência do sr. Charrington algo também se modificara. Seu
olhar tombou sobre os fragmentos do peso de papéis.
- Recolhe esses pedaços - disse, imperiosamente.
O homem abaixou-se e obedeceu. O sotaque londrino desaparecera; Winston
repentinamente percebeu de quem era a voz que ouvira, não havia muito, pela
teletela. O sr. Charrington ainda usava o paletó de veludo velho; mas o cabelo,
antes quase todo grisalho, enegrecera de novo. Não usava mais óculos. Lançou a
Winston um olhar único, percuciente, como se lhe verificasse a identidade, e
não tornou a lhe dar atenção. Ainda era reconhecível, mas não era mais a mesma
pessoa. O corpo se endireitara e ele parecia maior, mais alto. A face sofrera
apenas modificações minúsculas que, no entanto, haviam operado completa
transformação. As sobrancelhas negras eram menos bastas, as rugas tinham
sumido, e toda a fisionomia parecera se alterar; até o nariz parecia mais
curto. Era o rosto alerta e frio de um homem de seus trinta e cinco anos. E a
Winston ocorreu que pela primeira vez na vida punha os olhos num componente da
Polícia do Pensamento.
Não sabia onde estava. Presumivelmente no Ministério do Amor; mas não
havia jeito de o verificar.
Encontrava-se numa cela de pé-direito alto, sem janelas, de paredes de
porcelana branca e brilhante. Lâmpadas ocultas inundavam-na de luz fria, e
havia um zumbido baixo, constante, que ele supôs ter relação com o sistema de
ar. Um banco, ou prateleira, de largura apenas suficiente para se sentar,
circundava toda a parede, interrompendo-se apenas na porta e, em frente à
porta, um vaso de privada, sem tampo. Havia quatro teletelas, uma em cada
parede.
Sentia uma dor surda na barriga. Sofria desde que o haviam metido no
caminhão fechado e levado embora. Mas também sentia fome, uma fome horrível,
devoradora. Vinte e quatro horas talvez se haviam passado desde que comera por
último, quem sabe, trinta e seis. Ainda não sabia, provavelmente jamais
saberia, se fora preso de manhã ou à noite. E desde que fora preso não lhe
haviam dado de comer.
Estava sentado, tão imóvel quanto possível, no banco estreito, as mãos
pousadas nos joelhos. Já aprendera a sentar quieto. Se fizesse movimentos
inesperados, gritavam-lhe da teletela. Mas a fome crescia. O que mais
ambicionava era um pedaço de pão. Teve a idéia de que sobravam umas migalhas
nos bolsos da roupa. Era possível até - pensava nisso porque de vez em quando
algo lhe parecia fazer cócegas na perna - que tivesse um bom pedaço de casca.
Por fim, a tentação venceu o medo. Meteu a mão no bolsão.
- Smith! - berrou uma voz da teletela. - 6079 Smith W! Tira a mão do
bolso!
Tornou a ficar imóvel, mãos cruzadas no joelho. Antes de ter sido levado
para ali, haviam-no conduzido a outro lugar, que devia ser uma prisão comum, ou
um depósito temporário utilizado pela patrulha. Não sabia quanto tempo lá
ficara; algumas horas, ao menos; sem relógio e sem luz do sol era difícil
calcular o tempo. Era um lugar barulhento, mal cheiroso. Tinham-no trancafiado
numa cela semelhante à que estava agora, mas imunda, e às vezes cheia, com dez
ou quinze pessoas. A maioria era de criminosos comuns, porém havia alguns
presos políticos. Ele sentara-se em silêncio junto à parede, roçado pelos
corpos sujos, muito cheio de medo e de dor-de-barriga para se interessar pelo
ambiente, mas ainda notando a tremenda diferença de comportamento entre os
presos do Partido e os outros. Os presos do Partido estavam sempre calados e
aterrorizados, porém os criminosos comuns pareciam não ligar a mínima a
ninguém. Insultavam os guardas aos gritos, resistiam desesperadamente quando os
seus bens eram arrolados, escreviam palavras obscenas no chão, comiam alimento
contrabandeado que tiravam de misteriosos esconderijos das roupas, e até faziam
as teletelas calar, gritando em uníssono, quando o aparelho tentava restaurar a
ordem. Por outro lado, alguns pareciam ter boas relações com os guardas, a quem
chamavam por apelidos, e tentavam passar cigarros pela vigia da porta. Os
guardas, também, tratavam os criminosos comuns com certo respeito, mesmo quando
lhes davam uns safanões. Falava-se muito dos campos de trabalhos forçados, aos
quais a maioria dos prisioneiros esperava ser enviada. "Tudo azul"
nos campos, afirmaram-lhe, contanto que tivesse bons contatos e conhecesse os
truques. Havia suborno, favoritismo e roubalheira de todo gênero, havia
homossexualidade e prostituição, havia até álcool ilícito, destilado de
batatas. Os cargos de confiança eram dados apenas aos criminosos comuns,
especialmente gangsteres e os assassinos, que formavam uma espécie de
aristocracia. Todo trabalho sujo era feito pelos políticos.
Havia um contínuo fluxo e refluxo de presos de todo gênero: vendedores de
entorpecentes, ladrões, bandidos, mercado-negristas, bêbados, prostitutas.
Alguns bêbados eram tão violentos que os companheiros de cela tinham de juntar
forças para dominá-los. Uma mulheraça de uns sessenta anos, de enormes seios
como pêndulos, e grossas melenas de cabelo branco esgrouviado, foi levada para
a cela, gritando e dando pontapés, por quatro guardas que a seguravam pelos
braços e pernas. Arrancaram as botinas com que ela tentara atingi-los e
jogaram-na no colo de Winston, quase quebrando seus fêmures. A mulher ergueu-se
e cumprimentou-lhes a saída com um grito de "Filhos da p...!" Depois,
percebendo que estava sentada nalguma coisa incômoda, escorreu dos joelhos de
Winston para o banco.
- Desculpe, queridinho. Eu não sentaria em cima de você, foram os sacanas
que me botaram aí. Não sabem nem tratar uma senhora, sabem? - Fez uma pausa,
bateu no peito, e arrotou. - Perdão, não estou me sentindo muito bem.
Curvou-se para frente e vomitou copiosamente no chão.
- Tá melhor, assim - disse, tornando a endireitar-se, fechando os olhos. -
Nunca segurar a vontade, é o que eu digo. Soltar tudo enquanto está fresco no
estômago.
Retemperou-se, tornou a olhar para Winston e imediatamente pareceu ter
simpatizado com ele. Passou por seus ombros um braço enorme e puxou-o para
perto, fungando cerveja e vômito na cara dele.
Como é seu nome, queridinho? Smith. Smith? Engraçado! Meu nome também é
Smith! -
E acrescentou, sentimental: - Eu podia ser sua mãe!
Podia, pensou Winston. Tinha mais ou menos a idade e o físico, e era
provável que as pessoas mudassem muito em vinte e cinco anos de trabalhos forçados.
Ninguém mais lhe falara. Surpreendentemente, os criminosos comuns nem
tomavam conhecimento dos políticos, a quem chamavam de
"politiqueiros," com uma espécie de desprezo desinteressado. Os
prisioneiros do Partido pareciam amedrontados demais para falar a quem quer que
fosse, principalmente aos companheiros de infortúnio. Só uma vez, quando duas
militantes foram apertadas de encontro ao banco é que ele entreouviu, em meio
ao vozerio geral, umas palavras sussurradas à pressa; e em particular uma referência,
que não compreendeu, à sala "um-zero-um".
Havia talvez duas ou três horas que o tinham levado para ali. Não o
largava a dor surda da barriga, que no entanto ora melhorava, ora piorava, e os
seus pensamentos se expandiam ou contraíam. Quando piorava, só pensava na dor,
e no seu desejo de comer. Quando melhorava, dominava-o um medo pânico. Havia
momentos em que com tamanha clareza previa o que lhe ia acontecer, que o
coração galopava e parava de respirar. Sentia o golpe dos bastões nos cotovelos
e das botas ferradas nas canelas; via-se rolando no chão, pedindo misericórdia
aos gritos, por entre os dentes partidos. Mal pensava em Júlia. Não podia fixar
a mente em Júlia. Amava-a e não a trairia; mas era apenas um fato, sabido como
as leis da matemática. Não sentia amor por ela, e quase não tinha vontade de
saber o que lhe estava acontecendo. Com muito maior freqüência pensava em
O'Brien, com um raio de esperança. O'Brien devia saber que ele fora preso. A
Fraternidade, dissera ele, nunca procurava salvar seus membros. Mas havia a
lâmina de barba; mandariam uma lâmina, se pudessem. Cinco segundos talvez se
passassem antes dos guardas poderem levá-lo para a cela. A lâmina haveria de
mordê-lo com uma espécie de frieza de queimar, e os dedos que a segurassem seriam
lanhados até o osso. Tudo voltava ao corpo doente, que se encolhia, trêmulo,
ante a menor dor. Não tinha certeza de usar lâmina, mesmo que tivesse tempo.
Seria mais natural existir de momento a momento, aceitar mais dez minutos de
vida mesmo com a certeza de mais tortura.
Às vezes, tentava calcular o número de tijolos de porcelana nas paredes da
cela. Não seria difícil, porém sempre perdia a conta num ponto ou noutro. O
mais das vezes perguntava a si mesmo onde estaria, e que horas seriam. Ora
tinha a certeza de ser dia claro lá fora, ora sentia igual certeza de ser noite
fechada. Sabia instintivamente que naquele lugar as luzes jamais apagariam. Era
o lugar sem treva: agora via porque O'Brien parecera reconhecer a alusão. No
Ministério do Amor não havia janelas. Sua cela podia ser no meio do edifício,
ou junto a uma parede externa; podia ser dez andares abaixo do solo, ou trinta
acima. Deslocava-se mentalmente de um lugar para outro, tentando determinar sensorialmente
se estava num andar alto ou enterrado num subsolo.
De fora se ouviu o ruído de botas marchando. A porta de aço abriu-se com
estrépito. Um jovem oficial, uma figura esbelta, de uniforme negro que brilhava
nos couros polidos, e cujo rosto magro parecia uma máscara de cera, cruzou o
limiar. Fez um gesto aos guardas, mandando que trouxessem o preso. O poeta
Ampleforth foi atirado dentro da cela. A porta tornou a fechar-se com ruído.
Ampleforth fez um ou dois movimentos incertos, de um lado para outro, como
se imaginasse haver outra porta de saída; depois começou a vaguear pela cela.
Ainda não percebera a presença de Winston. Seu olhar perturbado examinava a
parede, a um metro acima da cabeça de Winston.
Não tinha sapatos e os artelhos grandes e sujos escapavam pelos buracos
das meias. Também fazia vários dias que não se barbeava. Uma barba rala
cobria-lhe as faces, dando-lhe um ar de rufião que destoava do corpanzil balofo
e dos seus movimentos nervosos.
Winston sacudiu um pouco da sua letargia. Devia falar com Ampleforth, e
arriscar-se a um grito da teletela. Era até concebível que Ampleforth lhe
trouxesse a lâmina.
- Ampleforth - chamou. Não houve berro da teletela. Ampleforth parou, um
tanto assustado. Lentamente, focalizou os olhos em Winston.
- Ah, Smith! Tu também?
- Por que te prenderam?
- Para te dizer a verdade. . . - sentou-se desajeitado no banco diante de
Winston. - Só há um delito, não é?
- E o cometeste?
- Aparentemente. Levou a mão à testa e apertou as têmporas por um momento,
como se tentasse recordar de algo.
- Essas coisas acontecem, - começou, vagamente. - Consegui recordar um
caso... um caso possível. Foi uma indiscrição, sem dúvida. Estávamos produzindo
uma edição definitiva dos poemas de Kipling. Deixei que a palavra
"Deus" ficasse no fim de um verso. Não pude evitá-lo! - acrescentou,
quase indignado, levantando o olhar para Winston. - Era impossível modificar o
verso. A rima era "seus." Durante dias e dias quebrei a cabeça. Não
havia outra rima possível.
Modificou-se a expressão de seu rosto. Sumira-se o desgosto, e por um
momento ele pareceu quase satisfeito. Uma espécie de calor intelectual, a
alegria do pedante que descobriu um fato inútil, brilhava por entre os pelos
sujos e crescidos.
- Já te ocorreu que toda a história da poesia inglesa foi determinada pelo
fato de escassearem as rimas?
Não, aquilo jamais ocorrera a Winston. E, na circunstância em que se
encontrava, não lhe pareceu muito importante nem interessante.
- Sabes que horas são? - indagou. Ampleforth tornou a olhá-lo espantado.
- Nem pensei nisso. Prenderam-me... há uns dois ou três dias. - Seus olhos
rodearam as paredes, como se esperasse encontrar uma janela nalguma parte. -
Neste lugar não há diferença entre noite e dia. Não sei como se pode calcular o
tempo.
Conversaram sem propósito alguns minutos e então, sem razão aparente, um
grito da teletela mandou que se calassem. Winston sentou-se quieto, braços
cruzados. Ampleforth, muito grande para sentar-se comodamente no banco
estreito, a todo momento mudava de posição, segurando com as mãos ossudas ora
um joelho ora outro. A teletela bradou-lhe que ficasse quieto. Passou-se o
tempo. Vinte minutos, uma hora - era difícil julgar. De novo se ouviu o barulho
de botas lá fora. As entranhas de Winston se contraíram. Breve, muito breve,
talvez dali a cinco minutos, talvez naquele instante, o barulho das botas
traria a notícia de que chegara sua vez.
A porta abriu-se. O oficial de cara fria entrou na cela. Com a mão indicou
Ampleforth.
- Sala 101 - ordenou. Ampleforth saiu marchando desajeitado entre os
guardas, fisionomia vagamente perturbada, mas sem compreender.
Passou-se um período que pareceu longo. Voltara a dor na barriga de
Winston. Seu pensamento insistia em cair nos mesmos sulcos, como uma bola que
repetidas vezes cai nos mesmos buracos. Tinha apenas seis idéias. A dor na
barriga; um pedaço de pão; sangue e grito; O'Brien; Júlia; a lâmina de barba.
Houve novo espasmo nas entranhas. As botas ferradas aproximavam-se. Quando a
porta se abriu, a corrente que fez trouxe uma onda de cheiro penetrante de suor
frio. Parsons entrou na cela. Estava de shorts caqui e camisa esporte.
Desta vez Winston ficou tão assombrado que esqueceu suas mazelas.
- Tu aqui! - exclamou. Parsons lançou a Winston um olhar em que não havia
nem interesse nem surpresa, mas apenas aflição. Pôs-se a andar nervoso para um
lado e outro, evidentemente incapaz de ficar imóvel. Cada vez que endireitava
os joelhos gorduchos via-se que tremiam. Tinha os olhos arregalados, como se
não conseguisse desviar a vista de alguma coisa à distância.
- Por que te trouxeram? - perguntou Winston.
- Crimidéia! - respondeu Parsons, quase soluçando.
O tom de sua voz implicava ao mesmo tempo completa admissão de culpa e uma
espécie de horror incrédulo de que tal palavra pudesse aplicar-se a ele. Parou
diante de Winston e pôs-se a apelar para ele, ansioso:
- Achas que me fuzilam, hein, velhinho? Não fuzilam a gente que não fez
nada mal, hein... só pensou, e quem segura o pensamento? Sei que fazem justiça.
Oh, eu tenho confiança na justiça! Conhecem a minha ficha, não conhecem? Tu sabes
quem eu era. Não era mau sujeito. Não tinha muita inteligência, mas tinha boa
vontade. Fazia o que podia pelo Partido, não fazia? Será que me livro com cinco
anos? Ou dez? Um sujeito como eu podia ser muito útil num campo de trabalhos.
Achas que me fuzilam por ter descarrilado uma vez só?
- És culpado?
- Naturalmente sou! - gritou Parsons, com uma olhadela servil à placa de
metal. - Não crês que o Partido prenda inocentes? - A cara de rã acalmou-se um
pouco, chegou a tomar uma expressão sentimonial. - Crimidéia é uma coisa
horrível, velho - afirmou, sentencioso. - É insidiosa. Pode te pegar sem que te
dês conta. Sabes como foi que me pegou? No sono. Sim, é fato. Lá estava eu,
trabalhando duro, procurando fazer meu dever, sem nunca saber que tivesse nada
de mau na cabeça. E daí comecei a falar dormindo. Sabes o que me ouviram
dizendo?
Baixou a voz, como alguém que se vê obrigado a pronunciar uma obscenidade,
por ordem do médico ou do juiz.
- Abaixo o Grande Irmão! Sim, foi o que eu disse. E disse muitas vezes, ao
que parece. Cá entre nós, meu velho, ainda bem que me pegaram antes que fosse
além. Sabes o que vou dizer a eles quando comparecer no tribunal?
"Obrigado," direi, "obrigado por me salvarem antes que fosse
tarde demais."
- Quem te denunciou? - perguntou Winston.
- Minha filhinha - respondeu Parsons, com uma espécie de melancólico
orgulho. - Escutou pelo buraco da fechadura. Ouviu o que eu disse e contou às
patrulhas no dia seguinte. Sabidinha aquela guria de sete anos, hein? Não me
queixo dela. Com efeito, tenho orgulho dela. Mostra, afinal, que lhe ensinei o
que devia.
Deu mais algumas passadas para um lado e outro, olhando várias vezes a
privada, de soslaio. De repente, arriou os calções.
- Desculpe, velho. Não posso mais. É a espera. Pousou o volumoso traseiro
no vaso da privada. Winston cobriu o rosto com as mãos.
- Smith! - gritou a voz da teletela. - 6079 Smith W! Descobre o rosto!
Nada de esconder o rosto!
Winston descobriu o rosto. Parsons usou o lavatório, ruidosa e
abundantemente. Verificou-se depois que a descarga estava defeituosa, e a cela
fedeu abominavelmente durante muitas horas.
Parsons foi removido. Outros presos chegaram e partiram misteriosamente.
Uma presa foi destinada à "Sala 101" e pareceu encolher-se e mudar de
cor quando ouviu a ordem. Chegou um momento em que, se o tivessem levado ali de
manhã, seria de tarde; se o tivessem levado de tarde seria meia-noite. Havia na
cela seis presos, entre homens e mulheres. Todos sentados, calados e imóveis.
Diante de Winston estava um homem sem queixo e sem dentes que parecia
exatamente um grande roedor inofensivo. Suas bochechas gordas e flácidas
pareciam guardar comida, e os olhos cinza pálido saltavam timidamente de rosto
em rosto, fugindo à pressa quando encontravam os de outrem.
A porta abriu-se e apareceu outro prisioneiro cujo aspecto deu um arrepio
em Winston. Era um homem comum, de aparência medíocre, que poderia ser
engenheiro ou técnico dalguma coisa. O que espantava era a magreza do seu
rosto. Parecia uma caveira. Por causa da magreza, a boca e os olhos tinham
ficado desproporcionais, e os olhos pareciam cheios de ódio homicida,
incontrolável, a alguém ou alguma coisa.
O homem sentou-se no banco a pequena distância de Winston. Ele não tornou
a olhá-lo, porém enxergava a cabeça atormentada, escaveirada, como se a tivesse
diante de si. De repente descobriu do que se tratava. O homem estava morrendo
de fome. A mesma idéia deve ter ocorrido quase simultaneamente a todos na cela.
Houve um ligeiro movimento no banco inteiro. Os olhos do homem sem queixo
pousavam a medo no escaveirado e logo fugiam, como envergonhados; mas a atração
era irresistível. Dali a pouco, começou a remexer-se no banco. Por fim
levantou-se, atravessou a cela desajeitado, meteu a mão no bolso do macacão e,
com ar embaraçado, estendeu um pedaço de pão sujo ao homem-caveira.
Houve um rugido furioso, ensurdecedor, da teletela. O sem queixo recuou
num pulo. O homem-caveira escondera as mãos nas costas, como se a demonstrar ao
mundo que recusava o presente.
- Bumstead! rugiu a voz. - 2713 Bumstead J! Solta esse pedaço de pão!
O homem sem queixo derrubou o pão.
- Fica de pé onde estás - comandou a voz. - Olha para a porta. Não te
mexas.
O homem obedeceu. As grandes bochechas flácidas tremiam sem controle. A
porta abriu-se com estrépito. O jovem oficial entrou e afastou-se para o lado,
dando passagem a um guarda baixo e atarracado, com enormes braços e ombros.
Postou-se diante do homem e então, a um sinal do oficial, vibrou tremendo murro
na boca sem queixo. A força foi tamanha que a vítima pareceu voar. O corpo foi
lançado do outro lado da cela, chocando-se na base da privada. Por um momento,
ali ficou, o sangue escuro escorrendo da boca e do nariz. Um gemido muito
débil, que parecia inconsciente, se fez ouvir. Depois rolou e levantou-se
hesitante, apoiando-se nas mãos e joelhos. Numa torrente de sangue e saliva, caíram
da boca as duas metades da dentadura.
Os presos deixaram-se ficar, imóveis, mãos postas nos joelhos. O homem sem
queixo voltou para o seu lugar. De um lado, a carne do rosto estava
escurecendo. A boca inchara, transformando-se numa massa informe, cor de
cereja, com um orifício negro no meio. De vez em quando um pouco de sangue
pingava no peito do macacão. Seus olhos cinzentos continuavam a saltar de face
em face, mais culpados que nunca, como se tentasse descobrir até onde o
desprezavam os outros, pela sua humilhação.
A porta abriu-se. Com um pequeno gesto o oficial indicou o homem de cara
de caveira.
- Sala 101. Ao lado de Winston houve uma exclamação e um movimento brusco.
O homem atirara-se de joelhos ao chão, e erguia as mãos postas.
- Camarada! Oficial! - exclamou. - Não tens que me levar para aquele
lugar. Já não te disse tudo? Que mais queres saber? Confessei tudo, não sobrou
nada. Dize-me o que queres que eu confesso. Escreve e eu assino... qualquer
coisa! Mas não a sala 101!
- Sala 101 - repetiu o oficial. A cara do homem, já muito pálido, ficou
duma cor que Winston não acreditava possível. Era um tom verde, positivo,
inconfundível.
- Faze comigo o que quiseres! - urrou. - Há semanas que venho passando
fome. Deixa-me morrer de fome. Fusila-me, enforca-me. Condena-me a vinte e
cinco anos. Alguém mais que queres que eu denuncie? Dize o nome e eu confesso
imediatamente. Não me importa quem seja, nem o que faças com ele. Tenho mulher
e três filhos. O mais velho ainda não tem seis anos. Podes pegar todos eles e
degolá-los na minha frente, que eu olho sem virar a cabeça. Mas a sala 101,
não!
- Sala 101.
O homem, frenético, olhou em torno, examinando os outros presos, como se
acreditasse poder oferecer outra vítima no seu lugar. Seus olhos pousaram na
face ensangüentada do homem sem queixo. Estendeu o braço esquelético.
- É aquele que deves levar, e não eu! - gritou. - Não ouviste o que ele
disse depois que o esmurraram. Dá-me uma oportunidade e eu te contarei tudo,
palavra por palavra. É ele que é contra o Partido, eu não! - Os guardas deram
um passo à frente. A voz do homem elevou-se a um urro.
- Não ouviste o que ele disse! - repetiu. - A teletela não estava funcionando
direito. É ele que queres. Leva-o, não a mim!
Os dois guardas robustos iam tomá-lo pelos braços, mas nesse momento exato
ele se atirou ao chão da cela e agarrou-se a uma das pernas de ferro que
amparava o banco. Pôs-se a uivar, como um animal. Os guardas seguraram-no, para
puxá-lo dali, mas ele resistiu com força espantosa. Durante uns vinte segundos,
talvez, os dois atletas forcejaram. Os presos continuavam sentados, imóveis,
olhando para frente. Os uivos pararam; o homem não tinha fôlego para outra coisa,
além de segurar-se. Ouviu-se então um brado diferente. Um pontapé de um dos
guardas partira-lhe os dedos da mão. Obrigaram-no a levantar-se.
- Sala 101 - repetiu o oficial.
O homem foi levado embora, cambaleando, cabisbaixo e alisando a mão
esmagada.
Passou-se muito tempo. Se o homem caveira tivesse sido levado à
meia-noite, era de manhã; se o fosse de manhã, era de tarde. Winston estava só,
e assim tinha permanecido algumas horas. A dor de sentar-se no banco estreito
era tanta que por fim ele se levantou e passeou um pouco, sem que a teletela o
censurasse. O pedacinho de pão estava ainda onde o outro a derrubara. A
princípio, foi preciso um grande esforço para não o olhar mas depois a fome deu
lugar à sede. Sentia um gosto ruim na boca pastosa. O zumbido constante e a luz
branca tinham provocado uma espécie de fraqueza, uma sensação de vazio na
cabeça. Levantava-se porque não podia mais agüentar a dor nos ossos, e então
tornava a sentar-se, quase imediatamente, porque se sentia tonto demais para
ficar de pé. O terror voltava sempre que conseguia controlar um pouco suas
sensações físicas. Às vezes, com diminuída esperança, pensava em O'Brien e na
lâmina de barba. Era imaginável que viesse escondida na comida, se é que lhe
iam dar de comer. Pensou vagamente em Júlia. Devia estar sofrendo nalguma
parte, talvez mais do que ele. Talvez estivesse gritando de dor, naquele
instante. Imaginou: "Se eu pudesse salvar Júlia dobrando a minha dor,
seria capaz? Sim, seria." Mas não passava de uma decisão intelectual, tomada
por saber que devia tomá-la. Não a sentia. Naquele lugar não era possível
sentir nada, exceto dor e presciência da dor. Além disso, era possível desejar,
por qualquer motivo, que a dor aumentasse, quando já a sofria bastante? Era uma
pergunta que ainda não podia responder.
As botas fizeram-se ouvir de novo. A porta abriu-se. O'Brien entrou.
Winston levantou-se num pulo. O choque baniu todas suas precauções. Pela
primeira vez, em muitos anos, esqueceu-se da presença da teletela.
- Também te pegaram! - exclamou.
- Pegaram-me há muito tempo - disse O'Brien, com leve ironia, quase
arrependida. Deu um passo para o lado e por trás dele apareceu um guarda de
peito largo, com um longo bastão negro na mão.
- Sabias disto - disse O'Brien. - Não te iludas, Winston. Sabias... sempre
soubeste.
Sim, ele agora via que sempre o soubera. Mas não houve tempo para pensar.
Só tinha olhos para o bastão do guarda. Podia cair em qualquer parte: no alto
da cabeça, na ponta da orelha, no braço, no cotovelo...
O cotovelo! caíra de joelhos, quase paralisado, protegendo com a mão o
cotovelo atingido. Tudo explodira numa luz amarela. Inconcebível, inconcebível
que um só golpe produzisse tamanha dor! O amarelo se foi e ele pôde enxergar os
dois a contemplá-lo. O guarda ria-se das suas contorções. Ao menos uma dúvida
fora esclarecida. Nunca, por nenhuma razão, se poderia desejar que a dor
aumentasse. Da dor, só se podia desejar uma coisa, que parasse. Nada no mundo
era tão horrível como a dor física. Em face da dor não há heróis, não há
heróis, ele pensou e tornou a pensar, torcendo-se no chão, segurando à toa o
braço esquerdo invalidado.
Estava deitado em alguma coisa que parecia uma cama de campanha, mais alta
porém e sobre a qual estava fixado de maneira a não poder se mexer. Caía-lhe no
rosto uma luz que parecia mais forte que a habitual. O'Brien estava de pé junto
dele, fitando-o atentamente. Do outro lado havia um homem de avental branco,
segurando uma seringa de injeção.
Mesmo depois de abrir os olhos só aos poucos foi compreendendo a forma das
coisas. Tinha a impressão de ter chegado ali a nado, vindo de um mundo muito
diferente, um distante mundo subaquático. Quanto tempo estaria ali, não sabia.
Desde o momento da prisão não vira nem trevas nem a luz do dia. Além disso, sua
memória não era contínua. Havia momentos em que a consciência, mesmo a
consciência que se tem durante o sono, se interrompera de todo, recomeçando
depois de um intervalo em branco. E não havia meio de saber se esses intervalos
eram de dias, semanas ou apenas segundos.
O pesadelo começara por aquele primeiro golpe no cotovelo. Mais tarde,
verificaria que aquilo tudo não passava de preliminar, de interrogatório
rotineiro, a que todos os presos eram submetidos. Havia uma longa série de
crimes - espionagem, sabotagem, etcétera - que todo mundo devia confessar, por
praxe. A confissão era uma formalidade, embora a tortura fosse real. Quantas
vezes fora espancado, e durante quanto tempo, não conseguia se lembrar. Havia
sempre cinco ou seis homens de uniforme negro ocupados com ele,
simultaneamente. Às vezes eram os punhos, outras os bastões, ou varas de aço,
ou botas. Ocasiões havia em que rolava pelo chão, desavergonhadamente, como um
animal, encolhendo o corpo daqui e dali, num esforço infindo, inútil, de fugir
aos pontapés, e com isso apenas atraindo mais e mais coices, nas costelas, na
barriga, nos cotovelos, nas canelas, nas virilhas, nos testículos, no cóccix.
Havia ocasiões em que a pancadaria continuava longamente, até o cruel,
perverso, imperdoável, não ser mais a brutalidade dos guardas, mas o fato de
não poder perder os sentidos à vontade. De outras, a coragem de tal modo lhe
fugia que começava a implorar misericórdia antes dos golpes começarem, e quando
a simples vista de um punho fechado era suficiente para levá-lo a confessar um
chorrilho de crimes reais e imaginários. Havia vezes em que começava com a
decisão de nada confessar, em que cada palavra lhe tinha de ser arrancada entre
gemidos de dor, e outras em que tentava debilmente resistir mais um pouco,
dizendo: "Confessarei, mas ainda não. Devo agüentar até que a dor se torne
insuportável. Mais três pontapés, mais dois, e então direi o que querem."
Freqüentemente, era espancado até não poder mais se suster em pé, sendo então
atirado como um saco de batatas ao chão de pedra duma cela; depois de
recobrar-se algumas horas, levavam-no de novo e tornavam a bater-lhe. Havia
também períodos mais longos de repouso. Lembrava-se vagamente deles, porque os
passava dormindo ou numa espécie de estupor. Lembrava-se duma cela como uma
cama de tábua, uma espécie de prateleira embutida na parede, uma bacia de
folha, e refeições de sopa quente, pão e às vezes café. Lembrava-se de um
barbeiro carrancudo que lhe cortou o cabelo e escanhoou o queixo, e homens
antipáticos, muito ativos nos seus aventais brancos, a tomar-lhe o pulso,
anotar-lhe os reflexos, revirar-lhe as pálpebras, apalpar-lhe o corpo todo à
cata de fraturas, e a enterrar-lhe agulhas no braço para fazê-lo dormir.
Os espancamentos diminuíram, e tornaram-se mais uma ameaça, um horror a
que poderia ser recambiado a qualquer momento se suas respostas não
satisfizessem. Agora, os inquisidores não eram os monstros de uniforme negro,
mas intelectuais do Partido, homenzinhos rotundos de movimentos rápidos e óculos
brilhantes, que se ocupavam dele em rodízio durante períodos que duravam - ele
calculou, sem certeza - dez e doze horas, sem interrupção. Esses interrogadores
providenciavam para ele que sentisse uma dor constante, embora ligeira; mas não
era a dor a sua maior arma. Davam-lhe tapas na cara, torciam-lhe as orelhas,
puxavam-lhe o cabelo, obrigavam-no a ficar de pé numa só perna, recusavam-se a
dar licença para urinar, focavam lâmpadas fortes nos seus olhos, até
lacrimejarem; porém o propósito disto tudo era apenas humilhá-lo e destruir-lhe
o poder de raciocínio e argumentação. Sua verdadeira arma era o interrogatório
impiedoso que continuava, hora após hora, arquitetando armadilhas, fazendo-o
tropeçar aqui e ali, torcendo tudo quanto dissesse, condenando-o a cada passo
pelas suas mentiras e contradições, até ele começar a chorar, tanto de vergonha
como de fadiga nervosa. Freqüentemente, faziam-no chorar até meia-dúzia de
vezes numa única sessão. A maior parte do tempo insultavam-no aos brados e, a
cada hesitação, o ameaçavam de devolução aos guardas; havia também momentos em
que de repente mudavam de tom, chamavam-no camarada, apelavam para ele em nome
do Ingsoc e do Grande Irmão, e lhe perguntavam pateticamente se não tinha
suficiente lealdade ao Partido para desejar desfazer o mal que fizera. Quando
tinha os nervos em frangalhos, depois de horas e horas de interrogatório, até
esse apelo podia reduzi-lo a um choro fungado. Por fim, as vozes insistentes o
venciam mais completamente do que as botas e os punhos dos guardas. Tornou-se
apenas uma boca que dizia, uma mão que assinava, tudo quanto lhe fosse exigido.
Sua única preocupação era descobrir o que desejavam que confessasse e confessar
depressa, antes que a tortura recomeçasse. Confessou o assassínio de eminentes
membros do Partido, a distribuição de panfletos sediciosos, desfalque de fundos
públicos, venda de segredos militares, sabotagem de todo gênero. Confessou ter
sido espião a soldo do governo lestasiático desde 1968. Confessou-se crente
religioso, admirador do capitalismo e pervertido sexual. Confessou haver
assassinado a esposa, embora soubesse, como certamente deviam saber também os
interrogadores, que ela ainda vivia. Confessou ter-se mantido em contato
pessoal com Goldstein, havia muitos anos, e ter sido membro duma organização
clandestina que incluía quase todos os seres humanos que jamais conhecera. Era
mais fácil confessar tudo e implicar todos. Além disso, de certo modo, era tudo
verdade. Era verdade que fora inimigo do Partido, e aos olhos do Partido não
havia distinção entre o pensamento e o ato.
Havia também recordações de outro gênero. Destacavam-se, desligadas, no
seu espírito, como quadros rodeados de preto.
Estava numa cela que tanto podia ser clara como escura, porque não
enxergava mais que um par de olhos. Perto dele, um instrumento qualquer
tiquetaqueava lentamente, com regularidade. Os olhos aumentavam de tamanho e
luminosidade. De repente, ele se desprendeu donde estava, mergulhou nos olhos e
foi engolido.
Estava amarrado numa cadeira, cercado de mostradores, sob luzes
ofuscantes. Um homem de branco consultava os mostradores. Lá fora ouviu-se o
barulho de botas ferradas. A porta abriu-se com estrépito. O oficial de máscara
de cera entrou, seguido por dois guardas.
- Sala 101 - disse o oficial.
O homem de avental branco não se voltou. Nem olhou para Winston; só lhe
interessavam os mostradores.
Estava rolando por um enorme corredor, de um quilômetro de extensão,
inundado de gloriosa luz dourada, rindo às gargalhadas e gritando confissões a plenos
pulmões. Confessava tudo, até mesmo o que conseguira prender durante a tortura.
Estava contando toda a história da sua vida a um público que já a conhecia. Com
ele estavam os guardas, os outros interrogadores, os homens de avental branco,
O'Brien, Júlia, o sr. Charrington, todos rolando juntos pelo corredor e
gargalhando. Uma coisa horrível, que jazera no futuro, passara em branca nuvem
e não acontecera. Estava tudo ótimo, não havia mais dor, e o último detalhe da
sua vida se desnudou, compreendido, perdoado.
Estava-se levantando da cama de tábua, na meia-certeza de ter ouvido a voz
de O'Brien. Durante todo o interrogatório, embora não o pudesse ver, tivera a
impressão de ter O'Brien ao lado. Era O'Brien quem tudo dirigia. Mandara os
guardas atacarem Winston e os impedira de o matarem. Era quem decidia quando
Winston devia gritar de dor, quando devia se aliviar, quando comer, quando
dormir, quando levar injeção no braço. Era quem fazia as perguntas e sugeria as
respostas. Era o atormentador, o protetor, o inquisidor, o amigo. E uma vez -
Winston não podia se lembrar se fora durante o sono natural, ou dopado, ou
mesmo num momento de lucidez - uma voz murmurou no seu ouvido: "Não te
preocupes, Winston; estás sob minha guarda. Há sete anos que te vigio. Agora
chegou o grande momento. Eu te salvarei, eu te farei perfeito." Não estava
seguro de que fosse a voz de O'Brien. Mas era a mesma voz que lhe dissera
"Tornaremos a nos encontrar onde não há treva." naquele outro sonho,
sete anos atrás.
Não se lembrava do fim do interrogatório. Houve um período de escuridão e
depois a cela, ou sala, onde estava, materializou-se lentamente em torno dele.
Estava deitado de costas, e impedido de mexer-se. Tinha o corpo preso em todos
os pontos essenciais. Até a cabeça estava ligada. O'Brien fitava-o com
gravidade e alguma tristeza. Visto de baixo, seu rosto parecia tosco e gasto,
olhos empapuçados, rugas cansadas do nariz ao queixo. Era mais velho do que
Winston supusera; devia ter entre quarenta e oito e cinqüenta anos. Tinha na
mão um mostrador com uma alavanca em cima e números em volta.
- Eu te disse que se tornássemos a nos encontrar seria aqui.
Sim. Sem qualquer aviso, além de um ligeiro movimento da mão de O'Brien,
uma onda de dor percorreu o corpo de Winston. Era uma dor assustadora, porque
não podia ver o que acontecia, e tinha a sensação de que lhe infligiam um
ferimento mortal. Não sabia se de fato estava acontecendo, ou se apenas o
efeito era eletricamente provocado; mas sentia o corpo se deformando, as juntas
dos ossos separadas, devagar. Embora a dor o fizesse suar na testa, o pior de
tudo era o medo de que a espinha se rompesse. Trincou os dentes e respirou
fundo, pelo nariz, procurando manter silêncio o mais possível.
- Estás com medo - disse O'Brien, observando-lhe a face - de que algo
arrebente, daqui a um momento. Teu medo é que seja a espinha. Tens uma nítida
imagem mental das vértebras se separando e do líquido raquiano escorrendo. Não
é nisso que pensas, Winston?
Winston não respondeu. O'Brien puxou a alavanca do mostrador. A onda de
dor refluiu com a mesma rapidez com que viera.
- Quarenta - disse O'Brien. - Como vês, os números deste mostrador vão até
cem. Lembra-te, durante toda nossa conversa, que está em meu poder infligir-te
dor a qualquer momento, no grau que eu quiser. Se me mentires, ou tentares
prevaricar de qualquer modo, ou caíres em nível de inteligência, gritarás de
dor, instantaneamente. Compreendes?
- Compreendo.
Os modos de O'Brien abrandaram-se. Arrumou os óculos, pensativo, e deu
algumas passadas. Quando falou, foi com voz gentil e paciente. Tinha o ar de um
médico, professor, ou sacerdote, ansioso de explicar e persuadir, e não de
punir.
- Dou-me a esta trabalheira contigo, Winston, porque vales a pena. Sabes
perfeitamente qual é o teu mal. E sabes há muitos anos, embora lutasses contra
o conhecimento. És mentalmente desequilibrado. Sofres de memória defeituosa. És
incapaz de recordar acontecimentos reais e pensas que te lembras de outros, que
nunca tiveram lugar. Felizmente, é curável. Não te curaste, porque preferiste
não te curar. Não te dispuseste a fazer um esforcinho. Neste mesmo instante,
sei que te agarras à tua doença, sob a impressão de que é uma virtude.
Consideremos um exemplo. Neste momento, com que potência a Oceania está em guerra?
- Quando fui preso, a Oceania estava em guerra com a Lestásia.
- Com a Lestásia. Bom. E a Oceania sempre esteve em guerra com a Lestásia,
não esteve?
Winston respirou fundo. Abriu a boca para falar mas calou-se. Não podia
tirar os olhos do mostrador.
- A verdade, Winston, por favor. Tua verdade. Dize-me o que pensas
lembrar.
- Lembro-me de que há apenas uma semana antes de ser preso, não estávamos
em guerra com a Lestásia. Era nossa aliada. A guerra era contra a Eurásia, e já
durava havia quatro anos. Antes...
O'Brien deteve-o com um gesto.
- Outro exemplo, - disse ele. - Há alguns anos tiveste uma alucinação
muito séria. Acreditavas que três homens, três antigos membros do Partido, de
nomes Jones, Aaronson e Rutherford - executados por traição e sabotagem, após
uma confissão integral - não tinham cometido os crimes imputados. Acreditavas
ter visto prova documental inconfundível de que as confissões dos três eram
falsas. Houve uma certa fotografia em torno da qual construíste uma alucinação.
Acreditavas tê-la tomado nas mãos. A fotografia era mais ou menos assim.
Um recorte retangular de jornal aparecera entre os dedos de O'Brien.
Durante cinco segundos talvez ficou ao alcance da visão de Winston. Era uma
fotografia, e não havia dúvidas quanto à sua identidade. Era a fotografia. Era
outro exemplar da foto de Jones, Aaronson e Rutherford numa função do Partido
em Nova York, a mesma que por acaso tivera em mãos, onze anos atrás, e
destruíra quase imediatamente. Por um instante apenas teve-a diante dos olhos, depois
tornou a sumir. Mas vira-a, não havia dúvida de que a vira! Fez um esforço
desesperado, agoniado, de libertar o tórax e a cabeça. Era impossível mexer-se
em qualquer direção, um centímetro que fosse. Por um momento, chegara a
esquecer-se do mostrador. Tudo que queria era segurar de novo a fotografia, ou
pelo menos vê-la.
- Existe! - exclamou.
- Não, - disse O'Brien. Atravessou a sala. Na parede oposta havia um
buraco da memória. Ele levantou a grade. Sem que o vissem, o frágil pedaço de
papel foi sugado pela corrente de ar quente; desapareceria numa labareda.
O'Brien voltou-se.
- Cinza - disse. - Nem mesmo cinza identificável. Pó. Não existe. Nunca
existiu.
- Mas existiu! Existe! Existe na memória. Eu me lembro. Tu te lembras.
- Não me lembro - afirmou O'Brien.
O coração de Winston soçobrou. Era o duplipensar. Teve uma sensação mortal
de impotência. Se ao menos pudesse ter certeza de que O'Brien mentia, não teria
tanta importância. Mas era perfeitamente possível que O'Brien se tivesse
esquecido da foto. E se assim fosse, já teria certamente esquecido sua negativa
de se lembrar, e esquecido o esquecimento. Como era possível ter a certeza de
que tudo não passava de estratagema? Esmagava-o o pensamento de que talvez
pudesse de fato ocorrer aquele deslocamento lunático da mente.
O'Brien fitava-o com curiosidade nos olhos. Mais do que nunca tinha o ar
dum mestre, dedicado a um aluno peralta mas promissor.
- Há um ditado do Partido que se refere ao controle do passado - disse
ele. - Repete-o, por favor.
- "Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o
presente controla o passado." - repetiu Winston obediente.
- "Quem controla o presente controla o passado." - disse O'Brien
sacudindo a cabeça devagar. - Na tua opinião, Winston, o passado tem existência
real?
De novo a sensação de impotência dominou Winston. Seus olhos contemplavam
o mostrador. Não sabia qual a resposta salvadora; "sim", ou
"não"? Nem ao menos sabia que resposta acreditava verdadeira.
O'Brien sorriu levemente.
- Não és metafísico, Winston. Até este momento, não havias considerado o
que significa existência. Farei uma frase mais precisa. O passado existe
concretamente, no espaço? Existe em alguma parte um mundo de objetos sólidos,
onde o passado ainda acontece?
- Não.
- Então onde é que existe o passado, se é que existe?
- Nos registros. Está escrito.
- Nos registros. E em que mais?
- Na memória. Na memória dos homens.
- Na memória. Muito bem. Nós, o Partido, controlamos todos os registros, e
controlamos todas as memórias, Nesse caso controlamos passado, não é verdade?
- Mas como podes impedir que a gente se lembre das coisas? - exclamou
Winston, de novo se esquecendo do mostrador. - É involuntário. Está fora do
indivíduo. Como podes controlar a memória? Não controlaste a minha!
Os modos de O'Brien tornaram-se ríspidos de novo. Pousou a mão no
mostrador.
- Ao contrário - disse ele. - Foste tu que não a controlaste. Por isso
estás aqui. Estás aqui porque fracassaste em humildade, em disciplina. Não
queres fazer o ato de submissão que é o preço da sanidade. Preferiste ser
lunático, minoria de um. Só a mente disciplinada pode enxergar a realidade,
Winston. Crês que a realidade é algo objetivo, externo, que existe de per si.
Acreditas também que é evidente a natureza da realidade. Quando te iludes, e
pensas enxergar algo, julgas que todo mundo vê a mesma coisa. Mas eu te digo,
Winston, a realidade não é externa. A realidade só existe no espírito, e em
nenhuma outra parte. Não na mente do indivíduo, que pode se enganar, e que logo
perece. Só na mente do Partido, que é coletivo e imortal.
O que quer que o Partido afirme que é verdade, é verdade. É impossível ver
a realidade exceto pelos olhos do Partido. É esse o fato que deves reaprender,
Winston. Exige um ato de auto-destruição, um esforço da vontade. Deves te
humilhar antes de recobrar o juízo.
Fez uma pausa de alguns momentos, como se para permitir que suas palavras
calassem fundo.
- Lembras-te de escrever no teu diário: "liberdade é a liberdade de
escrever que dois e dois são quatro?"
- Lembro. O'Brien mostrou a mão esquerda, de dorso para Winston, com o
polegar oculto e mostrando quatro dedos.
- Quantos dedos tenho aqui, Winston?
- Quatro.
- E se o Partido disser que não são quatro, mas cinco... quantos?
- Quatro. A palavra acabou numa exclamação de dor. O ponteiro do mostrador
fora até cinqüenta e cinco. O suor brotara em todo o corpo de Winston. O ar
rasgava-lhe os pulmões e saia de novo em profundos gemidos que nem mesmo
trincando os dentes ele conseguia calar. O'Brien observava-o, com os quatro
dedos ainda estendidos. Puxou a alavanca. Desta vez a dor apenas diminuiu um
pouco.
- Quantos dedos, Winston?
- Quatro.
O ponteiro subiu a sessenta.
- Quantos dedos, Winston?
- Quatro! Quatro! Não posso dizer outra coisa! Quatro!
O ponteiro deve ter-se adiantado mais, porém ele não olhou. O rosto largo
e severo, e os quatro dedos, tomavam-lhe toda a visão. Os dedos estavam na sua
frente como colunas, enormes, e pareciam vibrar, mas não havia dúvida de que
eram quatro.
- Quantos dedos, Winston?
- Quatro! Pára, pára! Como podes continuar? Quatro! Quatro!
- Quantos dedos, Winston?
- Cinco! Cinco! Cinco!
- Não, Winston. Assim não adianta. Estás mentindo. Ainda achas que são
quatro. Quantos dedos, por favor?
- Quatro! Cinco! Quatro! O que quiseres. Mas pára, pára a dor!
Abruptamente, achou-se sentado na cama, com o braço de O'Brien passado por
seus ombros. Talvez tivesse perdido os sentidos por alguns segundos. Tinham-se
afrouxado os laços que amarravam o seu corpo. Sentia muito frio, e tremia
descontroladamente. Os dentes chocalhavam, e as lágrimas rolavam pelas faces.
Por um momento, agarrou-se a O'Brien como um nenê, curiosamente consolado pelo
braço musculoso passado por seus ombros. Tinha a impressão de ser O'Brien seu
protetor, de que a dor era algo que vinha de fora, de outra fonte, e que
O'Brien o salvava dela.
- Aprendes devagar, Winston, disse O'Brien, gentilmente.
- Que Posso fazer? - choramingou. - Como posso deixar de ver o que está
diante dos meus olhos? Dois e dois são quatro.
- Às vezes, Winston. Às vezes são cinco. Às vezes são três. As vezes são
as três coisas ao mesmo tempo. Deves fazer maior esforço. Não é fácil recobrar
a razão.
Tornou a deitar Winston na cama. Apertou-se de novo a prisão nos membros,
porém a dor se fora e o tremor parara, deixando-o apenas fraco e com frio.
O'Brien fez um movimento com a cabeça, dirigindo-se ao homem do avental branco,
que durante toda a cena estivera imóvel. O homem inclinou-se e examinou de
perto os olhos de Winston, tateou-lhe o pulso, encostou-lhe a orelha ao peito,
deu tapinhas ali e aqui; depois sacudiu a cabeça positivamente.
- Outra vez - disse O'Brien. A dor percorreu o corpo de Winston. A agulha
devia ter atingido setenta, ou setenta e cinco. Desta vez ele fechara os olhos.
Sabia que os dedos ainda estavam ali e que ainda eram quatro. A única coisa que
importava era continuar vivo até passar o espasmo. Deixou de perceber se
chorava ou não. A dor tornou a diminuir. Ele abriu os olhos. O'Brien puxara a
alavanca.
- Quantos dedos, Winston?
- Quatro. Imagino que sejam quatro. Veria cinco, se pudesse. Estou
tentando ver cinco.
- Que desejas? Convencer-me de que vês cinco, ou de fato vê-los?
- Vê-los de fato.
- Outra vez.
O ponteiro devia ter ido a oitenta. .. noventa talvez. Winston só
intermitentemente podia se lembrar porque a dor acontecia. Atrás das pálpebras
cerradas, uma floresta de dedos parecia movimentar-se numa espécie de dança,
entrando e saindo, desaparecendo atrás dos outros e tornando a aparecer.
Tentava contá-los, mas não se lembrava porque. Só sabia ser impossível
contá-los, e que isto se devia à misteriosa identidade entre o quatro e o
cinco. A dor diminuiu de novo. Quando abriu os olhos foi verificar que ainda
via o mesmo. Inúmeros dedos, como árvores movediças, corriam em todas as direções,
cruzando e recruzando seu campo de visão. Tornou a fechar os olhos.
- Quantos dedos estou mostrando, Winston?
- Não sei. Não sei. Me matas, se me deres dor outra vez. Cinco, quatro,
seis... sinceramente, não sei. Está melhor.
Uma agulha penetrou o braço de Winston. Quase no mesmo instante, um
delicioso calor balsâmico se espalhou por todo o seu corpo. A dor já estava
meio-esquecida. Abriu os olhos e fitou O'Brien com gratidão. O coração pareceu
virar, à vista daquele rosto grande e enrugado, tão feio e tão inteligente. Se
pudesse mexer-se, teria esticado a mão e segurado o braço de O'Brien. Nunca o
estimara tão profundamente como naquele momento, e não apenas por ter parado a
dor. Voltara a velha sensação, de que no fundo não tinha importância que O'Brien
fosse amigo ou inimigo. Era uma pessoa com quem se podia conversar. Talvez não
quisesse ser tão estimado quanto compreendido. O'Brien o torturara, levara-o à
beira da loucura e, dentro em breve, certamente o mandaria à morte. Não fazia
diferença. Num sentido qualquer, que ia mais fundo que a amizade, eram íntimos;
nalguma parte, embora as palavras jamais fossem ditas, havia um lugar onde
poderiam encontrar-se e falar. O'Brien fitava-o com uma expressão que levava a
suspeitar que pensasse o mesmo. Quando falou, foi num tom fácil, de palestra.
- Sabes onde estás, Winston?
- Não sei. Mas adivinho. No Ministério do Amor.
- Sabes há quanto tempo estás aqui?
- Não sei. Dias, semanas, meses. .. creio que há meses.
- E por que imaginas que trazemos gente aqui?
- Para obrigá-la a confessar.
- Não, a razão não é essa. Tenta outra.
- Para puni-la.
- Não! - exclamou O'Brien, cuja voz mudara extraordinariamente. Sua face
se tornara ao mesmo tempo severa e animada. - Não! Não apenas para te extrair
uma confissão, nem para te punir. Queres que diga porque foste trazido aqui?
Para te curar! Para te salvar da loucura! Compreenderás, Winston, que ninguém,
dos que trazemos a este lugar, sai de nossas mãos sem estar curado? Não estamos
interessados nos estúpidos crimes que cometeste. O Partido não se interessa
pelo ato físico; é com os pensamentos que nos preocupamos. Não apenas
destruímos nossos inimigos; nós os modificamos. Compreendes o que quero dizer?
Estava inclinado sobre Winston. Seu rosto parecia enorme por causa da
proximidade, e horrivelmente feio por ser visto de baixo. Além disso, estava
cheio de uma espécie de exaltação, de lunática intensidade. O coração de
Winston tornou a apequenar-se no peito. Se fosse possível, ele se enterraria
mais na cama. Tinha a certeza de que o outro estava a ponto de acionar a
alavanca, por pura perversidade. Nesse momento, porém, O'Brien se voltou.
Pôs-se a passear de um lado para outro. Depois continuou, com menos veemência:
- A primeira coisa que deves entender é que neste lugar não há martírios.
Leste a história das perseguições religiosas na Idade Média, quando havia a
inquisição. Foi um fracasso. Tinha por intuito erradicar a heresia, e por fim
só conseguiu perpetuá-la. Para cada herege queimado na fogueira, surgiram
milhares de outros. Por quê? Porque a inquisição matava os inimigos
abertamente, e os matava quando ainda não se haviam arrependido; com efeito,
matava-os porque não se arrependiam. Os homens morriam por se recusarem a
abandonar as suas verdadeiras crenças. Naturalmente, toda a glória pertencia à
vítima e a vergonha ao Inquisidor que a queimava. Mais tarde, no século vinte,
houve os chamados totalitários. Os nazistas alemães, e os comunistas russos. Os
russos perseguiram a heresia mais cruelmente que a inquisição. Imaginavam ter
aprendido com os erros do passado; sabiam, ao menos, que era preciso não fazer
mártires. - Antes de exporem suas vítimas ao julgamento público, procuravam
destruir-lhes deliberadamente a dignidade. Abatiam-nos pela tortura e a
solidão, até se transformarem em desprezíveis réprobos, confessando o que lhes
fosse posto na boca, cobrindo-se de infâmia, acusando-se e abrigando-se atrás
dos outros, choramingando misericórdia. E no entanto, apenas alguns anos mais
tarde, a mesma coisa acontecia de novo. Os mortos se haviam transformado em
mártires, e fora esquecida sua degradação. Mais uma vez, por quê? Em primeiro
lugar, porque as confissões que haviam feito eram obviamente extorquidas e
falsas. Nós não cometemos erros desse gênero. Todas as confissões feitas aqui
são verdadeiras. Nós as tornamos verdadeiras. E, acima de tudo, não permitimos
que os mortos se levantem contra nós. Deves deixar de pensar que a posteridade
te vindicará, Winston. A posteridade jamais ouvirá falar de ti. Serás
totalmente eliminado da história. Havemos de te transformar em gás e te soltar
na estratosfera. Nada restará de ti: nem um nome num registro, nenhuma
lembrança na mente. Serás aniquilado no passado como no futuro. Não terás
existido nunca.
Então por que se dar ao trabalho de me torturar? pensou Winston, num
momento de amargura. O'Brien deteve-se em meio a um passo, como se Winston
tivesse pensado alto. A carantonha aproximou-se, olhos apertados.
- Estás pensando: já que pretendemos te destruir tão completamente, de
maneira que não faça a mínima diferença o que disseres ou fizeres, - nesse
caso, porque nos damos ao trabalho de primeiro te interrogar, não é? Foi o que
pensaste, não foi?
- Foi - admitiu Winston. O'Brien sorriu ligeiramente.
- És uma falha na urdidura, Winston. És uma nódoa que precisa ser limpa.
Não acabo de te dizer que somos diferentes dos promotores do passado? Não nos
contentamos com a obediência negativa, nem mesmo com a mais abjeta submissão.
Quando finalmente te renderes a nós, deverá ser por tua livre e espontânea
vontade. Não destruímos o herege porque nos resista; enquanto nos resiste,
nunca o destruímos. Convertemo-lo, capturamos-lhe a mente, damos-lhe nova
forma. Nele queimamos todo o mal e toda alucinação; trazemo-lo para o nosso
lado, não em aparência, mas genuinamente, de corpo e alma. Tornamo-lo um dos
nossos antes de matá-lo. É-nos intolerável que exista no mundo um pensamento
errôneo, por mais secreto e inerme que seja. Nem mesmo no instante da morte
podemos admitir um desvio. No passado, o herege caminhava para a fogueira ainda
herético, proclamando sua heresia, nela se gloriando. Até a vítima dos expurgos
russos conseguia levar a rebelião selada no crânio, enquanto ia pelo corredor à
espera do tiro. Mas nós tornamos perfeito o cérebro do indivíduo antes de
matá-lo. A ordem dos antigos despotismos era "tu não farás." Os
totalitários - mudaram para "tu farás". Nossa ordem é "tu
és." Ninguém, dos que trazemos a este lugar, se volta contra nós. Todo
mundo é levado. Até mesmo aqueles miseráveis traidores, em cuja inocência um
dia acreditastes - Jone, Aaronson e Rutherford - por fim cederam. Eu mesmo
tomei parte no interrogatório. E os vi se entregando aos poucos, gemendo,
choramingando, rojando ao chão... e no fim não era de dor ou medo, mas de pura
penitência. Quando acabamos com eles, eram apenas invólucros de homens. Neles
nada restava, além da mágoa pelo que haviam cometido, e amor ao Grande Irmão.
Era tocante ver como o amavam. Imploravam o fuzilamento sem espera, para que
pudessem morrer enquanto tinham ainda o pensamento limpo.
Sua voz tornara-se quase sonhadora. A exaltação, o entusiasmo lunático,
ainda estavam no seu rosto. Não está fingindo, pensou Winston. Não é hipócrita:
acredita em tudo que diz. O que mais o oprimia era ter consciência da sua própria
inferioridade intelectual. Observou o corpanzil, forte mas gracioso,
deslocar-se de um lado para outro, fugindo ao seu campo de visão. De todas as
maneiras, O'Brien era maior do que ele. Não havia idéia que tivesse, ou pudesse
ter tido, que O'Brien, muito antes, já não tivesse conhecido, examinado e
repelido. Sua mente continha a mente de Winston. Mas nesse caso, como poderia
ser que fosse louco? O louco devia ser ele, Winston. O'Brien parou e tornou a
olhar para ele. A voz de novo adquirira um tom ríspido:
- Não imagines que te salvarás, Winston, por mais completamente que te
rendas. Quem se desvia uma vez não é nunca poupado. E mesmo que resolvamos
permitir que vivas até o fim normal da tua vida, não nos escaparás. O que
acontece aqui dura para sempre. Compreende isso, antecipadamente. Havemos de te
esmagar até o ponto de onde não se volta. Vão te acontecer coisas das quais não
poderias te recuperar nem que vivesses mil anos. Nunca mais poderás sentir
sensações humanas comuns. Tudo estará morto dentro de ti. Nunca mais serás
capaz de amor, ou amizade, ou alegria de viver, riso, curiosidade, coragem, ou
integridade. Serás oco. Havemos de te espremer, te deixar vazio, e então
saberemos como te encher. Fez uma pausa e indicou qualquer coisa ao homem do avental
branco. Winston percebeu que algum aparelho pesado estava sendo colocado
debaixo da sua cabeça. O'Brien sentou-se ao lado da cama, de modo a ficar com a
cabeça quase no nível de Winston.
- Três mil - disse ele, dirigindo-se ao homem de branco.
Duas almofadinhas, que pareciam um tanto úmidas, foram aplicadas às fontes
de Winston. Ele desacorçoou. Ia sentir dor, uma nova espécie de dor. O'Brien
pousou a mão sobre a dele, num gesto tranqüilizador, quase bondoso.
- Desta vez não dói - afirmou. - Fixa-me bem nos olhos.
Naquele momento houve uma tremenda explosão, ou o que parecia uma
formidável explosão, embora Winston não tivesse certeza de ouvir barulho algum.
Sem dúvida, porém, houvera um clarão ofuscante. Winston não se sentiu dorido,
apenas prostrado. Embora já estivesse deitado de costas quando sucedeu a coisa,
teve a curiosa sensação de que fora a explosão que o jogara assim. Um golpe
terrível, sem dor, lançara-o abaixo. Dentro da sua cabeça, também acontecera
algo. Quando seus olhos recobraram o foco, ele se lembrou quem era, onde
estava, e reconheceu o rosto que o fitava de perto; mas nalgum lugar havia uma
vasta área de vazio, como se lhe tivessem tirado um pedaço do miolo.
- Não dura muito - disse O'Brien. - Fita-me nos olhos. Com que país a
Oceania está em guerra?
Winston pensou. Sabia o que queria dizer Oceania, e que era cidadão da
Oceania. Lembrava-se também da Lestásia e da Eurásia; mas não sabia quem estava
em guerra. Com efeito, não tinha ciência de nenhuma guerra.
- Não me lembro.
- A Oceania está em guerra com a Lestásia. Lembras disso?
- Lembro.
- A Oceania sempre esteve em guerra com a Lestásia. Desde o começo da tua
vida, desde o começo do Partido, desde o começo da história, a guerra continua
sem interrupção, sempre a mesma guerra. Lembras disso?
- Lembro.
- Há onze anos, criaste uma lenda em torno de três homens que foram
condenados à morte por traição. Pretendias ter visto um pedaço de papel que os
provava inocentes. Esse pedaço de papel nunca existiu. Tu o inventaste, e mais
tarde vieste a acreditar nele. Lembras agora o momento exato em que o
inventaste?
- Lembro.
- Mostrei os dedos de minha mão. Viste cinco dedos. Lembras disso?
- Lembro.
O'Brien levantou os dedos da mão esquerda, escondendo o polegar.
Aqui há cinco dedos. Vês cinco dedos? Vejo. E viu mesmo, por um instante
fugidio, antes de mudar a cena, no seu espírito. Viu cinco dedos, sem
deformidade. Depois tudo voltou ao normal, e o velho medo, o ódio e o espanto
regressaram de tropel. Mas um momento houvera - não se lembrava da sua duração,
trinta segundos, talvez - de certeza luminosa, em que cada nova sugestão de
O'Brien enchera uma área de vazio e se transformara em verdade absoluta, e
durante o qual dois e dois podiam perfeitamente ser cinco, se fosse necessário.
Desvanecera-se antes de O'Brien ter baixado a mão. Embora não pudesse
recapturá-lo, podia recordá-lo, como quem recorda uma vívida experiência num
período remoto da vida, em que se foi, na verdade, uma pessoa diferente.
- Agora percebes que é possível - disse O'Brien.
- Sim.
O'Brien ergueu-se com ar satisfeito. À sua esquerda, Winston viu o homem
de branco quebrar o pescoço duma ampola e puxar o êmbolo duma seringa
hipodérmica. O'Brien voltou-se para Winston com um sorriso. Com o gesto
familiar, rearranjou os óculos no nariz.
- Lembras-te de ter escrito no teu diário que não importava que eu fosse
amigo ou inimigo, pois era ao menos uma pessoa que te compreendia e com quem se
podia conversar? Tinhas razão. Gosto de conversar contigo. Tua mente me atrai.
Parece-se com a minha, com a diferença de que és louco. Antes de encerrarmos a
sessão, podes me fazer algumas perguntas, se quiseres.
- Qualquer Pergunta?
- Qualquer. - Viu que os olhos de Winston estavam no mostrador. - Está
desligado. Qual é a tua primeira pergunta?
- Que foi feito de Júlia? O'Brien tornou a sorrir.
- Ela te traiu, Winston. Imediatamente... sem reservas. Raramente tenho
visto uma pessoa vir a nós tão depressa. Mal a reconhecerias, se a visses. Toda
sua rebeldia, seu fingimento, sua loucura, sua sujeira mental - tudo foi
queimado. Foi uma conversão perfeita, um caso de cartilha.
- Tu a torturaste.
O'Brien não respondeu.
- Outra -pergunta.
- Existe o Grande Irmão?
- Naturalmente existe. O Partido existe. O Grande Irmão é a corporificação
do Partido.
- Mas existe da mesma maneira que eu existo?
- Tu não existes.
De novo a sensação de impotência o assaltou. Sabia, ou podia imaginar, os
argumentos que provavam sua não-existência; mas eram insensatos, não passavam
de jogo de palavras. Não continha a afirmativa "Tu não existes" um
absurdo em lógica? Mas de que adiantava dizê-lo? Sua mente encolhia-se só de
pensar nos argumentos loucos, irrespondíveis, com que O'Brien o demoliria.
- Creio que existo - respondeu. - Tenho consciência de minha própria
identidade. Nasci, e morrerei. Tenho braços e pernas. Ocupo um determinado
ponto no espaço. Ao mesmo tempo, nenhum outro sólido pode ocupar o mesmo ponto.
Nesse sentido, existe o Grande Irmão?
- Não tem importância. Existe.
- O Grande Irmão morrerá?
- Lógico que não. Como poderia morrer? Outra pergunta.
- Existe a Fraternidade?
- Isso nunca saberás, Winston. Se resolvermos te pôr em liberdade quando
acabarmos a tarefa, e mesmo que vivas até os noventa, nunca saberás se a
resposta a essa pergunta é Sim ou Não. Enquanto viveres será um enigma
insolvível na tua cabeça.
Winston guardou silêncio. Seu peito ofegou um pouco mais depressa. Ainda
não fizera a pergunta que lhe viera em primeiro lugar à mente. Tinha de
fazê-la, e no entanto era como se a língua se recusasse. Havia uma sombra de
jocosidade no rosto de O'Brien. Até os seus óculos pareciam despedir lampejos
irônicos. Ele sabe, pensou Winston de repente, ele sabe o que vou perguntar! E
a isso as palavras lhe brotaram dos lábios:
- O que é a Sala 101?
Não mudou a expressão do rosto de O'Brien. Respondeu secamente:
- Sabes o que há na Sala 101, Winston. Todo mundo sabe o que há na Sala
101.
Apontou com o dedo o homem de branco. Evidentemente, encerrara-se a
sessão. A agulha mergulhou no braço de Winston. Quase imediatamente, ele
mergulhou no sono profundo.
- Há três estágios na tua re-integração - disse O'Brien.
- Aprender, compreender e aceitar. É hora de iniciares o segundo.
Como sempre, Winston jazia em decúbito dorsal. Mas já não se sentia tão
fortemente ligado. Ainda estava amarrado à cama, porém podia mexer um pouco os
joelhos, mover a cabeça de um lado para outro e levantar os braços, dobrando os
cotovelos. O mostrador, também, já não o aterrorizava tanto. Podia fugir às
suas picadas se fosse bastante alerta: em geral era quando demonstrava
estupidez que O'Brien acionava a alavanca. Às vezes, atravessavam uma sessão
inteira sem que o aparelho fosse usado. Não podia lembrar-se de quantas sessões
sofrera. Todo o processo parecia prolongar-se por um período enorme, indefinido
- semanas, possivelmente - e o intervalo entre as sessões às vezes era de
alguns dias, outras de apenas uma hora ou duas.
- Enquanto estás aí deitado - disse O'Brien - muitas vezes perguntas a ti
mesmo... e até a mim... por que é que o Ministério do Amor gasta tanto tempo e
tanto esforço contigo. E quando eras livre também te admirava essencialmente a
mesma pergunta. Podias perceber a mecânica da sociedade em que vivias, mas não
os motivos orientadores. Lembras-te de que escreveste no teu diário
"Compreendo como; não compreendo por que?" Era quando pensavas no por
que que duvidavas do teu estado mental. Leste o livro, o livro de Goldstein, ou
trechos dele, pelo menos. Revelou-te alguma coisa que já não soubesses?
- Leste o livro?
- Eu o escrevi. Isto é, colaborei na sua autoria. Nenhum livro é produzido
individualmente, como sabes.
- E é verdade o que diz o livro?
- Como descrição é. O programa que estabelece é insensato. O
entesouramento secreto da sabedoria... a propagação gradual do esclarecimento...
por fim uma rebelião proletária... a derrubada do Partido. Tu mesmo previste o
que ele diria. É tudo bobagem. Os proletários nunca se revoltarão, em mil anos,
ou num milhão de anos. Não podem. Não preciso dizer-te a razão: já a conheces.
Se algum dia acariciaste sonhos de insurreição violenta, deves abandoná-los.
Não há maneira de se deitar o Partido abaixo.
O domínio do Partido é eterno. Isso deve ser o ponto de partida dos teus
pensamentos.
Aproximou-se mais da cama.
- Eterno! - repetiu. - E agora, voltemos à questão do como e do por que.
Compreendes bem como o Partido se mantém no poder. Agora, dize-me, porque nos
agarramos ao poder. Qual é o nosso motivo? Por que devemos querer o poder?
Vamos, fala - acrescentou, vendo que Winston calava.
Não obstante, Winston continuou calado por mais alguns instantes.
Dominara-o uma profunda sensação de cansaço. Voltara ao rosto de O'Brien o
débil e doido lampejo de entusiasmo. Ele sabia de antemão o que diria O'Brien.
Que o Partido não buscava o poder em seu próprio benefício, mas pelo bem da
maioria. Que procurava o poder porque os homens da massa eram criaturas débeis
e covardes que não podiam suportar a liberdade nem enfrentar a verdade, e que
deviam ser dominados e sistematicamente defraudados por outros, mais fortes que
eles. Que para o gênero humano a alternativa era liberdade ou felicidade e que,
para a grande maioria, era preferível a felicidade. Que o Partido era o eterno
guardião dos fracos, uma seita dedicada fazendo o mal para que o bem pudesse reinar,
sacrificando sua própria felicidade à felicidade alheia. O terrível, raciocinou
Winston, o terrível era que, dizendo isso, O'Brien estaria sendo sincero.
Via-se na fisionomia. O'Brien sabia
tudo. Mil vezes melhor que Winston, sabia como o mundo era, na realidade, em
que degradação vivia a massa dos seres humanos e por meio de que mentiras e
barbaridades o Partido os mantinha nesse nível. Compreendia tudo, pesava-o, e
não fazia diferença: era tudo justificado pelo intuito derradeiro.
Que podes fazer, pensou Winston, contra o lunático que é mais inteligente
que tu, que ouve equânime os teus argumentos e simplesmente persiste na sua
loucura?
- Vós nos governais em nosso próprio benefício - disse, com um fio de voz.
- Acreditais que os seres humanos não têm capacidade para se governar e por
isso...
Deu um estremeção e quase gritou. Uma descarga dolorosa lhe percorrera o
corpo. O'Brien levara ao trinta e cinco o ponteiro do aparelho.
- Isso foi cretino, Winston, cretino! Bem sabes que não devias dizer uma coisa
dessas.
Levou a alavanca à posição neutra e continuou:
- Eu responderei minha pergunta. O Partido procura o poder por amor ao
poder. Não estamos interessados no bem-estar alheio; só estamos interessados no
poder. Nem na riqueza, nem no luxo, nem em longa vida de prazeres: apenas no
poder, poder puro. O que significa poder puro já compreenderás, daqui a pouco.
Somos diferentes de todas as oligarquias do passado, porque sabemos o que
estamos fazendo. Todas as outras, até mesmo as que se assemelhavam conosco,
eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos muito se
aproximaram de nós nos métodos, mas nunca tiveram a coragem de reconhecer os
próprios motivos. Fingiam, talvez até acreditassem, ter tomado o poder sem
querer, e por tempo limitado, e que bastava dobrar a esquina para entrar num
paraíso onde os seres humanos seriam iguais e livres. Nós não somos assim.
Sabemos que ninguém jamais toma o poder com a intenção de largá-lo. O poder não
é um meio, é um fim em si. Não se estabelece uma ditadura com o intuito de
salvaguardar uma revolução; faz-se a revolução para estabelecer a ditadura.
O objetivo da perseguição é a perseguição. O objetivo da tortura é a
tortura. O objetivo do poder é o poder. Agora começas a me compreender?
Winston ficou admirado, como já ficara antes, pelo cansaço do rosto de
O'Brien. Era forte, carnudo e brutal, cheio de inteligência e de uma espécie de
paixão controlada diante da qual ele se sentia inerme; mas estava cansado.
Tinha olheiras fundas, e as bochechas estavam flácidas. O'Brien inclinou-se
sobre ele, aproximando de propósito a cara gasta.
- Estás pensando que meu rosto está velho e cansado. Estás pensando que
falo do poder, e no entanto não consigo deter a deterioração do meu próprio
corpo. Não podes compreender, Winston, que o indivíduo é apenas uma célula?
O cansaço da célula é o vigor do organismo. Acaso morres quando aparas as
unhas?
Afastou-se da cama e pôs-se a passear de um lado para outro, com a mão na
algibeira.
- Somos os sacerdotes do poder - disse. - Deus é poder. Mas no momento,
para ti, poder é apenas uma palavra. É tempo de teres uma idéia do que
significa poder. A primeira coisa que deves entender é que o poder é coletivo.
O indivíduo só tem poder na medida em que cessa de ser indivíduo. Conheces o
lema do Partido: "Liberdade é Escravidão." Já te ocorreu que é
reversível? Escravidão é liberdade. Sozinho, livre, o ser humano é sempre
derrotado. Assim deve ser, porque todo ser humano está condenado a morrer, que
é o maior dos fracassos. Mas se puder realizar uma submissão completa, total,
se puder fugir à sua identidade, se puder fundir-se no Partido então ele é o
Partido, e é onipotente e imortal. A segunda coisa que deves entender é que
poder é o poder sobre todos os entes humanos. Sobre o corpo mas, acima de tudo,
sobre a mente. O poder sobre a matéria - realidade externa, como a chamarias
-não é importante. E o nosso poder sobre a matéria já é absoluto.
Por um momento, Winston ignorou o mostrador. Fez um violento esforço para
se sentar, e só conseguiu torcer o corpo dolorosamente.
- Mas como podes controlar a matéria? - explodiu - Não consegues nem
dominar o clima nem a lei da gravidade. E há a doença, a morte, a dor...
O'Brien calou-o com um gesto.
- Controlamos a matéria porque controlamos a mente. A realidade está
dentro da cabeça. Aprenderás aos poucos, Winston. Não há nada que não possamos
fazer. Invisibilidade, levitação... tudo. Eu poderia flutuar no ar, como uma
bolha de sabão, se quisesse. Mas não quero, porque o Partido não o deseja.
Deves abandonar essas idéias século dezenove a respeito das leis da Natureza.
Nós fazemos as leis da natureza!
- Não fazeis! Não sois donos do planeta. E a Eurásia e a Lestásia? Ainda
não as vencestes.
- Não importa. Haveremos de dominá-las quando nos convir. E se não, que
diferença faz? Podemos bani-las da existência. A Oceania é o mundo.
- Mas se o mundo não passa dum grão de pó! E o homem é minúsculo, inerme!
Há quanto tempo existe? Durante milhões de anos a terra foi desabitada.
- Tolice. A terra é tão velha quanto o homem, e nada mais. Como poderia
ser mais velha? Nada existe exceto pela via da consciência humana.
- Mas as rochas estão cheias de ossos de animais extintos - mamutes,
mastodontes, e répteis enormes que viveram aqui muito antes do homem aparecer.
- Já viste esses ossos, Winston? Naturalmente não. Os biólogos do século
dezenove os inventaram. Antes do homem, não havia nada. Depois do homem, se por
acaso acabasse, nada haveria. Fora do homem não há nada.
- Mas o universo inteiro está fora de nós. Considere as estrelas. Algumas
estão a um milhão de anos-luz de distância. Estão para sempre fora de nosso
alcance.
- Que são estrelas? - indagou O'Brien, indiferente. - São pedacinhos de
fogo a alguns quilômetros de distância. Poderíamos alcançá-las, se quiséssemos.
Ou poderíamos apagá-las. A terra é o centro do universo. O sol e as estrelas
giram em torno dela.
Winston fez outro movimento convulso. Desta vez porém não disse nada.
O'Brien continuou, como se respondesse a uma objeção falada:
- Naturalmente, isso não é verdade, para certos propósitos. Quando
navegamos no oceano, ou quando predizemos um eclipse, muita vez nos convém
supor que a terra rode em torno do sol e que as estrelas estão a milhões e
milhões de quilômetros de distância. E daí? Imaginas que não podemos produzir
um sistema dual de astronomia? As estrelas podem estar longe ou perto, conforme
precisarmos. Supões que os nossos matemáticos não dão conta do recado?
esqueceste do duplipensar?
Winston encolheu-se na cama. Dissesse o que dissesse, a pronta resposta
esmagava-o como uma paulada. E no entanto sabia, sabia que tinha razão. A
teoria de que nada existe fora da mente humana - com certeza havia um meio de
demonstrá-la falsa? Não fora denunciada e provada falsa, havia muito tempo? Isso
até tinha um nome, que ele esquecera. Um vago sorriso animou as comissuras dos
lábios de O'Brien, que voltara a fitá-lo:
- Eu te disse, Winston, que a metafísica não era o teu forte. A palavra
que estás procurando encontrar é "solipsismo". Mas estás enganado.
Não é solipsismo. Solipsismo coletivo, se quiseres. Mas é diferente: na
verdade, é o oposto. Tudo isto não passa de digressão - acrescentou, em tom
mudado. - O verdadeiro poder, o poder pelo qual temos de lutar dia e noite, não
é o poder sobre as coisas, mas sobre os homens. - Fez uma pausa e por um
momento tornou a assumir o ar de mestre-escola interrogando o aluno esperto:
- Como é que um homem afirma o seu poder sobre outro, Winston?
Winston refletiu.
- Fazendo-o sofrer.
- Exatamente. Fazendo-o sofrer. A obediência não basta. A menos que sofra,
como podes ter certeza de que ele obedece tua vontade e não a dele? O poder
reside em infligir dor e humilhação. O poder está em se despedaçar os cérebros
humanos e tornar a juntá-los da forma que se entender. Começas a distinguir que
tipo de mundo estamos criando? É exatamente o contrário das estúpidas utopias
hedonísticas que os antigos reformadores imaginavam. Um mundo de medo, traição
e tormento, um mundo de pisar ou ser pisado, um mundo que se tornará cada vez
mais impiedoso, à medida que se refina. O progresso em nosso mundo será o
progresso no sentido de maior dor. As velhas civilizações proclamavam-se
fundadas no amor ou na justiça. A nossa funda-se no ódio. Em nosso mundo não
haverá outras emoções além do medo, fúria, triunfo e auto-degradação.
Destruiremos tudo mais - tudo. Já estamos liquidando os hábitos de pensamento
que sobreviveram de antes da Revolução. Cortamos os laços entre filho e pai,
entre homem e homem, entre mulher e homem. Ninguém mais ousa confiar na esposa,
no filho ou no amigo. Mas no futuro não haverá esposas nem amigos. As crianças
serão tomadas das mães ao nascer, como se tiram os ovos da galinha. O instinto
sexual será extirpado. A procriação será uma formalidade anual como a renovação
de um talão de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Nossos neurologistas estão
trabalhando nisso. Não haverá lealdade, exceto lealdade ao Partido. Não haverá
amor, exceto amor ao Grande Irmão. Não haverá riso, exceto o riso de vitória
sobre o inimigo derrotado. Não haverá nem arte, nem literatura, nem ciência.
Quando formos onipotentes, não teremos mais necessidade de ciência. Não haverá
mais distinção entre a beleza e a feiúra. Não haverá curiosidade, nem fruição
do processo da vida. Todos os prazeres concorrentes serão destruídos. Mas
sempre... não te esqueças, Winston... sempre haverá a embriaguez do poder,
constantemente crescendo e constantemente se tornando mais sutil. Sempre, a
todo momento, haverá o gozo da vitória, a sensação de pisar um inimigo inerme.
Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota pisando um rosto humano - para
sempre.
Fez uma pausa, como esperando que Winston falasse. Winston de novo tentara
se encolher sobre a cama. Não podia dizer nada. Seu coração parecia gelado.
O'Brien continuou:
- E lembra-te de que é para sempre. O rosto estará sempre ali para ser
pisado. O herege, o inimigo da sociedade, ali estará sempre, para ser sempre
derrotado e humilhado. Tudo que sofreste desde que estás em nossas mãos, tudo
continuará, e pior. A espionagem, as traições, as prisões, as torturas, as
execuções, os desaparecimentos jamais cessarão. Será tanto um mundo de terror
quanto de triunfo. Quanto mais poderoso o Partido, menos tolerante: mais débil
a oposição, mais rígido o despotismo. Goldstein e suas heresias viverão sempre.
Todo dia, a todo momento, serão derrotados, desacreditados, ridicularizados,
cuspidos - e no entanto sempre sobreviverão. Este drama que representei contigo
durante sete anos será representado inúmeras vezes, geração após geração,
sempre em formas mais sutis. Sempre teremos aqui o herege à nossa mercê,
gritando de dor, quebrado, desprezível - e no fim completamente arrependido,
salvo de si próprio, rastejando aos nossos pés por sua própria vontade. É esse
o mundo que estamos preparando, Winston, um mundo de vitória após vitória, de
triunfo sobre triunfo sobre triunfo: infinda pressão, pressão, pressão sobre o
nervo do poder. Vejo que começa a perceber o que será o mundo. Mas no fim farás
mais do que compreender. Tu o aceitarás, aplaudirás, farás parte dele.
Winston recobrara-se o suficiente para falar.
- Não pode! - disse, debilmente.
- Que queres dizer com isso?
- Não pode criar um mundo como o que descreveste. É um sonho. É
impossível.
- Por quê?
- É impossível fundar uma civilização sobre medo, ódio e crueldade. Nunca
poderia durar.
- Por que não?
- Não teria vitalidade. Se desintegraria. Se suicidaria.
- Tolice. Tens a impressão de que o ódio cansa mais que o amor. Por que
cansaria mais? E se cansasse, que diferença faria? Suponhamos que resolvemos
nos gastar mais depressa. Suponhamos que aceleramos o ritmo da vida humana, de
modo que estamos senis aos trinta anos. Que diferença faria? Não podes
compreender que a morte do indivíduo não é morte? O Partido é imortal.
Como de praxe, a voz martelara Winston, mostrando sua impotência. Além
disso, temia que, se persistisse em discordar, O'Brien tornasse a virar o
ponteiro. E no entanto não podia se calar. Debilmente, sem argumentos, sem nada
que o apoiasse além do seu horror inarticulado ao que dissera O'Brien, voltou
ao ataque.
- Não sei... não me importa. De algum modo, haverá de falhar. Algo vos
derrotará. A vida vos derrotará.
Nós controlamos a vida, Winston, em todos os seus níveis. Imaginas que
existe uma coisa às vezes chamada natureza humana, que se enfurece como o que
fazemos e que se voltará contra nós. Mas nós criamos a natureza humana. Os
homens são infinitamente maleáveis. Ou talvez tenhas voltado à velha idéia de
que os proletários ou os escravos se levantarão e nos derrubarão. Perde a
esperança. São inermes, como os animais. A humanidade é o Partido. Os outros
estão de fora. .. não contam.
- Não me importa. No fim haverão de derrotá-los. Mais cedo ou mais tarde
verão o que são, e então os estraçalharão.
- Vês algum sinal de que isso aconteça? Alguma razão para que aconteça?
- Não. É o que acredito. Sei que falharão. Há algo no universo - não sei o
que, um espírito, um princípio - que nunca poderão vencer.
- Acreditas em Deus, Winston? - Não.
- Então o que é esse princípio que nos derrotará?
- Não sei. O espírito do Homem.
- E tu te consideras homem?
- Sim.
- Se és homem, Winston, és o último homem. Tua raça está extinta. Nós
somos os herdeiros. Entendes que estás sozinho? Estás fora da história, tu és
não-existente. - Seus modos mudaram e ele disse, mais brusco: - E te consideras
moralmente superior a nós, com nossas mentiras e nossa crueldade?
- Sim, eu me considero superior. O'Brien não falou. Duas outras vozes
falavam. Dali a um momento, Winston reconheceu como sua uma delas. Era uma
gravação da conversa que tivera com O'Brien, na noite em que se ligara à
Fraternidade. Ouviu-se prometendo mentir, roubar, forjar, assassinar,
incentivar a toxicomania e a prostituição, a disseminação de doenças venéreas,
atirar vitríolo no rosto duma criança. O'Brien teve um pequeno gesto de
impaciência, como se dissesse que mal valia a pena fazer a demonstração. Ele
apertou um botão e as vozes calaram-se.
- Levanta-te dessa cama - ordenou. Os laços se haviam afrouxado. Winston
alcançou o chão com os pés e levantou-se titubeando.
- És o último homem - disse O'Brien. - És o guardião do espírito humano.
Já verás que aspecto tens. Despe-te.
Winston desamarrou o barbante que servia de cinto ao macacão. Havia muito
tempo que se fora o zíper, violentamente arrancado. Não podia se recordar de
nenhuma ocasião, desde que fora preso em que se despira totalmente. Por baixo
do macacão, tinha o corpo enrolado em imundos trapos amarelados, mal
reconhecíveis como restos de roupa de baixo. Ao largá-las no chão, viu que
havia no extremo do aposento um jogo de três espelhos. Aproximou-se dele e
parou de repente. Um grito involuntário lhe rompeu dos lábios.
- Anda - disse O'Brien. - Cola-te entre os espelhos. Poderás te ver de
lado, como de frente.
Ele se detivera porque estava com medo. Caminhava ao seu encontro um
espantalho esquelético, curvado e cinzento. Era a sua aparência que dava medo,
e não apenas o fato de saber que se tratava dele mesmo. Aproximou-se do
cristal. A cara da criatura parecia se projetar, por causa do corpo arcado. Uma
cara triste de presidiário, com a testa ossuda se prolongando pelo crânio
calvo, um nariz adunco e zigomas salientes, acima dos quais os olhos apareciam
vigilantes e ferozes. As faces estavam cobertas de sulcos, a boca chupada para
dentro. Com certeza, era o seu rosto, mas lhe parecia ter mudado mais do que
mudara por dentro. As emoções que revelava seriam diferentes das que sentia.
Ficara parcialmente calvo. A princípio, pensou que o cabelo agrisalhara
também, mas apenas o couro cabeludo se tornara cinzento. Com exceção das mãos e
um círculo no rosto, o corpo todo estava coberto de gafeira antiga, entranhada.
Aqui e ali, sob a sujeira, viam-se cicatrizes vermelhas de ferimentos, e perto
do tornozelo a variz ulcerada era uma só massa inflamada, soltando cascas de
pele. O que mais aterrorizava porém era o aspecto geral do corpo. O tórax, com
as costelas de fora, ficara estreito como o de um esqueleto; as pernas tinham
emagrecido tanto que os joelhos eram mais grossos que as coxas. Agora percebia
o que O'Brien tivera em mente ao lhe sugerir que se visse de lado. Era
espantosa a curvatura da espinha. Os ombros magros arcavam-se para a frente,
formando uma cavidade no peito, e o pescoço fininho parecia formar um U sob o
peso da cabeça. Se lhe perguntassem, poderia dizer que se tratava do corpo dum
homem de sessenta anos, vítima duma doença maligna.
- Pensaste às vezes - disse O'Brien - que minha cara... a cara dum membro
do Partido Interno... parece velha e cansada. Que achas agora da tua?
Agarrou Winston pelos ombros e fê-lo dar meia volta, de maneira a fitá-lo
de frente.
- Olha o estado em que estás! Olha a imundície que recobre o teu corpo.
Olha a sujeira entre teus artelhos. Olha essa nojenta ferida na tua perna.
Sabes que fedes como um bode? Provavelmente já não consegues mais senti-lo.
Olha a tua magreza. Vês? Com o polegar e o indicador dou volta ao teu bíceps.
Poderia quebrar teu pescoço como se fosse uma cenoura. Sabes que perdeste vinte
e cinco quilos desde que caíste em nossas mãos? Até o teu cabelo está caindo
aos punhados. Olha! - Puxou o cabelo de Winston e arrancou um maço de cabelo. -
Abre a boca. Nove, dez, onze dentes restam. Quantos tinhas quando vieste a nós?
E os poucos que te sobram estão caindo à toa. Olha só!
Agarrou um dos incisivos restantes de Winston com o polegar e o indicador.
Um arrepio de dor percorreu o maxilar de Winston. O'Brien arrancara-lhe o dente
pela raiz. Atirou-o ao chão.
- Estás apodrecendo. Estás caindo aos pedaços. Que és tu? Um saco de lixo.
Agora, volta-te e olha-te de novo no espelho. Vês aquela coisa te olhando? É o
último homem. Se és humano, a humanidade é aquilo. Agora, torna a vestir-te.
Winston pôs-se a vestir-se com gestos lentos e rígidos. Até ali não havia
notado como estava magro e fraco. Só um pensamento lhe agitava a mente: devia
ter estado preso mais tempo do que imaginara. De repente, fixando os trapos
miseráveis que o vestiam, dominou-o um fundo sentimento de pena do seu corpo
arruinado. Sem saber o que fazia, deixou-se cair num mocho que havia junto à
cama, e rompeu em pranto. Sabia da sua feiúra, da sua falta de graça, do feixe
de ossos em imunda roupa de baixo, chorando, sentado sob a luz violenta; mas
não era possível parar. O'Brien pousou no seu ombro a mão quase bondosa.
- Não durará sempre. Podes fugir disto quando quiseres. Tudo depende de
ti.
- Tu o fizeste! - soluçou Winston. - Tu me reduziste a este estado.
- Não, Winston. Foste tu mesmo. Foi o que aceitaste quando te voltaste
contra o Partido. Continha-se tudo no primeiro ato. Não aconteceu nada que não
previsses.
Calou-se por um instante. Depois continuou:
- Nós te batemos, Winston. Nós te vencemos a resistência. Viste que
aspecto tem teu corpo. Tua mente está no mesmo estado. Não creio que possa
restar muito orgulho em ti. Foste escoiceado, chibatado e insultado, gritaste
de dor, rolaste no chão, melando-te no teu sangue e teu vômito. Choramingaste
pedindo misericórdia, traíste todo mundo e tudo. Podes imaginar alguma
degradação que não te haja acontecido?
Winston parara de chorar, embora as lágrimas ainda brotassem nos seus
olhos. Ergueu a vista para O'Brien.
- Não traí Júlia.
O'Brien fitou-o contemplativo.
- Não. - concordou. - Não. É verdade. Não traíste Júlia.
Inundou de novo o coração de Winston aquela reverência particular pelo seu
torturador, que nada parecia conseguir extirpar. Como era inteligente, pensou
ele, como era inteligente! O'Brien nunca deixava de compreender o que se lhe
dissesse. Qualquer outro no mundo responderia prontamente que ele traíra Júlia.
Pois havia algo que não lhe houvessem arrancado na tortura? Contara-lhes tudo
que sabia a respeito da moça, seus hábitos, seu caráter, sua vida passada;
confessara até os detalhes mais insignificantes, tudo quanto acontecera nos
seus encontros, tudo que lhe havia dito e tudo quanto ela lhe dissera; seus
víveres do mercado negro, seus adultérios, suas vagas conspiratas contra o
Partido... tudo. E no entanto, no sentido a que se referia, não a havia traído.
Não deixara de amá-la; seus sentimentos em relação a ela continuavam na mesma.
O'Brien percebera o significado de suas palavras sem precisar explicar.
- Dize-me - perguntou - quando me matarão?
- Ainda pode demorar muito - respondeu O'Brien. - És um caso difícil. Mas
não te desesperes. Mais cedo ou mais tarde todos se curam. No fim te daremos um
tiro.
Estava muito melhor. Engordava e ficava mais forte cada dia, se é que
podia falar de dias.
A luz branca e o zumbido eram os mesmos de sempre, porém a cela era um
pouco mais confortável que as outras em que estivera. Havia um travesseiro e um
colchão na cama de tábua, e lhe permitiam lavar-se com certa freqüência na
bacia de folha. Até lhe davam água morna para se lavar. Haviam fornecido roupa
de baixo nova e um macacão limpo. Tinham pensado a úlcera com uma pomada.
Haviam tirado os restos dos dentes e lhe dado um jogo de dentaduras.
Deviam ter passado semanas ou meses. Agora seria possível marcar a
passagem do tempo, se tivesse interesse em o fazer, pois o alimentavam a
intervalos aparentemente regulares. Acreditava que lhe davam três refeições
cada vinte e quatro horas; às vezes, raciocinava vagamente se as recebia de dia
ou de noite. A comida era surpreendentemente boa, com carne de três em três
refeições. Certa vez veio até um maço de cigarros. Não tinha fósforos, porém o
guarda mudo que lhe trazia a comida lhe dava fogo. Da primeira vez que tentou
fumar enjoou muito, porém perseverou, e fez o maço durar muito tempo, fumando
meio-cigarro após a refeição.
Haviam-lhe dado uma ardósia branca, com um toco de lápis amarrado à
moldura. A princípio não a usou. Mesmo quando desperto sentia-se completamente
entorpecido. Muitas vezes deixava-se ficar na cama de uma refeição à outra,
quase sem se mexer, ora dormindo, ora mergulhado em vagas elucubrações durante
as quais não valia a pena abrir os olhos. Havia muito que se acostumara a
dormir com a luz forte no rosto. Parecia não fazer diferença, à exceção dos
sonhos, que se tornavam mais coerentes. Sonhava muito, e eram sempre sonhos
alegres. Estava na Terra Dourada, ou então sentado entre enormes ruínas,
gloriosas, banhadas de sol, em companhia de sua mãe, Júlia, O'Brien - sem fazer
nada, apenas sentados ao sol, conversando de coisas pacíficas. Os pensamentos
que tinha quando desperto eram principalmente relativos aos sonhos. Parecia ter
perdido o poder do esforço intelectual, agora que terminara o estímulo da dor.
Não estava aborrecido; não tinha o menor desejo de palestra ou distração.
Bastava-lhe estar só, não apanhar nem ser interrogado, ter bastante que comer e
sentir-se limpo de corpo inteiro.
Aos poucos, ia dormindo menos, porém ainda não sentia ânimo de se levantar
da cama. Tudo que lhe apetecia era ficar quieto, deitado, sentindo a força
regressar ao corpo. Apalpava-se aqui e ali, procurando certificar-se de que não
era ilusão o engrossamento dos seus músculos, o esticamento da pele. Por fim,
constatou sem dúvida que estava engordando; as coxas estavam positivamente mais
grossas que os joelhos. Depois disso, com relutância a princípio, começou a
fazer exercícios regulares. Dentro em breve conseguia caminhar três
quilômetros, calculados pelo tamanho da cela, e os ombros arcados estavam-se
endireitando. Tentou exercícios mais complicados, e ficou parvo e humilhado de
descobrir o que não podia fazer. O único movimento que podia fazer era andar;
não podia segurar o mocho com o braço esticado, não podia ficar numa perna só
sem cair. Punha-se de cócoras, e com dores horríveis na coxa e na barriga da
perna conseguia levantar-se de novo. Deitava de barriga e tentava erguer-se do
chão, usando as mãos. Inútil; não podia levantar-se um centímetro que fosse.
Mas depois de alguns dias - mais algumas refeições - até essa façanha foi
possível. Chegou a ocasião em que o lograva seis vezes seguidas. Começou a
ficar verdadeiramente orgulhoso do seu corpo, e a acariciar a crença
intermitente de que o rosto também devia estar voltando ao normal. Só quando
por acaso punha a mão na calva é que se lembrava da face enrugada, arruinada,
que o fitara do espelho.
Sua mente tornou-se mais ativa. Sentava-se na cama, de costas para a
parede e ardósia nos joelhos, e punha-se a trabalhar, deliberadamente, na
tarefa de se reeducar.
Capitulara; não havia dúvida. Na realidade, percebia agora que estivera
pronto a capitular muito antes de tomar essa decisão. Desde o momento em que se
encontrara no Ministério do Amor - e mesmo durante aqueles minutos em que ele e
Júlia haviam esperado, inermes, as ordens da voz férrea da teletela - percebera
a frivolidade, a inutilidade da sua tentativa de levantar-se contra o poder do
Partido. Sabia agora que havia sete anos a Polícia do Pensamento o vigiara como
quem examina um besouro sob a lupa. Não havia ato físico, nenhuma palavra em
voz alta, que não tivesse observado, nenhuma associação de idéias que não tivessem
podido inferir. Até mesmo o grão de poeira esbranquiçada fora reposto na capa
do diário. Tinham tocado gravações, mostrando fotografias. Algumas eram fotos
de Júlia e dele. Sim, até de... Não podia mais lutar contra o Partido. Além
disso, o Partido tinha razão. Devia ter: como poderia enganar-se o cérebro
imortal coletivo? Por que padrão extra-sensório poderia medir seus raciocínios?
A sanidade era estatística. Era apenas questão de aprender a pensar como o
Partido. Se ao menos...!
O lápis pareceu-lhe grosso e desajeitado entre os dedos. Começou a grafar
os pensamentos que lhe vinham à cabeça. Primeiro escreveu em grandes letras
trêmulas:
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
Depois, quase sem pausa, escreveu por baixo:
DOIS E DOIS SÃO CINCO
Houve então uma espécie de pausa. Sua mente, como se fugisse de alguma
coisa, parecia incapaz de se concentrar. Sabia que sabia o que vinha depois,
mas no momento não podia se lembrar. Quando se recordou, foi apenas através do
raciocínio consciente do que deveria ser; não veio espontaneamente. Escreveu:
DEUS É PODER
Aceitava tudo. O passado era alterável. O passado nunca fora alterado. A
Oceania estava em guerra com a Lestásia. A Oceania sempre estivera em guerra
com a Lestásia. Jones, Aaronson e Rutherford eram réus dos crimes imputados.
Nunca vira a fotografia que provava sua inocência. Nunca existira: ele a
inventara. Lembrou-se de que recordara coisas contraditórias, mas eram apenas
falsas lembranças, produtos de alucinação. Como tudo era fácil! Bastava
render-se e tudo o mais sobrevinha. Era como nadar contra uma corrente que o
levasse para trás, por mais esforço que fizesse, e resolveu de repente dar
meia-volta e nadar a favor, em vez de opor-se ao fluxo da água. Nada mudara,
exceto sua atitude; e a coisa predestinada acontecera sempre. Mal sabia porque
se havia revoltado. Tudo era fácil, exceto... !
Qualquer coisa podia ser verdade. Eram tolice as chamadas leis naturais.
Era bobagem a lei da gravidade. "Se eu quisesse," dissera O'Brien,
"eu poderia flutuar no ar como uma bolha de sabão." Winston
raciocinara. "Se ele pensa que flutua no ar, e se eu simultaneamente
pensar que o vejo flutuando, então a coisa de fato acontece." De repente,
como um destroço submerso que aflora à tona, um pensamento rompeu-lhe no cérebro:
"Não acontece de fato. Nós é que imaginamos. É uma alucinação." Fez o
pensamento afundar instantaneamente. Era óbvia sua falácia. Pressupunha a
existência, em alguma lugar, ora do indivíduo, de um mundo "real"
onde coisas "reais" acontecessem. Mas como poderia existir esse
mundo? Que sabemos das coisas, exceto através de nossa mente? Tudo que
acontece, acontece na cabeça. E o que acontece em todas as mentes, de fato
acontece.
Não teve dificuldade em eliminar a falácia, e não corria risco de
sucumbir. Não obstante, percebia que não lhe devia ter ocorrido. O cérebro
devia formar um ponto cego sempre que se apresentasse um pensamento perigoso. O
processo devia ser automático, instintivo. Crimedeter, era o seu nome em
Novilíngua.
Pôs-se a exercitar-se em crimedeter. Apresentava a si próprio proposições
- "o Partido diz que a terra é plana," "o Partido diz que o gelo
é mais pesado que a água," - e treinava para não ver ou não compreender os
argumentos que as contradiziam. Não era fácil. Necessitava grandes recursos de
raciocínio e improvisação. Os problemas aritméticos provocados por uma
afirmativa como por exemplo "dois e dois são cinco", estavam fora da
sua compreensão intelectual. Precisava também de uma espécie de atletismo da
mente, da habilidade de num momento fazer o uso mais delicado da lógica e, no
momento seguinte, ser inconsciente dos mais brutais ilogismos. A estupidez era
tão necessária quanto a inteligência, e igualmente difícil de se conquistar.
Durante todo tempo, uma parte do seu espírito se indagava quando o matariam.
"Tudo depende de ti" dissera O'Brien; mas sabia não haver ato
consciente pelo qual aproximasse o fim. Poderia ser dali a dez minutos, ou dez
anos. Poderiam metê-lo numa solitária, poderiam mandá-lo a um acampamento de
trabalhos forçados, poderiam soltá-lo algum tempo como às vezes faziam. Era
perfeitamente possível que antes de ser morto todo o drama da prisão e do
interrogatório fosse representado de novo. A única coisa certa era que a morte
nunca ocorria no momento esperado. A tradição - a tradição tácita: sabia-se,
sem nunca se ter ouvido falar dela - era ser atirado pelas costas: sempre na
nuca, sem aviso, quando o preso ia pelo corredor, de uma cela a outra.
Um dia - mas "um dia" não era a expressão correta, com toda a
probabilidade era no meio da noite - uma vez mergulhou num sonho estranho,
feliz. Ia andando pelo corredor, à espera da bala. Sabia que viria dali a um
momento. Tudo estava resolvido, esclarecido, reconciliado. Não havia mais
dúvidas, nem discussões, nem dor, nem medo. Sentia o corpo sadio e forte.
Andava com facilidade, com uma alegria de movimentos, com a sensação de
caminhar ao sol. Não estava mais nos estreitos corredores brancos do Ministério
do Amor, estava na enorme passagem ensolarada, de um quilômetro de extensão, em
que estivera no seu delírio intoxicado. Estava na Terra Dourada, seguindo a
senda que cortava o pasto roído de coelhos. Podia sentir o relvado curto e novo
sob os pés e o sol suave no rosto. Na orla do campo via os olmeiros, mexendo-se
gentilmente, e mais além o riacho onde nadavam as tainhas em espraiados verdes
sob os chorões.
De repente, levantou-se com um choque de horror. O suor escorria-lhe pela
espinha. Ouvira a sua própria voz gritando:
- Júlia! Júlia! Júlia, meu amor! Júlia! Por um momento, teve uma alucinação
esmagadora da sua presença. Ela parecia estar não apenas com ele, mas dentro
dele. Era como se tivesse penetrado dentro da pele. Naquele momento, amou-a
muito mais do que quando estavam livres e juntos. Soube também que ainda estava
viva, e precisava de auxílio.
Deitou-se de novo e tentou compor-se. Que fizera? Quantos anos mais de
servidão acrescentara à sua pena, por aquele momento de fraqueza?
Dali a um momento ouviria o barulho das botas lá fora. Não era possível
que deixassem de punir uma explosão daquelas. Saberiam agora, se já não o
soubessem, que estava rompendo o acordo feito. Obedecia ao Partido, mas ainda o
odiava. No passado, ocultara a mente herética sob a aparência de conformidade.
Agora, recuara mais um passo: na mente recuara, mas tivera esperança de manter
inviolado o imo do coração. Sabia estar errado, mas preferia estar errado. Eles
compreenderiam isso - O'Brien o compreenderia. Confessara tudo naquele grito
tolo.
Teria de começar tudo do começo. Poderia levar anos. Passou a mão pelo
rosto, procurando se familiarizar com a nova fisionomia. Havia sulcos profundos
nas faces, os zigomas eram salientes, o nariz se achatara. Além disso, depois
de se olhar no espelho, lhe haviam dado dentaduras novas. Não era fácil
preservar a inescrutabilidade se nem sabia que feições tinha. De qualquer modo,
não bastava o mero controle fisionômico. Pela primeira vez viu que para guardar
segredo é preciso escondê-lo também da própria consciência. Deve-se saber todo
o tempo que o segredo está ali mas, até o momento de usá-lo, é preciso não
permitir que venha a furo sob nenhuma forma a que se possa dar nome. Dali por
diante, não devia apenas pensar direito; devia sentir direito, sonhar direito.
E todo o tempo devia guardar o seu ódio trancado dentro de si, como um corpo
estranho que fosse parte dele e no entanto desligado do resto do corpo, como
uma espécie de quisto.
Um dia resolveriam matá-lo. Não era possível dizer quando aconteceria, mas
uns segundos antes seria possível adivinhá-lo. Era sempre por trás, andando
pelo corredor. Dez segundos bastariam. E então, de repente, sem que se
pronunciasse uma palavra, sem uma interrupção no passo, sem que se alterasse
uma linha do rosto - a camuflagem cairia de repente e bum! ribombariam as
baterias do seu ódio.
O ódio o inundaria como uma enorme labareda, a roncar. E quase no mesmo
instante, bum! viria o tiro, tarde demais, ou cedo demais. Teriam destruído seu
cérebro antes de recuperá-lo. O pensamento herético ficaria impune, sem
arrependimento, fora do alcance do seu poder. Teriam esburacado a própria
perfeição. Morrer a odiá-los, eis a liberdade.
Fechou os olhos. Era mais difícil do que aceitar uma disciplina
intelectual. Era questão de se degradar, de se mutilar. Tinha que mergulhar na
maior imundície. O que era o mais horrível e nauseante de tudo? Pensou no
Grande Irmão. A face enorme (por vê-la constantemente nos cartazes, sempre
pensava nela como se tivesse um metro de largura), com o espesso bigode negro e
os olhos que o seguiam por toda parte, pareceu penetrar-lhe no cérebro, por si
mesma. Quais eram os seus verdadeiros sentimentos em relação ao Grande Irmão?
Houve um ruído de botas ferradas no corredor. A porta de aço abriu-se com
estrépito. O'Brien entrou na cela. Atrás dele estavam o oficial de cara de cera
e os guardas de uniforme negro.
- Levanta. Vem aqui. Winston postou-se diante dele. O'Brien pousou as mãos
nos ombros de Winston e fitou-o de perto.
- Tiveste idéia de me enganar - disse ele. - Foi uma cretinice.
Endireita-te mais. Olha-me no rosto.
Fez uma pausa e continuou, com tom mais sereno:
- Estás melhorando. Intelectualmente, não há quase nada errado em ti. Só
emocionalmente é que não progrides. Dize-me, Winston - e lembra-te, nada de
mentir; bem sabes que sempre descubro as mentiras - dize-me, quais são teus
verdadeiros sentimentos em relação ao Grande Irmão?
- Eu o odeio.
- Odeias. Bom. Então chegou a hora de dares o último passo. É preciso que
ames o Grande Irmão. Não basta obedecê-lo: é preciso amá-lo.
Soltou Winston com um pequeno empurrão na direção dos guardas.
- Sala 101 - ordenou.
A cada estágio da prisão ele soubera, ou parecera saber, em que ponto do
edifício se encontrava. Era possível que houvesse ligeira diferença na pressão
do ar. Ficavam no sub-solo as celas onde os guardas o tinham espancado. O
quarto onde O'Brien o interrogara era bem no alto, perto do telhado. O lugar
onde estava ficava muitos metros abaixo do nível do chão, tão profundo quanto
era possível ir.
Era maior do que qualquer das celas em que estivera. Ele porém mal
observou o ambiente. Tudo que notou foi a existência de duas pequenas mesas,
bem na sua frente, ambas cobertas de feltro verde. Uma ficava a apenas um metro
ou dois, e a outra mais longe, perto da porta. Estava amarrado, muito teso numa
cadeira, tão fortemente ligado que não podia mexer nem a cabeça. Uma espécie de
almofada comprimia-lhe a nuca, forçando-o a olhar para a frente.
Por um momento ficou só. Depois a porta se abriu e O'Brien entrou.
- Uma vez me perguntaste - disse O'Brien - o que havia na Sala 101. E eu
te disse que sabias a resposta. Todos sabem. O que há na Sala 101 é a pior
coisa do mundo.
A porta tornou a abrir-se. Um guarda entrou, trazendo algo feito de arame,
uma caixa, ou cesta. Colocou-o na mesa distante. Por causa da posição ocupada
por O'Brien, Winston não pode enxergar bem o que era.
- A pior coisa do mundo - disse O'Brien - varia de indivíduo para
indivíduo. Pode ser o sepultamento vivo, a morte pelo fogo, afogamento,
empalamento, ou cinqüenta outras mortes. Casos há em que é algo trivial, nem ao
menos mortífero.
Afastou-se um pouco para o lado, de modo que Winston pudesse ver melhor o
que estava sobre a mesa. Era uma gaiola de arame, retangular, com uma alça em
cima. Fixado na frente havia um objeto que parecia uma máscara de esgrima, com
o lado côncavo para fora. Embora estivesse a três ou quatro metros de
distância, Winston pôde ver que a gaiola era dividida longitudinalmente em dois
compartimentos, e que em cada um havia um animal. Eram ratazanas.
- No teu caso - disse O'Brien - a pior coisa do mundo são ratos.
Uma espécie de tremor de premonição, um medo de que não tinha certeza,
passara por Winston assim que entrevira a gaiola. Mas naquele momento, a
utilidade do objeto côncavo de repente se esclareceu. Suas entranhas pareceram
liquefazer-se.
Não podes fazer isso! - exclamou num tom de falsete. Não podes, não podes!
É impossível.
Lembras-te - perguntou O'Brien - dos momentos de pânico que ocorriam nos
teus sonhos? Havia uma muralha de treva na tua frente, um ronco nos teus ouvidos.
Havia algo terrível do outro lado da parede. Sabias que sabias o que era, mas
não ousavas trazê-lo à luz. Eram ratos que estavam do outro lado da muralha.
- O'Brien! disse Winston, fazendo um esforço para controlar a voz. Sabes
que isto não é necessário. Que queres que eu faça?
O'Brien não deu resposta. Quando falou, foi com os modos de mestre-escola
que às vezes ostentava. Pareceu pensativo, olhos perdidos na distância, como se
se dirigisse a uma platéia colocada atrás de Winston.
- Em si - disse ele - a dor nunca é suficiente. Há ocasiões em que o ser
humano resiste à dor, mesmo sob risco de morte. Mas para todos há algo
insuportável - algo que não pode ser contemplado. A coragem e a covardia nada
têm com isso. Se estás caindo dum lugar alto, não é covardia agarrar-te a uma
corda. Se vens de águas profundas, não é covardia encher os pulmões de ar. É
apenas um instinto que não pode ser desobedecido. É o mesmo com as ratazanas.
Para ti, são insuportáveis. São uma forma de pressão que não podes agüentar,
nem que queiras. Farás o que se te exige.
- Mas o que é, o que é? Como fazê-lo se não sei o que é?
O'Brien apanhou a gaiola e trouxe-a para a mesa mais próxima. Colocou-a
cuidadosamente sobre o feltro verde. Winston podia ouvir o sangue tinindo nas
orelhas. Tinha a impressão de estar na mais absoluta solidão. Encontrava-se no
meio de uma vasta planície erma, um deserto plano banhado de sol, e os sons lhe
chegavam de grandes distâncias. No entanto, a gaiola dos ratos não estava senão
a dois metros dele. Eram ratazanas enormes. Tinham a idade em que ficam com o
focinho rombudo e o pelo pardo, em vez de cinzento.
- O rato - disse O'Brien, ainda se dirigindo à platéia invisível - embora
roedor, é carnívoro. Bem o sabes. Ouviste falar das coisas que acontecem nos
bairros pobres desta cidade. Em algumas ruas, uma mulher não ousa deixar o
filhinho em casa, por cinco minutos que seja. É seguro que os ratos o ataquem.
Dentro de muitíssimo pouco tempo devoram tudo, só deixam ossos. Também atacam
pessoas doentes, e moribundos. Demonstram espantosa inteligência, descobrindo
quando um ser humano está indefeso.
Houve uns guinchos na gaiola. Pareceram a Winston vir de muito longe. Os
ratos estavam brigando; tentavam atacar-se através da divisão de arame. Ouviu
também um fundo gemido de desespero, que também pareceu vir de fora.
O'Brien ergueu a gaiola e, ao fazê-lo, comprimiu algo. Ouviu-se um
estalido. Winston fez um esforço frenético para se livrar da cadeira. Inútil,
pois todo o seu corpo, inclusive a cabeça, estavam firmemente presos,
imobilizados. O'Brien aproximou a gaiola. Estava a menos de um metro do rosto
de Winston.
- Apertei a primeira alavanca - disse O'Brien. -
Compreendes a construção desta gaiola. A máscara adapta-se à tua cabeça,
sem deixar saída. Quando eu apertar esta outra alavanca, a porta da gaiola
correrá. Os monstros famintos saltarão por ela como balas. Já viste um rato
pular no ar? Pularão sobre teu rosto e começarão a devorá-lo. Às vezes, atacam
primeiro os olhos. As vezes abrem caminho pelas bochechas e devoram a língua.
A gaiola estava mais próxima; cada vez mais. Winston ouviu uma série de
guinchos agudos que pareciam vir de cima, de sobre sua cabeça. Mas lutou
furiosamente contra o pânico. Pensar, pensar, mesmo que lhe restasse uma fração
de segundo - pensar para a única esperança. De repente o fedor mofado dos
brutos atingiu-lhe as narinas.
Dentro dele houve uma violenta convulsão de náusea, e quase perdeu os
sentidos. Tudo enegrecera. Por um instante, sentiu-se louco, um animal a
gritar. Entretanto, saiu das trevas trazendo uma idéia. Só havia um, um único
meio de se salvar. Precisava colocar outro ser humano, interpor o corpo de
outro ser humano diante da gaiola.
O círculo da máscara era suficientemente grande para tapar a visão de tudo
mais. A porta de arame estava a alguns palmos do seu rosto. Os ratos sabiam o
que ia acontecer. Um deles dava pulos no ar, e o outro, um escamoso veterano
dos esgotos, se levantou, com as patas rosadas nas grades, fungando ferozmente.
Winston pode ver os bigodes e os dentes amarelos. De novo o pânico negro o
possuiu. Estava cego, indefeso, insano.
- Um castigo comum na China imperial - disse O'Brien, mais pedagogicamente
do que nunca.
A máscara se aproximava. O arame tocou-lhe o rosto. E então... não, não
era alívio, apenas esperança, um minúsculo fragmento de esperança. Tarde
demais, tarde demais talvez. Mas compreendera de repente que no mundo inteiro
só havia uma pessoa a quem transferir seu castigo - um corpo que podia colocar
diante dos ratos. E pôs-se a berrar freneticamente, repetidamente:
- Faze isso com Júlia! Faze com Júlia! Comigo não! Júlia! Não me importa o
que faças a ela. Arranca-lhe a cara, desnuda-lhe os ossos. Não comigo! Com
Júlia! Comigo não!
Estava caindo para trás, vertiginosamente, afastando-se dos ratos. Ainda
estava amarrado à cadeira, mas caíra através do soalho, através das paredes do
edifício, através da terra, dos oceanos, da atmosfera, do espaço exterior, no
vácuo entre as estrelas - sempre longe, longe, longe dos ratos. Estava a uma distância
de anos-luz, porém O'Brien continuava de pé ao seu lado. Sentia ainda na face o
toque frio do arame. Mas dentro da escuridão que o envolvera ouviu outro
estalido metálico, e soube que a porta da gaiola se fechara, não se abrira.
O Café Castanheira estava quase vazio. Um raio de sol, entrando em oblíqua
pela janela, caia amarelo sobre as mesas poeirentas. Era a solitária hora das
quinze. Das teletelas escorria uma música metálica.
Winston sentou-se no seu recanto habitual, fitando o copo vazio. De vez em
quando contemplava um rosto enorme que o olhava da parede oposta. O GRANDE
IRMÃO ZELA POR TI, dizia a legenda. Sem que o chamasse, o garçom veio e
encheu-lhe o copo de gim Vitória, pingando algumas gotas de outra garrafa com
um canudinho atravessando a rolha. Era sacarina com essência de cravo, a
especialidade do café.
Winston escutava a teletela. No momento, dela apenas saia música, mas
havia a possibilidade de a qualquer momento divulgar um boletim do Ministério
da Paz. As notícias da frente africana eram extremamente inquietadoras. O dia
todo sentira-se intermitentemente preocupado com elas. Um exército eurasiano (a
Oceania estava em guerra com a Eurásia: sempre estivera em guerra com a
Eurásia) progredia para o sul com terrível velocidade. O boletim do meio-dia
não mencionara nenhuma área definida, mas era provável que a foz do Congo já
fosse um campo de batalha. Brazzaville e Leopoldville estavam em perigo. Não
era preciso olhar o mapa para saber o que significava. Não era apenas questão
de perder a África Central: pela primeira vez em toda a guerra, o território da
Oceania estava ameaçado.
Uma violenta emoção, que não era bem medo, mas uma espécie de excitação
amorfa, se acendeu dentro dele, e tornou a apagar-se. Deixou de pensar na guerra.
Não podia fixar o pensamento em assunto algum por mais de uns momentos. Ergueu
o copo e tragou o conteúdo de um gole.
Como sempre, produziu-lhe um arrepio e até lhe deu engulhos. A bebida era
horrível. Os cravos e a sacarina, em si já bastante repugnantes, não conseguiam
disfarçar o cheiro oleoso do álcool; e o pior de tudo era que o bafo de gim,
que não o abandonava dia e noite, misturava-se indissoluvelmente, no seu
espírito, com o cheiro dos...
Nunca lhes dizia o nome, nem mesmo em pensamento, e tanto quanto possível,
nunca os visualizava. Eram algo de que ele só em parte se dava conta,
mexendo-se perto do seu rosto, com aquele fedor que se prendia às narinas. Um
arroto de gim lhe entreabriu os lábios escuros. Engordara mais depois de ser
posto em liberdade, e recobrara sua cor antiga - na verdade, tinha mais cor que
antes. Suas feições haviam engrossado, a pele do nariz e das faces tornara-se
áspera e vermelha, e até a calva tinha um tom rosa escuro. Um garçom, sem que
ninguém o chamasse, trouxe um tabuleiro de xadrez e um exemplar do dia do
Times, na página do problema de xadrez. Daí, vendo vazio o copo de Winston,
trouxe a garrafa de gim e encheu-o. Não havia necessidade de pedir nada.
Conheciam seus hábitos. O tabuleiro de xadrez estava sempre à sua espera, sua
mesa de canto sempre reservada; mesmo quando o café estava cheio ali se sentava
a sós, pois ninguém gostava de ser visto em sua companhia. Nem mesmo se
preocupava de contar quanto bebia. A intervalos irregulares apresentavam-lhe um
pedacinho de papel sujo, que passava por conta, mas tinha a impressão de que
sempre lhe cobravam de menos. Não faria a mínima diferença se fosse o
contrário. Agora sempre tinha bastante dinheiro. Tinha até um emprego, uma
sinecura, mais bem paga do que fora o seu trabalho anterior.
Parara a música da teletela, e uma voz a substituíra. Winston levantou a
cabeça para escutar. Não era um boletim da frente, todavia. Apenas um breve
comunicado do Ministério da Fartura. Aparentemente, no trimestre anterior, fora
superada de noventa e oito por cento a cota de atacadores para sapatos do
Décimo Plano Trienal.
Examinou o problema de xadrez e arrumou as pedras. Era um final
complicado, com dois bispos. "As brancas jogam. Mate em dois lances."
Winston ergueu os olhos para o retrato do Grande Irmão. As brancas sempre
matam, pensou, numa espécie de nebuloso misticismo. Sempre, sem exceção, é o
que acontece. Em nenhum problema de xadrez, desde o começo do mundo, as pretas
jamais venceram. Não seria um símbolo do triunfo eterno, invariável, do Bem
sobre o Mal? A carantonha fitava-o, cheia de calmo poder. As brancas sempre
matam.
A voz da teletela fez uma pausa e acrescentou, num tom diferente, muito
mais grave:
- Avisamos que devem todos aguardar uma comunicação importante às quinze e
trinta. Quinze e trinta! Notícias da mais alta importância! Não percam! Quinze
e trinta! E a música metálica recomeçou.
Winston ofegou. Devia ser o boletim da frente de batalha; o instinto
dizia-lhe que vinham más notícias. O dia inteiro, com pequenas fases de
excitação, pensara numa esmagadora derrota na África. Parecia-lhe ver o
exército eurasiano formigando, cruzando a fronteira inviolada e invadindo a
ponta da África como uma coluna de saúvas. Por que não fora possível
franqueá-lo de algum modo? A silhueta da costa ocidental da África destacou-se
vividamente na sua mente. Apanhou o bispo branco e colocou-o num dos quadros.
Ali estava a casa certa. Ao mesmo tempo que enxergava a horda negra disparando
para o sul, via outra força, misteriosamente reunida, subitamente plantada na
sua retaguarda, cortando-lhe as comunicações por terra e mar. Sentiu que,
pensando nela, estava dando existência àquela outra força. Mas era necessário
agir rapidamente. Se pudessem assumir o controle da África inteira, se tivessem
campos de pouso e bases de submarinos no Cabo, cortariam a Oceania em duas.
Poderia significar qualquer coisa: derrota, rendição, redivisão do mundo,
destruição do Partido! Ele respirou fundo. Lutava dentro dele uma
extraordinária miscelânea de sentimentos - mas não era uma miscelânea,
propriamente; mais uma sucessão de camadas de sentimento, e era impossível
dizer qual ficava por baixo.
Passou o espasmo. Tornou a recolocar o bispo no lugar anterior, mas por um
instante não pode dedicar-se ao estudo sério do problema de xadrez. Seus
pensamentos tornaram a vaguear. Quase inconsciente, pôs-se a rabiscar com o
dedo na poeira da mesa: 2+2=5
- Não podem ver dentro de ti - dissera ela. Mas, podiam entrar na pessoa.
- O que te acontecer aqui será para sempre - dissera O'Brien. E era verdade.
Havia coisas, atos do indivíduo, dos quais era impossível se recuperar. Algo
estava morto em seu peito; queimado, cauterizado.
Ele a vira; chegara até a falar-lhe. Não havia perigo nisso. Sabia, quase
instintivamente, que agora não se interessavam mais pelo que fizesse. Poderiam
ter combinado novos encontros, se algum dos dois o tivesse desejado. Na
verdade, haviam-se encontrado por acaso. Foi no parque, num dia feio e hostil
de março, quando a terra era como ferro, toda a relva parecia morta e não havia
flor em parte alguma, exceto alguns crocus que se haviam arriscado a ser
despetalados pelo vento. Ele ia andando depressa, as mãos geladas, olhos
lacrimejantes, quando a viu a menos de dez metros de distância. Imediatamente
percebeu que ela mudara, de modo mal definido. Quase se cruzaram sem um gesto;
mas ele voltou-se e seguiu-a, sem grande interesse. Sabia não haver perigo, já
ninguém se ocupava dele. Ela não falou. Caminhara obliquamente, pela grama,
como se tentasse se desvencilhar dele; depois parecera resignar-se a tê-lo ao
lado. Dali a pouco estavam no meio duma touceira de arbustos desfolhados e
escalavrados, que não serviam nem como esconderijo nem como abrigo contra o
vento. Pararam. Fazia um frio nefando. O vento assobiava por entre os galhos
secos, e sacudia os pobres crocus sujos. Ele passou o braço pela cintura da
moça.
Não havia teletela, mas devia haver microfones escondidos; além disso,
podiam ser vistos. Não importava, nada importava. Poderiam deitar no chão e
fazer aquilo se quisessem. Sua carne gelou de horror, só de pensá-lo. Ela não
reagiu de modo algum ao toque do braço de Winston; nem ao menos tentou se
livrar. Ele soube então o que havia mudado nela. Tinha o rosto macilento, e
havia uma longa cicatriz, parcialmente oculta pelo cabelo, rasgando a testa e a
fonte; mas não era essa a mudança. Sua cintura engrossara e, de modo
surpreendente, enrijara também. Ele lembrou-se de um a vez em que, após a
explosão de uma bombafoguete, ajudara a puxar um cadáver debaixo dos escombros,
e como se assustara não apenas com o peso incrível do corpo como também com a
rigidez e a dificuldade de segurá-lo, que davam mais a impressão de pedra do
que de carne.
O corpo dela dava aquela impressão. Ocorreu-lhe que a textura de sua pele também
era muito diferente do que fora.
Não tentou beijá-la, nem falaram. Enquanto atravessavam o portão, de
volta, ela olhou-o de frente pela primeira vez. Foi apenas um olhar momentâneo,
cheio de desprezo e repugnância. Ele indagou de si mesmo se se tratava de uma
repugnância oriunda do passado ou se inspirada também pelo seu rosto inchado e
a água que o vento persistia em fazer-lhe brotar dos olhos. Tinham sentado em
duas cadeiras de ferro, de lado mas não muito juntas. Viu que Júlia estava a
pique de falar. Ela esticou alguns centímetros o pé no sapato deselegante e
deliberadamente quebrou um graveto. Ele observou que os pés da moça pareciam
ter-se alargado.
- Eu te traí - disse ela, sem rodeios.
- Eu te traí - disse ele também. Júlia lançou-lhe outro olhar de
repugnância.
- Às vezes, - disse ela - ameaçam a gente com uma coisa... com coisas que
não se pode agüentar, não se pode nem pensar. E então a gente diz "Não
faças isso comigo, faze com outra pessoa, faze com Fulano e Sicrano." Mais
tarde, talvez finjas que se tratava apenas de um estratagema, mandar que o
fizessem a outro, e que não era a sério. Mas não é verdade. Na hora que
acontece a gente fala sério. Pensa que não há outro jeito de se salvar; e se
dispõe a salvar-se daquele modo. A gente quer que a coisa aconteça ao outro.
Não se importa que sofra. Só importa a gente. Só nós temos importância.
- Só nós temos importância - repetiu ele.
- E depois disso, já não se sente o mesmo pela outra pessoa.
- Não - concordou ele - já não se sente o mesmo. Não parecia haver nada
mais a dizer. O vento colava-lhes à pele os macacões delgados. Quase
imediatamente, tornou-se incômodo ficar ali, calados: além disso, estava frio
demais para continuarem sem se mexer. Ela disse qualquer coisa a respeito do
trem subterrâneo e levantou-se...
- Precisamos nos encontrar outra vez - disse ele.
- Sim, precisamos nos encontrar. Seguiu-a irresoluto por alguma distância,
meio passo atrás. Não tornaram a falar. Ela não procurou se desvencilhar dele,
porém andava com passo bastante rápido, de maneira a evitar que a alcançasse.
Ele resolvera acompanhá-la até a estação do subterrâneo, mas de repente essa
coisa de seguir uma pessoa lhe pareceu insuportável e inútil. Dominou-o o
desejo não tanto de se afastar de Júlia como de voltar ao Castanheira, que
nunca lhe parecera tão atraente como naquele instante. Teve uma visão saudosa
da sua mesinha no canto, com o jornal, o tabuleiro de xadrez e o copo sempre
cheio de gim. Sobretudo, não faria frio. No instante seguinte, e não por acaso,
ele permitiu que um grupo de pessoas o separasse dela. Fez uma tentativa
desanimada de alcançá-la, depois reduziu o passo, voltou-se e saiu na direção
oposta. Depois de ter caminhado uns cinqüenta metros, voltou-se e olhou para
trás. A rua não estava cheia, mas quase não a podia distinguir. Podia ser
qualquer daquelas figuras apressadas. Talvez o corpo engrossado e enrijado não
fosse mais reconhecível por trás. "Na hora que acontece a gente fala
sério", dissera ela. Ele falara sério. Não apenas o dissera: desejara-o.
Desejara que ela e não ele sofresse os...
Algo se modificou na música que escorria da teletela. Dominava-a, partida
e zombeteira, uma nota amarela. E então - talvez não estivesse acontecendo,
talvez fosse apenas uma lembrança tomando forma de som - uma voz cantou:
"Sob a frondosa castanheira Eu te vendi e tu me vendeste... Os olhos de
Winston ficaram rasos d'água. Um garçom que passava observou o copo vazio e
voltou com a garrafa de gim.
Ele ergueu o copo e cheirou-o. Quanto mais bebia, mais horrível se tornava
a tisana. Mas tornara-se o elemento em que nadava. Era sua vida, sua morte, sua
ressurreição. Era o gim que o mergulhava no estupor todas as noites, e o gim
que o revigorava todas as manhãs. Ao despertar, rara vez antes das onze, as
pálpebras coladas, a boca ardente e as costas moídas, seria impossível
abandonar a horizontal se não fossem a garrafa e a xícara no criado-mudo.
Passava um par de horas sentado, olhos vazios e vidrados, garrafa à mão,
escutando a teletela. Das quinze à hora de fechar estava sempre no Castanheira.
Ninguém mais se importava com o que ele fizesse, nenhum apito o acordava,
nenhuma teletela o admoestava. Ocasionalmente, duas vezes por semana talvez, ia
a um empoeirado e esquecido escritório do Ministério da Verdade e trabalhava um
pouco. Fora nomeado para o sub-comitê de um sub-comitê que surgira de um dos
inúmeros comitês que tratavam das dificuldades menores aparecidas durante a
compilação da Décima Primeira Edição do Dicionário de Novilíngua. Cabia-lhes
redigir um chamado Relatório provisório, porém ele nunca descobrira a respeito
do que deveriam escrever. Parecia ligar-se à questão da colocação das vírgulas
antes ou depois das aspas. Havia outros quatro no comitê, todos pessoas em
semelhantes condições. Havia dias em que se reuniam e logo debandavam de novo,
admitindo francamente que na verdade nada tinham que fazer. Mas noutras
ocasiões, atiravam-se ao trabalho quase com ânsia, fazendo uma fita enorme de
minutar seus relatórios pessoais e redigir longos memorandos que nunca
terminavam - quando a discussão sobre o que deveriam discutir se tornava
extraordinariamente complicada e abstrata, com sutis divergências sobre
definições, enormes digressões, brigas e até ameaças de recurso a autoridade
superior. E então de repente o entusiasmo se apagava e eles ficavam em torno da
mesa, entrefitando-se, com olhos defuntos, como duendes que se desvanecem ao
cocoricar do galo.
A teletela calou-se um instante. Winston tornou a levantar a cabeça. O
boletim! Mas não, apenas mudavam de música. Tinha o mapa da África na retina. O
movimento dos exércitos era um diagrama: uma flecha negra avançando para o sul,
na vertical, e uma seta branca rasgando para leste, na horizontal, cortando a
haste da primeira. Como para se tranqüilizar, contemplou o rosto imperturbável
do cartaz. Seria concebível que a segunda flecha nem ao menos existisse?
Seu interesse caiu de novo. Bebeu novo gole de gim, apanhou o bispo branco
e deu um lance experimental. Cheque. Evidentemente, porém, não era o lance
certo porque...
Sem que a chamasse, uma lembrança lhe voltou à mente. Viu um quarto
iluminado a vela, com uma vasta cama, coberta por uma colcha branca, e ele
próprio, com nove ou dez anos, sentado no chão, sacudindo um copo de dados e
rindo-se nervosamente. Sua mãe estava sentada à sua frente e também ria.
Devia ter sido um mês antes dela desaparecer. Fora um momento de
reconciliação, em que esquecera a fome atenazante no ventre, e ressuscitara
parcialmente a antiga afeição, Lembrava-se lucidamente do dia, de chuva forte,
em que a água escorria pelas vidraças e dentro da casa estava escuro demais
para ler. Tornara-se insuportável o tédio das duas crianças presas num quarto
escuro e apertado. Winston queixava-se e resmungava, fazia fúteis pedidos de
comida, perambulava nervoso pelo quarto tirando tudo do seu lugar e dando
pontapés nas paredes até os vizinhos reclamarem, dando murros do outro lado;
enquanto isso, a menina gemia intermitentemente. No fim, sua mãe dissera
"Fica bonzinho que eu te compro um brinquedo. Um lindo brinquedo...
gostarás muito dele." E saíra para a chuva, indo a uma lojinha próxima que
ainda abria esporadicamente, e voltara com uma caixa de papelão contendo um
jogo de obstáculos. Podia ainda lembrar-se do cheiro da cartolina molhada. Era
um jogo paupérrimo. A prancha da corrida de obstáculos estava rachada, e os
dados de madeira eram tão toscos que mal caíam de lado. Winston fitara o
brinquedo, emburrado, sem interesse. Mas então sua mãe acendera um coto de vela
e sentara no chão para jogar. Dali a pouco ele estava entusiasmado, gritando e
dando gargalhadas quando as pedras subiam cheias de esperança e caíam nas
arapucas, voltando quase ao ponto de partida. Tinham jogado oito partidas,
ganhando quatro cada um. A irmãzinha, muito pequena para compreender o jogo,
fora instalada entre travesseiros na cama, e ria porque via os outros rindo.
Durante a tarde toda tinham sido felizes os três, como na primeira infância.
Ele expulsou a cena da memória. Era uma lembrança falsa. De vez em quando
era perturbado por essas falsas recordações. Não tinha importância, contanto
que soubesse do que se tratava. Algumas coisas tinham acontecido, outras não.
Concentrou-se de novo no tabuleiro e tornou a apanhar o bispo branco. Quase no
mesmo instante largou-o com ruído sobre o tabuleiro. E estremeceu como se lhe
tivessem dado uma alfinetada.
Um agudo toque de clarim cortara o ar. Era o boletim! Vitória! O toque de
clarim antes do noticiário sempre significava vitória. Uma espécie de arrepio
elétrico percorreu o café. Até os garçons pararam prestando atenção.
O clarim provocara uma onda de barulho. Já uma voz excitada tagarelava na
teletela, mas antes de começar fora quase abafada pelos vivas e hurras na rua.
A notícia se propagara como por arte de magia. Podia-se ouvir apenas o
suficiente do que saía da teletela, para perceber que tudo acontecera como
previra: um vasto exército transportado pelo mar, secretamente concentrado, um
golpe repentino na retaguarda do inimigo, a flecha branca cortando a haste da
negra. Fragmentos de frases triunfantes se faziam ouvir por entre o berreiro
geral: "Vasta manobra estratégica... perfeita coordenação... derrota
integral... meio milhão de prisioneiros... completa desmoralização... controle
de toda a África ... leva a guerra a uma distância visível do fim... vitória...
a maior vitória da história humana... vitória, vitória, vitória! "
Sob a mesa, os pés de Winston fizeram movimentos convulsos. Não se movera
do lugar, porém mentalmente estava correndo à pressa, misturando-se com a
multidão, vivando até ensurdecer. Tornou a olhar o retrato do Grande Irmão.
O colosso que dominava o mundo! A rocha contra a qual as hordas da Ásia de
balde se haviam arremessado! Pensou que havia apenas dez minutos - sim, dez
minutos - havia dúvida em seu coração quanto ao caráter das notícias da frente
de batalha: vitória ou derrota. Ah, perecera mais que um exército eurasiano!
Muita coisa havia mudado nele, desde aquele primeiro dia no Ministério do Amor,
porém a transformação final, salvadora, não se registrara até aquele momento.
A voz da teletela estava ainda falando de prisioneiros, presa e matança,
mas lá fora a gritaria diminuíra um pouco. Os garçons tinham voltado ao
trabalho. Um deles aproximou-se com a garrafa de gim. Winston, imerso num sonho
bem aventurado, não reparou quando lhe encheram o copo. Já não corria nem dava
vivas. Estava de volta ao Ministério do Amor, tudo perdoado, a alma branca de
neve. Estava na tribuna dos réus, confessando tudo, implicando todos. Ia
andando pelo corredor de ladrilhos brancos, com a impressão de andar ao sol,
acompanhado por um guarda armado. Por fim penetrava-lhe o crânio a bala tão
esperada.
Levantou a vista para o rosto enorme. Levara quarenta anos para aprender
que espécie de sorriso se ocultava sob o bigode negro. Oh mal-entendido cruel e
desnecessário! Oh teimoso e voluntário exílio do peito amantíssimo! Duas
lágrimas cheirando a gim escorreram de cada lado do nariz. Mas agora estava
tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente lograda a vitória sobre si
mesmo. Amava o Grande Irmão.
FIM